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A gente não quer só parir

Eu chego atrasada, eu sei, como me é sempre peculiar. Mas ainda que no fim da Semana Mundial de Respeito ao Nascimento e Contra a Violência Obstétrica, eu gostaria de deixar aqui o meu relato e o mais profundo e sincero desejo.

Anos atrás, ainda na Alemanha, eu me deparava pela primeira vez com uma concepção diferente do nascer. Naquela época eu não tinha certeza ainda de que teria filhos, mas o contato com uma outra forma de ver a gravidez e, principalmente o parto, me deixou com uma pulguinha atrás da orelha.

De volta ao Brasil e cada vez mais certa do projeto filho, eu comecei a ler tudo quanto era possível sobre parto natural e humanizado. Livros, sites, relatos de parto. Antes mesmo do Tomás nascer eu já tinha pra mim que queria um parto domiciliar. Se é pra chutar o balde… eu pensava. Cesárea sem necessidade, cesárea agendada… nem pensar! Antes mesmo de engravidar eu sabia que queria parir. E querer já é muita coisa.

E eu pari meu filho; não em casa. Pari num hospital, pari sem anestesia, sem episiotomia, sem pressa, com muito grito, com liberdade, com carinho, com atenção. Pari com gente que é o crème de la crème do parto humanizado no Brasil. Gente que, além de extremamente competente, é gente de verdade. Gente que há anos luta por uma causa, ao meu ver, muito muito justa. E importante!

Eu sei, eu tive sorte sim. Mas eu também sei que eu corri atrás desta sorte. Munida de vontade e informação, cercada de profissionais sérios e competentes, eu fiz a minha sorte.

O que aconteceu depois do meu parto (baby blues) não tem livro, nem doula, nem médico que possa evitar. E muito menos uma cesárea. O nascimento de um filho é algo tão impactante, que cada mulher vivência de um jeito diferente.

Há quase quatro anos atrás começava o processo que mudaria a minha vida para sempre. E eu estava amparada e acolhida por uma parteira maravilhosa. Há quase quatro anos atrás eu dei um passo para viver o processo mais transformador da minha vida. E eu estava amparada e acolhida por uma parteira maravilhosa.

Um parto demora muito tempo para ser digerido, tanto tempo que parece que deixou de ser importante. Meu parto ecoa até hoje, mas hoje, passada a dor do parto, passada a dor da transformação, passada a dor da ruptura de vida, hoje, quase quatro anos depois, eu não tenho palavras para expressar a minha gratidão por ter tido uma parteira e um obstetra maravilhosos ao nosso lado, por eles terem acreditado em mim, por terem me acolhido, nos acolhido, e por terem me ajudado a trazer o Tom para este mundo. Eles sempre farão parte das nossas vidas e das nossas mais doces e amorosas lembranças.

Hoje, nas voltas que o mundo dá, e de volta à Alemanha, com filho parido e longe de estar criado, eu começo a me dar conta do que ter parido significou pra mim. É como se quase quatro anos depois (é, meu bebê já não é mais um bebê), a minha ficha caísse de uma única vez. É como se o acontecido, o meu, o nosso parto, se descortinasse e clareasse na minha cabeça.

Então, dia desses uma pessoa escreveu no Facebook que nenhuma mulher do seu círculo de amizade real ou virtual tinha parido de verdade, nenhuma mulher sequer. Eu respondi que eu tinha parido sim. Ela respondeu de volta, dizendo que eu não contava, pois tinha parido na Alemanha. Então, neste dia, ficou claro para mim que nosso imaginário tupiniquim, parir é só para as gringas ou para as mulheres que moram fora do Brasil.

Eu sei da realidade do nosso Brasil, mesmo estando hoje fora dele. Eu sei que, muitas vezes, não basta a vontade, não basta a fé, não basta a informação. O que falta é gente que abrace essa outra concepção do nascer, gente que abrace (literal e metaforicamente) a mulher que quer parir.

Mas este cenário está mudando. Hoje em terras tupiniquins, presenciamos um verdadeiro renascimento do parto; muito mais gente vê e espera que um parto, um nascimento, seja o mais natural, o mais respeitoso possível para mãe e filho .

E é também por conta de toda esta mudança, que eu estufei o peito, e fiquei muito feliz e orgulhosa em dizer para minha amiga virtual de Facebook que não, eu não pari na Alemanha. Eu pari no Brasil, e não foi em nenhuma maternidade top e podre de chique. Foi no interior de São Paulo, para ser bem precisa, numa maternidade que em nada lembra um hotel! E que isto na verdade não fez a menor diferença, pois o essencial, ou seja, o respeito ao meu corpo, ao  tempo mãe-bebê vale mais que qualquer instalação cinco estrelas.

E em tempos onde a própria OMS reconhece que a violência obstétrica é violência contra a mulher, e em tempos onde existe uma semana dedicada ao respeito ao nascimento, eu deixo aqui meu testemunho. Um relato de quem vivenciou todo o respeito, e o meu profundo e sincero desejo a todos (mães e pais) que desejam um parto, que de fato o tenham.

Mas a gente não quer só parir, a gente quer fazê-lo com respeito. E acredite, hoje no Brasil, parir não constitui mera sorte ou acaso.  Aos poucos está virando fato.

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3 comentários em “A gente não quer só parir”

  1. Verdade, a realidade no Brasil vem mudando, gracas a Deus!!! Nada de cesárea agendada, os hospitais publico também tem voltado as raízes e sem dúvidas o profissional que te acolhe faz toda a diferença num parto.
    Mas… Eu também preciso dizer que não condeno quem escolhe fazer uma cesárea, acho que a pessoa precisa sentir-se segura. Sou 100% a favor do parto natural, tem absoluta certeza que é o melhor para o bebê, mas cada mãe pensa de um jeito e você precisa estar segura das escolhas.

    Lindo texto.

    Curtido por 1 pessoa

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