antes de ser mãe eu não sabia que..., artes do Tom, Da poesia da vida, Do cotidiano, gracinhas do tom, Tomás

No tempo de…

Quando se tem filho, o tempo se resignifica, toma outra proporção, outra dimensão. O tempo, sem querermos, sem percebermos, acaba sendo o tempo do filho. E na barriga, ao contarmos o tempo de gestação por trimestres, esperamos os primeiros incomôdos, frágeis e esperançosos trimetres passarem, preparamos muitas coisas no segundo para desaceleramos no terceiro. Mas temos a sensação, ainda, de que o tempo nos pertence.

Então, o filho já nascido, depois de esperarmos pelo seu tempo de chegada – tempo este que num segundo momento conseguimos quantificar em dias, horas e minutos – nos reporta para outro tempo. O tempo da delicadeza, o tempo da fragilidade, o tempo do desespero às vezes, o tempo do doar-se.

Então, com o filho já nascido, noite e dia se confundem. Horas e minutos não são mais tiquetaqueados pelos ponteiros de um relógio afoito, e sim pelo apetite de um bebê guloso. Dias são apenas encavalamentos e sequências de um ritmo que há bem pouco parecia fazer algum sentido. Segunda-feira é só o dia da ida ao pediatra, quinta-feira é só dia de dar vacina, sábado é com sorte, o dia que o marido não precisa trabalhar. E os meses só fazem sentido quando você se lembra que, naquela data, meses atrás, seu filho nascia.

E então o filho cresce, e você já sabe quando termina o dia para começar a noite, as horas de comer regulam com o ritmo por nós imposto, a semana tem seu caminhar, e os meses seus planos.

E então é o tempo do filho experimentar novos sabores, é o tempo do filho experimentar novos perimêtros, experimentar novas palavras, novas pessoas, novas situações. É o tempo dos pais olharem para si, olharem um para o outro. É o tempo de redescobertas, de novos achados, novos pensares, é o tempo do novo, de novo.

E então você descobre que no tempo de um percurso de 15 minutos, com filho, você demora 45. Mas sem filho, você não veria passarinhos no fio, nem a florada daquela árvore, muito menos todos os gatos do quarteirão. Descobre que no tempo de virar-se para pegar alguma coisa, sua bolsa já está aberta, seu melhor batom comido, seus chicletes de hortelã abertos e lambidos, sua carteira revirada e seus cartões espalhados. Meu deus! você exclama indignada, mas foi um segundo. Um segundo com filho, tem outra escala de medição.

E o pedido de um filho é um pedido decidido, insistente. E dentro das possibilidades de atendê-lo, você por mais rápida que queira ser, se depara com o maior siricotico das últimas 24 horas, e se pergunta, boquiaberta, como pode um serzinho, em tão pouco tempo, fazer o mundo parar? E percebe que com filho, em tão pouco tempo, outro Big Bang pode ocorrer.

As coisas mais prosaicas, corriqueiras e banais, com filho, parecem ter magnitude tsunâmica. Por exemplo, no tempo de lavar, ralar e refogar uma abobrinha, coisa que uma pessoa com um mínimo de intimidade com as penelas, não levaria mais de cinco minutos, correto? Muito, muito mesmo, pode acontecer. Desconsideremos Jamie Oliver, que em 30 minutos prepara uma refeição completa. Desconsideremos, também, meu marido, que demora três horas para preparar um único prato. E abrindo um prênteses, com filho, nós confirmamos que homens, de maneira geral, vivem um outro tempo.

Voltemos à abobrinha e a sua corriqueira maneira de prepará-la. Cinco minutos, é tempo mais que suficiente para seu filho riscar paredes, seus livros da Taschen, seu sofá, que anos atrás seu marido já lhe advertira ser muito claro, os brinquedos de madeira. Cinco minutos?! Realmente, com filho, em cinco minutos, além de você mesma, o mundo pode colapsar.

E no tempo de um xixizinho (da mãe, é claro!)? Plantas podem ser despinicadas em tempo record. E no tempo de passar um cafézinho, que também sem um café ninguém segura esse rojão? Gavetas podem ser esvaziadas. E no tempo de um telefonema? Vasos sanitários podem ser visitados.

Definitivamente, com filho, se vive um outro tempo. Sobressaltos e suprpresas que rendem lembranças risonhas e deliciosas, são uma constante. Com filho, é tempo de olhar o tempo com outros olhos, de sentir o tempo com o coração, de apalpar o tempo com outras mãos. É tempo de pedir ao tempo que não corra tanto. É tempo de voltar no tempo, de parar nele. É tempo de agradecer por viver tempos que nunca, jamais ousara viver.

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