antes de ser mãe eu não sabia que...

Desabafo de mãe

Eu, tola que era, imaginava que bebês mamavam, dormiam, e claro, choravam, mas só às vezes.  Eu tinha pra mim, que bebês são quase como pequenos Budas, quase sempre calmos, tranquilos, serenos, sossegados. Não sei de onde veio essa concepção totalmente equivocada, mas só sei que meu filho veio para me deixar bem claro que tudo isso não passava de uma grande ilusão.

O Tomás é sossegadão na maior parte do tempo, mas chora com convicção, e está longe de ser esse bebê plácido dos meus devaneios pré-maternidade.

Com a chegada do Tomás eu percebi que ser mãe é aceitação: é aceitar que meu filho é do jeito que é, e portanto diferente do ideal que eu tinha, é aceitar que ele não dorme, é aceitar que nem sempre eu entendo o significado dos choros dele, é aceitar que ele chora sem motivo aparente às vezes, é aceitar que eu não posso privá-lo imediatemente dos incômodos que ele sente… Ser mãe do Tomás é aceitar, inclusive, que eu fico de saco cheio de fazer as mesmas tarefas repetitivas dia após dia, é aceitar que a minha vida foi reconfigurada com a chegada dele, e que um tempo só pra mim, ou só para o casal não é mais tão simples, é aceitar que o meu tempo, por enquanto, é o tempo dele…

E para aceitar esse tanto de coisa e outras mais, é preciso entrega. E eu jamais experimentei tamanha entrega na minha vida, em nenhuma outra relação. Entregar-se é dar de si sem esperar nada em troca,  é um passo no escuro, é  esquecer de si por um tempo. E talvez, por isso mesmo, a entrega seja tão difícil. Mas como mãe, eu sinto que não tem outro jeito. O Tomás está aí, ele é real, e ele precisa de mim.

Quando se fala de maternidade por aí, se esquece de dizer que com o nascimento de um filho nasce uma outra mulher, um outro casal, uma outra vida. Nem melhor, nem pior, apenas uma outra vida, uma nova vida. Bom, pelo menos é assim que eu me senti e tenho me sentido.

E nessa nova vida, tem dias que eu sinto uma “angústia de não se entender, um tédio que a gente nem crê, anseio de tudo esquecer e voltar”*.  Voltar para aquela velha vida na qual eu podia beber um vinho, conversar mais com meu marido, viajar mais com ele, receber amigos em casa e conversar madrugada adentro, acordar quando quisesse, cozinhar sem a pressão do tempo, assistir um filme até o fim…

Daí eu me lembro que apesar de ser mãe de fato, eu ainda estou me tornando mãe. Sim, porque no meu caso, o tornar-se mãe tem sido um processo. E esse processo de tornar-me mãe do Tomás está sendo muito recompesador, e tem ajudado a me conhecer melhor, mesmo topando com muitas pedras no caminho.

É bem verdade que apesar da falta de liberdade, hoje eu me sinto muito mais Gabriela, a Gabriela como indivíduo, pessoa autônoma, do que há três meses atrás. O que me leva a crer tudo há de melhorar. E melhorar independe do meu filho, se ele dorme ou não, se ele chora ou não… A melhora é minha. Afinal, o processo é meu.

E como nada nessa vida é uma via de mão única, a maternidade também traz muitas coisas boas, claro. Mas sobre elas eu falarei num outro momento. Hoje, me desculpem, eu precisava desabafar.

*trecho tirado da canção Na volta que o mundo dá (Vicente Barreto e Paulo César Pinheiro). Canção que está no CD Trampolim da Mônica Salmaso. Recomendo fortemente.

Anúncios

8 comentários em “Desabafo de mãe”

  1. Ando acompanhando esse processo na minha prima que tem uma bebê de um mês, sua xará.
    Acho que entendo seu desabafo e por nao me sentir capaz dessa mudanca, acho às vezes que nao nasci para a maternidade… man kann nicht alles haben, nicht wahr? 😉 bj

    Curtir

  2. Oi Nádia!Que bom ver você por aqui! Olha, com a chegada do Tomás, eu percebi que ninguém nasce mãe. Algumas já nascem com uma vontade muito forte de ser mãe. Mas mãe mesmo, nos tormanos com os filhos. Por isso, keine Sorge!Beijos

    Curtir

  3. Acabei de (tentar) comentar isso lá no MMqD, mas deu erro, enviei de novo e deu comentário repetido, então recortei e colei aqui, está bem?

    Des-abafar é muito importante, né?
    (deus salve os blogs… kkk)

    É importante no momento, pois torna mais leve nossa caminhada.
    Na oportunidade de reler esse desabafo, nos apropriamos ainda mais desse crescimento pessoal do qual ele fez parte!

    Aqui escrevi brevemente sobre os “Intermináveis primeiros dias”:
    http://luardabia.blogspot.com.br/2011/01/interminaveis-primeiros-dias.html

    Já li algumas coisas no tudodotom bem parecidas com o que vivo! =)
    (ufa, sou normal… rsrs… brincadeirinha)
    É que a idade do meu bebê é praticamente a mesma, e as sensações das mães também. Tá provado: mãe só muda de endereço eletrônico… rsrs

    Abraço, Bia.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s