antes de ser mãe eu não sabia que..., Do cotidiano, Tomás, um bebê muda o que? tudo

Toda rotina tem seu encanto*

Texto publicado originalmente no MMqD em 29 de Outubro de 2012

Imagem daqui

 

Não sei você, mas eu, como boa geminiana que sou, adoro uma mudança. Não só as mudanças geográficas, as mudanças na mobília, no guarda-roupa, na aparência. Adoro coisas diferentes no meu dia-a-dia, adoro não seguir nenhuma rotina pré-estabelecida.  E sabe, antes de ser mãe, também graças à minha profissão, eu podia ser e estar mais livre, testar caminhos diferentes na ida e na volta, não voltar direto pra casa, não jantar ou não almoçar, me jogar numa tranqueira, passar uma tarde num museu ou em uma livraria, enfim, eu tinha tempo, vontade e condições para viver essa vida “desregrada”, essa vida “livre”.

Essa coisa livre e desregrada, essa vida aparentemente louca e selvagem, claro, não era uma eterna constante.  Por mais que eu não tivesse um chefe direto, eu também tinha que cumprir prazos, e por mais que fizesse meus horários, alguns deles eu não podia flexibilizar.  Mas ainda assim, eu tinha uma maior liberdade de ação e até mesmo de ócio nos meus dias pré maternidade.

Mas então, estava tudo muito bem, tudo muito ótimo, e ainda assim eu quis muito ser mãe. Alguém aqui conhece esse papo?  E o desejo só fez crescer. E como acontece com todo desejo, a gente só pensa no querer. E esse querer era tão bom, era tão grande, era tão maior que tudo, que quando dei por mim, não tinha mais volta. E então, desse querer enorme, desse querer intransigente, desse querer encantador nasceu Tomás.

E quando a minha vida era ainda somente essa querência toda, e mesmo depois, embuchada do filhote, claro que eu pensava que a minha vida mudaria, claro que eu pensava que eu teria que abrir mão de muitas coisas, claro que eu pressentia que a vida, dali pra frente, seria diferente. Mas o quanto tudo, tudo, muda com a chegada de um filho, só o tempo e, meu próprio filho, poderiam me mostrar.

E então, como era previsto, minha vida mudou. Pra caramba. Meus horários, de repente, não eram  mais meus, minha rotina ou falta dela, não era mais minha, nem meus peitos eram mais meus! A sensação era de que minha vida não era mais minha, de que eu não era mais eu. Como pode um serzinho tão pequeno, tão frágil, ter esse poder enorme? Parece que a luz que eu via no fim do túnel, nada mais era do que o trem que vinha me atropelar. Isso, de algum modo, te soa familiar?

Mas os dias foram passando, a  “calmaria”, dentro do possível, foi se instalando, eu e Tomás fomos nos acostumando. Eu com ele, ele comigo e com a vida. E a rotina de mãe, pai e filho foi se azeitando, e rodando, e juntos passamos a viver uma outra vida.

Com meu filho crescendo, eu fui percebendo, que não dava pra ser cada hora de um jeito, cada dia como melhor me conviesse. As necessidades do Tom foram tomando outras proporções, e eu percebi, que se não me organizasse, eu me perderia e me desesperaria.

E olha, não importa se você, assim como eu, fica com a cria em casa ou se você trabalha fora de casa. Talvez, para as mães que trabalhem fora a imposição dos horários para chegar no  trabalho, deixar filho na escolinha e tudo o mais, ajude na criação e na manutenção de uma rotina. Mas e depois do expediente, e nos fins de semana, não é mesmo?

Posto tudo isso, fica a pergunta: o que faria uma mãe diante das novas circunstâncias e exigências da vida? Resposta correta (se é que existe resposta correta pra vida): se adequaria à elas, claro! Mas eu, além de boa geminiana, sou muito teimosa, e peitei tudo e todos, querendo provar  que meu estilo de vida anterior poderia continuar tranquilamente, e que meu filho, como uma nova peça naquela antiga engrenagem, é quem deveria girar conforme meu ritmo. Alguém aqui já tentou isso? Desaconselho fortemente.

Como disse um filósofo, ou um poeta, ou um sábio, não sei bem ao certo, para se achar é preciso se perder. E eu me perdi. E me desesperei. E aos poucos, aos trancos e barrancos, com erros e acertos, com momentos de “abaixo à rotina”, intercalados com a imposição de uma rotina militar, fomos achando nosso equilíbrio familiar, e percebendo, como e porquê, o que dá e o que não dá certo.

A repetição das coisas no dia-a-dia me parecia muito enfadonha, e nada mais. E engraçado, o que antes era apenas coisa de Super Nanny maluca, passou a fazer algum sentido, e horários começaram a ser seguidos. E um outro ritmo foi se consolidando. E tal como numa orquestra, procuramos pela sintonia, pela afinação e pela parceria. Nem sempre é fácil conduzir essa batuta, mas a minha experiência tem me mostrado que quanto mais a rotina é seguida, mais fácil é sair dela sem danos para os envolvidos. Quanto mais a rotina é seguida, mais a exceção é tratada e apreciada como exceção. Quanto mais a rotina é seguida, mais calmos ficam mãe, pai e, principalmente filho.

Confesso que em alguns dias esse papo de “todo dia ela faz tudo sempre igual”, e principalmente a parte do “me sacode às seis horas da manhã” (que no meu caso, fica a cargo do meu filho me sacudir), me causa uma angústia, uma vontade de fugir, uma vontade de, em plena terça-feira, ter um dia, 24 horas inteirinhas, só e só pra mim. Isso, de algum modo, te soa familiar? Por favor, diga que sim!

Mas a gente vai levando, com ginga, com bossa, com choro, com reza. E vai deixando se levar, porque ser mãe é também seguir um pouco da intuição. E vai adestrando o olhar e o coração para as sutilezas e belezas que só dia-a-dia, que só uma refeição em família, feita religiosamente no mesmo horário e no mesmo lugar têm. E vai aprendendo que toda rotina também pode ser cheia de encantos.

*Título inspirado no filme homônimo de Yasujiro Ozu.

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6 thoughts on “Toda rotina tem seu encanto*”

  1. Ai Gabi, sinto igual a vc…. eu trabalho fora e não fico a cargo da casa e da laura, então não tenho este lado do cansaço, mas… tenho outro… e a vontade de sumir e ter um dia inteiro para mim é cada vez mais constante.

    nada de querer voltar atrás ou estar arrependida, nada disso… é só querer. Quere um dia meu. Um descanso. na verdade, o que eu queria MESMO era a cabeça vazia, queria parar de pensar um pouco, parar de lembrar, de fazer listas, de enumerar. Parar de me preocupar, de arquitetar, de organizar. Queria muito minha cabeça vazia por algumas horas…

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  2. Gaby, nao sei viver sem rotina. Nao mais. E sobre o que a Dani escreveu aí em cima, eu tenho um complemento. Fui fazer uma aula de yoga com meditacao. Entao o professor fala: “nao pense em nada, deixe a cabeca vazia. Serena.” – Fia, im-pos-sí-vel! Depois que a gente se torna mae, NUNCA mais a cabeca fica vazia. É brincadeira? 😮 😮 😮
    Beijos

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  3. Oi Dani! Super te entendo. A cabeça nunca fica vazia, o que dá uma sensação maior de cansaço.
    Mas a gente desabafa aqui, escapa um pouco ali, encontra ajuda acolá e vai e encontrando um meio termo.
    Beijo

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  4. Oi Cintia! A rotina ajuda muito! Mas eu confesso que tem dias que ela me sufoca um pouco.
    Essa coisa de meditar e não pensar em nada definitivamente não é pra mim.
    Depois que tive filho, então… Como é difícil não pensar em nada.
    Beijo

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  5. Mesmo que antes não tinhamos uma rotina estabelecida com a vinda dos filhos eles acabam fazendo com que nosso dia a dia seja diferente, que tenha horários. Eles acabam, indiretamente, estabelecendo isso para nós, com as inúmeras vontades e necessidades .Não é mesmo?
    Dá segurança para eles e para nós também… felizmente ou infelizmente?! rs rs rs
    Sabe que também tem dia que não gostaria de levantar da cama e lembro que temos horários, que os meninos tem um tempo diferente do nosso! Ahhhh difícil, dá uma preguiça! Mas a vida mudou… Um dia que enfrentamos numa boa, outro que queremos sumir do mapa e, assim a vida segue…. rs
    Beijo grande querida.

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  6. Oi Celi! Realmente, crianças pequenas sentem muita segurança com a rotina. Eu é que tenho dificuldades com ela :-). Mas eu percebo claramente que uma rotina só faz bem para o Tomás. De novo, sou eu quem preciso me disciplinar; o Tomás entra fácil na rotina.
    Beijo

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