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selfies

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eu vi estas fotos que o tom fez, numa ligeireza absurda, diga-se de passagem, e achei a maior graça (que mãe nunca, né?). e aí comecei a pensar, e como já bem disseram, o pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar…

e meus pensamentos voaram… pra longe…. pra frente, láaaaaa onde tomás está crescido. e viajando mundo afora, me mandando selfies de macaquinhos pendurados em seu ombro, nadando com glolfinhos, com moçoilxs em paris ou em amsterdã… essa coisa bem brega, bem coisa de mãe mesmo.

e me lembrei que na qualidade de filha eu sempre ouvia que filho se cria para o mundo, filho se cria com asas. e eu bati asas para longe, fui para o mundo. para meus pais, certamente cedo demais. para mim era a hora de abandonar o ninho.

na qualidade de mãe eu sei  que filho se cria para o mundo, filho se cria com asas. mas ai mundo, vasto mundo… deixa meu filho pensar que o mundo dele ainda sou eu, vai!

na verdade, filho não se cria com asas, filho já nasce com elas.

e eles lançam voo, e mesmo assim a gente chora feito filhote que caiu do ninho porque ainda não aprendeu a voar. esquecendo que já voou antes de ser mãe. esquecendo, sobretudo, que ensinou a voar.

te desejo voos altos tom. mesmo com o coração apertado. porque asas têm pouca serventia se não são usadas. voa no teu tempo. sempre.

mas saiba filho, que meu colo sempre será seu ninho. se assim o desejar.

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Birras: variações do mesmo tema

E daí que com dois anos de idade teve uma mudança de país. Teve um mundo totalmente novo lá fora, e no mundo de dentro, teve um sujeito chilicando dia sim, dia também. Teve ainda a ideia de jerico de colocar o mesmo sujeito na escolinha. Tudo isso somado aos terribles two e voilá : barracos e siricoticos e chiliques e pitis e faniquitos (tudo assim, sem vírgula mesmo, pra não dar tempo de respirar) tornaram-se parte intrínseca de nossas vidas.

Ainda bem que paciência de mãe é um recurso renovável e quase inesgotável.  E dá-lhe muita paciência,  e compreensão, e cartilha anti birras, e suporte, e fé e… resignação. É uma fase. É uma fase que começa nos dois anos e acaba talvez nos 20 quando o sujeito começa a criar vergonha na cara, e percebe por conta própria, que não vale a pena contestar tu-do (eu disse tu-do) que a mãe diz.

 

 

meu birrento favorito
meu birrento favorito

 

 

Então que com três anos teve férias no Brasil teve vô e vós e tias, e não teve rotina, e quase tudo podia, e teve volta prazAlemanha, e não teve mais a galere toda se revezando na atenção pro sujeito, tem ida ao Kindergarten, tem mudança de professor…

Rotina, cansaço, atenção, limites amorosos, paciência, clareza (para mãe), regras claras, simples e consistentes (para o filho). Tudo isso ajuda, mas posso falar? Não resolve assim, num passe de mágica.

A “mágica” consiste em respirar, contar até dez (mais de uma vez), perceber os meus limites, entender minhas limitações e me controlar. Porque tem dias, que só por gezuis, tem dias que dá vontade de sumir no mundo sem avisar ninguém.

Os três anos e meio chegaram, e meu filho ainda varia entre a criatura mais fofa e esperta e carinhosa do mundo, e a criatura mais criaturenta e chiliquenta e birrenta. Assustador!

Antes as birras acabassem quando a cria fizesse três anos… que maravilha viver lá lá lá.

O post não tem nada de novo, nem nada de útil. Não passa mesmo de um simples desabafo.

Porque como mãe eu sei que tudo passa. Mas mesmo assim, algumas palavras de encorajamento e suporte não me fariam nada mal.

Assim sendo, por favor, me deem cá um abraço.

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Diálogos curiosos – para dizer o mínimo #2

Tomás Tanguy*

Tomás me pergunta se eu quero casar com ele (oooooohhhh!).

Depois de rir, respondo:

Quando você crescer Tom, você vai conhecer uma pessoa bem bacana e vai querer casar com ela!

Uma princesa, mamãe?

É filho, uma princesa!

E onde vamos morar?

Onde vocês quiserem!

Eu quero morar com você!

Ah!, mas eu acho que vocês vão querer morar em outro castelo.

Com lágrimas grossas saindo dos olhos

Mas mamãe, eu quero sempre, sempre morar com você!

Morar pra sempre com mamãe não é muito legal, mas que a princesa no caso não o leve para muuuuito longe, eu já acho digno.

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Tomás, e sua lógica própria

Lendo uma historinha de Natal onde aparecem os três reis magos e os pastores.

Mamãe, os castores viram a estrela também?

Pastores, filho.

Castores, mamãe.

Tom, pastores cuidam das ovelhas. Castores são aqueles bichinhos que vivem nos rios e roem madeira com os dentes.

Mamãe, e as ovelhas?

Ovelhas?

O que são as ovelhas?

Ah,  são animais.

Então, são castores mesmo, mamãe. Nada de pastores!

Eu diria que meu filho tem uma lógica muito particular

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Tomás, o bastião da gramática

Mamãe, olha só! No meu adesivo tem um golfo!

Fui verificar. Afinal, pouco provável que tivesse realmente um golfo, e mais improvável ainda, que do alto de seus três anos, ele soubesse o que era um.

Ah, Tom. É um golfinho!

Não, mamãe! Ele não é filhote, nem pequeninho. É um golfo! 

Eu sei, mas o nome dele é golfinho. Assim mesmo.

Mas não! É golfo, mesmo!

Diminutivo é o c***o, né!

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Conjugando, só que não

Mamãe, quando eu estavo no Brasil, eu fui com o vovô dar comida para os peixes.

Eu estava…. (idiota eu, eu sei. pra quê corrigir)

Não, mamãe! Você não foi!!

Eu sei, filho. Eu quis dizer que a gente diz “eu estava” ( idiota again)

Onde você estava?

Filho, você estava….  (desistindo)

Mamãe, deixa eu te expicar(sic): você estava na casa da vovó, e eu estavo com o vovô dando comida para os peixes.

Sem mais.

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* Para quem não sabe do que se trata o Tanguy acima, aqui vai a sinopse do filme explicando. Se você ainda não assistiu, assista!

 



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Diálogos curiosos – pra dizer o mínimo

Tomás ixperto

Tomás anda numa fase nada boa de garfo. Passou de um menino guloso e glutão (no bom sentido), para um menino altamente seletivo e xexelento. Até o que antes comia com gosto, com boca boa, agora deu de fazer caretas e chilicar homericamente se coloco algo que ele diz não gostar em seu prato. Paciência, paciência, e mais paciência. Criatividade, criatividade e mais criatividade têm sido as palavras de ordem para fazê-lo comer de maneira saudável e variada.

Trata-se de uma fase, mais uma de muitas, eu sei. Mas como mãe, às vezes dá um desespero, bate uma incerteza, é como se nunca fosse passar.  A gente sabe que passa, né! Sempre passa.

Então que dia desses, ao chamá-lo para comer ele me veio com essa:

Mamãe, eu não sou Tomás. Eu sou um tipo de bichinho.

É mesmo? Qual bichinho você é?

Eu sou um elefante!

Hum… e aproveitando a deixa… Elefantes a-do-ram cenoura, brócolis, beterraba, batata doce!

Gente, pra ser sincera nem sei o que elefante come, mas eu não podia perder a oportunidade.

Depois de minutinhos de silêncio, ele me responde:

Mamãe, eu não sou mais um elefante. Eu sou um urso!

Uau! Ursos comem muito!

É, eu sou um urso porque eu só quero comer salmão! Tem salmão hoje?

Pensa que o menino nasceu ontem? Embasbacada só consegui responder que não, não teríamos salmão. Ele teria que se conformar com uma polenta turbinada.

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Tomás matador

Voltando da varanda, vem meu filho em tom muito sério:

Mamãe, o manjericão e a salsinha morreu* porque eu tirei terrinha do vaso.

Toda preocupada para que ele não se sentisse culpado com a “morte”  do manjericão e da salsinha, eu digo:

Não, filhote! Eles morreram porque estava (isso mesmo, no passado) muito calor e a mamãe esqueceu de molhar.

Tomás inconformado responde:

Nãaaaao, mamãe! O manjericão e a salsinha morreu* muuuuuuuuito depois que eu tirei a terrinha.

OK, Tomás! Nossas ervas morreram de morte matada e não de morte morrida.


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Tomás pidoncho

Meu filho adora bolo.  E não gosta pouco não. Já fazia um tempo que não saía bolos da cozinha, e ao dar-se conta da falta, Tom não deixou por menos.

Mamãe, que cheiro é esse?

Cheiro? Não estou sentido, Tom.

O que que tem no forno?

No forno? Nada, filho! Respondo espantada.

Ah!, então faz um bolo pra mim!

Fiz, né! E me restou outra alternativa depois de um pedido feito assim?

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Tomás por ele mesmo

João dando banho no rapaz. De repente:

Papai, sabe o que eu queria muito?

O que, Tom?

Eu queria muito que na barriga da mamãe tivesse um bebezito.

Ah, você queria um irmãozinho? 

É.

Vamos conversar com a mamãe sobre isso.

Tá bom!

Ahm? Oi? Como? Estou me fazendo de morta até hoje.

Quem pode com um menino desse?



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Tomás em números e fatos

Tomás continua resistindo ao sono, mas já dorme uma sequência de seis horas seguidas, várias noites na semana.

Tomás já “acorda alegre como o dia, oferecendo beijos de amor”*. Definitivamente, não saiu à genitora.

Tomás é muito bom de garfo, mas é capaz de arremessar muito longe alimentos que não gosta.

Tomás se interessa muito pelo prato alheio, e geralmente quer comer sempre o que não está no dele.

Tomás já fala muita coisa. As palavras que mais gosto são moganguinho (moranguinho), copocó (pocotó = cavalo), lupila (Curupira), e giz de cera, cuja transcrição eu vou ficar devendo.

Tomás aprendeu a falar o próprio nome. Ele se auto-denomina Momás. E a vontade de morder, pra onde vai?

Tomás já forma pequenas frases, como por exemplo, Mamãe pega Momás, Momás mimiu chão, e outras mais, no mesmo estilo.

Tomás papagaia o que ouve, geralmente a última palavra. Outro dia me deparei com um longo e sonoro bosta, como eco do que eu, segundos antes, havia dito.

Tomás brincando, algumas vezes, cantarola oda, oda, pé, pé, pé, ou qualquer outra musiquinha.

Tomás adora livros e histórias. Mas os livros precisam ser lidos de novo, e de novo, e de novo…

Tomás pode chegar à exaustão (dos pais) quando quer alguma coisa. Por exemplo, pode repetir, ad infinitum, abi, abi, abi, abi, quando quer que uma porta, ou qualquer outra coisa seja aberta. O volume do pedido é diretamnete proporcional à sua paciência, ou seja, quanto mais impaciente, mais alta sua petição.

Tomás alucina, a ponto de quase perder o fôlego, quando vê carros e/ou motos. E eu achava que a sociedade fabricasse tais gostos.

Tomás é estratosfericamente amado.

Tomás só conhece o feminino, a mamãe, a papai, e por aí vai. Sorry, Tomás, mas muito em breve se descortinará um mundo, no qual, além do masculino, existe o neutro. Alemão, pra quê mais um?

Tivesse Tomás nascido de útero alemão, talvez não tivesse tanta predileção por alguns rótulos germânicos. A saber, Brezel, batatas, salsicha** e cerveja.

Tomás anda (contra minha vontade) customizando paredes e alguns móveis da casa. Além de já ter customizado o chão.

Tomás quando contrariado tem a braveza de mil leões.

Tomás quando ri tem o brilho de mil Sóis.

Tomás anda assim… uma delícia.

Tomás conta com sete dentes na boca.

Tomás tem cachos. Muitos cachos.

Tomás chegará aos dezenove meses sem um único dia de feiúra (palavra de mãe).

Tomás tem oitenta e tantos centímetros de pura agilidade e desenvoltura para as maiores sapequices.

Tomás tem doze quilos e tchentos gramas da mais absoluta gostosura.

Tomás tem, sobre todas as coisas, uma mãe muito, muito modesta.

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* Da canção A Felicidade de Tom Jobim.

** Sobre a salsicha, eu achei melhor esclarecer, antes que me denunciassem para a Sociedade das Mães Perfeitas que Nunca dão Porcarias aos Filhos, que salsicha na Alemanha é diferente de tudo que conhecemos como salsicha no Brasil. Na Alemanha é possível comprar salsicha de origem orgânica, de outras carnes que não seja a suína, de produtores locais, feitas de modo artesanal e super frescas. Ainda assim, é uma vez na vida e outra na morte. Mas que o bichinho gosta, isso ele gosta.

Celi, lembrei muito de você e do seu Momas!

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No tempo de…

Quando se tem filho, o tempo se resignifica, toma outra proporção, outra dimensão. O tempo, sem querermos, sem percebermos, acaba sendo o tempo do filho. E na barriga, ao contarmos o tempo de gestação por trimestres, esperamos os primeiros incomôdos, frágeis e esperançosos trimetres passarem, preparamos muitas coisas no segundo para desaceleramos no terceiro. Mas temos a sensação, ainda, de que o tempo nos pertence.

Então, o filho já nascido, depois de esperarmos pelo seu tempo de chegada – tempo este que num segundo momento conseguimos quantificar em dias, horas e minutos – nos reporta para outro tempo. O tempo da delicadeza, o tempo da fragilidade, o tempo do desespero às vezes, o tempo do doar-se.

Então, com o filho já nascido, noite e dia se confundem. Horas e minutos não são mais tiquetaqueados pelos ponteiros de um relógio afoito, e sim pelo apetite de um bebê guloso. Dias são apenas encavalamentos e sequências de um ritmo que há bem pouco parecia fazer algum sentido. Segunda-feira é só o dia da ida ao pediatra, quinta-feira é só dia de dar vacina, sábado é com sorte, o dia que o marido não precisa trabalhar. E os meses só fazem sentido quando você se lembra que, naquela data, meses atrás, seu filho nascia.

E então o filho cresce, e você já sabe quando termina o dia para começar a noite, as horas de comer regulam com o ritmo por nós imposto, a semana tem seu caminhar, e os meses seus planos.

E então é o tempo do filho experimentar novos sabores, é o tempo do filho experimentar novos perimêtros, experimentar novas palavras, novas pessoas, novas situações. É o tempo dos pais olharem para si, olharem um para o outro. É o tempo de redescobertas, de novos achados, novos pensares, é o tempo do novo, de novo.

E então você descobre que no tempo de um percurso de 15 minutos, com filho, você demora 45. Mas sem filho, você não veria passarinhos no fio, nem a florada daquela árvore, muito menos todos os gatos do quarteirão. Descobre que no tempo de virar-se para pegar alguma coisa, sua bolsa já está aberta, seu melhor batom comido, seus chicletes de hortelã abertos e lambidos, sua carteira revirada e seus cartões espalhados. Meu deus! você exclama indignada, mas foi um segundo. Um segundo com filho, tem outra escala de medição.

E o pedido de um filho é um pedido decidido, insistente. E dentro das possibilidades de atendê-lo, você por mais rápida que queira ser, se depara com o maior siricotico das últimas 24 horas, e se pergunta, boquiaberta, como pode um serzinho, em tão pouco tempo, fazer o mundo parar? E percebe que com filho, em tão pouco tempo, outro Big Bang pode ocorrer.

As coisas mais prosaicas, corriqueiras e banais, com filho, parecem ter magnitude tsunâmica. Por exemplo, no tempo de lavar, ralar e refogar uma abobrinha, coisa que uma pessoa com um mínimo de intimidade com as penelas, não levaria mais de cinco minutos, correto? Muito, muito mesmo, pode acontecer. Desconsideremos Jamie Oliver, que em 30 minutos prepara uma refeição completa. Desconsideremos, também, meu marido, que demora três horas para preparar um único prato. E abrindo um prênteses, com filho, nós confirmamos que homens, de maneira geral, vivem um outro tempo.

Voltemos à abobrinha e a sua corriqueira maneira de prepará-la. Cinco minutos, é tempo mais que suficiente para seu filho riscar paredes, seus livros da Taschen, seu sofá, que anos atrás seu marido já lhe advertira ser muito claro, os brinquedos de madeira. Cinco minutos?! Realmente, com filho, em cinco minutos, além de você mesma, o mundo pode colapsar.

E no tempo de um xixizinho (da mãe, é claro!)? Plantas podem ser despinicadas em tempo record. E no tempo de passar um cafézinho, que também sem um café ninguém segura esse rojão? Gavetas podem ser esvaziadas. E no tempo de um telefonema? Vasos sanitários podem ser visitados.

Definitivamente, com filho, se vive um outro tempo. Sobressaltos e suprpresas que rendem lembranças risonhas e deliciosas, são uma constante. Com filho, é tempo de olhar o tempo com outros olhos, de sentir o tempo com o coração, de apalpar o tempo com outras mãos. É tempo de pedir ao tempo que não corra tanto. É tempo de voltar no tempo, de parar nele. É tempo de agradecer por viver tempos que nunca, jamais ousara viver.

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Tomás Querêncio

Tomás Querêncio é menino pequeno assim, mas apesar da pequenice tem quereres grandes. Parece querer o mundo. Mas o menino, tão pequeno ainda, não sabe que o mundo não se pode dar, que o mundo não se pode ter. Não faz mal, Tomás Querêncio tem muito tempo para aprender.

As querências de Tomás Querêncio são do tamanho do céu, do tamanho do mar. Às vezes o menino quer a lua, às vezes as estrelas, às vezes ainda, o sol, a lua e as estrelas. É um querer o todo, é um querer o tudo. Mas Tomás ainda é muito menino, tem uma vida para aprender.

O pequeno não se intimida com uma recusa, com uma impossibilidade. E diante delas ele grita, grita, grita. Grita tão forte e tão alto, que o astronauta ao pisar em Marte se volta para Terra para saber que menino é esse que quer porque quer.

Quando grita assim, forte e alto, algumas pessoas o olham com caras e bocas de Óoooh! e Tsc, tsc, tsc!; esquecendo-se elas, que também já foram meninos de tantos quereres. Ou será que elas deixaram mesmo de querer para si o novo, o diferente, o belo? Será que não lhe restaram mais querências, ou será que elas só deixaram de gritar, gritar, gritar?

As querências do menino lhe rendem peraltices inimagináveis. Caixas, potes e cadeiras são degraus propícios e bem-vindos para ajudá-lo a chegar em alturas antes inatingíveis. Ainda que o pequeno tenha uma vida para aprender a cair e levantar sozinho, há perigos mais urgentes. E por isso mesmo, não posso esperar que o tempo sozinho, ensine os riscos e dissabores de tão arriscadas aventuras.

Tomás Querêncio passa seus dias querendo sempre mais. Ora quer muito, ora quer um pouco menos, ora parece nada querer. É um querer para depois desquerer, é um querer para logo depois ter outro querer… É tanto querer que chega a cansar. É quando, por fim, adormece cansado das próprias querências.

A mãe de Tomás, ao ver o filho dormir, não quer que o menino deixe de gritar quando quer, nem tampouco deixe de querer. A mãe de Tomás, que sonha acordada ao ver o filho dormindo, não quer que o menino perca o olhar curioso, a alegria da descoberta, o espírito aventureiro. A mãe do menino tanto quer para o filho, que nem sabe o que quer primeiro, o que quer mais.

A mãe de Tomás Querêncio quer todo o bem, toda alegria, todo amor, toda felicidade do mundo. A mãe de Tomás, se pudesse, lhe daria o mundo. Mas o mundo, como sabemos, não pode se dar, nem pode se ter. Quem se importa com isso? Querer de mãe é do tamanho do céu, é do tamanho do mar, é do tamanho do mundo. Querer de mãe não tem fim.

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Das descobertas da maternidade

Quando a gente tem filho a gente descobre um mundo de coisas. E a gente redescobre um mundo de coisas num mundo aparentemente velho. Sim, porque quem tem filhos sabe que ir daqui até a esquina com o filho à tiracolo significa parar um milhão de vezes, olhar uma folha caída meio na diagonal enquanto as outras estão de todo no chão, descobrir uma joaninha no meio dos galhos, zilhões de rachaduras na calçada, oitocentas bitucas de cigarro, tarrachas de brinco (e você se pergunta porque na sua casa ele nao acha nenhuma tarracha perdida), pedrinhas das mais variadas…

Em casa as descobertas nunca acabam. Se você limpou o chão da cozinha, mas esqueceu-se de um cantinho, seu amado filho não vai perdoar o esquecimento, e vai te levar com aquelas mãozinhas gordinhas uma lentilha perdida que só os olhos dele conseguiram vizualizar. Você também vai descobrir que seus sapatos são lugares perfeitos para se guardar presilhas e elásticos de cabelo, e que os potes da cozinha são os melhores lugares para se guardar brinquedos. Pelo menos na visão de uma criança de treze meses, sim.

Vai descobrir que seus cabelos têm uma capacidade imensa de fixar arroz e macarrão. Mas claro, essa descoberta se dará quando você estiver no supermercado, no ônibus ou em qualquer lugar com bastante gente. Vai descobrir marcas de mãos engorduradas e dedinhos lambuzados nas suas melhores roupas, seguindo o mesmo princípio da descoberta do arroz e macarrão no cabelo. Vai descobrir, quando trocar a fralda do rebento, que ele come mais do que você dá pra ele. Porque você vai descobrir que encontrar vestígios de papel é melhor do que encontrar folha de chorão no cocô.

Você vai descobrir que os aquecedores, nem todos, mas o seu em particular, tem um cantinho que abriga perfeitamente giz de cera. E vai descobrir que o calor do aquecedor é capaz de derreter em uma noite dois gizes de cera inteirinhos. E vai descobrir no outro dia que você possui um chão e um aquecedor cheios de pigmentos azuis e vermelhos. E vai descobrir que rabiscar as paredes da sala não é a maior transgressão do mundo. E vai descobrir que tem um filho com instintos à lá Jackson Pollock.

E por fim, você vai descobrir que seu filho achou a máquina fotográfica e sabe-se lá como, retirou as pilhas que são recarregáveis e que não estão mais funcionando. E que as outras pilhas não estão carregadas, de maneira que nem registrar para a posteridade o prejuízo você poderá. E você vai querer se auto-flagelar por não recarregar as pilhas periodicamente. E você vai descobrir que ser mãe é, sobretudo, saber se perdoar.

A imagem, obviamente de Jackson Pollock,vem daqui. E meu chão era mais ou menos isso, só que azul e vermelho.