a vida é mais, Alemanha, antes de ser mãe eu não sabia que..., curtindo a vida adoidado, Do cotidiano, filosofia de boteco, Heidelberg, mambembe

Casa limpa e arrumada

Eu sempre tive faxineira no Brasil. Desde a primeira vez, quando eu e João decidimos juntar os trapinhos e reuni-los sob um mesmo teto. Fato esse que gerou muita comoção familiar, uma vez que fomos morar juntos sem nos casar. Eu na graduação, ele no doutorado. Mas nem é sobre isso que vim aqui falar, nem que a casa era uma gracinha com rede na varanda, com hortinha e com pé de acerola no quintal. Não, não. Eu vim dizer que mesmo na simplicidade, numa casa pequena e aconchegante, quase sem mobília, mas cheia de amor e vontade de amar; mesmo nessa casa modesta, a gente tinha uma faxineira.

O que o dinheiro de duas bolsas podia pagar, era a dona Ana de quinze em quinze dias. E a sua visita era esperada com ansiedade e louça fazendo aniversário na pia. Nunca fui boa em mandar. Eu dizia o que queria, ela fazia (às vezes bem, às vezes nem tanto), mas quem se importava com isso naquela época? Eu que não. João muito menos. A gente ficava muito feliz de ter a louça e o banheiro lavados, chão varrido, pó espanado e roupa passada. Afinal, a gente queria morar junto, mas cuidar da casa juntos, bem…

Então a vida nos trouxe para a Alemanha, e na Alemanha não tinha essa de dona Ana não. Mas quem ligava? Eu que não. João muito menos. A gente queria mais era se jogar nos prazeres etílicos (e esses não faltaram), morrer de dormir no dia seguinte, curtir um pileque, colocar mochila nas costas e correr Europa afora. Casa era lugar de passagem, embora fôssemos e ainda somos, muito caseiros. Quando a coisa ficava preta, encardida mesmo, quando não havia um copo, um talher ou um prato limpo, e/ou quando íamos receber visita, a gente dava um trato geral. E pra nós estava ótimo desse jeito, nesse esquema meio assim… república.

Depois de um tempo, queríamos mais era aquietar o corpo e o coração. Ter um teto mais definitivo. E voltamos ao Brasil. A casa já era vista com mais carinho, quase um ninho. Mais mobília, mais livros, mais fotos, mais lembranças…. As visitas da faxineira se tornaram mais frequentes, e a casa, puxa! A casa era um brinco! Embora minha, nossa participação no processo fosse mínima.

Daí, minha gente, que com ninho feito chegou filhote. Filhote chega, e acontece o que? A vida muda,e o ninho vira de cabeça pra baixo! Quando Tomás era bebê, tínhamos faxineira três vezes por semana! E mesmo que adorasse com todas as minhas forças ter a cozinha, os banheiros e todo o resto da casa cheiroso e arrumado, me irritava imensamente ter uma pessoa “estranha” dentro de casa dia sim dia não.

Resumindo bem essa parte, e poupando os leitores e leitoras de todos os detalhes sórdidos, no fim das contas contávamos com a faxineira duas vezes na semana.

Mas a vida nos trouxe de volta para a Alemanha, e eu sabia que a gente teria que se virar com casa, roupa, comida e filho pequeno. Tudo junto ao mesmo tempo agora e todos os dias. Paniquei, claro! Afinal, com filho não dá pra viver no caos. Mas a gente respira fundo, conta até dez e acredita! acredita na gente mesmo, na ajuda do marido, e na gente mesmo de novo.

E eu só sei que tenho aprendido muito nesse tempo cuidando da casa sozinha. Deixei de lado meu perfeccionismo, aquele lado besta de que só limparia a casa se fosse pra fazer tudo de cabo a rabo, jogando água e desinfetante feito maluca. Aprendi que existem outras formas de limpar e cuidar, aprendi que é melhor fazer um pouquinho por dia, do que acumular e deixar pra fazer tudo num só dia. Aprendi que manter é regra de ouro. Aprendi a amar minha lava-louças incondicionalmente, aprendi que lenços umedecidos de limpeza não é coisa de preguiçoso, aprendi que cuidar da casa pode e deve ser prazeroso, aprendi a relativizar a bagunça, aprendi que ninguém morre por não ter faxineira.

Na minha casa as panelas não refletem a nossa imagem, os vidros das janelas não são quase invisíveis de tão limpos, e os azulejos do banheiro não resplandecem limpeza. Mas quem liga? Eu que não. João muito menos. Porém, tem sempre roupa limpa nas gavetas, a louça não faz aniversário na pia, os ácaros não fazem festas psicodélicas e temos um lar mais do que decente, mais do que aconchegante. Temos sim, uma casa limpa e arrumada. Ainda que as fronteiras para a defiiniçao de arrumada tenham sido bastante alargadas.

Não vou mentir. Vez ou outra eu sinto saudades da dona Ana, e de todas as outras donas que passaram por nossas casas e por nossas vidas. Mas eu sinto saudades mesmo da minha rede na varanda, da nossa horta, do nosso pé de acerola carregado de frutinhos. Afinal de contas, uma casa, mais do que limpa e arrumada, uma casa puxa! É feita das memórias e das gentes que passam por ela.

Imagens pinterest

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6 thoughts on “Casa limpa e arrumada”

  1. Que lindo!

    Eu tô num momento meio crise com isso … aqui sempre tive faxineira 1 vez por semana, mas agora com a chegada da Cecília ela vai vir mais vezes (2 ou 3, depende…). Eu tô sofrendo pra abrir mão do controle da casa…deixar tudo nas mãos da faxineira e diferente do meu TOC…ai,ai,ai…rs
    (e tb sou péssima pra mandar!)

    Mas sobreviveremos! rs

    E que delícia essa sua primeira casa!!!

    Beijo

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  2. Gabi! Somos gêmeas! GÊMEAS!!! Eu e meu marido não tínhamos o menor apego à casa, louça, roupa, cama….. nada! Tínhamos uma faxineira 1x por semana e tudo ficava acumulado até ela chegar (certeza que ela chorava em alguns dias só de abrir a porta e encontrar a casa daquele jeito). Um horror. Mas a gente não ligava, não estava nem aí. Queríamos mais era beber um pouco, dormir muito, curtir ressaca, beber mais um pouco, sair mais, dormir mais, ressacar mais…. Até que dona Laura chegou e trouxe consigo uma empregada. E eu demiti em 3 meses, deus do céu alguém diariamente na minha casa e eu pós-parida? Affe. Agora temos faxineira 2x por semana e eu não abro mão dela, pq, né? Infelizmente (ou felizmente) ainda não sou super mulher, trabalho 10h por dia fora de casa, Laura tem uniforme para lavar diariamente, calcinhas, eu tenho roupas de trabalho, temos que jantar, dormir, acordar e sair para a vida corrida de sempre. Não rola aspirar o pó depois de acordar às 6:30, trabalhar até às 19h, fazer a Laura dormir às 21h, jantar às 21:30 e deeeeepois, ir arrumar tudo… nem a pau. Deixo para a faxineira mesmo. Marido piloto é mais visita que marido…. então nem conto muito com ele, já que, por exemplo, tem 15 dias que eu não o vejo! Já pensou se contasse com ele para lavar as mamadeiras à noite?
    E grávida no primeiro trimestre tem direito a descanso? nããããooo! hahahaha mas tem direito a fingir que não viu o cesto de rupa suja caindo pelas beiradas e deixar para a dona Cleci lavar ou na segunda, ou na sexta.

    Beijos grandes, queridona!

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  3. Dani, pelo amor de deus! Morando e trabalhando em São Paulo é insano não ter faxineira/empregada! Não dá, simplesmente não dá.
    A rotina de casa é muito demandante mesmo, e ninguém merece trabalhar um dia inteiro, pegar trânsito chegar em casa e lavar um banheiro. Ainda mais com filha pequena, que eu bem sei o tanto de atenção e cuidado requer.
    Deixa a dona Cleci amigona dar um jeito na roupa, e curta mesmo seus fins de semana com Lalá!
    Beijos

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