a descoberta do nome, de como se descobre o nome do filho

Uma pequena fábula sobre nomes

Os nomes e os fatos aqui narrados são frutos da imaginação da autora (ui!). Qualquer semelhança com a realidade não passa de mera coincidência.

Na imensidão de um país chamado Brasil, enfurnados nos recônditos de um lugar bem ao sul, moravam seu Werner e dona Petra. Gente simples, gente boa, gente do campo, gente acostumada com trabalho pesado, de sol a sol.  O casal teve quatro filhas: Sarah, Sandra, Silvia e Sophia.
Quando Sophia,  a então caçula da casa, contava com 10 anos de idade, dona Petra engravidou novamente.  Seu Werner tinha certeza de que agora viria o tão esperado varão. Não que não gostasse das filhas, longe dele tal pensamento. É que, sabe como é… Um homem, é sempre um homem. E depois, sempre quis ter um filho para chamar de Hans, assim como seu avô.
Os meses foram se passando, e a gravidez transcorrendo na maior tranquilidade. Mas tranquila mesmo era Dona Petra, que se aproximado da hora, não se importava com os comentários de que já havia passado do tempo daquele bebê nascer.  Ela sabia que tudo tinha tempo certo para acontecer; que nada passava do seu tempo.

Na hora certa, dona Petra pariu a quinta filha. A parteira foi avisar o marido, que ansioso, esperava do lado de fora da sala. Lugar de mulher parindo não era lugar de homem. Incrédulo, entrou para ver a mulher e aquela menininha de cabelos abundantes e escuros, assim como seus olhos também eram de um  escuro profundo. Tão diferente das outras filhas… Não era o pequeno Hans. Hannah, sugeriu a mulher recém-parida, e aliviada por ter outra filha. Não que não gostasse de meninos, não era isso. Mas estava ela tão acostumada com o feminino da terra que semeava e esperava pela colheita, do feminino das mães e das irmãs, do feminino das filhas, do feminino dela mesma ao gerar e parir cinco vezes,  de maneira que agradeceu do fundo de suas entranhas ainda abertas, por aquela bebê toda gordinha e rosada.

Seu Werner não concordou com a sugestão da mulher. Se as outras filhas tinham nomes que começavam com S,  a última não escaparia de tal sina. É que lhe parecia muito injusto “inovar” agora. A mãe discordava com veemência, mas seus argumentos não sensibilizaram o decepcionado pai. Tanto foi que a menina ficou uma semana sem nome. Então, depois de sete dias corridos, seu Werner chegou com a sentença final. Ela se chamaria Solweig. Solweig? O nome da prima que quase veio da Alemanha para se casar com você? esbravejou dona Petra. Nunca!  Mas era época do marido mandou, mulher acatou. E Solweig foi o nome que ficou.

Como era de se esperar, a menina cresceu e foi para escola. E fora do seu núcleo, quase ninguém pronunciava seu nome corretamente ( Zolvaig).  Para facilitar as coisas, a menina dizia que seu nome era Solweig, mas que podiam chamar-lhe de Sol. E ninguém duvidava de que  ela era como o próprio Sol; alegre como o dia, cheia de luz, distribuindo quentura por onde passava.

Não muito longe da propriedade do seu Werner e de dona Petra, moravam seu Nicolai e dona Christa. Os dois tiveram quatro filhos: Jürgen, Jan, Johan e Jonas. A gravidez do pequeno Jonas foi cheia de mal-estares, repousos e preocupações. Quando dona Christa entrou em trabalho de parto, o marido preocupado, correu até a cidade para chamar o médico, pois a situação delicada da mulher exigia um homem douto nas coisas. Dona Christa chamou seu primogênito assim que o marido virou as costas, e lhe pediu que corresse chamar dona Doris, a parteira. Quando seu Nicolai e o médico chegaram, dona Christa já havia parido o quarto filho. O médico chamou o pai de lado, e lhe disse que se a mulher engravidasse novamente, ele não poderia garantir a vida nem da mulher, nem do bebê.  Aquilo calou fundo em seu Nicolai, e resolveram parar por ali mesmo. Para desgosto de dona Christa, cuja criatividade para nomear filhos com a letra J ainda não tinha fim.

Assim como Solweig,  Jürgen não era chamado de Jürgen (Iürgen) fora de seu núcleo. Ora ele era Jurguen, ora era ele Jurgen. De Jurgen para Jorge não demorou muito, e de Jorge para Jorjão menos ainda. Ao ver aquela figura corpulenta e alta, ninguém duvidava que Jorjão até lhe cabia bem.
Um dia, Sol e Jorjão se conheceram. E se apaixonaram, e se enamoraram e se casaram. E prometeram um ao outro, além das juras de amor, que seus filhos teriam nomes simples e comuns. E com o tempo nasceu Ana. A mais bela Ana que o mundo já viu. Ana com dois Ns? Não… vamos poupá-la de ter que dizer sempre que seu nome é Ana, Ana com dois Ns. Ambos já sabiam muito bem, como era ter que soletrar os nomes sempre.

Como era de se esperar, Ana cresceu e foi para a escola. Lá ela era mais uma Ana no meio de outras Anas. Qual Ana? A Ana Maria, a Ana Luisa,  a Ana Amélia? Não, a Ana que é só Ana. A menina ficava furiosa. Nem acrescentar um N a mais para ficar mais elegante, mais “diferente”, seus pais acrescentaram! E justo ela que vinha de uma família onde nomes com Ws, CHs, PHs, tremas e volteios se proliferavam. Ela era A-N-A, Ana. Apenas Ana.
Ana cresceu um pouco mais, e acabou por conhecer José. José, que na falta de um Luís, de um Carlos, de um Antônio, era o  Zé. O José da Sapataria ou o Zé Sapateiro, ofício exercido há três gerações na família.
Zé Sapateiro e Ana com um N só,  também se apaixonaram, se enamoraram e se casaram. E antes mesmo de se casarem, decidiram que seus filhos teriam  nomes únicos, sem precedentes. E antes mesmo dos seus filhos nascerem, selaram seus destinos com nomes “exclusivos” e “exóticos”. Porém, nunca se perguntaram como é que os vindouros rebentos gostariam de se chamar.

Moral da história: A responsabilidade de nomear um filho é grande. O que torna tal tarefa longe de ser simples, e livre de dúvidas. E haja sensibilidade, intuição e conexão dos genitores com o bebê que vem chegando, não é mesmo?

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5 comentários em “Uma pequena fábula sobre nomes”

  1. nosssaaaaa, adorei!

    como vc escreveu bem esse texto, mulher! amei!

    estava até esperando um “preta foi minha bisavó” ou algo assim…. nossa, que fantástica a história, não é possível que vc inventou tudo isso!!! não é justo com quem não tem criatividade nenhuma!!!!!!

    hehehehe

    adorei!

    e adoro “tom”!

    beijos!

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  2. Não vou mentir, jurava que o Hans que depois virou Hanna viraria SHANNA pra combinar com o resto da trupe hahaha

    Christa era o nome da minha oma, veja só!

    Falando em dar nome aos bois…….. minha mãe queria me nomear “Gisele”, até que um dia meu Opa meio alemão disse quando ela ainda estava grávida: “OH, GUÍZELE, NOME PONITA”
    Sem titubear, cá Bruna estou.

    Adorei o texto 🙂

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  3. Hahahahahaha Bruna, só você mesmo pra pensar em Shanna! Aí sim, estaria decretada a desgraça da pobre criança!

    Sabe que eu demorei pra associar que GUÍZELA é a Gisela? Fez bem sua mãe em mudar; eu sou muito mais Bruna.

    Beijo, beijo

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  4. Estou a visitar alguns blogs, e tive o privilégio de encontrar o seu, vi na pagina inicial o que escreveu, e como gostei folheei mais algumas páginas e fiquei maravilhado pelo que vi e li.
    Dou-lhe os parabéns, mas queria deixar um apelo continue assim dando sempre o melhor, boas mensagens, bons temas. Gosto de escrever, mas também gosto de ler bons temas, por isso é que parei aqui.
    Meu nome é: António Batalha.
    Sou um servo de Deus,e deixo aqui a minha bênção,que haja paz,amor na sua vida, muita saúde e felicidade.
    PS. Se desejar seguir meu blog faça-o de forma a que eu possa seguir o seu blog também.

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