a vida é mais, dilemas da vida moderna, filosofia de boteco

Dos perigos de se comparar

Houve um tempo em que eu senti muito orgulho da minha barriga. Muito mesmo. E olha que minha barriga nunca foi sarada, chapada ou “negativa”. Nesse tempo eu estava grávida, e meu orgulho não era pelo fato de poder comer por dois, ou melhor, minha barriga grávida nunca foi uma desculpa para “expor” sem medo de ser feliz uma silhueta curvilínea – e porque não?- tão feminina.

Nesse tempo eu estava simplesmente feliz com minhas formas arredondadas e com minhas carnes macias. Mais do que feliz, eu estava completamente bem naquele corpo que já comportava outro corpo; com aquele outro corpo que dentro de mim crescia.

Pela primeira vez em anos eu fazia escolhas não apenas baseadas nas calorias, mas na qualidade do que ingeria. Pela primeira vez em anos eu fazia escolhas não apenas baseadas na (vã) batalha de caber numa calça 38, mas sim no nosso estar bem. Pela primeira vez em muitos anos, eu abria mão de algumas coisas não por um biquíni P, mas sim por respeito não só a mim, mas sobretudo ao corpo que também nutria.

Embora não muito distante, esse tempo passou. E não me lembro do quando exatamente, depois de gerar e parir, que minhas formas outrora tão orgulhosas – e porque não? – tão deliciosas, passaram a ser incômodas novamente. Eu não me lembro do quando exatamente, depois de gerar e parir, que minhas escolhas voltaram a se basear na simples conta de calorias, na motivação (insana) de caber num manequim 36, nas privações (idiotas) para um próximo verão.

E corroborando a tese de que meus peitos, minha barriga, meus quadris e minhas coxas são curvilíneos demais para os tempos atuais, me deparo quase sempre com fotos na internet, de mães recém paridas exibindo suas (boas) formas em seus biquínis bem pequenininhos.

O problema não são as fotos, nem os outros, embora já tenham dito que o inferno são sempre os outros. E os outros no caso,  são as mães celebridades com seus corpos esculturais a despeito de seus bebês pequenos. O problema é a comparação. No caso, eu me comparar com gente que nem conheço, com gente que tem uma vida diametralmente oposta à minha. E ainda que levassem uma vida muito parecida com a que eu levo, nenhuma comparação faria sentido, nenhuma comparação faz sentido.

Não faz sentido, porque cada barriga tem sua história de vida. Não importa se é a minha, se é a da Gisele Bündchen, se é a da mãe que encontro no parquinho.

Cada barriga sabe do frio que sentiu diante de uma decisão importante, cada barriga sabe como é ter zilhões de borboletas voando dentro dela nos momentos mais mágicos, cada barriga sabe a responsabilidade de gestar e parir não só um filho, mas também escolhas; cada barriga sabe o quão custoso, às vezes, é manter um rei dentro dela; cada barriga carrega as marcas das próprias experiências, carrega os excessos, as faltas; cada barriga sabe, ou deveria saber, do quê tem fome, e do quê está cheia.

Entenda, não apoio excessos de nenhum tipo. Nem tanto ao mar, nem tanto ao céu. Nem engordar oitocentos quilos na gravidez, nem emagrecer mil e duzentos quilos por pressões externas. Nem deixar de se preocupar com a alimentação e a saúde, muito menos fazer do peso, do corpo a maior ocupação da vida.

E eu mesma fecho a boca quando o zíper da calça não quer mais fechar, por exemplo. Mas decidi que não vou mais me comparar com capas de revista ou mães celebridades, decidi que não vou mais me auto impor um padrão de beleza e de magreza que pouco ou nenhum sentido me fazem, decidi que não quero mais ser escrava de dietas da moda.

Decidi gostar de mim do jeito que sou, e isso não significa que eu não possa melhorar algumas coisas em mim. Decidi me orgulhar do que sou, do que tenho.

Decidi me aceitar, apesar de e inclusive com minhas limitações. E esse é o tipo de decisão que não dá mais pra empurrar com a barriga.

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9 comentários em “Dos perigos de se comparar”

  1. Olha Gabi, eu concordo totalmente, desde que a mãe esteja MESMO feliz com o seu corpo e eu falo isso pq eu não sou feliz com o meu corpo se estiver com a calça pegando na cintura…. então, de verdade, me aceitar é muito fácil, desde que eu esteja magra. Ponto.
    Não digo que eu estou certa, de forma alguma e antes da gravidez eu já vinha praticando este desapego mental, cancelando a calculadora de calorias que sempre aparecia na minha cabeça, eu já estava tranquila com o manequim 40, mas sempre me senti meio ridícula perto dos outros quando o meu corpo os incomodava…. isso é o mais difícil, saber que o seu excesso de peso (ou nem isso, só umas gordurinhas mais “presentes”) incomoda os outros. E então eu parei para refletir outra coisa: talvez não seja o meu excesso de gordurinhas que incomode os outros, mas o prazer que eu estava sentindo em ser livre, em não ter que contar calorias a toda hora. Esta felicidade incomodava os outros. Tive certeza disso em 3 meses de experimento do desapego. Tanto que engravidei da Helena (em janeiro) com um super peso, um número na balança que eu nunca tinha visto igual sem estar grávida antes (só quando eu estava com 4 meses de Laura no ventre eu pesei o que estava pesando ao engravidar da Helena). E, posso te falar? Numa boa!! Eu estava muito tranquila com a filosofia de vida de curtir o momento (que se ressalte ter vindo de um fim de ano extremamente agitado e bêbado, então eu não poderia deixar de engordar mesmo… mas não deixei de sair, nem de beber, nem de comer. Comemorei como nunca!), só percebi que os outros não estavam! Era como achar alguém contrário à massa, sabe? “Daniela, aquela bobinha, acha que é bonito ser gordinha” e eu não estava me importando, pela primeira vez em 32 anos!
    Engravidei num peso acima do normal (que eu sabia que perderia de volta à rotina e saído das festas de fim de ano), tanto que com quase 4 meses de Helena ainda não pesei o que estava pesando no primeiro dia de Helena.
    E quando alcançar: tudo bem.

    Hoje eu presto mais atenção à comida, aos nutrientes e à quantidade. Menos em calorias.
    Hoje eu evito engordar, é claro, pq sei BEM que perder depois não é lá tão fácil como pregam por aí, mas tudo bem engordar tbm!

    E assim vamos seguindo a vida, tentando ser diferente do senso-comum, que mais me parece falta de senso comum.

    Beijos, queridona!!!

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  2. Dani querida! Helena, que nome lin-do!!! Na gravidez do Tom esse era O nome de menina 🙂

    Dani, muito interessante o que vc colocou: o incômodo dos outros. E automaticamente quando vc rompe (ou pelo menos tenta romper) com os padrões de magreza, as pessoas pensam que vc é a gorda esculachada, ou pelo menos a gordinha.

    Eu nunca fui magrela, mas sempre fui taxada de gorda pelos outros. E sempre busquei ter um corpo que não é possível pra mim.

    Aqui na Alemanha eu sou média absoluta. Quando eu dizia que precisava emagrecer, as mulheres me olhavam com cara de “tá louca?”. Foi então que comecei a pensar pra valer nessa minha busca por um manequim que não cabe em mim, pelos mais variados motivos.

    Eu tive meu momento gordinha depois do nascimento do Tomás, mas eu peguei tão pesado comigo, que se tornou muito pesado fazer uma dieta, encarar uma ginástica.

    Hoje não topo mais dieta, não no sentido que é pregado revistas de moda afora. Eu mudei muito minha alimentação, mas mudei por qualidade, por saúde. E sobretudo, para ser exemplo para meu filho.

    Como doces? Claro! Mas priorizo em absoluto os mais naturais, os mais integrais. Industrializados são raridade na nossa dispensa; hoje eu afirmo categoricamente: eu como mesmo de tudo, mas de maneira diferente; quase nada de farinha refinada, zero açúcar refinado, grão, frutas e vegetais…

    Eu também me sinto bem magra, mas o meu estar magra hoje em dia não é o estar magra com ossos saltados e aparentes. Não meu magro é não ter barriga caindo pra fora da calça, é me sentir bem por dentro, sabe?

    Eu olho pra trás e vejo que eu já fui muuuuito mais magra, mas mesmo assim me achava acima do peso, mesmo assim me falava que se eu emagrecesse uns cinco ou seis quilos eu estaria perfeita.

    Parei, cansei. Meu IBM é normal e saudável. Hoje isso me basta.

    Beijos nas três!

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  3. Gabi, é isso mesmo! Exato!! É estar bem e feliz consigo mesma, sem ter que dar explicações para os ouros, sem ter que informar mil vezes que está tudo bem, você está bem (e ainda assim, ninguém acredita).

    Já passei por estas fases que você disse, obstinação doentia pelo corpo irreal, cortar comida radicalmente, passar mal, perder peso e perder saúde…. não faço mais isso, não. Vc está certa. Comer bem é comer com qualidade. Eu estou como vc: hje em dia mal como industrializados e, apesar de almoçar fora sempre, pondero o prato, tanto em peso como em cor. COR. eu presto atenção nisso hoje.

    E o faço pelo exemplo para a Laura, pelo exemplo para o meu marido, como exemplo para mim.

    Concordo integralmente com o que vc disse.

    Beijos grandes!

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