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Das convicções, o medo do segundo, a Starbucks e o mundo dos sonhos

Antes, bem antes do Tomás nascer, quando eu pensava em filhos, eu pensava sempre em dois. Dois parecia ser um número bacana. E tinha mais, eu pensava em ter os dois com pouca diferença de idade.

Mas antes de chegar no ponto de querer ter dois filhos, eu achei melhor omitir de vocês, minha convicção fulera de que não queria ter filho nenhum. Convicção essa que meu marido nem sequer chegou a levar a sério.

Bom, o Tomás nasceu. E com ele muita coisa também nasceu, outras só brotaram, mas ainda não floresceram, e outras morreram. Foram-se, acabaram-se, escafederam-se. Convicções de toda sorte, gênero, número e grau, se esfarelam na sua frente, dia após dia quando se tem um filho.

Então que aquele ser fofinho, guloso, insone e chorão, apesar de ter matado sem dó muitas das minhas antigas convicções, me trouxe uma outra convicção. Veja que eu sou teimosa. E apegada. Eu preciso de uma, só para não perder o costume. A convicção de que eu não teria mais filhos, de nenhum jeito e de jeito nenhum! Ponto.

Meu marido zen, baseado naquela minha primeira convicção acima, aquela de que eu nunca teria filhos, dá de ombros toda vez que eu falo que não quero ter outro filho. Convenhamos, eu caí em descrédito. Então quando o assunto é segundo filho, eu falo CONVICTA que não terá um segundo, nem aqui, nem na China. E ele: Uhum, o tempo dirá. Ou ainda Se for para ser, você vai sentir. Hoje, só de pensar na ideia, o que eu sinto é pâ-ni-co, mas se realmente for pra ser, eu espero sentir outra coisa.

Mas por que não ter outro filho? Os argumentos são muitos, mas não quero fazer do post um manifesto ao filho único. Muito dinheiro, muito tempo, muita doação, muito espaço, muito amor. Eu estou reclamando disso tudo? Não, não e não. É assim que é, é assim que deve, ou deveria, ser. O que faço para o Tomás faço de bom grado, de coração, com alma. Mas vira e mexe me pergunto se a dedicação que dei e dou para o Tomás eu poderia dar para outro filho.

Eu já comentei que fiquei com o Tom durante o seu primeiro ano de vida, e agora no segundo, continuo sendo mãe em tempo integral. E gosto disso. Mas sei também que uma hora ele terá outras necessidades, e será uma outra fase dele e minha. Terei eu vontade/coragem de começar tudo de novo?

Sem contar que nós mudamos pra caramba. A cada dois, dois anos e meio, mudamos de casa, de cidade, de país. OK, nos últimos nove anos o país em questão tem sido a Alemanha. Ainda assim, toda mudança exige esforço, adaptação, espera. E agora com o Tom, outras variantes entraram na jogada. Colocar mais um mambembe nesse mundão? Ficar grávida sabe deus onde? Trazer outro filho sabe deus em que lugar? Ideia pouco convidativa.

E mesmo vendo o Tom passar por fases as mais fofas, as mais gostosas, a certeza de que tudo melhora por um lado, de que o trabalho muda, nem o melhor da maternidade me anima para um segundo.

Mas citando meu marido: só o tempo dirá. Ou não, né?

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Eu conheci a Starbucks relativamente tarde. Em Hamburgo, a primeira filial da marca foi inaugurada em 2006, e depois da primeira, outras pipocaram pela cidade. Alguns colegas americans do curso de alemão, alucinaram com a chegada da Starbucks na cidade. E eu, aproveitando a euforia alheia, fui saber o que tinha de tão alucinante por lá. A minha favorita era a da Colonnaden. Como eu não tinha filho ainda, eu podia me dar ao luxo de escolher uma filial com escadas. Em Heidelberg, a minha Starbucks preferida é a da Universitätsplatz, por questões de comodidade mesmo. O ponto final do ônibus que pegava é quase em frente à ela, e ao que tudo indica todas as mamas de Heidelberg também elegeram aquela filial como a favorita. De maneira que, dependendo do dia e da hora, há congestionamento de carrinhos, e nos trocadores.

Para ser bem sincera, o que mais me agrada na Starbucks não é o café. Aliás, eu acho uma perversidade pegar os melhores grãos de café do mundo, e ainda assim produzir um café fraco e sem graça. Mas voltando, o que mais me agrada na Starbucks é o ambiente, que apesar de padrão everywhere, é aconchegante, a música, jazz, thanks God!, e se você for fã como eu de alguns rótulos americanos como muffins, brownies e cheesecakes, então você me entenderá um pouquinho mais.

Logo, para ouvir uma música decente, me esparramar num sofá macio, usar um banheiro limpo, ter internet de graça, jornais e revistas dos mais variados, eu tolero o/a atendente me fazer perguntas que me deixam nervosa. Como por exemplo, qual o tamanho do capuccino, com leite integral, desnatado ou de soja (oi?), com expresso duplo ou simples…. Gente, pra que complicar o modo de tomar um café?

E eu sempre me imaginei num dia de fúria, batendo no balcão e falando é só um capuccino, porra!. Mas claro, isso nunca aconteceu e nem nunca acontecerá. Pois bem sabemos que dias de fúria quiçá em filmes dão certo. E eu não quero ser apenas uma louca brasileira presa por ter surtado no balcão da Starbucks. Péssimo…

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Eu sempre tive sonhos muito reais. Cores, feições, paisagens, cheiros, vozes… misturas de vivências, lembranças, lugares e pessoas conhecidos, uma mélange de emoções e sensações. Meus sonhos são como telas ou filmes. Surreais, é bem verdade. Estranhos, fantasiosos, bizarros…

E dia desses eu tive um desses sonhos extremamente simbólicos. Cono todos o são, diria algum psicanalista. Se tivesse vocação para sonhos proféticos, estaria eu com a pulga atrás da orelha.

Eu sonhei que estava na Starbucks de Heidelberg. Na verdade, em sonhos, o lugar nunca é exatamente o mesmo. Estava eu sentada lendo um jornal. Mas eu o lia de cabeça para baixo, uma vez que do jeito “certo” de ler, as letras se tornavam símbolos totalmente desconhecidos para mim. Nas janelas, cortinas de veludo vermelho bloqueavam a luz. E pelo lugar, havia gatos espalhados. Eu estava num sofá, e me esforçava para ficar à vontade, mas estava nitidamente incomodada. Com tudo. Algumas pessoas usavam máscaras, e outras eram completamente carecas.

Um casal muito alto, de cabelos e pele bem claros, e com olhos muito azuis sentou-se comigo. Bom, na Alemanha gente alta, loira, branca e de olho azul é carne de vaca, né! Mas eles não eram “normais”. Alguma coisa neles era diferente, porém aparentemente, eram como qualquer outra pessoa.

Esse casal sabia meu nome. Só a mulher falava comigo, mas o homem era amigável. Ela me disse que eu tinha a missão de trazer para o mundo deles (hum…) uma criança. E que eles me prometiam um nascimento sem dor. E que a menina deveria se chamar….Pia.

Abrindo parênteses… Se eu pudesse dialogar no sonho, eu diria que se a missão deles era me convencer da minha missão, então a missão deles falhou. Compreendeu? Se queriam mesmo me convencer a ter outro filho, então que viessem com argumentos muito mais elaborados. Afinal, nascimento sem dor também é possível nessas paragens. Que viessem com a promessa de que eu não teria Baby Blues, de que eu dormiria uma noite inteira desde o primeiro dia de pós-parida, e de que eu sairia da maternidade a Gisele Bündchen morena. Eu diria também que por ora, eu não quero parir nem aqui, nem no mundo deles. E que não tinha essa de escolher o nome da minha cria. Até mesmo porquê, Pia na minha terra, é onde se lava louça. Fechando parênteses.

O tal sonho termina como a maioria dos sonhos; sem pé nem cabeça.

Bom, como já disse, ainda bem que não tenho veia de profeta. Assim sendo, posso ficar sossegada. Afinal, foi apenas um sonho.

Não é o que minha terapeuta diria. Tenho certeza. Aliás, acho que ela vai a delírio na minha próxima sessão.

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Nos primeiros dias, meses do Tomás, eu me perguntava porque ninguém, NIN-GUÉM, nem a minha própria mãe, me disse o quão difícil seria. Simplesemente porque não dá para falar dessas coisas. Elas se contrapõem com as expectativas do novo que está por vir, e temos para nós que o novo, sem exceção, é bom. E é bom mesmo! Ter um bebê em casa é uma delícia. Ter tido o Tomás foi e é uma delícia. Foi a melhor coisa que eu já fiz na minha vida, sem dúvida. Mas nos esquecemos que o novo, sem exceção, exige adaptação. Nos primeiros dias, meses do Tomás, eu me perguntava como alguém, em sã consciência, poderia querer outro filho. E por nenhum momento, ao me fazer essa pergunta, eu lembrava que as pessoas passam pelo que têm que passar, do jeito que precisam passar.

E depois, o tempo, sempre ele, se encarrega de fechar as feridas, de redimensionar os sofrimentos, de resignificar as dores. E com o tempo, as mémorias que de fato importam, as de peso, são as mais leves, mais alegres, mais doces. Então, nós pegamos essas memórias afetivas, e as sacralizamos no nosso santuário de ideias. E toda vez que nele entramos, nos sentimos confortadas. E toda vez que dele saímos, nos sentimos mais fortes, mais confiantes. E bingo!, descobrimos o como a humanidade se perpetua, e descobrimos que é possível desejar outro filho.

Eu dise que é possível desejar outro filho. No meu caso, do possível para o real já é outro papo.

Então Sr. Universo, vê se para de mandar mensageiros nórdicos através de sonhos para me convencer do que não é preciso ser convencido. Afinal, eu estou convicta, lembra? E não venha o Sr. rir das minhas convicções! Para isso, já me basta meu marido.

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9 thoughts on “Das convicções, o medo do segundo, a Starbucks e o mundo dos sonhos”

  1. Concordo com você! Acho lindo os bebês pequenos e até bate uma saudade… mas olho para a mamãe e digo ! Graças a Deus essa fase já passou! hehe
    Não tenho energia… admito não tenho mesmo para ter outro filho. Posso estar sendo egoísta, mas me dediquei 1 ano ao meu pequeno e eu PRECISO fazer outra coisa, voltar a trabalhar..
    Mas admiro quem tem essa disposição!!!

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  2. Gabriela, morri de rir!
    hahahahahaha

    nórdicos loucos!!!! Ou será vc louquinha?? hahahaha
    Entendo a convicção de não querer mais um filho, realmente é muito complicado. Quando me vejo pensando no segundo (que virá, com certeza, pq eu quero, apesar de tudo), me questiono sobre a capacidade de entrega, de doação, de amar, de sustentar… é complicado sim, há que ser mto bem pensado.

    Sobre a Starbucks – adoro! Adoro! É um excelente lugar para relaxar, tomar um bom moca e curtir uns minutinhos só nossos.

    Agora, quanto aos sonhos…. hahahaha… eu tenho um post só sobre isso…. sério, eu sou o ser que mais sonha no mundo e, sim, qdo a gente sonha, o lugar nunca é fisicamente o mesmo, pq????

    Beijos e obrigada pelo carinho no meu texto! Obrigada mesmo!

    Acho que passamos pelas mesmas situações, às vezes, né?

    Beijos!

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  3. Oi amiga,
    Olha eu por aqui… rs
    Quer dizer que está de cara nova. Adorei!!!! Ficou muito bom.
    Acho que ninguém melhor do que nós para sabermos a hora certa e tomarmos a decisão. O tempo dirá…
    Agora quanto ao amor vivo escrevendo sobre isso… a gente divide e ama tanto quanto todos os filhos. Coração de mãe sempre cabe mais um.
    Um grande beijo.

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  4. Gaby,

    Olha que coincidência: eu postei no FB ontem um questionamento sobre ter ou não o segundo filho, e ainda por cima, com pouca diferença entre um e outro (é o que temos pensado em fazer). E chego aqui hoje e estou lendo suas (boas) convicções, bem argumentadas e compreensíveis.
    Eu não queria nem UM bebê. Quanto mais DOIS.
    Só que sinto que tem uma coisa incrível nas mães: uma falta de memória imensa.
    Helena fez um ano há 1 semana e eu mal consigo me lembrar, nem da gravidez, nem do pós-parto, nem dele em si.
    Assim que percebi que tinha esquecido tudo, já sabia que estava pronta pra outra.
    Bjos.

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