a vida é mais, mães não são de ferro

Eu não tenho sangue de barata ou um anônimo para chamar de meu

Todos nós carregamos um mundo dentro de nós. Mundo formado pelas nossas vivências, nossas percepções do mundo a nossa volta, pelas pessoas que passaram por nossas vidas, pelas pessoas que fazem parte dela, por convicções de toda espécie, por nossas crenças ou falta delas, enfim, somos o que somos, também, por esse montão de coisas que conosco trazemos. E porque tudo isso é diferente pra cada um, somos diferentes uns dos outros, somos únicos, ainda que escolhamos pessoas com bagagens semelhantes às nossas para convivermos.

Baseado nessas diferenças, nessa suigeneridade de cada um, seria muita ilusão da minha parte, que o que escrevo, o que sai da minha cabeça, chegue tal e qual na cabeça de quem me lê. Seria muita pretensão de minha parte acreditar, que cada pessoa que me lê, decodifica o mundo, as coisas do mundo, com o mesmo olhar que o meu, da mesma forma que eu. Porém, o meu blog é público, de maneira que para além daquelas pessoas que têm uma visão de mundo, de vida, muito parecidas com a minha, algumas outras diferentes de mim, também me lêem. E viva a democracia!

Acontece que, um anônimo resolveu deixar um comentário muito dos mal-educados no meu relato de parto. Eu, tendo ficado emputecida com tantas distorções do que, num repente, de maneira visceral, à flor da pele, escrevi meses atrás, conversei com meu marido, que me aconselhou a esquecer e apagar o ofensivo comentário. Acreditando na democracia como princípio, penso que pessoas com opiniões diferentes das minhas são muito bem-vindas porém, ofensas são inaceitáveis.

Quando estava realmente deixando tudo pra lá, eis que me deparo com outro comentário ofensivo, dessa vez no Tomás Querêncio. Aí, eu que não tenho vocação para ser zen, senti meu sangue ferver. Mexeu com minha cria, mexeu com meus brios. E a política do deixa disso viveu dias de declínio absoluto no reinado de Gabriela.

Supondo que o anônimo em questão seja o mesmo, e mesmo não sendo, segue minha resposta.

Sobre o Tomás Querêncio, não vou me pronunciar. Se você não tem capacidade para entender um simples texto sobre um menino de um ano e meio e seu querer, não sou eu que vou te explicar.

Sobre meu relato de parto e seu profundo incomôdo, eu gostaria de dizer que, tendo você parido ou não, sendo você homem ou mulher, contra ou absolutamente contra o parto natural humanizado, nada justifica sua postura ofensiva, depreciadora e pejorativa. Nada!

Sobre sua interpretação de que eu, como mulher burra (sic), senti dor porque quis, eu quero lhe dizer que senti dor sim, uma dor absurda, uma dor lancinante, uma dor que como eu disse lá no relato, eu não queria aceitar, uma dor para a qual eu não queria me entregar. E sim, de certa forma, eu quis sentí-la. Não como quem quer sentir uma dor pelo prazer da dor, mas quis sentí-la muito mais porque, informada e esclarecida dos benefícios de uma parto natural, eu sabia que a dor era apenas parte do processo para trazer meu filho ao mundo. E que os ganhos eram muito maiores do que a dor em si. É claro que eu tinha isso de maneira consciente, racional. Na vida real, na hora do vamos ver, a dor foi muito maior do que tudo o que eu li e ouvi sobre ela. Hoje, tendo já passado pela famigerada e mal compreendida dor do parto, eu não a menosprezo. Hoje eu a respeito. Respeito como uma tempestade de verão, como força da natureza que tem sua função, seu ápice e seu fim. E nenhuma mulher é burra ao optar parir sem anestesia, por ter parido sem anestesia.

Outro ponto abordado por você anônimo, foi o termo trilogia do parto. Realmente, talvez tenha sido muita arrogância da mimha parte chamar um relato tão pessoal, tão mixuruca, sem vulto literário (e nem era essa a intenção), de trilogia. Talvez o termo só faça sentido para os grandes como Goethe, Kieslowski, Coppola… Mas minha intenção, de longe, foi ser arrogante. Ao relatar minha experiência, eu quis compartilhar (termo tão facebookiano) minhas dores, frustrações e alegrias. E por acreditar na escrita como método terapêutico, eu usei meu relato como parte da minha cura. Ao escrevê-lo, eu precisei revisitar comôdos sombrios da minha alma, da minha memória. Lugares que não queria entrar, mas que me libertaram de uma série de ilusões e falsas lembranças. E pôxa, como eu me senti aliviada, como eu fiquei feliz em receber comentários solidários, em saber que muito mais gente se sentiu ou se sentia como eu. O lugar de destaque, como você disse, somente se deve ao fato de que num blog materno, outras mães procurarem por relatos de parto. Não sei se você é frequentador assíduo de blogs maternos, anônimo, mas esse comportamento é extremamente natural por essas bandas.

Brecht disse que o pior analfabeto é o analfabeto político; aquele que estufa o peito, e tem orgulho de dizer que odeia política. Não passando de burro, segundo ele, acaba se tornando um alienado da realidade em que vive. Traçando um paralelo com Brecht, quando eu disse que eu não era militante de nada, eu não quis dizer que estufo o meu peito orgulhosa, alheia da realidade dos partos no Brasil. Alienada do número de césareas, alienada do preconceito e dos boicotes que profissionais do parto humanizado sofrem, alienada do desrespeito às parturientes, das mentiras que muitos profissionais contam às parturientes.

No entanto, todo relativismo tem um fim, e a vida nos cobra um posicionamento. Assim sendo, eu me posiciono absolutamente a favor do parto natural e humanizado, seja ele hospitalar, domiciliar ou em casa de parto. Se querem chamar isso de militância, que assim seja. Eu, tendo passado pela experiência de um parto humanizado, tendo sido amparada por profissionais que são referência, nem poderia ter um discurso diferente. Achei que isso tivesse ficado claro. Achei…

Hoje eu vejo que o foco do meu relato foi na minha dor, na minha depressão pós-parto. Se tivesse escrito o relato hoje, o tom seria outro. Natural, hoje minha depressão é passado. E ainda que, quando escrito, a depressão já não existisse, sua dor ainda ecoava. Hoje, nem a dor ecoa; é só uma lembrança ruim. Mesmo tendo focado na minha dor, eu deixei bem claro que não foi o parto natural que causou meu estado depressivo. Outro engano meu foi ter acreditado que tinha sido clara quanto a isso.

Eu fui acusada de louca, de ser adepta de uma modinha. Sinto muito anônimo, mas nascer naturalmente não é uma modinha. Não é coisa de hippie desocupado (e eu não acho que hippie é sinônimo de desocupado, ok?). E nenhuma mulher é louca por querer parir, por ter parido. Aliás, se eu te contasse a lucidez que essa experiência me trouxe, aí sim, você me chamaria de louca.

Se você não tem o que fazer, te adianto que não é aqui que vai encontrar ocupação.

À todas as pessoas que não têm nada a ver com tudo isso, peço sinceras desculpas pelo barraco.

Anúncios

8 thoughts on “Eu não tenho sangue de barata ou um anônimo para chamar de meu”

  1. Oi! Sempre leio seu blog, mesmo que não costume comentar, acho que vc escreve muito bem!
    Sobre o tal anônimo, isto é bem comum, não fique chateada, tem muita gente que vive só de criticar os outros: se isto já acontece na vida real, imagine na terra de ninguém da Net.
    Não sei se vc já leu, mas este texto ” O anônimo infeliz” é muito bom. Vc se divertirá com a leitura:
    http://apipocamaisdoce.clix.pt/2012/04/o-anonimo-infeliz.html

    Curtir

  2. Gabriela, lembro-me deste seu texto. Fiquei super emocionada com ele. E você foi tão clara.
    Eu recebo vários comentários maldosos em meu blog. Tá, tudo bem que lésbicas, gays, trans, bissexuais, é a nova onda dos fascistas de plantão. E como um blog que fala de duas mulheres que se amam, sim, é comum recebermos tanto ódio nas palavras, embora tais pessoas nem sabem que, na verdade, estão apenas vomitando a infelicidade que carregam. Sinto que tudo o que essas pessoas mais querem, é nos deixar tão tristes quanto elas são. Aprendi a ignorá-las por completo. No meu penúltimo post, houve tanta agressão, que fiz questão de não ir até o fim na leitura deles, apenas me concentrei nos escritos com ternura, dos amigos queridos que fazemos por aqui.
    Eu te leio há tanto tempo que nem lembro desde quando. E leio porque gosto de sua escrita, de sua forma de narrar questões tão complexas, como a de um parto. Suas narrativas me fazem pensar por dias. Gosto de tudo que me faz pensar.
    Sobre o termo trilogia, quem ditou a regra que só pode ser usada pelos canônicos? Ainda há purista neste mundo tão “intertextualizado”? Náusea deste conservadorismo.
    Eu ainda não sou mãe, mas imagino que tocar em nosso filho, pode nos tirar mesmo do sério.
    Um beijo, querida!

    Curtir

  3. Putz, Gabi… que chato… que saco…
    entendo que vc fique chateada, eu tbm ficaria…
    adorei a sua resposta, fantástica.
    responda sempre assim, linda, elegante, em cima do seu salto bem escrito e da sua humildade bem pautada.

    se serve de alguma coisa, eu adoro o seu blog, adoro, adoro!

    e o seu relato de parto foi fantástico, me arrepiou do início ao fim.

    beijos!!!

    Curtir

  4. Oi! É a primeira vez que leio seu blog e fiquei tão chateada (pra não usar termos nada lisonjeiros) quanto você!! Que falta de sensibilidade desse “ser humano”!! Enfim, seu relato é emocionante e esse ser é um pobre de espírito!

    Curtir

  5. Ohhh amiga, como tem gente desocupada! O melhor é ignorar…. essas pessoas só merecem o desprezo.
    Ainda não li o final do seu relato sobre o parto, mesmo porque quando escreveu estava no final da minha gestação. Lembro de ter dado notícias para vc e ter dito que era para eu focar no momento que estava vivendo. Pois é… mas pelo que acompanhei vc foi mais do que sincera em seu relato, compartilhou sentimentos verdadeiros e tão comuns entre tantas mulheres, mães. Não se abale com isso, continue assim, pois o que sobressai são as amizades conquistadas, os comentários ricos e que acrescentam de alguma maneira. Um grande beijo.

    Curtir

  6. Gabriela,

    Admiro sua conduta, sempre de nível e bom tom. Se te fez bem responder a um (a) infeliz, que assim seja. Mas espero que você não se incomode com esse tipo de agressão novamente e que possa realmente ignorar. Sua escrita é linda. Seus textos bárbaros. E não queremos que você perca energia com quem mal consegue interpretar textos tão bacanas como os seus.

    Beijo enorme.

    Cintia Anira

    Curtir

  7. Oi, Gabi,
    A dor do parto vc ia sentir de qualquer maneira, todas nós que somos mães a sentimos de uma ou outra maneira, na pele ou no coração. Mas uma dor totalmente desnecessária deve ter sido receber essas bofetadas vindas de alguém armado pelo anonimato enquanto se está o mais aberto possível. Tem gente que não se contenta em ser infeliz sozinho, insiste em fazer outras pessoas infelizes também. Mas me alegro em saber que você, sendo aberta assim, não se contenta em ser feliz sozinha!

    Curtir

  8. Gabriela,

    Siga o teu caminho, o relato foi profundo.
    Fazer o que, se as pessoas rastejam na miséria humana.
    Infelizmente somos vitimas da condição humana degradante.
    Ouça seu marido, eu sei é dificil, apague tudo.
    Abraços,
    Cláudia

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s