aguenta coração, Da poesia da vida, gravidez, mundo afora, segundinho, uk

30 semanas

cheguei à trigésima semana, e quero deixar aqui registrado o quão chocada eu estou com a rapidez que esta gravidez tem passado. serião!

se a bebê tiver pressa como o irmão, que cutucou a bolsa e resolveu sair com 38 semanas + 3 dias, eu confesso um leve desespero. 8 semanas restantes, na velocidade em que o mundo tem girado, é praticamente depois de amanhã!

exageros (e desesperos) meus à parte, minhas preces são para que ela espere o mês de março dentro do forninho. março será um mês cheio de acontecimentos por aqui, e por isso mesmo, seria otimo se ela esperasse minha mãe chegar do brasil, e mais ainda, esperar o joão voltar de viagem. porque parir sem anestesia eu aceito, mas sem marido já é demais.

até aqui a gravidez tem sido super tranquila. a barriga deu um boom, e tenho tido insônia (o que é um ultraje, visto que depois que a bebê nascer dormir não será uma opção no começo), mas apesar da insônia tenho me sentido disposta.

a lista de preparativos para antes da chegada dela caminhou a passos lentos (devido à uma gripe terrível que derrubou o filho, o pai e a mãe. não ao mesmo tempo, mas necessariamente nesta ordem), e ainda assim estou tranquila, uma vez que colocando tudo na ponta do lápis, não falta muito.

falta pouco para conhecê-la e ao mesmo tempo falta muito. percepções e contradições gravídicas. aliás, até aqui nessa gravidez eu fui assim, uma metamorfose ambulante. altos e baixos estados de espírito, emoções à flor da pele, choros porque esqueci de comprar salada… bem diferente da minha primeira, quando eu fiquei constantemente de bom humor e sereníssima; nada me abalava, tudo estava bom. curioso,  não é?

no mais, estou muito satisfeita com minha midwife,  que é muito calma, experiente e atenciosa. e eu queria muito que o universo conspirace a meu favor,  e ela estivesse de plantão justamente quando eu entrasse em trabalho de parto. já pensou que tudo? isso pra mim seria como zerar no tetris da vida.

ando devagar porque a barriga não permite a pressa, e tenho procurado resolver uma coisa de cada vez. riscando item por item da minha to do list. e não existe sensação mais maravilhosa do que ver uma lista com todos os itens ticados. juro que atualizei minhas definições para paz de espírito depois de resolver minhas listas.

e assim segue a vida. e como não posso controlar quase nada, tudo o que me resta é entregar, aceitar, confiar e agradecer. ela que venha no tempo dela, que as coisas aconteçam no tempo que tiverem que acontecer. como já bem disse o leminski: não discuto com o destino, o que pintar eu assino.

pois é, com o destino não se discute. e acho que tem muita poesia nessa aceitação, viu!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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a vida é mais, aguenta coração, Alemanha, antes de ser mãe eu não sabia que..., dilemas da vida moderna, Do cotidiano, escola, mães não são de ferro

Aí vem o desespero

Eu anunciei que ia me ausentar, e acabei voltando. Meu anúncio não foi nenhum tipo de estratégia, e minha volta é por puro desespero.

Vou abrir meu coração e pedir ajuda para as mãe tudo e tudo as mãe.  Como eu disse aqui o Tomás está frequentando uma escola ou uma creche, ou em bom alemão, uma Kinderkrippe.

Muito bem,  meu raciocíonio foi de que quanto antes ele começasse a frequentar uma escolinha, mais rápido ele se acostumaria com a língua e com o país. Principalmente com a língua, uma vez que nós não falamos alemão com ele em casa, e começar de uma hora para outra seria, no minímo, estranho.

Então que a gente escolheu uma escola que vai de encontro com nossos valores e convicções, uma escola aberta, uma escola com porquinho, cabrinha, galo, galinha, ganso e o caramba à quatro, uma escola com comida vegetariana e orgânica, uma escola com cuidadoras simpáticas, sensíveis e amorosas,uma escola com as criança loira de zóio azul mais loira de zóio azul desse mundo, uma escola com os brinquedos de madeira e as bonecas de pano mais lindos desse mundo, e o moleque se recusa a ficar nela. Ele não chora um pouquinho, pede a mamãe e volta a brincar. Deixa eu repetir: ele se RE-CU-SA a ficar na escola.

Levando em conta que o país é novo, a língua é nova, as pessoas são novas, enfim, tudo é novo para o Tomás, e que a única coisa “velha” e segura sou eu; levando em conta que o menino ficou comigo desde que nasceu, levando em conta que ainda vai fazer três meses que chegamos por aqui, levando em conta tantas outras coisas que eu ainda nem me dei conta, só o que eu tenho a dizer é que tá… phoda.

Então, a gente sempre ouviu que criança se adapta rápido, que criança aprende muito rápido uma língua e blá blá blá blá. Mas o que é ser rápido, né? E, no meu caso, pressa pra quê? De modos que, eu não sei se desisto do processo agora, e volto com essa ideia de escola lá pro fim do verão por aqui, quando espero em deus (andar com fé eu vou), Tomás estará mais aclimatado. Ou se tento mais o mês de Maio.

E sem contar o grude que esse menino anda comigo. Tudo é a mãe, com a mãe. TU-DO. E vem a vontade de ficar sozinha, e vem a culpa por querer ficar sozinha, por não estar dando tudo (e isso existe?) que meu filho precisa nessa fase da vida dele, e… Sem querer fazer um melodrama, mas já fazendo…

Não sei se você já se sentiu assim, mas eu ando com uma vontade de dar uma sumida de cena, sabe? Voltar quando tudo estiver lindo e funcionando, sabe? Mas não dá, né?! A gente é protagonista da própria vida, e não tem jeito, eu tenho que enfrentar plateia e holofotes e desempenhar o papel que me foi designado. O problema é que eu nem sei direito qual é o meu papel nessa história toda.

E olha minha gente, eu não vou sumir, não, porque eu sou tão ordinária quanto esse desabafo, viu?! Mas agora vocês me dão licença que eu vou ali no meu canto chorar mais pouquinho. 

E estou aceitando conselhos, abraços, chazinhos, novenas e um sem fim de carinhos. É que eu tô bem da precisada.

Tomás e sua  carinha de quem não está a fim de muita coisa
aguenta coração, Alemanha, antes de ser mãe eu não sabia que..., Heidelberg, um aninho, um bebê muda o que? tudo

Fechando 2011 com chave de ouro

Pense numa linda casa. Apesar do inverno no hemisfério norte, pense num lindo jardim. Pense na mesma casa por dentro. Uma lareira, tapetes, almofadas e sofás tudo muito, muito aconchegante. Pense também numa linda decoração de Natal. Com uma maravilhosa árvore e o presépio mais fofo que se tem notícia. Pensou? Então pera lá que ela se tornará uma realidade

Fomos lindamente convidados para uma típica ocasião alemã na casa do anfitrião do João na Uni Heidelberg: Kaffe und Kuchen (café com bolo ou vice-versa). Que legal comer uma receita típica alemã! Que legal que ele tem dois filhos! Que legal conversar em alemão! Que legal!

Tudo muito legal, só que a gente sai do Brasil, mas o Brasil não sai da gente. Pra começar, deixamos pra comprar os presentes dos nossos anfitriões (flores e vinho) em cima da hora, claro! Com isso o Tomás não almoçou direito e tirou sua soneca fora de hora, e obviamente não dormiu tudo o que deveria. Nos atrasamos para pegar o trem, perdemos a conexão, atrasamos MEIA HORA, erramos a direção da casa, encontramos com o Professor na rua atrás de nós. Sim, ele estava preocupado e andando no frio e na chuva. Das ist eine Schande!* Só para temperar o enrredo, o Tomás não parava um minuto, meu cabelo estava num péssimo dia, e eu escolhi o pullover mais velho que eu tinha no armário.

Mas tudo bem, né? Essas coisas acontecem. Passada a vergonha, as desculpas, e pararará, tiramos os casacos e adentramos na sala de estar. A linda casa em questão se materializou diante dos meus olhos. E todos os potenciais perigos foram localizados. E putz, eram muitos. Já fiquei tensa. Mas vamos ver no que dá. Quem sabe meu filho, nesse dia, nessa hora, vai se comportar, e não vai querer mexer em TUDO!?

Sentamo-nos à mesa impecavelmente posta com a torta, os biscoitinhos, os Brezel, e o café do Brasil, que era pra gente se sentir um pouco em casa. Mal o pedaço de torta me foi servido, Tomás começou a apavorar. Meteu a mão no meu prato, pegou um pedaço da mesma e, antes mesmo que eu pudesse tirar de suas mãozinhas gordas, ele o enfiou muito rapidamente na boca. Quis sair do meu colo e começou a engatinhar. E a mexer na decoração de Natal, plus a decoração usual da casa. Desligou o som, abriu um armário com chave e quis amassar a Menu, a gatinha da casa.

Os dois filhos deles, o Janes e a Lotta (6 e 3 anos) trouxeram abaixo todos os brinquedos de bebê que estavam guardados. Mas quem disse que o Tomás quis brincar com eles? E quem disse que os dois quiseram brincar com o Tomás?

Mas o pior ainda estava por vir. O Tomás resolveu fazer uma quantidade monstruosa de côco. A dona da casa, prevendo que uma criança de um ano a visitaria, e prevendo que ela precisaria trocar as fraldas, manteve o trocador montado no banheiro. Olha quanta fofura, gente! Pois é, mas eu já contei que meu filho se recusa a trocar as fraldas? Que a cada troca de fralda é um escândalo? Não, então. Agora pense num escândalo. Pensou? Foi um tiquinho maior do que isso que você pensou. Ele NÃO parava no trocador. Com a bunda CHEIA de côco, ele não parou no trocador. Eu o troquei sobre protestos, gritos e choros, o mais rápido que consegui e suando em bicas. Quando enfim, ele, de fralda nova e roupa trocada (e valha-me deus, quanta roupa se usa nessa terra. Mães do hemisfério norte, meu profundo respeito!), coloquei o enfant terrible no chão, para que ele pudesse explorar o ambiente com a curiosidade que lhe é peculiar, quando noto que o trocador estava TODO sujo. Ai que vergonha! Chamei-a discretamente e muito sem graça, contei o que havia acontecido. Não sei se por notar minha tensão, minha vergonha e sei lá mais o que, só sei que ela nem se abalou.

Eu tenho a impressão, disse eu, que as crianças alemãs são tãaaaaaaao mais calmas. Ela disse que sem dúvida nehuma o Tomás era uma criança com temperamneto muito forte, mas que ele é muito normal para a idade dele. Não sei se ela quis ser gentil ou se é verdade mesmo. Eu só sei que meu estado de tensão estava nas alturas.

Resumindo: nossa tarde (minha e do João) foi correr atrás do Tomás, mal consegui ter uma conversa normal de adulto, minhas respostas se resumiam a uma frase, a palavra que eu mais usei foi Entschuldigung**, eu não comi direito a deliciosa Linzertorte feita por ela, eu não relaxei um minuto sequer. Passada a situação, eu acho que não era para tanto. Nossos anfitriões foram extremamente gentis e pareceram não se abalar nem um pouco com todas as peripécias, explorações e bagunças do nosso filho. Porém, em algumas horas eu não acreditava que aquele era meu filho.

Chego ao fim da minha estória e ao fim do ano com uma conclusão: relaxar. RE-LA-XAR. Se toda vez eu ficar nessa tensão, eu vou infartar antes do meu filho completar três anos. A segunda conclusão, um pouco menos reflexiva e mais do presente em que vivemos, é que é IMPOSSÍVEL ser fina com um filho de um ano. Pelo menos com o meu.

Porque olha, tudo o que eu não fui nessa tarde foi ser uma lady. Eu me senti o próprio elefante numa loja de cristais. Vergonha pouca é bobagem, né!

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Um feliz 2012 para todos nós! Esperemos que o mundo não acabe mesmo em 21 de Dezembro de 2012, porque senão, acabaria um dia depois do aniversário do Tomás. E aí não tem graça, né! Nem vai dar para comentar a festa de dois anos do meu filho! Assim não dá!

Beijo meu e do Tom

*Isso é uma vergonha!
**Desculpa

aguenta coração, gracinhas do tom, mãe zen

Coração de mãe

Quando saí da maternidade, além do Tomás fofucho, eu carregava comigo um pacote de dúvidas e outro de culpa. Coincidência ou não, os três pacotes foram ficando cada vez mais pesados. Pacote Tomás deliciosamente gordinho, pacote Dúvida e pacote Culpa, cacete, engordaram incrivelmente mais que meu filho.

Mas ontem eu descobri que além dos três pacotes, eu saí com um plus a mais da maternidade: uma vacina anti-susto. Explico: Deixei Tomás no berço com alguns brinquedinhos para ele se distrair, enquanto eu ia fazer um número dois (mães continuam com suas necessidades fisiológicas ativadas, sad but true). Porém a culpa não me permitiu ficar mais tempo que o necessário, sentada no trono, folheando uma revista. Revista que comprei e não consigo passar da vigésima página. Revista que só consigo ler nessas pausas, digamos, necessárias, mas que em épocas pós-Tomás não duram mais do que cinco minutos.

Estava eu já saindo do banheiro, mas dando uma olhadela básica no espelho, ajeitando rapidamente o cabelo, verificando em fração de segundos a sobrancelha (a vaidade feminina também continua ativada, porém colocá-la em prática é outra história), quando tim (barulho de ficha caindo) me dou conta que o Tomás está todo esse tempo sozinho e quieto. Repito: sozinho e quieto! Coisa rara, raríssima.

Então mais do que depressa vou até o quarto, e paro na porta. Meu coração dispara. Sinto minhas costas gelarem. Meu filho, que até ontem era um bebê com movimentos nada perigosos e suicidas, estava apoiado na grade do berço, deveras concentrado no laço do protetor de berço. Seria uma linda cena de um bebê descobrindo o mundo ao seu redor, se ele não estivesse com metade do corpo para fora.

Nunca os cinco passos da porta até o berço foram tão longos. Minhas pernas pareciam pesar uma tonelada cada uma. Mas lá fui eu, com um sorriso estampado na cara, fazendo a linha nervos de aço é meu nome do meio. Afinal, caso ele notasse minha presença, ele veria uma mãe segura, e isso lhe passaria segurança. Externamente eu era a serenidade em pessoa, internamente não havia órgão que não tremesse. Cheguei perto do rapaz, coloquei-o pra dentro, desfiz o laço, mostrei toda cheia de oh! que lindo, ele riu, deu gritinhos de contentamento, enfiou na boca o pedaço de pano, e o mastigou como se não houvesse amanhã. E minhas pernas ainda bambeavam.

Conclusões para minha vida de mãe: bebês escalam berços muito antes do que eu esperava, Tomás sozinho e em silêncio absoluto não significa que ele está em estado meditativo, e definitivamente, de-fi-ni-ti-va-men-te, mães não morrem de susto.

E o pior é que nem adianta dizer que agora estou preparada para os próximos sustos que virão. Coração de mãe sofre, viu!