meu relato, o parto

O antes, o durante, o depois – uma história sobre o meu parto #2

A realidade.

Depois de pouco mais de um ano do nascimento do Tomás, algumas coisas me são tão vívidas como se tivessem acontecido ontem. Outras me são vagas lembranças, e outras ainda, se perderam nesse labirinto que chamamos mémoria. Labirinto partidário e seletivo, esse.

Mas não poderia ser diferente. Eu precisava de tempo. Só hoje, pouco mais de um ano depois, é que consigo, depois de digerir, amadurecer, e chorar, relatar o que vivi, o que senti, o que aconteceu. Meu parto.

Meu parto começou numa madrugada de sábado para domingo. Minha bolsa rompeu e só. No domimgo pela manhã, liguei para Jamile, minha doula. Não, não era xixi. Sim, eu estava calma. Era dezembro e fazia muito calor. Choveu chuva de verão. Alugamos filmes água com açúcar, comemos bolo de chocolate com sorvete de creme, dormimos, esperamos. Nada demais aconteceu. Jamile passou no fim do dia para ascultar o Tomás. Tudo ótimo, tudo perfeito. Descansar, pois o trabalho maior chegaria. Essa era a ordem.

Na madrugada de domingo para segunda as contrações fortes deram o ar da graça. Sim, eu já estava há 24 horas com a bolsa rota. Sim, a ansiedade estava para atingir seu pico. Sim, eu ainda acreditava em mim e na minha força de parir. Sete da manhã Jamile em casa. Músicas relaxantes na vitrola, papo vai papo vem, contrações fortes e ritmadas e…tudo parou ao meio dia. Por que parou, parou porquê? Porque eu me neguei veementemente a aceitar o trabalho de parto. Conscientemente me neguei. Queria, mas não queria. Na hora do vamos ver, eu não achei a menor graça. Quando as contrações vinham, eu falava não, não, não, de novo não! E a Jamile, sim, sim, sim, deixa vir!

Por volta das três da tarde mais ou menos, o trabalho de parto voltou a engrenar. As contrações agora eram fortes e regulares, muito regulares. E muito fortes. Eu me lembro de ter perguntado para Jamile até quando aquilo iria durar, e me lembro dela ter respondido até quando eu queria aguentar. As contrações não eram nas costas como todos os livros que li me diziam que seriam. Eram no pé da barriga, e pra elas, não existia posição favorável. A doula, com uma canga, apertava minha barriga toda vez que elas vinham, e esse era meu único alívio. Acocorada, quatro apoio, bola suiça? Nada me ajudava. Só a canga com a pressão da Jamile.

Por volta das seis da tarde a dor começou a beirar o insuportável. Idas e vindas ao chuveiro. Água quente no pé da barriga? De que jeito, se o Tomás não deixava a água cair justamente onde mais doía. Com aquela barriga enorme, que jeito deixar cair água na pelve? O único toque do trabalho de parto foi feito: seis pra sete centímetros. Eu lembro de ter pensado: Caraleo, como ainda não são 10! Ou seja, meu lado pessimista gritava.

Jamile liga para o obstetra. Transferência para a maternidade. Eu me lembro do João ter falado, com toda a calma que lhe é peculiar, que a Jamile estava ajeitando as coisas para irmos para a maternidade, e que eu deveria me vestir. Sim, no conforto da minha casa, com a liberdade de ir e vir, eu estava peladona. Nesse momento eu já vocalizava muito. Os intervalos entre as contrações eram muito pequenos, e eu mal conseguia andar. Eu falei pra ele que não conseguiria chegar até o carro, ele disse que sim, que eu conseguiria. E eu me lembro dos olhos do João nessa hora. Foram eles que me deram a certeza de que eu conseguiria. No caminho para o carro, outra contração. Eu pedi para a doula que acabasse com aquele sofrimento, ela me disse que não era sofrimento, era contração. Na hora, eu não concordei, não.

Pouco me lembro do trajeto até a maternidade. Minha memória me reporta à sala de parto com a banheira, que eu me recusei a entrar, à penunbra, ao silêncio cortado pelos meus gritos. Quem me conhece sabe que eu não sou de falar alto. E gritar para mim, nos momentos de consciência aos quais me agarrava, me deixava muito envergonhada. E eu gritei. Não, eu não gritei, eu virei bicho. Eu não aceitava nada, nenhuma sugestão. As contrações não davam tregua, e eu pedia anestesia. Era só o que eu pedia. Mas nem o exame de toque, para saber quanto de dilatação eu tinha chegado, eu permitia. Eu não deixava que me tocassem, eu queria me agarrar no pouco da razão que me restava, eu queria que aquela penumbra acabasse, eu queria que aquilo simplesmente acabasse. Que dor era aquela, que injustiça, que desrespeito, que atrocidade, que… Entrega. Entrega ao processo. À dor como parte do processo.

O obstetra chegou e sugeriu que eu ficasse de cócoras. Me neguei. Ele veio com uma estória de uma parturiente na madrugada, que demorou horas no expulsivo, e que depois que se acocorou pariu rapidamente. Lenda. Mas me rendi, acocorei. João passou os braços por debaixo dos meus, me dando apoio. Círculo de fogo fogo fogo. Saiu a cabeça, uma manobra, saíram os braços, saiu Tomás. Oito e trinta e oita da noite. Vinte de dezembro de 2010.

Tomás veio de olhos abertos para meus braços. Tão abertos, tão escuros. E cabeludo. Perguntei depois para o João se alguém tinha acendido a luz quando Tomás nasceu. Não, a sala estava completamente na penumbra. Não tinha luz? Não, Tomás iluminou a sala. Um menino masceu. O mundo tornou a começar. A frase de Guimarães Rosa fez todo o sentido. O mundo, de repente, fez sentido.

João cortou o cordão que já tinha parado de pulsar, pediatra levou Tomás para medir e pesar. Meu menino fora recepcionado com respeito, eu pari respeitada, naturalmente. Meu plano de parto fora seguido, sem anestesia, sem episiotomia, Tomás mamando logo na primeira hora de vida… Mas então, por que eu não fui mais feliz nas horas, nos dias, nas semanas seguintes? Por que tudo me pareceu tão estranho e tão doído?

Fica para o próximo post….

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13 comentários em “O antes, o durante, o depois – uma história sobre o meu parto #2”

  1. que lindo parto! no meu (com anestesia e episio), também cheguei a pensar na dor como sofrimento, tanto que pedi anestesia. Quem sabe num próximo nao consigo encarar esse fantasma e seguir naturalmente?

    sigo acompanhando e aguardando o desfecho.

    beijao!

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  2. Que bela história! Vivi tantos sentimentos parecidos com os seus no parto do Thomas… Agora, continua vai…
    Nossa estou aqui só pensando como será o meu terceiro!
    E você, está bem? Anda meio sumida!
    Beijos, beijos

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  3. Hum, acho que voces sao bem corajosas e otimistas… Depois de dois partos eu nao acho nada lindo, nada natural, nada moderno, nada nada. E as dores, meu, de querer morrer, nao? Quando vieram me trazer a Isabela eu estava tao exausta que mal queria olhar pra ela… Nao eh a toa que muitas, muitas mulheres tem depressao pos parto. As vezes me pergunto se Deus existe mesmo, porque como uma entidade teoricamente tao boa podia criar a mulher pra sofrer desse jeito?? Deve ser pra controle de natalidade ehehe

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  4. Oi Dani! Pensei em vc hoje, mulher! Bom, se eu passei a impressao de que foi tudo lindo, um mar de rosas, eu falhei. O que teve de lindo foi o Tomás, e o sucesso, se é que eu posso falar assim, foi o fato de o parto ter sido natural, como eu queria anteriormente. Mas nao acho, de verdade, que eu vá repetir o feito. Beijo

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  5. Olá
    Achei linda e chocante a tua estória. E como acabamos nos identificando.
    Tive parto normal, por opção minha, queria saber como é ganhar um filho. Mas, foi com anestesia, epísio e fórceps.
    Por um lado foi bom, mas por outro fiquei um pouco muito dolorida na cicatriz.
    Aguardo as próximas cenas…

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  6. Nao, nao passou a impressao de que foi tudo lindo, nao. Na verdade eu acho que o parto pode muito bem ser facil pra algumas mulheres, que parecem sair de filmes, que nem precisam gritar feito lobos famintos e que ate vem o nenem saindo no carro, a caminho do hospital. Mas acho que pra maioria mesmo, a coisa eh mais cruel hehehe. Doi mesmo, nao? Depois de 22 horas passando a maior das dores nem se meu bebe nascesse no ceu eu ia achar o parto lindo.
    E acho que o assunto podia ser tratado menos como tabu, acho que se podia falar com mais clareza e realidade sobre o que eh, de fato, um parto, ainda mais porque viver naturalmente nos nao vivemos faz tempo.
    No parto da Isabela eu me lembro que fiquei muito brava com o medico, porque ele veio “com um papo” de que minha dor da qual eu estava reclamando nao era insuportavel, que poderia aumentar mais. Quis mata-lo na hora. Mas tambem, xinguei tanto, mas tanto ele como todo mundo que estava em volta que por sorte tudo deu certo. Sem falar que quebrei meio hospital. Acho que eu fui ver o rosto do medico no dia seguinte soh, qdo ele passou pra fazer a revisao heeehh Nao que isso desculpe o fato de ele ter sido insensivel. Pelo menos foi sincero neh!!!
    Dai me pergunto se deixar uma mulher passar um super dor dessas eh natural.
    Claro, a recompensa sempre vem, ainda mais se for saudavel. A gente pega os cutchucos no colo e parece que o mundo para. Mas soh conseguir fazer no dia seguinte do parto…
    Agora, ja que estou me alongando mesmo, eheh, fico pensando porque aqui na Europa (Belgica e Franca, onde tenho mais contato) o parto eh normal, mas com anestesia logo no inicio. No Brasil a anestesia usada soh pode ser dada quando a dilatacao ja esta la pelas tampas, bem no finalzinho… Dai surge o mercado da cesariana… complicado isso viu…
    Mas um colega biologo disse que a anestesia que usam aqui eh bem mais perigosa do que a usada no Brasil.
    Bom, por isso nossa memoria eh seletiva… Viva!
    Ai, menina, tambem vivo pensando em vc!! Foi muito bom ter conhecido o fofo do Tomas. Com a Cica com aquele febrao, ter ajuda de vcs foi como me sentir com a familia do lado, viu. Obrigadissima!!! Beijao

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  7. é tão legal ler um relato e se ver nele… tb tive parto natural sem analgesia, numa casa de parto. Meu filho Eric está prestes a completar 3 meses, mas ainda sinto q não assimilei meu parto, ainda não o compreendi, se é que um dia serei capaz de fazê-lo. A experiência é tão extrema que não dá pra sair dela sendo a mesma pessoa. Penso q o parto natural é bastante simbólico e ilustra o q vai ser sua vida dali em diante. Mesmo exausta e achando que não dá mais, vc tem que prosseguir e aceitar a dor e a situação em que se enfiou…
    bjs e já tô acompanhando seu blog 😀

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