a vida é mais, Alemanha, antes de ser mãe eu não sabia que..., Da poesia da vida, dilemas da vida moderna, Do cotidiano, Heidelberg, mundo afora

Não se afobe não que nada é pra já*

J.  é casada com B., e ambos são pais de D. (2 anos) e de M. de apenas 8 meses. Quando D. ainda era um bebê, J. se candidatou para uma bolsa de estudos na Alemanha.. J. comemorava o fim da amamentação com taças e mais taças de vinho quando descobriu-se grávida de M.. Logo agora que eu parei de amamentar? Logo agora que eu me candidatei para uma bolsa de estudos em outro país? Não importava o motivo, a pergunta Logo agora? era o principal.  J. ainda se recuperava da notícia da segunda gestação quando a notícia da aprovação da bolsa saiu. Não era um bom momento, mas desistir da bolsa também não era uma opção. J. conseguiu adiar sua vinda para à Alemanha. Mesmo assim, ela e seu marido aterrisaram numa terra estrangeira com dois bebês à tiracolo. A pequena M. contava apenas com dois meses recém-completos, quando por longínquas terras aportaram.

O marido de J. conseguiu uma licença de doze meses em seu escritório, e topou o desafio de ser “dono-de-casa”. A ideia original era colocar D., a então mais velha na creche, e ele ficaria  “apenas” com a bebê.  No entanto, a adaptação de D. foi extremamente sofrida e acabou não se dando. Tudo bem, disse ele; eu fico com as duas.

À essa altura J. se perguntava todos os dias o que ela estava fazendo na Alemanha; não havia um só dia que ela não pensasse que aquilo tudo não passava da mais pura loucura. Porém, ela, eles à dois, eles à quatro, porém a vida, porém tudo e todos se arranjaram, e à sua maneira, as coisas foram se acertando.

Todas as noites J. acorda mais de uma vez, seja para dar de mamar à sua caçula, seja para acudir sua mais velha. E na manhã seguinte, J. não pensa no cansaço, na falta de sono. J. diz que não pensa em nada, que sai de casa e vai trabalhar mais um pouco em sua tese de doutoramento em filologia do grego antigo.

J. diz que de alguma maneira é possível, que de alguma maneira funciona, que de alguma maneira  ela conseguiu bons progressos em seu trabalho. J. e B. estão há quase sete meses na Alemanha, e não conhecem direito a cidadezinha linda em que estão morando, e muito menos pensam em viajar pela Europa, como era o planejado quando ao se candidatar para bolsa tinham apenas D.. J., B., D., e M., vivem um dia de cada vez. E para eles está bom assim, tem sido bom assim.

J. não pensa em fazer um doutorado brilhante, nem em participar das maiores e melhores conferências de sua área. J. é grata à oportunidade que teve, ao reconhecimento acadêmico que recebe não só de seus colegas como de seu Professor; J. é grata ao marido e ao seu apoio, J. é grata às suas filhas, sobretudo às suas filhas. E sua gratidão é genuína e até palpável.

Talvez J. não pense muito sobre, talvez não dê muita importância para, mas a verdade é que J. é bonita que só vendo. Talvez ela acredite que tenha olheiras enormes, talvez ela pense que seus cabelos poderiam estar melhor, talvez ela acredite que seu corpo esteja longe de voltar ao “normal”.

A verdade é que olhando de fora, J. é dona de uma beleza franca e real, uma beleza tão feminina e tão dela, que ao olhar para ela fica difícil não pensar em uma deusa grega. Exalando feminilidade por todos os poros, compartilhando força e determinação. J. é humana mas tem algo de sobre-humano também. Algo que nos fascina, que nos encanta, que nos intriga.

Mesmo assim, J. é real, J. e sua família existem. E moram no prédio ao lado do meu. J. é tão mulher e tão mãe quanto eu, quanto você. Tão humana quanto nós todas juntas.

E quando eu penso que não dou conta de nada, que minha casa está fadada ao caos absoluto e sem fim, que eu sou uma merda em forma de mãe, que minha aparência não tem mais salvação, que meu marido não merece uma mulher tão incapaz, que blá blá blá, eu paro e me lembro da J.. Eu não me comparo com ela, porque sei que cada um tem uma vida, que cada um, o que quer que isso signifique, segue o seu próprio destino.

E daí eu penso que eu tenho muito a que ser grata, que eu já aprendi um bocado de coisa nessa vida, e que já não posso mais me dar ao luxo de esquecê-las. E daí eu penso que de fato o essencial é invisível aos olhos, e que já faz um tempo que eu tenho procurado pelo essencial na minha vida, nas minhas relações, ao trilhar meus caminhos. E daí eu penso que se já faz algum tempo que eu tenho vivido procurando ser fiel à mim mesma e aos meus princípios, uma hora tudo há de se arranjar.

Não como num passe de mágica, não como algo caído do céu, que fique claro. Já não sou mais tão ingênua assim. Mas sim porquê ao viver a vida do jeito que acredito, a vida lá na frente saberá me devolver. A vida sempre devolve.

E mais uma vez eu volto a pensar na J., que apesar das dúvidas, dos medos, das circunstâncias… se deu pra vida. E a vida tem se dado pra ela. Seja em forma de força, seja em forma de otimismo, seja em forma de amor, seja em forma de recursos internos e externos inesperados, seja na forma do que for.

E daí eu penso que vale a pena se dar aberta e rasgadamente para a vida. E daí eu penso que o poeta estava mais do que certo. De fato, a vida só se dá pra se deu!

E tudo se aquieta aqui dentro de mim.

*Da canção Futuros amantes do sempre Chico Buarque

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2 comentários em “Não se afobe não que nada é pra já*”

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