meu relato, o parto

O antes, o durante, o depois – uma história sobre meu parto #3

Meu inverno de alma

Uma palavra que me descreve depois do meu parto é cansaço. Eu estava cansada, cansada, cansada. A sensação de que eu já dei de mim tudo o que eu podia dar, era muito forte. Quando o Tomás nasceu eu não tinha forças para chorar, para rir, para cantar musiquinha, para recitar poema, para cheirá-lo da cabeça aos pés, como eu tinha lido que muitas mães faziam. Eu o peguei no colo, ainda quentinho, e abraçada a ele, a única coisa que eu fui capaz de falar foi: Oi Tomás, que trabalho você me deu, filho! E só.

Eu queria dormir dias seguidos, eu queria silêncio, eu queria ficar sozinha, eu queria me refazer física e emocionalmente daquela experiência. Mas fora essa mesma experiência, experiência que esgotou minhas forças, que me trouxera um filho. Eu não tinha mais tempo para me refazer, para descansar. Eu tinha que amamentar, trocar fralda, eu tinha que ser mãe. Mesmo sem de fato ser, eu tinha que sê-lo, entende?

No hospital, os dias que se seguiram foram de extremo desconforto. E eu creditava todo esse desconforto ao fato de estar no hospital, com aquele entra e sai de enfermeira, pediatra, obstetra. Gente que apertava meu peito pra ver se eu tinha colostro suficiente, gente que metia a mão no meu peito enquanto eu amamentava meu filho, me mostrando como deveria ser. Eu queria ir logo pra casa, eu queria ficar mais recolhida, menos exposta.

Já em casa, o choque de realidade. O desconforto permanecia, assim como o cansaço extremo. Um cansaço físico e emocional, como disse acima. E eles se retroalimentavam. Ao pensar na minha vida antes da chegada do Tomás, eu já não me reconhecia, e isso me desesperava de um tanto! Era a certeza de que uma nova vida, uma vida para a qual nada e ninguém havia me preparado, e nem podia, diga-se de passagem, pedia urgência para seguir.

Eu realmente admiro as mulheres recém-paridas, que apesar de todo turbilhão de hormônios e avalanche de emoções, se rendem e se entregam ao papel de mãe. Eu nunca me recusei a cuidar do meu filho, e nem deleguei a terceiros o cuidar do meu filho, é verdade. Mas muitas vezes, principalmente no começo, era algo muito mecânico, era algo instintivo apenas. Os laços de amor e afeto foram sendo construído aos poucos, no dia a dia.

Nos meses seguintes, eu colocava na conta da dor que sentira no trabalho de parto o meu estado depressivo, a minha dificuldade de criar vínculos mais aprofundados com o Tomás. Eu achava que se tivesse feito uma cesárea, eu não estaria passando por aquilo tudo. É que quando estamos muito machucados, nos agarramos a formas de pensamento um tanto quanto mentirosas, achando que assim nossa dor, nosso sofrimento, seria menor ou inexistente. Eu sei que com a cesárea eu, talvez, não tivesse sofrido tanto no durante, mas ninguém me garante que no pós-parto as coisas seriam diferentes. E depois, não dá para pensar em se tivesse sido assim ou assado, pois a estória nao tem ses, e a minha foi do jeito que foi, foi do jeito que deu pra ser e ponto. Mas claro, na época eu ainda não pensava assim.

O tão sonhado filho fizera da minha vida um “pesadelo”. Como conciliar minhas dores e minha cura, com os cuidados e o amar aquele serzinho que me fizera morrer e nascer em vida? Como aceitar sem reservas, mesmo sabendo que não tinha outra opção, o ser mae incondicionalmente? Não foi fácil. Muita gente fala que eu fui corajosa. E hoje eu realmente me sinto corajosa. Mas quer saber? Me sinto muito mais corajosa por ter superado uma depressão pós-parto, ainda que branda, do que pelo meu parto. Não me orgulho do meu parto. Talvez um dia chegue nesse ponto. Hoje eu aceito o meu parto.

Aceito, porque escolhi racional e deliberadamente por ele. Aceito, porque acreditei, de verdade, que era a melhor coisa que faria pelo meu filho. Mesmo não prevendo que eu iria morrer simbolicamente, mesmo não acreditando que eu teria dificuldades em estabelecer vínculos com meu filho, mesmo depois de tanta dor, mesmo sem ter consciência de todas as implicaçõess que ele me traria, ao escolher pelo parto natural, eu aceitei arcar com as consequências da minha escolha.

Ah, mas então, depois de tudo isso, você é contra o parto natural? Não. Não, porque eu não sou militante de nenhuma causa, até mesmo porquê o militar não me cai bem. E acredito piamente que as pessoas devam passar por suas próprias experiências, e tirar suas próprias conclusõess delas. Mas se você tiver outro filho, você vai fazer cesárea, pelo menos anestesia você vai receber? Não sei. Não sei, porque nessa vida eu tenho poucas certezas, graças a deus. E pretendo continuar assim, com o coração e a mente abertos.

De uma coisa eu sei, essa é a minha estória, a minha experiência. E hoje eu já consigo viver mais em paz com ela. Ainda que para isso eu tenha tido que sofrer. Hoje esse sofrer não é nada perto da minha vida com o Tom.

Eu não sabia, mas ao escolher parir Tomás, eu dei um salto no abismo, no escuro. Quando a gente se lança assim no mundo, dá um frio na barriga, a queda parece infinita. Mas eu fui deixando muito peso à toa no meio do caminho, e hoje, mais leve, bem mais leve, eu posso levar uma vida mais livre, mais eu. E isso foi o Tomás que me deu.

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13 thoughts on “O antes, o durante, o depois – uma história sobre meu parto #3”

  1. Conhece aquele ditado da vovo (pelo menos da minha) de que a gente erra querendo acertar?? Isso eh crescer na vida, ainda mais se fizermos uma revisao de nossos erros e acertos. Ser mae eh isso, eh aprender todo dia!
    Ai, quase chorei lendo esse post…
    Eh, concordo, eh mais facil ter dois filhos do que um!
    Bjo grande

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  2. Olá Jeferson! Obrigada, mas eu sou suspeita para falar da beleza da cria!
    Bota inseguranca no primeiro filho! Mas confesso que ainda nao tenho coragem de tentar o segundo, mesmo sabendo que seria mais tranquilo.
    Pasei no seu blog. Gostei e vou voltar com mais calma!
    Abracos (com cedilha)!

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  3. Oi Dani! Pois é, a maternidade é um sem fim de errar que.rendo acertar, né!
    Bom, para o segundo, como conversamos aqui, falta coragem e vontade. Mas essas coisas mudam com uma rapidez…
    Beijos e bom fim de semana

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  4. Nossa Senhora, que coisa linda! Eu sinto que eu poderia ter escrito este post eu mesma, porque me senti e me sinto igual – a diferença é que fiz cesárea, e minha dor foi no pós-parto complicado.
    Esta é a primeira vez que entro neste blog, e quanta identificação senti.
    Um grande abraço!!

    Mariane – Brasília, DF

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  5. Ei Ia Escrever exatamente o que a Mariane ( comentario acima) escreveu, O que voce sentiu no pos parto, eu senti igualzinho.
    eu tbem fiz cesaria… E pensava que o meu choque de realidade foi justamente o inverso, por nao sentir dor da minha filha nascer, eu entrei numa sala, abriram a minha barriga tiraram ela e me entregaram, eu achava que eu nao tinha essa conexao com ela por conta disso… Essa conexao, nasceu, cresceu e cresce a cada dia… hoje, depois de conversar com outras mae, é que vi que isso e normal, mas que ninguem te conta quando voce ta gravida… risos….

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  6. Lindo relato, Gabriela. É muito bom ver o outro lado, tudo que pode acontecer. Esse é o primeiro relato que leio de parto natural em que a mãe não saiu feliz e realizada. As circunstâncias podem ser as mesmas mas cada uma vive uma experiência diferente.
    Beijos

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  7. Gabriela, que bacana!
    Realmente, deve ser mto difícil superar a dor do parto, mas, assim como vc, eu tive bb em 20.12.10, e fiquei com uma depressão pós-parto mto branda, mas existente, forte o suficiente para me fazer chorar dia e noite, não sentir fome, não sentir vontade de nada, só de dormir e desaparecer. Fiquei assim por um mês, pelo menos, e depois fui melhorando. E fiz cesárea. Bem consciente de que queria cesárea, até. Acho que a maternidade é algo mto difícil, mto mesmo. E consegue ser transformadora a cada dia….

    Beijos!

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  8. Gabi sempre adoro ler seus posts! E amei seu relato de parto.

    Sabe que o meu parto em si, foi até tranquilo fiz parto normal cheguei no hospital as 20:30hrs com 2cm de dilatação e as 23:30hrs já estava com 9cm…. foi tudo muito rápido e esse sentimento que você descreveu foi exatamente o que senti, além dos susto do meu pequeno ter nascido bem antes do que eu esperava, o fato dele não estar comigo…nasceu foi direto para UTI.

    As coisas dele ainda não estavam prontas uma vez que faltava um mês e meio para a data provável do parto, a minha primeira tentativa de amamentação foi na UTI com meu pequeno todo furadinho com oxigênio, soro, etc…

    Essa sensação de se olhar no espelho e não se reconhecer foi muito forte em mim, sabe entendo perfeitamente o que esta descrevendo por que também me senti meio assim, não cheguei a desenvolver um quadro depressivo, mas meu obstetra diz que foi uma tristeza devido a tudo que estava passando como diria na expressão em inglês “I've got the blues”…

    Enfim obrigada por compartilhar sua experiência conosco e sigo acompanhando!

    Bjs

    Ana

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  9. Eu sempre fico emocionada com relato de parto, Gabriela! Sua experiência me faz pensar que há muitas mulheres que passam por tais sintomas e nem sabem, então vem culpa, vem pressão interior…Tudo junto.

    Já estou linkada em seu blog.

    Um beijo, querida!

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  10. Gabriela, eu sinto as mesmas coisas, mas tive cesárea, atribuí minhas tristezas por não ter tido parto normal, seu depoimento aliviou minha culpa, acho que esses conflitos existem em qualquer tipo de parto, ser mãe… é padecer no paraíso! Beijos

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  11. Gabriela, Não conhecia o seu blog, conheci pelo “MMQD” e adorei.

    Li seu relato de parto e posso te dizer: eu fiz cesárea e me senti da mesma forma como vc se sentiu!

    Desde o início eu queria cesárea, sempre fui frouxa para dor e acreditava que não aguentaria a dor do parto. Só queria entrar em trabalho de parto, e ai faria cesárea.

    Só que não entrei em trabalho de parto. Com 38 semanas fiz uma ultra que diagnosticou perda excessiva de líquido e a indicação era cesárea imediata. Fiquei muito assustada, minha família toda (tenho irmã médica que me assustou e brigou com a minha obstetra), passei horas terríveis até minha filha nascer.

    Se a sua dor foi durante o parto, a minha foi depois. Sofri para cacete no pós-parto. Muita dor mesmo que eu achava que nunca sentiria por fazer cesárea. Ledo engano.

    Pois bem, o mês seguinte do nascimento da minha filha foi uma penumbra total. Não lembro de nada a não ser de mecanicamente trocar fralda, dar peito, dar banho, etc. Não tinha vínculo ocm aquele bebê ali. Até que fui conversar com a minha médica. Quando eu falei o que sentia vimos na hora que era um depressão pós-parto leve, mas era. Tomei remédio em segredo de toda a família, juntei forças sei lá de onde, e só quando minha filha tinha 2 meses é que eu realmente posso dizer que passei a amá-la.

    Muito doido isso, nunca imaginei que isso pudesse acontecer e nem que fosse tão normal.

    Não tenho blog, mas me sinto muito bem em ver que não fui a unica a sentir o que senti. Não estive sozinha. As pessoas criam uma imagem da maternidade muito “cor de rosa”, ninguém fala a verdade, todas as pessoas parecem ter um pós-parto maravilhoso, todos os bebês dormem a noite toda, todos os bebes ganham peso regularmente, mamam no peito que é uma beleza, e eu lá me sentido o cocô do cavalo do bandido por não ter isso, por ter perdido “a minha vida”.

    Hj 1 ano depois me reencontrei, amo minha filha, adoro a minha nova realidade, não me vejo na minha vida “antiga”.

    Bom seria se todo mundo falasse a verdade como você. PARABÉNS!

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  12. Gabi,
    Vi seu comentário lá e corri aqui procurar relato do parto… rs
    Que coisa linda e honesta e cheia de coração..!!!

    Que bom que o tempo vai passando e a gente vai podendo olhar pra experiências e re-significá-las, não é?!

    E que delicinha Tomás pequetico!!!

    Beijo!

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