a vida é mais, Da poesia da vida, Do cotidiano, mambembe, mundo afora

“less is more”


eu sempre achei muito chique aquelas pessoas cujas vidas cabem numa mala e numa caixa de papelão. já reparou nelas em filmes? aquelas que dizem: vou-me embora! e ao abrirem o guarda-roupa, todos os pertences cabem na única mala da Casa? seriam elas hoje as chamadas minimalistas? ou tais pessoas só existem na ficção mesmo? 

não sei dizer, mas sei que as do primeiro grupo rendem reportagens de revista e livros de auto-ajuda. já eu, particularmente, nunca fui nem minimalista e nem imitei a ficção. porque a bem da verdade, nem uma mala para passar um fim de semana na cidade ao lado eu sei arrumar. 

 mas durante esta minha vida mambembe, eu tive que aprender na raça, a minimizar. e toda vez que me mudo, e foram muitas mudanças na última década, eu juro – sempre no calor da hora-  que não comprarei uma agulha sequer.  o que acaba nunca acontecendo, porque minha memória sempre apaga o caos de toda mudança. faz desaparecer os momentos de desespero onde me pergunto do porquê ter comprado isso ou aquilo, faz virar fumaça tudo que acabo tendo que reciclar.

 e apesar do aprendizado, ainda estou longe de ser uma…. minimalista.

apesar de toda reciclagem e renovada que uma mudança de casa e de vida exige, eu percebi que tenho muitas coisas, sobretudo louças e livros. coisas que possuem valor emocional para mim. e que me custam desapegar.

hoje eu conto com poucos pares de sapato, ainda não tenho o guarda-roupa mais funcional e prático do mundo, mas conto nos dedos quantas peças de roupa comprei para mim neste ano que passou. e só as comprei pois a barriga a crescer exigiu.

 bijuterias não as compro mais. há tempos fiz uma seleção minuciosa dos meus balangandãs, o que foi ótimo. restaram apenas os que ganhei e/ou peças de valor sentimental. deixei-os todos  à vista, e no último ano os usei muito mais.

já fui de exibir uma coleção de cosméticos e maquiagem. percebi que não precisava e, veja só – não queria- de tudo aquilo. e confesso ter sido uma grande libertação para mim apresentar a minha cara lavada por aí.

e porque estou a dizer tudo isto? porque me deparei com uma reportagem sobre minimalismo/minimalistas, e embora concorde com a necessidade de consumirmos conscientemente, me incomoda a ideia de que armários, gavetas e prateleiras quase vazios tragam paz de espírito e felicidade.

na outra ponta, também não acho que acumular objetos tenha o mesmo efeito.

veja, é que estão a dizer que viver com duas t-shirts e uma xícara de café é o suprassumo da liberdade. e caso você tenha mais que isso, talvez você precise reconsiderar essa sua vida tão abarrotada de coisas, mas tão vazia de sentido.

talvez, junto com menos acumuladores, o mundo precise de menos gente dizendo pra você e pra mim o que é liberdade e o que é paz de espírito. pois essas reportagens cheias de frases feitas e estáticas alarmantes não me convencem. 

ademais, excluindo-se os exageros e trazendo à Luz o bom senso, o que seria pouco? Ou muito? Ou suficiente? Como disse Virginia Otten “ninguém se contenta com o pouco. só se esse pouco for muito”.  

pois é.

minha paz de espírito está mas minhas prateleiras tão cheias de livros. livros que me acompanham desde nossa primeira casa, que nos viram fazer nossa história. está no meu guarda-louça abarratodo, cujas louças sussurram causos de família e tantos outros mais.

a vida não precisa ser cheia, atravancada, acumulada. mas minimizá-la drasticamente seria reduzir muito de mim mesma. e não estou disposta a isto hoje.

em tempos onde se prega o despojamento de quase todas as coisas, menos da obrigação de ser grato e feliz e simples (mesmo que seja ai comer um prato de abacate com pão a cinquenta dinheiros), escolher acumular memórias é quase uma ousadia.

eu ouso acumular memórias, inclusive as físicas. como também ouso acumular algumas frustrações, uma ou outra tristeza, alguns xingamentos à vida quando achar que devo, ouso alguns luxos…nem com as palavras eu consigo ser minimalista, imagina na vida!

vou continuar achando chique quem com uma só mala vai pro mundo. assim como vou continuar deixando que minhas memórias e minhas conquistas ocupem o espaço que precisam, e que merecem.

pouco ou muito podem ser igualmente bom ou ruim. talvez o problema seja achar que o pouco ou o muito definam quem e o que se é. enquanto isso eu, definitivamente, vou tendo a certeza de que uma vida com uma mala só não é pra mim. 

 

 

 

 

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