antes de ser mãe eu não sabia que..., Da poesia da vida, Do cotidiano, mambembe, mundo afora, Tomás

Tudo o que eu me lembro sobre livros

Mamãe, eu quero colocar um livro em cima do outro até chegar no céu!
Eu sempre gostei muito de livros, sempre. Quando era menina, bem menina, e nem podia ler ainda, me fascinavam eram as ilustrações. Às vezes tão expressivas, tão reais, que pareciam querer sair das páginas a qualquer momento. Eu não me lembro como foi a sensação de ler sozinha, nem me lembro qual foi o primeiro livro que li sozinha. O que eu me lembro é que livros sempre fizeram parte da minha história de vida. As leituras da escola nunca foram pra mim um martírio, uma coisa enfadonha. Assim como a lista de livros para o vestibular também não o foi. É bem verdade que eu gostei mais de uns do que de outros, e que se relesse tantos outros hoje, sem a pressão do tempo, com a maturidade que tenho, com o conhecimento de mundo que adquiri, certamente aproveitaria-os muito mais.
Quando eu era menina, eu bem me lembro que não podia ter todos os livros que queria. Na verdade, eu nem tive muitos. Livros infantis eram tudo, menos baratos. E lembro também, que eles ficavam resguardados às livrarias pouco aconchegantes e convidativas, onde se escondiam no meio de tantos outros livros didáticos. Nessas livrarias, a gente só entrava mesmo era para comprar a lista de livros que usaríamos naquele ano letivo. Livros extracurriculares, por assim dizer, minha mãe comprava através de catálogos.
A melhor coisa que meus pais fizeram para mim foi tornarem-se sócios de um Gabinete de Leitura. Lá eu criei asas para voar para muito além daquela pacata e provinciana Jundiaí da minha infância e primeira adolescência. Lá eu delirava de alegria. Lá, aos doze anos, eu conheci os grandes clássicos, os grandes autores, os pequenos e os desconhecidos também. Eu me lembro que eu levei pra casa um exemplar da Divina Comédia, de Dante Alighieri. Eu não entendi porra nenhuma, mas mesmo assim era como se eu estivesse levando para casa um livro sagrado, um livro cheio de mistérios. Mistérios tão maiores do que eu, um livro que pedia reverência. Eu me sentia muito importante, muito especial com ele guardado na minha mochila. E todos aqueles livros de arte? Santo deus, que mundo foi aquele que se descortinou pra mim! 
Eu me lembro também que foi lá que descobri, dentre tantos outros, o Ítalo Calvino. Teve um livro dele que eu renovei seis semanas consecutivas! Eu já tinha lido o livro de cabo a rabo, mas eu queria extrair mais e mais, eu não queria me despedir dele. Quem deu fim àquela relação foi a Lú, a atendente do Gabinete na época, que me disse sem grandes pesares que naquela semana eu não poderia renovar o livro. Alguém, algum maldito alguém, já o havia reservado.
Eu me lembro que desde que me conheço por gente, meu sonho era ter uma biblioteca em casa. Não ter os livros na estante da sala como parte da decoração; eu queria uma biblioteca de verdade, com estantes cheias de livros, sofás que me abraçassem, com uma escrivaninha grande o suficiente para que eu pudesse tomar notas e confortável o suficiente para que eu me esquecesse do tempo; uma biblioteca banhada de luz natural  durante o dia, e de luz focada e precisa à noite. Eu não me lembro de pensar em quem iria limpar esses livros todos, mas sonhos são sonhos, né? 
Eu suspiro toda vez que entro numa biblioteca. Perdoem a comparação, mas é como se entrasse numa igreja, num território sagrado. Talvez o silêncio exigido, os cochichos sibilados, a seriedade dos que as frequentam me façam pensar nessa comparação profana. Mas a verdade é que eu adoro uma biblioteca, seus cheiros, seus sons abafados, a quantidade de pensamentos reunidos…É quase como um céu.
Os livros sempre me ajudaram a descobrir o mundo, um mundo, meu mundo. Sempre me apresentaram formas de pensamento até então desconhecidas, sempre me ajudaram a extirpar preconceitos, sempre me fizeram rir ou chorar ou os dois ao mesmo tempo, sempre me inspiraram mudanças, sempre me possibilitaram uma fuga imediata, ainda que imaginária. Livros sempre me mostraram um pedaço de mim, do outro, das coisas, da vida, pedaços esses que nunca imaginei que pudessem existir.  
Eu me lembro também que foi num Setembro, que parecia qualquer, que a vida sorriu para mim. E como num romance, o João aconteceu. Acontece que eu não imaginava que além de poesia o que viria seria amor. Um amor de altos e baixos, um amor de esfria e esquenta. Um amor como dos livros? Um amor que daria um livro. Uma história de amor que faria história nas nossas vidas. E no meio de muitas outras histórias, a Alemanha cruzou nosso caminho.
Eu me lembro que quando cheguei na Alemanha pela primeira vez, eu não acreditava que livros pudessem ser tão baratos! Mas que merda, eu ainda não sabia alemão! Tanto suor e tantas, meu deus, tantas lágrimas derramadas para aprender o alemão. Para entender outra cultura, para não me sentir menos, para me saber diferente, para enfim poder sentar e ler um livro em alemão. Anos e muitos cursos depois, claro!
Alguns anos e nenhum curso depois, eu e João fizemos um filho. A gravidez desse filho foi cercada de leituras. Sobre parto e sobre tantas outras coisas também. Mas a verdade é que não há livro no mundo que dê conta, que saiba contar o que é a chegada de um filho. Um filho muda muito, quase tudo. Esse filho ao nascer trouxe consigo um dos capítulos mais bonitos da nossa história. E em paralelo vai escrevendo a sua própria, por enquanto, com nossa ajuda.
O parto do meu filho marcou, da maneira mais bonita, a minha história. Antes dele eu era. Agora com ele, eu sou. E isso a gente não aprende em livro nenhum, a gente só aprende sendo.
Nossa história chega no hoje, e no hoje a Alemanha é de novo presente. Presente no tempo e presente que a vida deu. Aqui e agora, com filho parido e longe de estar criado, temos juntos aprendido muito, crescido muito.  Aprendizados e crescimentos que não se contam em livros, porque são muito nossos.
Hoje, com uma biblioteca longe de ser a dos meus sonhos, não só pelo espaço como também pelo sem fim de livros que ainda queremos comprar (e será que a lista um dia terá fim?), compartilhamos nossos livros com os livros do Tomás. E olha, nem na minha biblioteca dos sonhos, eu imaginava que os livros do Tom pudessem trazer tanta vida e tanto colorido a qualquer prateleira. Não só porque os livros dele são muito mais coloridos e bonitos que os nossos, mas também pelo prazer de saber que compartilhamos com ele nosso apreço pelas palavras.
Tem coisas que não estão nos livros, tem outras que nem cabem em livros; tem outras tantas mais que nem dão um livro.  Mas no meio de todas elas, muitas mais são e já foram contadas e recontadas. E eu me lembro de já ter querido ler todos os livros do mundo, porque achava que todos eles cabiam numa única e grande biblioteca.
E sabe do eu me lembrei agora? De cheiro de livro novo! Como eu adoro! E assim como com livros novos que podemos até saber um pouco do enredo, das personagens, a gente só sabe mesmo o que acontece ao abrir e ler até o fim. Não adianta ouvir a história através de outros. Têm histórias que ou se lê ou se escreve. Ninguém pode nos dar.
Acho que a maternidade também é assim. A gente pode até saber de antemão um bocado de coisa, mas só se sabe mesmo se abrindo e vivenciando. E aí, como que livro novinho, novinho, eu me lembrei do cheiro do Tomás quando nos meus braços pela primeira vez.  Mas essa história fica para outra hora.
E assim, era uma vez, uma menina que amava livros. E tinha um monte deles. E…
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6 comentários em “Tudo o que eu me lembro sobre livros”

  1. Quantas lembranças o teu relato sobre os livros da infância me trouxe!
    As livrarias sisudas com os clássicos geralmente em capa preta, os catálogos onde era possível encomendar os infantis cheio de cores!
    Eu já escrevi um livro e concordo com você que há coisas que não cabem em um livro. O nascimento de um filho é um momento indescritível, um momento para ser sentido.
    Um beijo para esta menina que ama livros!

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  2. Que delícia de texto para esta tarde de friozinho gostoso que faz aqui !!!

    Gabriela, eu me identifiquei 100% com você! Desde muita criancinha eu amo os livros. Sempre amei ler e comprar livros! Sempre amei conhecer bibliotecas e frequentá-las. Cada cidade que eu vou, procuro conhecer a biblioteca pública, as livrarias e reservo em minha agenda os dias de visita, pois eu e a Ro amamos fazer tais roteiros de férias. São como os museus que a gente também ama muito conhecer!

    Quando eu era criança, eu pegava os livros emprestados na biblioteca. Em casa havia alguns infantis e de adulto. Mas eram poucos para a minha fome de leitura. Eu também ficava a renovar várias vezes o mesmo livro que gostava…Uma forma de tê-lo só para mim? As revistas da Mafalda são exemplos marcantes desta fase. Também tive alguns livros que li e não entendi nada. Eu lembro que li, aos dez anos, A Náusea, de Sartre. Tudo que lembro foi que não entendi absolutamente nada, mas a sensação marcou fortemente. E penso que fica apenas isso, a sensação, seja boa, seja ruim. Eu me senti estranha por várias semanas, depois que o li. O pior é que eu não podia falar com ninguém, uma vez que estava a lê-lo às escondidas, rsrs…Era do meu irmão mais velho e ele odiava que pegassem seus livros. Mas eu burlei as regras, rsrs…Um dia ele descobriu e não brigou comigo,ufa!, apenas perguntou-me o que eu entendi. Daí tivemos uma longa conversa, mas nem a explicação dele eu consegui entender, ahahaha…

    Meu sonho, assim como o seu, era ter uma biblioteca. Uma enorme. De fato, estou com uma biblioteca em casa, mas o espaço está pequeno para as estantes: Todo mês nós duas compramos 3, 4 exemplares. E haja estantes! Mas, olha que beleza, eles não precisam de limpeza sempre. As estantes são todas com portas de vidro! A Ro que as projetou. São nossos móveis prediletos. São lindas! E este ano mais duas serão encomendadas para o nosso marceneiro, pois não cabem mais livros nas 4 estantes enormes que temos aqui. E se há uma coisa que não deixo de comprar é livro. E estou sempre a ler dois ou três. Eles ficam em alguns locais da casa. Há livro até no banheiro, rsrsr…E no projeto que a Ro fez de nossa futura casa, há a biblioteca. Eu sonho mais com ela e o ateliê da Ro do que com o resto da casa ahahaha…

    E por amar livros, bibliotecas e livrarias, fui fazer graduação em Letras. Foi neste curso que me encontrei! Foi ali que reconheci meus pares, rsrs…Mas eu fico por aqui, pois escrever sobre livro não tem fim ( E se você não leu ainda, recomendo um livro que amo de paixão: Se Um Viajante Numa de Inverno, Italo Calvino )

    Beijos

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  3. Ah, e quero acrescentar que eu, mesmo sem ter filho, sempre passo algumas horinhas na parte infantil das livrarias. Como os livros infantis de hoje estão mais bonitos, coloridos, né! Como é bom ser criança hoje!! E acho uma lástima quem não leva o filho numa livraria, ainda mais hoje que a maioria tem espaços maravilhosos para os pequenos leitores. Eu amo o espaço da Livraria da Vila, por exemplo. Mas a Cultura soube criar um mais aconchegante para os pequenos.

    E, sim, o cheiro de livro novo é o que marca qualquer leitor, né? Acho que o processo de sedução do leitor começa no cheiro…

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  4. Oi Ale! Ah, quem tem arquiteta em casa está em outro patamar :-)! Essas estantes com portas de vidro além de lindas, são realmente muito práticas!
    Eu não conheço esse livro do Italo Calvino, vou correndo atrás dele!
    Eu também acho uma pena quem não lê, e não estimula a leitura nos filhos. Eu considero uma perda sem tamanho para as crianças. Sabe que eu gosto muito de dar livros de presente para outras crianças, e são os pais que olham com cara ou de surpresa ou de reprovação. É o fim, né!
    By the way, somos colegas de profissão! Minha graduação foi em Linguistica. Eu estudei Linguistica Histórica, e depois aqui na Alemanha eu comecei a estudar Tradução. Espero terminar esse mestrado e até fazer um Doutorado. Beijos

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