a vida é mais, Da poesia da vida, Do cotidiano, mambembe, mundo afora

“less is more”


eu sempre achei muito chique aquelas pessoas cujas vidas cabem numa mala e numa caixa de papelão. já reparou nelas em filmes? aquelas que dizem: vou-me embora! e ao abrirem o guarda-roupa, todos os pertences cabem na única mala da Casa? seriam elas hoje as chamadas minimalistas? ou tais pessoas só existem na ficção mesmo? 

não sei dizer, mas sei que as do primeiro grupo rendem reportagens de revista e livros de auto-ajuda. já eu, particularmente, nunca fui nem minimalista e nem imitei a ficção. porque a bem da verdade, nem uma mala para passar um fim de semana na cidade ao lado eu sei arrumar. 

 mas durante esta minha vida mambembe, eu tive que aprender na raça, a minimizar. e toda vez que me mudo, e foram muitas mudanças na última década, eu juro – sempre no calor da hora-  que não comprarei uma agulha sequer.  o que acaba nunca acontecendo, porque minha memória sempre apaga o caos de toda mudança. faz desaparecer os momentos de desespero onde me pergunto do porquê ter comprado isso ou aquilo, faz virar fumaça tudo que acabo tendo que reciclar.

 e apesar do aprendizado, ainda estou longe de ser uma…. minimalista.

apesar de toda reciclagem e renovada que uma mudança de casa e de vida exige, eu percebi que tenho muitas coisas, sobretudo louças e livros. coisas que possuem valor emocional para mim. e que me custam desapegar.

hoje eu conto com poucos pares de sapato, ainda não tenho o guarda-roupa mais funcional e prático do mundo, mas conto nos dedos quantas peças de roupa comprei para mim neste ano que passou. e só as comprei pois a barriga a crescer exigiu.

 bijuterias não as compro mais. há tempos fiz uma seleção minuciosa dos meus balangandãs, o que foi ótimo. restaram apenas os que ganhei e/ou peças de valor sentimental. deixei-os todos  à vista, e no último ano os usei muito mais.

já fui de exibir uma coleção de cosméticos e maquiagem. percebi que não precisava e, veja só – não queria- de tudo aquilo. e confesso ter sido uma grande libertação para mim apresentar a minha cara lavada por aí.

e porque estou a dizer tudo isto? porque me deparei com uma reportagem sobre minimalismo/minimalistas, e embora concorde com a necessidade de consumirmos conscientemente, me incomoda a ideia de que armários, gavetas e prateleiras quase vazios tragam paz de espírito e felicidade.

na outra ponta, também não acho que acumular objetos tenha o mesmo efeito.

veja, é que estão a dizer que viver com duas t-shirts e uma xícara de café é o suprassumo da liberdade. e caso você tenha mais que isso, talvez você precise reconsiderar essa sua vida tão abarrotada de coisas, mas tão vazia de sentido.

talvez, junto com menos acumuladores, o mundo precise de menos gente dizendo pra você e pra mim o que é liberdade e o que é paz de espírito. pois essas reportagens cheias de frases feitas e estáticas alarmantes não me convencem. 

ademais, excluindo-se os exageros e trazendo à Luz o bom senso, o que seria pouco? Ou muito? Ou suficiente? Como disse Virginia Otten “ninguém se contenta com o pouco. só se esse pouco for muito”.  

pois é.

minha paz de espírito está mas minhas prateleiras tão cheias de livros. livros que me acompanham desde nossa primeira casa, que nos viram fazer nossa história. está no meu guarda-louça abarratodo, cujas louças sussurram causos de família e tantos outros mais.

a vida não precisa ser cheia, atravancada, acumulada. mas minimizá-la drasticamente seria reduzir muito de mim mesma. e não estou disposta a isto hoje.

em tempos onde se prega o despojamento de quase todas as coisas, menos da obrigação de ser grato e feliz e simples (mesmo que seja ai comer um prato de abacate com pão a cinquenta dinheiros), escolher acumular memórias é quase uma ousadia.

eu ouso acumular memórias, inclusive as físicas. como também ouso acumular algumas frustrações, uma ou outra tristeza, alguns xingamentos à vida quando achar que devo, ouso alguns luxos…nem com as palavras eu consigo ser minimalista, imagina na vida!

vou continuar achando chique quem com uma só mala vai pro mundo. assim como vou continuar deixando que minhas memórias e minhas conquistas ocupem o espaço que precisam, e que merecem.

pouco ou muito podem ser igualmente bom ou ruim. talvez o problema seja achar que o pouco ou o muito definam quem e o que se é. enquanto isso eu, definitivamente, vou tendo a certeza de que uma vida com uma mala só não é pra mim. 

 

 

 

 

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Alemanha, Da poesia da vida, Heidelberg, Tomás, uk, verão, Violeta

assim caminhamos nós

e por esta ilha fria e úmida os dias já cheiram outono. as folhas das árvores começam a mudar suas cores, o vento sopra mais gelado, e os dias cada vez mais curtos estão a nos dizer que mais um verão se passou.

o nosso verão foi muito bem aproveitado. nossos dias de sol e calor os tivemos na alemanha. revimos amigos, refizemos passeios, comemos e bebemos o que sentíamos vontade, consultamos nosso pediatra, tivemos a companhia da minha sogra, comemoramos conquistas e 14 anos de casados.

 abrimos champagne, não dormimos mais do que três horas contínuas, chorei de cansaço, sorri de amores, tomamos muito sorvete, nos abraçamos. foi um bom verão.

Violeta caminha para os seus cinco meses, Tomás caminha para o início de mais um ano letivo. caminhamos à procura de um novo lar. caminho eu para a minha primeira habilitação. aos 37 anos. sem nunca ter dirigido antes. nunca é tarde, disseram. nunca é. 

caminhamos entre noites de sono melhores e piores. mas sempre na fé de que virá a ser melhor. embora saiba que a melhora independe da fé, pois um dia Violeta há de dormir noites inteiras, fato. mas como disseram, a fé não costuma falhar. nem a fé e nem o café de todas as manhãs que me ajuda a segurar o rojão.

gostaria de passar mais por aqui, escrever mais. contudo, nos meus intervalos de amamentação, troca de fraldas, e tudo mais, eu tenho que ser também a mãe do Tomás, a dona de casa, a cozinheira…  não reclamo, só me ressinto de um dia ter apenas 24 horas. embora talvez, dias mais longos não tornariam minhas noites menos curtas.

é uma fase, eu sei. tudo passa, disseram. e eu não duvido. 

do nosso verão
Da poesia da vida, gravidez, parto, segundinho, uk, Violeta

nasceu!

nossa primavera ficou mais cheirosa, mais bonita e mais florida desde a semana passada com a chegada da nosssa flor.

depois de 40 semanas + 6 dias, depois de achar que ficaria grávida para sempre, depois de luas e mais luas…

Violeta nasceu às 18:58 h de uma quinta-feira, véspera de feriado, muito saudável, fofinha e cabeluda. e linda linda linda !

seja bem-vinda minha flor! Violeta nosso amor💜💜💜


volto com detalhes assim que possível.

aguenta coração, Da poesia da vida, gravidez, mundo afora, segundinho, uk

30 semanas

cheguei à trigésima semana, e quero deixar aqui registrado o quão chocada eu estou com a rapidez que esta gravidez tem passado. serião!

se a bebê tiver pressa como o irmão, que cutucou a bolsa e resolveu sair com 38 semanas + 3 dias, eu confesso um leve desespero. 8 semanas restantes, na velocidade em que o mundo tem girado, é praticamente depois de amanhã!

exageros (e desesperos) meus à parte, minhas preces são para que ela espere o mês de março dentro do forninho. março será um mês cheio de acontecimentos por aqui, e por isso mesmo, seria otimo se ela esperasse minha mãe chegar do brasil, e mais ainda, esperar o joão voltar de viagem. porque parir sem anestesia eu aceito, mas sem marido já é demais.

até aqui a gravidez tem sido super tranquila. a barriga deu um boom, e tenho tido insônia (o que é um ultraje, visto que depois que a bebê nascer dormir não será uma opção no começo), mas apesar da insônia tenho me sentido disposta.

a lista de preparativos para antes da chegada dela caminhou a passos lentos (devido à uma gripe terrível que derrubou o filho, o pai e a mãe. não ao mesmo tempo, mas necessariamente nesta ordem), e ainda assim estou tranquila, uma vez que colocando tudo na ponta do lápis, não falta muito.

falta pouco para conhecê-la e ao mesmo tempo falta muito. percepções e contradições gravídicas. aliás, até aqui nessa gravidez eu fui assim, uma metamorfose ambulante. altos e baixos estados de espírito, emoções à flor da pele, choros porque esqueci de comprar salada… bem diferente da minha primeira, quando eu fiquei constantemente de bom humor e sereníssima; nada me abalava, tudo estava bom. curioso,  não é?

no mais, estou muito satisfeita com minha midwife,  que é muito calma, experiente e atenciosa. e eu queria muito que o universo conspirace a meu favor,  e ela estivesse de plantão justamente quando eu entrasse em trabalho de parto. já pensou que tudo? isso pra mim seria como zerar no tetris da vida.

ando devagar porque a barriga não permite a pressa, e tenho procurado resolver uma coisa de cada vez. riscando item por item da minha to do list. e não existe sensação mais maravilhosa do que ver uma lista com todos os itens ticados. juro que atualizei minhas definições para paz de espírito depois de resolver minhas listas.

e assim segue a vida. e como não posso controlar quase nada, tudo o que me resta é entregar, aceitar, confiar e agradecer. ela que venha no tempo dela, que as coisas aconteçam no tempo que tiverem que acontecer. como já bem disse o leminski: não discuto com o destino, o que pintar eu assino.

pois é, com o destino não se discute. e acho que tem muita poesia nessa aceitação, viu!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

a vida é mais, Da poesia da vida, jardineira acidental, palavras soltas ao vento

sobre rosas,daquilo que incomoda e um poema por semana #3

olha, eu vou confessar aqui um sonho que eu sempre tive. pode parecer pueril, pode parecer bobo, mas um dos meus maiores sonhos era ter uma roseira. tá bom, eu sou romântica. eu amo rosas, e muito. preciso me controlar para não comprar apenas rosas toda semana para a casa. e embora as vermelhas sejam minhas preferidas (tenho até uma tatuada) eu amo rosas de todas as cores.

quando nos mudamos para a casa nova, e eu vi que tinha duas roseiras plantadas no jardim eu juro que me emocionei. elas estavam judiadas, abafadas, largadas…mas meu super marido jardineiro entrou em ação e resgatou as roseiras que estão florindo lindamente agora.

eu nunca tive um quintal na minha infância, sequer um jardim. cresci feito galinha de granja, que quando saía sentia nojinho de terra molhada e piniqueira de mato. diferente do joão que cresceu com quintal, horta, gato, cachorro, galinha, árvore… por isso mesmo, o jardineiro oficial da casa é ele. e foi com ele também que aprendi a gostar de terra molhada, de jardinagem, de estar em contato com a natureza. e fico feliz de vê-lo passando isso pro tomás, que desde cedo mete a mão na terra, e cuida das plantas junto com o pai.

depois de um longo hiato sem uma horta, joão agora se delicia cuidando de uma. e apesar de não termos tido horta e nem quintal nos últimos anos, nós sempre tivemos plantas, muitas plantas nas nossas varandas.

a mim cabe o título de jardineira acidental, pois quando meu marido se ausenta sou eu quem cuida do jardim. e quando o faço, entendo o porquê da alegria deles ao cuidar e mexer com as plantas.

mas então que fique aqui registrado que meu singelo sonho de ter uma roseira se concretizou.

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esqueçam um pouco do meu sonho e da minha roseira.

eu quero falar agora de um texto de uma colunista que eu li dias atrás. era um texto bastante irônico sobre pessoas que abusavam nas redes sociais com seus milhões de posts sobre: alimentação saudável, parto natural, criação com apego, crossfiteiros, maratonistas e marombeiros em geral, escola alternativa para as crias, pessoal namastê e gratidão, gente viciada em séries de televisão e mais algumas coisas que não me recordo agora.

eu acho a ironia um recurso linguístico bastante interessante, mas quando usado em certa medida. ironia é feito baunilha em bolo, se usada demais o que era bom acaba por ficar ruim, deixando um trago de amargor, uma coisa enjoada.

na minha humilde opinião o texto da moça ficou amargo e difícil de engolir até o final.

e eu parei pra pensar. gente, redes sociais são inerentes na nossa vida hoje em dia, e o desejo de compartilhar idem. e cada um é livre para participar daquela que melhor lhe apetece.

e que mesmo escolhendo de qual rede social eu quero participar, eu tenho apenas o controle daquilo que eu posto. o que os outros postam é problema só e somente dos outros.

e que se meu incômodo é igualmente proporcional à quantidade de oversharings de determinadas pessoas, o problema é muito mais meu do que de quem posta. em outras palavras: o problema é do incomodado e não de quem postou.

as redes sociais são uma forma de exposição. alguns escolhem expor mais, outros menos. o mais e o menos também é relativo pra cada um.

por isso mesmo, eu fui voltando no tempo e li uns quatro ou cinco textos passados da colunista, e pude ver que ela não falava de outra coisa a não ser a sua mudança de país, e do quanto ela estava apaixonada pela nova capital européia que ela escolheu como novo lar. claro que fui até o instagram da moça, porque curiosidade é outro traço inerente a todos nós, e o que eu vi? oversharing de cantos e mais cantos do bairro dela. que é um puta bairro bacana diga-se de passagem. e seguindo o raciocínio dela, eu poderia enquadrá-la na seita dos que a adoram a cidade X.

e o que eu quero dizer com isso? que quem tem telhado de vidro não joga pedra no telhado do vizinho. e que por mais que a gente queira desesperadamente nos diferenciar em alguma coisa, somos todos a mesma porcaria. em outras palavras: todos nós temos telhado de vidro. compreendeu meu raciocínio?

existem pessoas que, de fato, se diferenciam no uso das redes sociais. e que por mais que postem mais do mesmo, o fazem de um jeito parece nos encantar. maaaaaas… ainda assim, não é possível agradar a gregos e troianos.

e a minha estratégia pessoal para lidar com pessoas que postam repetidas vezes as mesmas coisas foi: limitar minha participação a uma única rede social (fora este blog, que nem sei se pode ser considerado uma rede social), dar likes quando realmente eu quero dar, desconectar e…. admirar o meu jardim, em especial as minhas roseiras.

essa é a minha estratégia. não estou dizendo pra você fazer o mesmo. vê lá, hein!

e cada vez mais que eu faço isso, eu percebo o quanto a vida se descomplica pra mim. o quanto a vida fica próxima de ser vivida apenas. sem aquela “pressão” em mostrar se estou aqui ou acolá, se minha vida vais às mil maravilhas, ou se vai às merdas. a minha vida por mim vivida, sem me preocupar em compartilhar. só em viver.

embora existam os momentos de abrir-se, tal qual as rosas que na época certa desabrocham e nos escancaram a beleza da flor, e a beleza do tudo ao seu tempo.

e embora também sejamos todos a mesma porcariazinha porque somos demasiadamente humanos, também somos únicos, porque temos cada um nossos próprios destinos.

então, na melhor das hipóteses, viva e deixe viver.

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Segue o Teu Destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-proprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

 

 

 

 

 

aniversário, Da poesia da vida, mudança, mundo afora

sobre o mês de junho e um poema por semana #2

mas meu deus do céu, não! esse meu projeto está mais para um poema por ano do que por semana, não é não!? mas vamos que vamos, agora retomo com todo prazer aquilo a que me propus.

bom, tudo sempre tem um motivo, e o motivo que fez ausentar-me daqui foi uma mudança de casa. mudança essa que começou no mês de maio e que concluiu-se  neste mês de junho.

a casa escolhida deu mais, muito mais trabalho do que o esperado. ela nos consumiu bons fins-de-semana em família, e muitos outros dias meus apenas. eu, quando entrei na casa, de cara vi que ela daria trabalho, mas eu vi mais do que trabalho ali: eu vi um potencial lar. e me apaixonei por ela. mas como joão gilberto já cantou: o coração tem razões que a própria razão desconhece.

e assim, baseando-me pura e simplesmente no meu coração, escolhi essa casa em que agora habitamos e que já muito amamos. apesar do trabalho que ela ainda nos dá, veja só.

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amor à primeira pisada

mas o tempo passou, o que parecia nunca se ajeitar, deu-se um jeito ou ajeitou-se. nossa casa está com cheiro de casa, cara de casa, vida de casa. e anda difícil mesmo é sair de casa.

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e ando encantada com cada novo canto. plus eu tenho duas roseiras para chamar de minhas

mas o mais legal para mim é que eu completei primaveras na nova casa! e nesse aniversário eu tive muito para agradecer. e só de me lembrar que eu ficava triste nos meus aniversários… haha. o bom de amadurecer, eu acho, é que a gente vai cada vez mais dando valor ao que realmente importa para nós. e a gente vai descobrindo cada vez mais, o que realmente importa.

pois bem, completei anos na casa nova. e fiquei muito feliz pelo ano que se passou e mais ainda pelo novo ano que tenho pela frente!

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moi: the birthday girl. repara só na toalha amassada tirada da caixa de mudança especialmente para a ocasião (mentira, foi a primeira que achei na caixa)

e esse meu junho tem sido muito especial. eu amo o mês de junho! faço anos, é o mês de festa junina (aliás, para o ano que vem já prevejo uma baita festa junina por aqui), mês dos festejos que mais gosto! e porque é verão por aqui, e até sol e calor eu tive no meu aniversário (abafa o fato de ter chovido os sete dias posteriores a ele).

junho só não foi melhor porque hoje recebemos a notícia de que o uk resolveu sair da união européia. só lamento que no mundo de hoje as pessoas insistam em reforçar fronteiras que nos separam, e insistam com seus discursos conservadores, com argumentos sofistas e pouco agregadores. mas what happened is happened.

because it’s june june june! hahaha amo

mas apesar de toda alegria, toda mudança e todo trabalho dela resultado, aniversário é tempo de reflexão para mim. tempo de olhar com carinho para mim mesma, de reorganizar algumas coisas, de realinhar outras, de traçar metas, de ver o que tem funcionado, o que precisa mudar e o que precisa ficar. e nesse espírito de reflexão, o poema que me vem à mente, e que me caiu como uma luva foi um poema tão, mais tão especial e tão belo, que às vezes, chega a me faltar o ar ao recitá-lo: degraus (stufen) de hermann hesse.

e esse ano ao relê-lo não pude conter as lágrimas. diz tanto de mim e diz tanto da vida. e nesse espírito de novos começos (casa, ano…) eu me rendo aos seus encantos, mas sempre disposta a recomeçar se preciso for, porque “o apelo da vida nunca tem fim”.

e não me atrevo a dizer mais nada, para preservar toda beleza do poema de hesse. ei-lo aqui:

Degraus

Assim como toda flor perde o viço e como toda juventude

Cede à idade, floresce cada degrau da vida, 

Floresce toda sabedoria também e toda virtude
A seu tempo, e não pode durar para sempre.
O coração deve, em cada chamado da vida,
Estar pronto para a despedida e para o recomeço,
Para se dar, na valentia e sem qualquer
Luto, a outras novas ligações.
E em todo começo reside um encanto próprio
Que nos protege e nos ajuda a viver.

Transponhamos serenos espaço a espaço
E a nenhum nos prendamos qual a uma pátria.
O espírito do mundo não quer nos atar nem comprimir,
Ele quer elevar-nos degrau a degrau, alastrar-nos.
Mal nos habituamos a ser íntimos
De um ambiente, ameaça o relaxar-se.
Só quem está pronto para partir e viajar
Poderá eludir o hábito paralisante.

Acaso a hora da morte ainda nos envie
Ao encontro de novos espaços,
Jamais há de cessar o clamor da vida por nós…
Eia, pois, coração, despede-te e convalesce!

Hermann Hesse (1877-1962), Alemanha
in “O jogo das contas de vidro”, trad. de Thessalonian (transtrazendo.blogspot.com)

Stufen

Wie jede Blüte welkt und jede Jugend
Dem Alter weicht, blüht jede Lebensstufe,
Blüht jede Weisheit auch und jede Tugend
Zu ihrer Zeit und darf nicht ewig dauern.
Es muß das Herz bei jedem Lebensrufe
Bereit zum Abschied sein und Neubeginne,
Um sich in Tapferkeit und ohne Trauern
In andre, neue Bindungen zu geben.
Und jedem Anfang wohnt ein Zauber inne,
Der uns beschützt und der uns hilft, zu leben.

Wir sollen heiter Raum um Raum durchschreiten,
An keinem wie an einer Heimat hängen,
Der Weltgeist will nicht fesseln uns und engen,
Er will uns Stuf’ um Stufe heben, weiten.
Kaum sind wir heimisch einem Lebenskreise
Und traulich eingewohnt, so droht Erschlaffen,
Nur wer bereit zu Aufbruch ist und Reise,
Mag lähmender Gewöhnung sich entraffen.

Es wird vielleicht auch noch die Todesstunde
Uns neuen Räumen jung entgegen senden,
Des Lebens Ruf an uns wird niemals enden…
Wohlan denn, Herz, nimm Abschied und gesunde!

Da poesia da vida, mudança, mundo afora, naturebices, palavras soltas ao vento

das memórias afetivas e um poema por semana

memória é um trem doido mesmo. do nada, num dia qualquer, em circunstâncias despretensiosas você passa por uma situação que te evoca lembranças que parecem até ser de outra vida, de tão longínquas e desconectadas do presente que são.

e os gatilhos que despertam lembranças são tão inesperados e tão particulares, que eu sempre me surpreendo com minha própria memória.

hoje eu estava num café esperando pelo meu expresso. e do nada, o cheiro do chocolate quente do meu predecessor na fila chegou a mim. as repetidas lufadas pareciam jogar na minha cara o quão gostoso aquele chocolate quente era e o quão desinteressante meu café seria perto daquela exuberância cremosa.

por segundos eu me arrependi do fundo da minha alma por não tomar mais leite, e muito menos leite com achocolatados. me arrependi por não ter pedido um golinho do chocolate quente pro meu colega de fila. 

por segundos pensei no quanto o tempo passa e no quanto os gostos mudam. seja por necessidade, seja porque se quis que mudassem.

lembrei, já com meu café em mãos, da minha infância regada a leite de vaca com toddy ou nescau.  e também me lembrei do quanto o leite com chocolate  parecia infinitamente mais gostoso na casa da tia zeza, ou na casa da vó chica ( a grama do vizinho,  sabe como é).

e me peguei pensando no quão longe dessa infância eu estou. não só pelos anos passados, mas muito mais pela distância geográfica em que me encontro de todo meu passado.

faz pouco tempo que me mudei para inglaterra. mas faz muito tempo que estou fora “de casa”.  eu sempre soube que não ficaria  naquele lugar que nasci e cresci.  tudo muda, mesmo que por lá ficasse, nada seria igual à essa infância da minha memória.

às vezes, só o que me faz falta é me saber parte de algo. às vezes, o que me faz falta são as pessoas. às vezes, todas as coisas me fazem falta. mas aí eu me lembro do fernando pessoa que deu voz a ricardo reis quando disse “para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui…”. não exagera a falta, porque a vida é assim mesmo: ora se tem, ora não tem.  não exclui a responsabilidade das escolhas: ganhar e perder são dois lados da mesma moeda.

e ele continua dizendo: …”Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive”. e aí me volto inteira pro presente, sorvo meu café muito bem tirado, me ponho inteira novamente em todos os sentidos, levanto para resolver minhas coisas com a sensação de que a vida é exatamente tão gostosa quanto àquela vida do leite com nescau.  mas volto pra casa ainda com a memória olfativa do chocolate quente.

resolvo fazer um para mim. com leite de amêndoas e cacau puro. porque apesar das memórias serem as mesmas (graças a deus), os paladares já são outros. devo dizer graças a deus também? talvez deva.

 

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meu chocolate quente não ficou atrás do chocolate do costa 🙂

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mais dia menos dia vou escrever o porquê de ter mudado o nome do blog, o tanto que gosto de poesia e um pouco mais. por enquanto, quero apenas “estrear” minha ideia/vontade de deixar aqui alguns dos poemas que mais gosto.  a ideia original era deixar um poema por dia, mas não sou disciplinada a ponto de passar todos os dias no blog. um por semana, por ora, está de bom tamanho, e cabe bem na minha lista de afazeres (e espero poder cumprir).

o poema da semana não poderia ser outro que não o  acima citado. espero que goste tanto quanto eu (embora eu tenha enormes desconfianças de gente que não gosta de fernando pessoa. nem de poesia 😉 ).

 

Põe quanto És no Mínimo que Fazes

Para ser grande, sê inteiro: nada
          Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
          No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
          Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa

a vida é mais, Da poesia da vida

navegar é preciso

e  porque o espírito festivo daqueles que estão longe me contaminou. e porque hoje é terça-feira gorda. e porque eu acho que essa música  diz muito sobre meus movimentos nos últimos tempos. e porque eu acho que , às vezes, podemos controlar e direcionar o rumo da vida. mas às vezes é  preciso soltar o leme  e ver onde vai dar. e porque eu estou muito feliz por ter me deixado levar pela vida. e porque demorou, mas eu cheguei onde deveria chegar. e porque é  carnaval, embora ele não se faça sentir onde estou. mas isso não importa.

bom fim de festa pra quem é da folia.

boa viagem para quem se lançar ao mar. qualquer mar, de qualquer escolha, pra qualquer lugar.

Timoneiro nunca fui
Que eu não sou de velejar
O leme da minha vida
Deus é quem faz governar
E quando alguém me pergunta
Como se faz pra nadar
Explico que eu não navego
Quem me navega é o mar

https://youtu.be/EflJ67AAZFc

antes de ser mãe eu não sabia que..., Da poesia da vida, Do cotidiano

Das voltas que o mundo dá

Quando o Tomás tinha pouco mais de um aninho, eu encontrei um senhor um dia que me perguntou quando viria o segundo filho. Na época, eu respondi que o segundo filho nunca, jamais viria. Na época também, a maternidade era algo ainda novo para mim. A maternidade havia me atingido em cheio, feito raio certeiro em dia de temporal, e eu me sentia como aquela que havia sobrevivido e voltado para contar como eram as coisas lá do outro lado.

Eu também não sabia, mas o outro lado em questão começara no puérperio. E parecia que a vida real, aquela vida na qual eu me sabia tão eu, nunca recomeçava.

Na época, eu não conseguia nem separar muito bem, nem integrar muito bem, a Gabriela mãe e a Gabriela mulher. Na época eu me olhava no espelho e procurava desesperadamente por mim mesma. Na época, eu me perguntava constantemente quem sou? para onde vou? onde estou?. Naquele momento, ter outro filho significava para mim, me perder para sempre, nunca mais achar respostas para minhas perguntas, nunca mais me reconhecer no espelho.

Hoje eu sei que nao preciso separar nada. Hoje eu me sei inteira de novo. Hoje eu sei que a gente se separa, se parte pela metade, se despedaça, pra depois se juntar e seguir refeita. Até a próxima ruptura…

O começo da maternidade não é assim para toda mulher/mãe e também não precisa ser assim. Comigo foi, e tudo bem. Aceita que dói menos.

Mas voltando ao senhor do começo do texto… ao ouvir minha resposta, ele riu e disse que duvidava. Eu fiquei puta da vida, bem puta mesmo. Ele disse que duvidava, porque percebia que eu havia nascido para ser mãe. Eu continuei puta da vida, bem puta mesmo.

Até mesmo porquê, naquela altura da vida e da lida, onde eu estava me tornando mãe um pouquinho por dia, na raça mesmo; dizer que eu havia nascido para ser mãe me parecia falar sem conhecimento de causa. Como se estalássemos os dedos e ó… nasce uma mãe.

Eu podia ter desfiado um rosário naquele dia, ter falado quem era ele para ser invasivo daquele jeito, invasivo a ponto de opinar numa escolha tão minha, tão pessoal? Mas eu só fiquei danada de raiva e insisti que não teria outro filho.

Ele se despediu dizendo que filho era bênção. Deixa vir, disse ele ainda.

Na época, aquilo me incomodou demais da conta. E quando o incômodo é grande, o problema geralmente está na gente, e não no outro que falou o que falou.

Fui averiguar as razões do meu desconforto. Desconforto inversamente proporcional ao que o senhorzinho me disse.

Daí é aquela coisa, chora um dia, descobre um pouco noutro dias, nos outros dois ou três nem se fala mais nisso… Vai na terapia, chora na terapia, depois não quer voltar na terapeuta… E por fim, como em todo processo de autoconhecimento você desata aquele nó.

Sai aquele aperto do peito

A vida flui.

Mais leve.

Porque tudo nessa vida é uma questão de tempo.

E neste tempo, eu tenho dias de achar que eu nao dou conta de nada; Em outros pareço abraçar o mundo só com dois braços. Tem dias em que o amor não cabe no peito; em outros, ele parece faltar, nunca ser o suficiente. Tem dias em que acho que um filho só valem por dez; em outros sonho com um quintal cheio de filhos. Tenho dias de me achar uma super mãe; e tenho outros mãe de merda total, a rainha das “menas” mãe tudo. E a lista poderia seguir infinitamente, poruqe a vida é assim mesmo; cheia de dias bons e outros nem tanto.

Mas ultimamente, eu tenho tido dias de achar que seria muito legal o Tom ganhar um/a irmão/ã, e um/a irmão/ã ganhar o Tom. E tenho dias até, de achar aquele senhorzinho muito simpático.

Se a gente vai partir para essa aventura, de novo, é uma questão que levará o seu próprio tempo. Por ora, o que sei, é que tenho vivido dias de muito querer.

"Mama, ou você vem chutar bola comigo ou me dá um irmãozinho pra eu  poder brincar." Cataploft!
“Mama, ou você vem chutar bola comigo ou me dá um irmãozinho pra eu poder brincar.” Cataploft!
Da poesia da vida, Do cotidiano, Sem categoria

Das ausências

Hoje a Paula e o Felipe voltaram para o Brasil. Hoje ficou aquele vazio que fica quando alguém querido se vai.Vazio que demora dias, semanas, talvez alguns meses, para deixar de ser percebido.

Porque ausências, como bem sabemos, só podem ser preenchidas com as próprias presenças.

Hoje o dia está chuvoso. Hoje teve chá com pipoca, teve bolo de chocolate, teve muitos livros lidos na cama, teve muito brincar.

Tudo para distrair a falta, tudo para esquecer a ida.

Que coisa essa vida… uns sempre estão de partida.

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