Alemanha, antes de ser mãe eu não sabia que..., Da poesia da vida, Do cotidiano, escola, filho Waldorf, Heidelberg, mãe Waldorf, mãe zen

Ouça um bom conselho – Parte 2

 “O tempo perguntou para o tempo qual é o tempo que o tempo tem. O tempo respondeu pro tempo que não tem tempo de dizer pro tempo que o tempo do tempo é o tempo que o tempo tem”.

Eu comprei um livro há algum tempo atrás. Sabe aqueles que a gente vê e de cara passa a achar a leitura obrigatória, neccessária. Esse livro ficou, pelos mais variados motivos, depois de comprado, deixado de lado. Foi a mudança de casa, de vida, que fez com que na arrumação, eu olhasse de novo pra ele com o mesmo interesse que me fez comprá-lo. A viagem fez com que priorizassemos alguns livros para trazer de imediato conosco, e confesso que o fato de ser um livro finhinho fez com que ele ganhasse a disputa entre livros de peso, em todos os sentidos.

Mesmo assim, e mesmo depois da mudança, da chegada e da acomodada, o livro permaneceu de lado. Então, um dia eu resolvi lê-lo e ta-ram… o livro era tudo o que eu precisava naquele momento. O livro em questão se chama Jardim-de-Infância* de Helle Heckmann. O livro muito me fez pensar, mas um trecho em particular me tocou fundo. O trecho em questão eu transcrevo logo abaixo:

“Estar consciente do próprio papel como pai ou mãe requer muito mais atenção. As crianças precisam de tempo, tanto qualitativa quanto quantitativamente. Ser capaz de integrar-se na vida, tendo uma infância em que haja tempo suficiente para imitar a vida em redor, é extremamente importante. A infância nunca retorna. É uma situação única.”**

Ser capaz de integrar-se na vida ao seu redor… Tempo… Tempo… Tempo… O trecho acima, mais as mensagens que recebi, mais a pergunta da querida Celi, causaram uma revolução em mim. Já não era sem tempo.

Antes mesmo de começar com essa história de voltar para Alemanha, eu pensava em colocar o Tomás na escola. Pra cuidar das minhas coisas, sabe? Nem eu sei bem o que são essas coisas, mas eu queria cuidar delas. Quando é que você vai voltar a cuidar das suas coisas? ou ainda É , já está na hora de você correr atrás das suas coisas!, muita gente próxima, muita gente querida, e muita gente que não me conhece patavinas, sempre me confrontava com as minhas coisas.

Por minhas coisas, eu devo entender uma vida produtiva intelectual e financeiramente, uma vida além e aquém das rotinas e dos afazeres doméstico-maternais. Eu nunca escondi de ninguém que eu fico com o Tomás, e que eu não trabalho fora de casa. E com o tempo a decisão de ficar com meu filho foi pesando. Não pra mim, mas para os outros.

Mas é claro, que com o tempo, isso também passou a me incomodar. Perguntas do tipo, o que eu tinha estudado, onde eu tinha estudado, o que eu já tinha feito, se eu realmente estava 100% do meu tempo em casa… começaram a ficar desconfortáveis. Minhas respostas de que meus planos “profissionais” eram para um médio, e até longo prazo soavam tão sem crédito ou tão absurdas, que eu já tive que ouvir que filho atrapalha um bocado a vida da mulher.
 
Então, pouco a pouco, eu fui sendo convencida ou fui querendo me convencer, que dois anos full time Mom já estava de bom tamanho, de que realmente eu precisava correr, e correr louca e afoitamente, atrás das minhas famigeradas coisas. Dentro dessa forma de pensar parecia óbvio que, onde quer que eu estivesse, Tomás com pouco mais de dois anos iria pra escola.

E a resposta, minha querida Celi, à sua pergunta é: o motivo para eu ter colocado o Tomás na Krippe, tão cedo, tão logo chegamos à Alemanha, foi porque eu precisava correr atrás das minhas coisas, fazer as minhas coisas.

No meio do caminho eu esqueci que o Tomás faz parte das minhas coisas, no meio do caminho eu esqueci que a Alemanha era um mundo absolutamente novo para meu filho, no meio do caminho eu esqueci que meu filho passou a ter só a mim e ao pai, no meio do caminho tinha uma pedra, e essa pedra atende pelo nome de minhas coisas.

Não me entendam mal. Eu não acho que depois da maternidade a mulher necessite ser irremediavelmente a santa mãe que a tudo abnega em prol do filho abençoado amém. Eu continuo o mesmo bicho egoísta e egocêntrico (OK, um pouco menos egoísta e egocêntrica),querendo  meus momentos e tempo para, vejam só, minhas coisas. Mas minhas prioridades mudaram um pouco (e bota pouco nisso) depois da chegada do Tom. E não estou entrando na enfadonha seara das mães que trabalham fora vs mães que ficam em casa. Eu acredito, de verdade, que cada família tenha um ritmo, uma dinâmica, suas particulares circunstâncias que levam a uma mulher trabalhar ou não fora de casa.

Todos os dias, ao levar meu filho para escola eu pensava se aquilo era o melhor para ele naquele momento. E filho fareja melhor do que qualquer lobo mau de conto de fadas a insegurança da mãe. Se eu não estava segura para deixar o Tomás lá, porque ele haveria de ficar seguro para lá permanecer? Não é fácil ser demascarada por um homenzinho de um metro de altura, detentor de dois olhinhos redondos e chorosos. Desconcerto é pouco.

À essa altura você já deve ter sacado que o Tom não vai mais à escola. E não vai mesmo. Depois de uma conversa longa e franca com a pontecial futura cuidadora do Tomás ficou claro para nós que ele ainda não está preparado, que ele precisa de um pouco mais de tempo para chegar na Alemanha.  Tudo bem ele precisar de um tempo maior, tudo bem nós precisarmso de um tempo maior. Assimilar à nova vida ao seu redor leva tempo, um tempo que precisa ser respeitado. Faremos uma pausa até setembro.

Sabe, antes mesmo do Tom nascer eu já havia optado por um parto natural, porque acreditava que era a melhor maneira dele chegar a esse mundo no tempo dele. E assim foi. Tomás nasceu no tempo dele; o seu tempo foi respeitado. Por que cargas d’água essa minha vontade de respeitar o tempo do meu filho ficou lá no parto?  Respeitar o tempo de nascer é um começo. É só o começo.

Mas e quanto às minhas coisas? As outras coisas, diferentes do Tomás, eu vou me ocupar, adivinhem? com o tempo. Quando eu estiver preparada, o Tomás também estará. E que tempo é esse? perguntam os mais afoitos. Não importa. Afinal, como já disse o trava línguas lá em cima, eu também não tenho tempo de dizer pro tempo que o tempo do tempo é o tempo que o tempo tem.

Uma das coisas que eu mais gosto de estar aqui na Alemanha é poder ver a mudança das estações. Nosso andar fica exatamente na altura da copa de duas árvores. Quando aqui chegamos estava muito frio, e os galhos desnudos das árvores acomodavam gentilmente a neve que caía. Com o tempo, a neve e o frio deram lugar à temperaturas mais amenas e aos brotos que vieram a florescer. Hoje a copa das árvores está coberta de verde, e dá uma privacidade ímpar à nossa sala de jantar. E olhando de fora, parece que foi de um dia para o outro. Mas não foi. Foi um processo, nem rápido nem lento. Foi no tempo que precisava ser. E quem passou pela friaca forte do hemísferio norte sabe que nem os desejos mais fortes, nem as preces mais crentes conseguiram apressar a chegada da primavera. O tempo se ocupa dele mesmo, independente de nós.

E antes que esse post vire um post pseudo-filosófico eu vou me embora, porque meu filhote já dormiu, e agora é tempo de arrumar a louça e tomar um banho.

Ah! o meu conselho? Dê tempo ao tempo!

*************

Um muito obrigada mais do que especial ao João, pai do Tomás e meu companheiro de vida e da lida, que me apoia em todas as minhas decisões. Sendo ouvido sempre aberto e ombro sempre disposto para inevitáveis choros, respeitador do nosso tempo, meu e do Tom, porque o nosso acaba sendo também ele e dele. Obrigada por tudo!

*************

* Heckmann, Helle. Jardim-de-infância: estruturando o ritmo diário segundo as necessidades da criança pequena. Federação da Escolas Waldorf no Brasil: Aliança Pela Infãncia, 2008

** idem, pág. 11

Anúncios

8 thoughts on “Ouça um bom conselho – Parte 2”

  1. emocionei…. emocionei….
    nossa, que fantástico, Gabi, que fantástico!
    Fico feliz por ter repensado a ideia da escola, não necessariamente por tê-lo tirado da escola, não isso, mas ter parado e admitido que, talvez, mesmo com uma excelente intenção, não tenha sido o melhor momento, no melhor tempo. E isso é fundamental para uma boa mãe, para todas nós que queremos ser melhores e mais completas. Vc deu um passo enorme na minha escala de “mãe ideal”, mesmo que esta não exista. Entendo que voltar atrás seja tão difícil quanto o primeiro passo – ou ainda mais, então, só tenho a admirar a tua coragem, o teu carinho e a dedicação ao Tom, que, sortudo, tem um par de pais que o amam acima de tudo.

    Quanto às tuas coisas…. aposto que vc arruma um tempo, se quiser realmente fazer algo “para si”. Ainda assim, eu sinto uma inveja horrorosa das mães que podem ficar em casa com seus filhos, vê-los crescer, aprender a falar, andar, cair, a desfraldar, a escrever letra por letra… eu te respeito, te admiro e te invejo. Não por mal, por favor. Invejo a tua oportunidade e acho que hoje, se eu ficasse em casa com a Laura e me perguntassem “e as tuas coisas???” eu ia falar bem abertamente “enquanto eu trabalhava, só fazia as minhas coisas e sentia MUITA saudade da minha filha. Hoje eu fico com ela integralmente e sinto saudade das minhas coisas, mas, entre trabalho e filho, sentir falta da tua cria dói mais”.
    Acho que é isso. A minha opinião de quem nunca sentiu saudade de ir a uma reunião ou viajar com uma pasta e contratos no bolso, mas, que, durante uma reunião que envolve todo o governo federal, o Banco Central e o Ministério da Fazenda (com os representantes deles), eu só pensava no cheiro da minha filha, no seu hálito, no toque da sua pele.

    Beijos grandes, parabéns, Gabi, parabéns!!!

    Curtir

  2. Ah, que lindo texto! Uma narrativa tão introspectiva e sincera dos sentimentos que perpassam a vida de uma mulher, de uma mãe preocupada com a felicidade do filho. E gostei da reflexão da Helle Hechmann sobre a infância. É mesmo um momento único em nossa existência. Teremos a vida toda para lidarmos com os confrontos chatos da vida adulta. O tempo é mais longo da infância. Deve ser por isso que nos marca tanto.

    Parabéns por deixar respeitar o tempo de vocês dois!

    Curtir

  3. Dani, obrigada pelo carinho! Adoro seus comentários!

    Nenhuma opção é fácil,né!? A gente nunca pode ganhar todas as coisas. Mas como eu disse, “optar” por trabalhar fora ou não, depende de muitas variáveis, e só quem está na pele pra saber.

    Beijos, querida!

    Curtir

  4. Gaby, quase chorei. É, pq nao acredito que outras maes nao passem por esse tipo de dilema… Você foi ótima na escrita, no desenvolvimento do raciocínio, na reflexão. Nos pegou em cheio e só deu vontade de ler mais e mais. Volte a escrever sempre por aqui. É um prazer aprender a pensar com você! Beijo enorme

    PS- A Bia começou em uma escola tradicional. Depois de algum tempo, fiquei insegura e a coisa desandou. Felizmente encontrei a Montessori que além do método, é uma cooperativa de pais. Estou satisfeita. Agora consigo fazer “algumas coisas”. Nem tudo o que sou cobrada, mas aquilo que o tempo de distância da Bia permite. Ela ainda é prioridade do meu tempo! Por isso, o parágrafo do texto que você transcreveu foi perfeito. Adorei sua forma de pensar e conhecer um pouco da escola Waldorf.

    Curtir

  5. Clap, clap, clap minha querida amiga Gabi. Que texto lindo, de total sensibilidade e percepção. Que emoção, por um instante quase chorei! Imagino tudo isso que passou e sentiu nesse início, nesse processo todo de adaptação. Vivi algo muito parecido quando cheguei aqui. Já contei para vc.
    Está certíssima amiga. Espero que tenha ajudado você, viu!? De maneira alguma quis colocar mil questões na sua cabeça. Minha intenção foi de querer ajudar…. somente ajudar.
    Achei o máximo esse livro e o tempo todo me pego pensando nisso. Quando estou exausta, cansada, querendo fazer as MINHAS COISAS logo vem a cobrança e o conhecimento de que a infância é uma só. Que deve ser vivida intensamente por eles e que nós precisamos ajudá-los, estarmos ao lado para o que der e vier. Esse tempo será muito bom! Você vai ver! Aproveitando esse tempo bom, essa estação maravilhosa, que tal marcarmos um encontro, hein!? Podiam passar um final de semana conosco ou simplesmente um dia inteiro. Vem, vem, vem… Pense com carinho e nos falamos via skype.
    Um grande beijo.

    Curtir

  6. Oi Cintia! Fico feliz em saber que o que aqui compartilho faça parte da vida de outras mulheres e mães. A gente sempre se acha sozinha nas nossas caminhadas, mas é sempre bom saber que de fato não estamos. E é sempre bom encontrar pessoas pelos nossos caminhos afora, né?!

    Beijo

    Curtir

  7. Obrigada Celi! Ajudou muito, querida! Aquela nossa conversa foi fundamental para mim, para nós!

    Adoraria visitar vocês! E depois dessas semanas intensas acho que realmente merecemos uma pausa, ver gente querida, papear! Vamos nos falando!

    Beijo

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s