a vida é mais, Da poesia da vida, Do cotidiano

Da saudade

– Mas o que é que eu tenho, doutor?

– Parece que você está com saudade.

– Saudade? Por isso…

– … os olhos distantes, parados, mareados; a respiração suspirada, o peito fundo, latejante, o coração doído.

– Tem cura? Remédio?

– No presente estágio, não. A dor de uma saudade tem seu ciclo; é necessário respeitá-lo.

– Que ciclo é esse? O ciclo do quase morrer um pouco todos os dias? Me parece que nunca passa, essa dor.

– Passa. Essa dor que sufoca, que tortura, que anestesia os sentidos da vida, essa passa. O tempo é seu melhor remédio, e seu melhor aliado.

– Não posso suportar a espera, doutor. Não posso esperar que o tempo se encarregue de colocar essa dor, que o senhor chama de saudade, num lugar onde não doa mais. Não dá para transferí-la do peito para, sei lá, para a cabeça? Pra cabeça tem remédio que tomou passou…

– Não dá.

– É que dói demais…. Parece ferida aberta, ferida que nunca cicatriza.

– E é uma ferida aberta. Já disse, o tempo é o melhor remédio.

– O tempo só é remédio pra quem não tem outro remédio, né doutor?

– Infelizmente, sim.

– Hum…

– Por que você não vai ao cinema, lê um livro, tenta fazer coisas que…?

Ela acena um não com a cabeça.

– São medidas paliativas, eu sei. Na qualidade de médico eu tenho que dizê-las, na qualidade de gente, eu sei que são pouco eficazes.

– Bom doutor, acho que não temos mais nada que dizer um ao outro. Obrigada pela consulta. E agora só me resta…

– O que? pergunta o médico

E ela responde num tom jocoso, como que quebrando o tom daquela consulta pesada:

– Só me resta “…me embriagar até que a dor me esqueça”.

E riram, os dois. Um riso forçado, um riso nervoso, sabendo ambos que há dores na vida que precisam simplesmente ser sentidas. O riso dela foi para tentar abrandar a dor latente de uma saudade presente. O dele, para afastar a dor quase esquecida de uma saudade já vivida.

***********************************

Em tempo, Tomás está bem melhor, quase cem por cento. A mãe dele é que não anda nada bem. Mas isso é assunto para outro post, ou não. Talvez o tempo se encarregue de tudo. E no fim, deixe apenas uma saudade. Apenas saudade de coisas bem vividas.

Obrigada à todas que nos escreveram e torceram pela recuperação do Tom!

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3 comentários em “Da saudade”

  1. Gabriela,
    Minha amiga…
    Posso te dar um abraço? E esse remédio para curar as saudades… ah, também quero! Como tem dia que é difícil…. Mas assim como escreveu, já que não tem remédio que cure, o melhor realmente é se ocupar, pensar que logo, logo matará as saudades ou que talvez é melhor ter esse sentimento, do que jamais tê-lo sentido! Complicado, né?!
    Fica bem! Estarei por aqui e não deixe de dar notícias, ok!?
    Por acaso, você tem skype? Podíamos trocar o endereço e nos falarmos qualquer dia desses. Que tal?
    Beijos, beijos

    Curtir

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