Alemanha, antes de ser mãe eu não sabia que..., Da poesia da vida, Do cotidiano, Tomás

Ziguezagueando um post

Eu tenho um super despertador.  E eu nem preciso programar, ele se programa sozinho. E se acontecer uma tempestade solar, e se todos os aparelhos eletro-eletrônicos pifarem, e se todas as pilhas do mundo acabarem, meu despertador continuará funcionando.

Meu despertador é grande e deliciosamente fofo. E quando ele desperta, como é de se esperar em despertadores, ele quer que a casa toda acorde junto.

imagem daqui

Meu despertador atende pelo nome de Tomás, é de fabricação única e própria, feito com muito carinho, não está à venda (embora eu gostaria de emprestá-lo, mas só às vezes. Especialmente nos fins-de-semana), não se encontra no mercado e acorda com o sorriso mais lindo do mundo.

Há três anos atrás, nem nos meus maiores devaneios, eu poderia imaginar minhas manhãs começando dessa maneira.

Por falar em três anos atrás…

**********

Há três anos atrás eu me descobria grávida. Era primeiro de Maio de 2010. Há três anos atrás nós morávamos em São Paulo.

Por falar em São Paulo…

Eu adorava nosso apê em São Paulo. Era daqueles apartamentos antigos, do início da década de setenta, amplo e espaçoso, extremamente charmoso.

Mas ele tinha um problema insolúvel: a falta de sol. Situado no terceiro andar de um edifício rodeado de tantos outros, apenas uma fresta fina e esquálida de sol adentrava aquelas janelas. Olha, não é por nada, mas eu passei mais frio naquele apartamento do que em toda minha estada na Alemanha.

O jeito era sair para se aquecer na rua. Por sorte, tínhamos a Praça Buenos Aires como quintal, e a usávamos não só para tomar um solzinho, como também para ter paz e para ter o mínimo de contato com a natureza, mesmo que no meio daquela selvinha de pedra.

Mas voltando ao primeiro de Maio de 2010….

**********

 Naquele Maio de 2010 minha menstruação estava atrasada há poucos dias, e voltando do nosso banho de sol na Praça, eu disse para o João que queria comprar um teste de gravidez.

Outro?  Espera mais um pouco!

Eu quero hoje.

Percebendo que não valia à pena argumentar:

Então compra só um. E o mais barato que tiver.

A pessoa era a ansiedade em forma de gente, de maneira que jamais, jamais, esperaria até a manhã seguinte para fazer xixi sob aquele palitinho.

Chegando em casa e dois litros e meio de água depois, estava eu utilizando o teste. Depois de alguns minutos apareceram as duas esperadas listras.  Não eram tão fortes, mas eram suficientemente decentes.

João, eu estou grávida! 

Deixa eu ver!

….

É, parece positivo. Mas calma!

Ignorando a última frase eu digo

Eu estou grávida, deixa eu ligar para meus pais!

Não, tá louca??!!

Pro André e pra Carmen?

Não!!

E foi assim que eu, com o teste de gravidez mais fulera da farmácia, me descobri grávida naquele Maio paulistano.

Era sábado, e meu marido pragmático, aconselhou-me a ir na segunda-feira fazer o exame de sangue.

Na segunda cedo estava eu em um dos muitos laboratórios da igualmente vizinha Avenida Angélica.

Bom dia! Eu queria fazer um exame de gravidez.

Tem o pedido médico, senhora?

Não, eu queria fazer particular. Quanto custa?

25 Reais.

Vinte e cinco reais para saber se eu estava grávida?? Paguei sorrindo, e francamente, vinte e cinco foi de graça!

**********

Por falar em Avenida Angélica…

Eu me lembrei da minha amiga Thaís que mora na Frei Caneca, e do quanto eu ia até à casa dela. A pé. E adorava fazer aquele trajeto a pé. Às vezes ia por cima, às vezes por baixo, às vezes por dentro do bairro.

E ao me lembrar desses trajetos todos, eu me peguei sentindo saudades de São Paulo.

Eu odiava muita coisa por lá, é bem verdade. Precisava ser tudo tão longe, tão cheio, tão caro, tão congestionado, tão cinza, tão inseguro, precisava tanta pressa, tanta cegueira do outro, precisava ser tudo tanto nessa cidade tão superlativa?

Mas amava um tanto mais de outras coisas. Amava os cinemas, os teatros, e as livrarias, amava a comida árabe, judaica, japonesa… amava os museus, as músicas, e os botecos, amava a beleza escondida, amava o ininterrupto, o contínuo, amava e amo, sobretudo, as minhas pessoas queridas que por lá ainda estão.

E foi lembrando da Frei Caneca, da Angélica, da Paulista e da Augusta, que eu me dei conta de que tudo deixa saudade. Até São Paulo.

**********

E por falar em saudade…

Eu lembrei com saudade da minha gravidez. Muita saudade, até.

E eu achava que nunca, nunquinha me pegaria falando isso, mas… quem eu era mesmo antes do Tomás nascer?

Eu atravessei uma enorme ponte nesses três anos; saí de um jeito e cheguei do outro lado mãe. Mãe e um montão de coisa mais que fui pegando durante a travessia. E olhando pra trás, eu também me dou conta do quanto que eu deixei, e achava que nunca deixaria. De repente muita coisa, muita gente perde o sentido. E no mesmo repente muita coisa, muita gente passa a ter outro sentido ou até mais sentido.

Seria a maternidade uma ressignificação contínua da vida? Seria a maternidade um catalisador de processos pessoais, emocionais? Seria a maternidade a forma mais rasgada de ver a beleza na vida e da vida?

**********

E por falar em maternidade…

Eu não tenho resposta certa, convicta para nenhuma das perguntas acima.

Mas há três anos atrás, se me aparecesse um anjo e me contasse como seria a minha vida dali pra frente, assim na lata, na cara, sem me poupar de nenhum detalhe sórdido, assim, explodindo meu balão de ilusão que eu alimentava junto com aquela barriga grávida, eu certamente não acreditaria.

E talvez a beleza da vida esteja exatamente nas descobertas, nas quebradas de cara, nos acertos. Talvez seja olhar para trás e saber rir e chorar do que passou. Talvez…

O que eu sei até agora é que na maternidade não existem perdedores e vencedores. Não existem fracassos. Existem aprendizados.

E talvez a beleza esteja mesmo nos aprendizados.

**********

E por falar em beleza…

Se há três anos atrás, alguém me dissesse que eu veria meu filho na sala antes das seis da manhã lendo um livro para o ursinho dele, que ao fazer meu primeiro xixi do dia uma pessoinha puxaria seu banquinho e ficaria do meu lado tagarelando nesse mesmo horário matutino e que, apesar da madrugadisse, eu renovaria a minha convicção de que viver vale a pena, e que eu me apaixonaria um pouquinho mais… eu também duvidaria.

Então, eu deixo pra ter certezas, pra saber das coisas para amanhã ou depois.

Porque a única certeza que eu tenho hoje é de que amanhã estaremos todos, antes das seis, em pé.

E ainda assim a vida vai continuar bonita. Mais até, talvez.

**********

Anúncios

8 thoughts on “Ziguezagueando um post”

  1. Que texto mais lindo, Gabriela!

    Você criou imagens em palavras e eu me vi em SP, em todos os lugares que você descreveu. Também vi a figura do Tom lendo para o ursinho, sentado no banheiro…Que riqueza de momentos!!
    E pude vislumbrar um pouco deste sentimento materno,embora eu sei que é único para cada uma que tem filho e, para quem não tem, pode apenas imaginar, como o meu caso.
    De toda maneira, eu entrei um pouco no seu mundo, nos seus sentimentos e foi um super presente desta manhã de sábado!

    Obrigada por esta narrativa tão terna!
    Beijos, Alê!

    Curtir

  2. Oi Alê! Obrigada você por comentários sempre tão doces!

    Esse foi um post que saiu assim, sem querer, depois de ir costurando pensamentos, e mesmo assim quis compartilhar.

    Fico feliz em saber que tocou seu coração, assim como tocou o meu!

    Beijos, querida!

    Curtir

  3. Que texto lindo, emocionante que faz qualquer um transbordar em lágrimas! Que sensibilidade Gabi! Chorei!
    Realmente eles mudam a nossa vida para melhor! O que passou passou e de agora em diante tudo fica mais colorido, no qual qualquer dificuldade por maior que pareça ao lado deles torna-se menor… Eles nos dão força para continuarmos a caminhada diária longe do nosso país de origem.
    “E talvez a beleza da vida esteja exatamente nas descobertas, nas quebradas de cara, nos acertos. Talvez seja olhar para trás e saber rir e chorar do que passou. Talvez…”
    Essa sua frase diz um tanto e pouco a mais…. Hoje está fazendo 4 anos que estou na Alemanha e essa frase completa o tanto que penso.
    Um grande beijo.

    Curtir

  4. Que delícia ler esse texto!!!!!
    Eu também me chamo Gabriela e (feliz ou infelizmente) ainda moro em São Paulo… engraçado como essas suas palavras me deixaram com boas lembranças daqui e das minhas andanças pelo Parque Buenos Aires e pela rua Frei Caneca… um tempo bom que passou, pois agora minhas andanças ficam pela Vila Madalena mesmo.
    Por outro lado e talvez por estar “por aqui” a lembrança do Parque Buenos Aires me levou (por pensamento) para os parques deliciosos da cidade de Buenos Aires, onde tive vivências incríveis!!
    Obrigada por me proporcionar essas sensações xará!
    Um beijo,
    Gabriela

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s