a vida é mais, Alemanha, antes de ser mãe eu não sabia que..., Da poesia da vida, Do cotidiano, Heidelberg, um bebê muda o que? tudo

Vida bandida

Imagina que a sua vida tenha uma versão oficial. E que esta versão oficial foi você mesma que concebeu, escreveu e dirige. Bonita até, esta versão oficial. Imagina que nesta versão oficial, você tenha muitas idealizações. Mesmo sabendo que o ideal nem sempre é o real. Às vezes a versão oficial da vida flui, te dando a certeza que a vida só pode ser assim, e de nenhum outro jeito. Às vezes ela corre trôpega, arrastada. Nada que o deixar umas ilusõezinhas pelo caminho não resolva.

Então você acha que vai vivendo esta versão oficial sem grandes percalços, afinal você concluiu seus estudos, se casou, viajou, trabalha, tenta ser gente fina quase sempre, não é nem bonita nem feia, nem burra nem genial, faz análise, quer e tenta fazer o bem, já conheceu muita gente bacana, e engravidou. Engravidar também fazia parte da sua versão oficial. Embora não desde o seu princípio. Daí você jura de pé junto, que jamais idealizou um filho, jamais! Eu, hein! Imagina se… Um filho, um elemento novo nesse novo script chegou. Chegou diferente daquilo que você imaginava, daquilo que ó céus, você idealizava.

Então a realidade se contrapôs à sua versão oficial da vida. Na versão oficial da vida não existia depressão pós-parto, filho que quer mamar de hora em hora, que chora demais, que só quer colo… E esse afastar-se da gênese, do certo, te custa tanta energia, tanta dor desnecessária, tanta lamúria.

Mas quem manda nessa porra aqui ainda sou eu! Você diz pra si mesma. E tenta dar uma acochambrada na sua já capenga versão oficial. Por onde começar? Pelos amigos que se ressentiram de, nos primeiros meses de vida do seu filho, você nem sequer responder e-mail? Ou quando o fazia sequer dava o tom de la vie en rose que eles tanto queriam ouvir, ignorando solenemente que a pegada com recém-nascido é pancadão? Ou reestruturar um novo projeto de família, onde o filho é demandante sim, o marido precisa trabalhar e viajar, e a casa insiste em ser cronicamente uma bagunça? Neste mar de dúvidas e incertezas, você se sente à deriva, sem eira nem beira, abandonada à própria sorte.

Na versão oficial dos fatos da minha própria versão oficial de vida, meu filho só chorou nos oito primeiros meses da vida dele. Ou seria eu que só chorei nestes oitos primeiros meses? Na versão oficial dos fatos da minha própria versão oficial de vida, eu fui a pior mãe que meu filho poderia ter tido, a pior companheira para meu marido. E a versão oficial só degringola, porque os fatos, as pessoas, os novos elementos e circunstâncias que dela vieram a fazer parte, em nada tinham a ver com o meu projeto inicial de versão oficial. Verdade? E aqui eu mudo de parágrafo.

Vivendo uma vida marginal, longe daquela versão oficial, eu me dou conta que caralho!, eu aprendi muito mais do que imaginava aprender, eu vivi muito mais do que eu esperava viver, eu me dei muito mais do que imaginava ser possível me dar, eu me reinventei muito mais vezes que ousava ser possível fazê-lo, eu descobri que meu filho é o melhor filho que eu poderia ter, que meu filho é o melhor que ele pode ser, e que ser mãe é se aceitar pra depois aceitar o outro. Do jeito que ele é.

Então eu descobri que esta vida marginal, pode não ser perfeita. Mas é muito mais emocionante, porque feita, construída com um pouco daquilo que já fui, com um pouco daquilo que sou e pouco mais daquilo que quero ser. Somado ao pouco que cada um que por mim passou e deixou. E ao muito que meu filho me trouxe e me traz. Ao muito que ele me dá. Ao muito que ele soma em mim.

Para ser sincera, eu acho que desta versão oficial de vida, eu mantenho apenas uma lista: a lista das coisas que não tolero. A saber: comida fria, café fraco, chocolate diet e pessoas sem coração. É, acho que a lista serve bem pra qualquer tipo, fase e circunstância de vida, não?

Pensando bem, a versão oficial da História, não é a História verdadeira. Assim como a versão oficial da vida, não é a verdadeira vida. É por isso que eu vou me emaranhando mais e mais nesse meu projeto bandido de uma vida de improviso, de desapego, de saber levar-se e deixar ir, projeto mambembe de vida. Enfim, sendo gauche e torcendo para encontros furtivos e inesperados com anjos tortos. Eles sim, sabem das coisas.

A versão oficial é que eu sempre fui lindo!

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10 thoughts on “Vida bandida”

  1. A versão oficial do Tom é tããããooooo linda que faz com que qualquer improviso valha a pena…

    Adorei o teu texto!!!

    Me sinto assim várias vezes… quase sempre.
    Mas como vc, dou uma olhadela na minha vida, nos meus projetos, nos meus feitos… e acho que a versão improvisada é tão bacana!

    Beijos!

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  2. Que mãe que não se encontra nesse texto, me diz? Falou tudo Gaby. Volte e meia me sinto fora dos trilhos e de repente percebo, que trilhos? Depois que eles nascem tudo muda mesmo! 🙂 Ele é lindo em qualquer versão. beijo

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  3. Fala sério minha amiga Gabi… que vida é essa, que vida bandida, cheia de surpresas, de imprevistos…. Também me faço mil perguntas e trabalho internamente, diariamente, o permitir, o deixar acontecer conforme tem que ser, não de acordo com o planejado e sonhado.
    E o melhor de tudo isso, realmente é quando olho para meus filhos. Penso que devia ser assim, que tinha que ser assim… fazem parte do meu caminho, do meu aprendizado diário.
    Mas quem disse que seria fácil, né? rs
    Beijos e estava com saudades dos seus posts. Adoro! Tão profundos, tão repletos de reflexões sobre o mundo materno, sobre a vida.
    Por sinal, você está participando do Melhor post do mundo? Bem que podia, né?
    Um grande beijo.

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  4. Oi Celi! É como um grande amigo meu sempre fala, Ah Gabi, é só dizer que deu certo!

    Eu dou risada, mas é verdade. Se no fim não saiu do jeito que prevíamos, esperávamos, imaginávamos ou queríamos, então basta dizer que deu certo. Do jeito que deu. E quem disse que não era pra ser assim?

    O ritmo no bolg está lento, mas o da vida anda acelerado. Estou te devendo notícias. Te conto em breve.

    Quanto ao concurso, ainda estou pensando. Estava certa de participar, mas daí “dei pra trás”como se diz por aí.

    Beijos saudosos

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