antes de ser mãe eu não sabia que..., dilemas da vida moderna, Do cotidiano

Das coisas que eu jurei que nunca faria

No aeroporto lotado eu disse para meu filho que caso ele saísse de perto de mim alguém o levaria embora.

Não, eu não me orgulho disso.

OK, eu não disse que o homem do saco o levaria.

E continuo não me orgulhando disso.

OK, o aeroporto estava uma loucura; de alguma maneira ele precisava entender que ficar perto de mim era uma questão de segurança.

OK, eu escolhi a mais fácil para mim. Não precisei dar zilhões de explicações, como sempre em se tratando do meu filho.

OK, eu escolhi a pior maneira para ele, que não pode exercer seu direito de perguntar.

OK, estamos bem são e salvos.

OK, eu continuo não me orgulhando de nada disso.

E eu que jurei de pé junto que jamais falaria algo do gênero?

**********

Há tempos que o Tomás precisa cortar o cabelo.O assunto sempre vem acompanhado de choro e de repetidos eu não vou nunca deixar cortarem o meu cabelo.

Cansada da ladainha, e cansada de dar argumentos do quão legal seria ir ao salão cortar o cabelo, eu meio que desisti de tocar no assunto.

Então, um dia folheando uma revista com o Tomás empoleirado no meu colo, eu me deparo com este camarada aqui:

 

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O Tomás me pergunta quem é o sujeito. Eu respondo. Ele pergunta por que que o cabelo dele é assim. E eu respondo: porque ele nunca deixava a mãe dele levá-lo para cortar o cabelo!

Muito choro (da parte do meu filho, claro). E a certeza (minha, claro) de que finalmente cortaríamos o cabelo.

Não, eu não me orgulho disso.

OK, eu escolhi a maneira mais fácil para mim de convencê-lo a cortar o cabelo.

OK, foi a maneira mais ridícula e menos nobre.

OK, Tomás vai cortar o cabelo. No fim funcionou.

OK, eu continuo não me orgulhando de nada disso.

E eu que jurei de pé junto que jamais falaria algo do gênero?

**********

Eu havia jurado por todos os santos que jamais usaria argumentos pouco ortodoxos, ou a pedagogia do medo, da comparação e tantas outras (anti) pedagogias com o meu filho.

Mas a despeito do meu juramento, às vezes me pego fazendo algumas das coisas que jurei que jamais faria.

É claro que existe um norte, o qual me atenho e não cedo jamais: bater e gritar estão realmente fora de cogitação. É claro que falo de maneira impaciente, é claro que preciso contar até dez e sair de perto, é claro que uso de argumentos estapafúrdios (os exemplos acima são apenas dois entre centenas). Mas não há nada que meu filho faça ou diga, que justifique uma agressão da minha parte. Nada mesmo.

A verdade é que criar filhos está longe de ser tarefa simples e com fórmula pronta. A verdade é que para criar um filho é preciso muito autoconhecimento e muita autoeducação.

Autoconhecimento, para tornar consciente nossos monstros, nossos medos, nossas sombras. Acho que não existe nada mais desumano do que bombardear uma criança que me foi confiada com meu material inconsciente, do que transferir para meu filho tudo aquilo que está encoberto (embora a transferência seja inevitável em tantas vezes).

Autoeducação, porque bem sabemos que todas criança (ainda mais na primeira infância) aprende através de exemplos. E é tão difícil ser exemplo quando me percebo tão falha em tantas coisas.

Simples? Não, já falei logo acima que não.

E apesar da dificuldade, dos inúmeros erros, de alguns acertos, eu tenho aprendido muito e tenho me tornado uma pessoa melhor. Engraçado, né? Eu, na qualidade de mãe que quer para o filho apenas o melhor e que ele possa com isso fazer o melhor de si, acabo me tornando melhor. Por ele, para ele. Mas também por nós, para nós.

**********

Uma vez eu li* que Freud disse que ninguém, de fato, perdoa a pessoa que o educou; porque o processo de educar deixa influências, cicatrizes e limitações permanentes. No entanto, o laissez-faire, ou seja, não colocar limites e apenas expor nossos filhos ao mundo de maneira simplista, resultaria num desastre muito maior.

Ou seja, conte com as cagadas e espere até o dia de que suas orelhas irão ferver quando seu/sua filho/a se deitar na divã, e dizer que a culpa de tudo que ele/a está passando é sua, só porque você é mãe dele/a.

Exagero, eu sei. Mas com as cagadas pode continuar contando.

Na perspectiva mais otimista da vida, de toda cagada, alguma vira adubo. Adubo para crescer e florescer coisas boas e bacanas.

**********
E por fim, eu mesma dei uma aparada na cabeleira do Tom. De leve, pra apagar incêndio. E por fim, nem precisava da pressa pra cortar o cabelo.

cabelo

E por fim, ele ainda há de me odiar por cortar os cabelos dele e deixá-los todos tortos. E por tirar fotos deles assim. E por publicá-las.

E eu que jurei que nunca iria estragar o cabelo do meu filho?

*JOHNSON, Robert A. & RUHL, Jerry M. Viver a vida não vivida. Editora Vozes

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9 comentários em “Das coisas que eu jurei que nunca faria”

  1. Ele é lindo, o cabelo ficou um charme (me deu vontade de deixar os do Ben crescerem) e eu também já jurei tudo isso e já me vi praticando algumas das coisas. Tem vezes que precisamos resolver aquela situação e apelamos para o mais prático na hora. Mas acredito que no dia a dia acabamos desfazendo essas bobeiras e dando a volta por cima!
    Beijo grande.

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  2. é bem isso De., a gente apela para o mais prático e rápido na hora, na situação. mas a gente reconhece a queda e dá a volta por cima mesmo, né! beijos

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  3. Ufa!!! Ainda bem que foi só uma aparadinha na minha juba querida…fiquei tensa enquanto ia lendo! Hahahaha

    É, duro, né, Gabi…que bom seria se conseguíssemos fazer as coisas “como manda o livro” (que a gente mesmo escreveu..rs) o tempo todo..!
    Se bem que, como vc e o Freud disseram, o resultado talvez nem seja tão diferente assim…rs

    Beijo

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    1. Hahahaha Gabi! Foi só aparadinha mesmo, também não tenho coragem de cortar muito!

      Bota duro nisso! Mas a gente aprende também com os erros, e acaba prendendo mesmo é com nossos filhos!

      Beijos

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  4. Dei muita risada sobre a sua justificativa da cabeleira do camarada acima.
    De fato educar não é fácil e eu sinto muita culpa, pq sempre vou dormir achando que näo falei, eduquei ou fiz algo legal naquele dia com os meus filhos. Eu acredito que deixa marcas, cicatrizes sim, alguns traumas de infância levo até hoje, talvez por isso o medo e a insegurança de não está fazendo corretamente.
    Dar limites, ter paciência sempre… As vezes só funciona na teoria, pq tem dias que eu me sinto a pior mãe do mundo. Será que essa culpa vai embora algum dia?

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    1. Oi Debby!
      Acho que a gente, como mãe, aprende a conviver com a culpa. Ela é inevitável, eu acho.
      Mas a gente vai levando, dando o máximo, o que podemos, como sabemos. O resto é na base da fé 🙂
      Beijos querida

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