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dos ares ingleses e da maternidade compulsória

os ares ingleses não têm sido gentis conosco. desde que chegamos aqui o tomás passou por cinco viroses terríveis. claro que coincidiu com o fato dele ter entrado na escola, e sua convivência com todos os novos vírus que o cercam.

o mais recente deles foi um noro vírus (ou a gripe do estômago) extremamente popular nos meses de inverno por aqui. é o inferno na terra, ainda que por 48 horas. vômitos de hora em hora, roupas de cama, toalhas, paredes e chão carimbados, diarréia, uma criança amuada, e máquina de lavar e secadora trabalhando à exaustão.

nossa senhora da gestação dessa vez não deu conta. achou que limpar tanta sujeira e receber um jato de vômito nos cabelos já era demais, e tirou sua proteção.  resultado óbvio, eu peguei a virose. ontem eu estava só o reboco. acabada era pouco. hoje eu consegui manter uma maça, duas torradas, e líquidos (água, chá, limão com água) no meu estômago.

a despeito de toda escatologia hoje, embora me sentindo fraca, eu sai da cama para ler e aproveitei para dar uma espiada na internet.  e a internet é sempre um campo muito vasto e fértil, não é mesmo?

e foi nesse vasto mundo que eu me deparei com essa reportagem http://estilo.uol.com.br/gravidez-e-filhos/noticias/bbc/2016/12/09/tenho-motivos-para-odiar-criancas-o-polemico-testemunho-de-escritora-francesa-que-se-arrepende-de-ser-mae.htm

abaixo da foto de uma mulher bonita, trajando um maiô, em uma paisagem igualmente bela lemos o seguinte:

A autora francesa Corinne Maier, que tem dois filhos, anuncia para quem quiser ouvir sua opinião de que, no mundo atual, os adultos estão tão obsessivos por seus filhos e tão exaustos por ter de cuidar deles que não têm energia para mais nada.

seu livro cujo título é No Kids: 40 Good Reasons Not to Have Childrenfoi lançado, segundo a reportagem, em 2009 e eu só fui saber dele agora, em 2016. embora se tivesse sabido da sua existência antes, isso não mudaria os meus planos de ter filhos.

mas gostaria de fazer uma análise sobre a proposta da autora. mesmo que correndo o risco de ser injusta, afinal não li o livro, e minha análise será baseada apenas na curta reportagem, ainda assim gostaria de tecer minhas considerações a respeito.

vamos lá. um dos contras citados na reportagem seria a questão da super população mundial …Em 2100, seremos 11 bilhões. Como o planeta vai alimentar todo mundo?” 

este é um argumento que honestamente não me assusta. primeiro porque não é o mundo inteiro que consome no mesmo ritmo que as nações industrializadas. vivemos num mundo absurdamente desigual onde 1 bilhão de pessoas passam fome (segundo o IFPRI, International Food Policy Research Institut https://www.ifpri.org), enquanto 1,3 bilhão de tonelada de tudo que é produzido no mundo é jogado no lixo.  segundo a ONU se esse desperdício fosse reduzido ( veja, reduzido apenas)  seria o suficiente para alimentar… 2 bilhões de pessoas! falta comida mesmo?

eu sei que tem outras questões em jogo, como a água  doce e potável, por exemplo. a água é um recurso finito e muita gente usa como se fosse infinito. talvez eu na minha ingenuidade e no meu otimismo, ache que ao fazer a minha parte (e sei de mais gente que também o faz) o futuro dos nossos filhos não será apocalíptico. acho que ao consumir menos, consumir orgânicos/produtos de produtores locais, usar conscientemente os recursos naturais, evitar o desperdício dentro da nossa casa (coisa que eu evito/luto constantemente), sinceramente acho que é uma saída viável e inteligente. desde que seja consistente, não dá pra adotar tais medidas apenas de vez em quando. é necessário tê-las como um estilo de vida consciente.

ainda sobre este ponto, eu acredito que deveríamos cobrar nossos governantes por planos mais ambiciosos de preservação ambiental, e também, cobrá-los por ações mais concretas a curto, médio e longo prazo. Quantos estão dispostos a fazer isso, não é mesmo? minha pergunta vale para ambos os lados (governo e sociedade).

outro ponto citado foi  Vivemos em uma sociedade obsessiva por crianças. Um filho é considerado uma garantia de felicidade, um desenvolvimento pessoal e até um status social.” sério mesmo que vivemos numa sociedade obsessiva por crianças?  pois eu, na minha perspectiva de mãe acho o contrário, acho que vivemos numa sociedade que exclui crianças dos espaços públicos, que espera que elas sejam mini adultos, que nunca chorem, que nunca incomodem… talvez eu tenha entendido errado a frase dela, mas essa obsessão tal qual eu entendo a palavra, eu não vejo não.

sobre filho ser considerado uma garantia de felicidade, desenvolvimento pessoal e até status social, well… eu não posso dizer os motivos pelos quais os outros quiseram ter filhos, e acredito até que algumas pessoas os tenham por esses motivos  citados por ela. mas no meu caso, honestamente, não foi. eu sei que quando se tem filhos projeções são inevitáveis, mas cabe a cada mãe/pai torná-las conscientes e baixar a bola se for o caso. a minha garantia de felicidade soy yo, não é marido, não é emprego, não é post code, não é jeans 36 e muito menos filho. embora meus filhos me tragam muitas alegrias também; mas não porque eu espero que eles me façam felizes, e sim porque relações próximas e afetivas nos trazem alegrias ( e raiva, e tristeza, e cansaço e outras cositas mas). sobre a questão do status social, pffff… cago e ando, perdoem meu francês.

mas vamos em frente que tem mais. ela diz ainda ” indivíduos que não têm filhos são descritos como egoístas e cidadãos de segunda classe. Muitos deles se sentem pressionados a se justificar: ‘Eu não posso ter filhos, mas eu adoro crianças.’ Quando ouço isso, logo faço um comentário para inflamar a conversa. Algo como: ‘Eu tenho filhos, mas tenho razões para odiar crianças’.”  mesmo que alguém decida não ter filhos por razões egoístas (e defina razões egoístas para mim cara pálida) este alguém está totalmente em seu direito. não vejo filhos como algo compulsório. na vida a gente tem que seguir as leis e pagar impostos (e se você tem filhos você tem que educá-los) de resto não tem que nada não. cidadãos de segunda classe? isso existe? pessoas são pessoas, com ou sem filhos. sobre justificar-se por não ter filhos… acredite, se você os tivesse também teria de justificar-se (por que só um? por que três?  por que não dá um biscoito recheado? e assim vai).

e o crème de la crème para mim foi  ‘Eu tenho filhos, mas tenho razões para odiar crianças’.  olha, nessa minha vida de mãe, eu já desejei sumir no mundo sem avisar ninguém e voltar quando meu filho tivesse 20 anos (provavelmente sentirei isso novamente com o bebê que ainda está na minha barriga). não porque eu odiei o meu filho, mas muito mais porque eu estava exausta, exaurida, perdida, sozinha, sem saber o que fazer. na minha opinião você pode odiar coentro, tofu, mc donalds, mas odiar criança, gato, cachorro, odiar qualquer pessoa diz mais sobre você mesmo do que sobre o outro. se antes de ser mãe eu  já não tinha razões para odiar crianças, hoje como uma eu vejo que não tenho mesmo!

sigamos. outra questão colocada foi …Por que tanta pressão? A resposta, claro, é fornecer um número ainda maior de miniconsumidores que não vão se cansar nunca do capitalismo, que precisa vender sempre mais. É em nome das crianças que os pais compram carros, máquinas de lavar, casas e gadgets.” vivemos em uma sociedade extremamente consumista, é verdade. mas, conhece aquela máxima né: exemplo arrasta?! pois, se você só pensa em comprar, se você mostra para seu filho que ter é mais importante do que ser, provavelmente seu filho também pensará (e agirá) assim, não se cansando nunca do capitalismo e do consumo excessivo. legal mostrar pro nossos filhos que as coisas tem um valor além daquele da etiqueta, que aquela roupa, aquele livro, aquele alimento vem de tal lugar, foi produzido sem trabalho escravo, sem desperdiçar recursos naturais e humanos, e por isso é preciso cuidar bem daquilo. nem sempre é possível, comprar coisas ética e politicamente corretas, eu sei. mas não é necessário gastar os tufos dos mufurufos pra ensinar pra uma criança o valor das coisas.

outra coisa que sozinha daria um outro livro Eu mesma hoje sou perfeitamente ciente de como estava envolvida – envolvida demais – e como me tornei o estereótipo da “mãe judia” (superprotetora, intromissiva e controladora). E isso produz crianças hipercontroladas e hiperobservadas. Tanto que eu penso em como eles conseguem, de fato, virar adultos.” o papel dela como mãe é um problema dela (e dos filhos dela), mas não existe apenas um modelo de maternidade. inclusive, este modelo por ela citado, não é o modelo que eu quero pra mim. sabe, a gente vive num mundo onde as pessoas parecem saber mais do que nós sobre nossos filhos. só pode brinquedo waldorf, só pode quarto montessori, só pode criação com apego, ou pode deixar na frente da tv sim, pode danoninho sim, pode cesárea eletiva sim e etc (sim, eu exagerei nos extremos propositalmente). gente, a categoria boas mães é muito ampla, e contempla na minha opinião, quem está atrás de informação, quem se dispõe a pensar e fazer diferente se o que se faz não traz resultados. e sobretudo se o que se faz é confortável pra quem faz e para todos os envolvidos. a busca do equilibrio é uma constante na vida, porque não seria também na maternidade?

calma que eu estou acabando. outro ponto que não poderia faltar é o dinheiro Criar meus filhos não apenas me deixou exausta, mas também me levou à falência. Em breve, minha filha vai terminar seus estudos. Vou dar uma festa. Finalmente não ter mais que bancá-la. Que alívio!”  não só acredito como concordo com a exaustão. obviamente não temos a mesma liberdade financeira de antes da chegada dos filhos; todo nosso planejamento financeiro é  baseado majoritariamente pensando neles. e eu não vejo nisso um problema. e sinceramente, não acho que meus filhos me levarão à falência. sei que os gastos acompanham o crescimento dele, mas até agora estamos longe da falência, e não a prevejo mesmo num futuro distante. somos de dar o passo do tamanho das nossas pernas. o que está além, ou  se espera ou não se dá.

e por fim Crianças, bem-vindas e boa sorte na entrada nesse mundo podre que seus pais, que te amam muitíssimo, te deixaram. Eles passaram tanto tempo cuidando de vocês que não tiveram tempo de transformar o mundo. Eles desistiram, penduraram as chuteiras. ‘A criança é o que há de mais importante….'” cuidar dos meus filhos, da maneira que eu concebo o cuidar, é para mim um fator transformador. criar cidadãos conscientes de si, das pessoas e do mundo ao seu redor é uma tarefa e tanto. tarefa essa que tomo com satisfação. eu sei por experiência própria que nem tudo são flores, mas eu digo que, para mim, mesmo com os percalços, vale a pena. e eu não pendurei as chuteiras não, porque tomar esta tarefa para si significa não desistir. e sei de muito mais gente que também não pendurou. e  também vejo os meus, os seus, os nossos filhos como o que há de mais importante na construção desse novo mundo (uhul pique nova era).

olha, como eu disse eu não li o livro e suas 40 razões para não ter filhos, e por isso mesmo não vou ficar  aqui criticando a autora. até mesmo porque, na minha opinião, você não precisa de muitas ou poucas razões para ter ou não ter filhos; bastam que sejam as suas e que você fique satisfeitx com elas.

o que eu gostaria de criticar, na verdade, é a obrigatoriedade velada na nossa sociedade da mulher tornar-se mãe. não estou dizendo que o foi o caso com madame maier, mas ao ler os comentários eu pude ver que muitas mulheres se sentiram representadas e validadas em suas convicções, como que dizendo “tá vendo, eu não preciso ser mãe”. não, colega, você não precisa ser nada que você não queira. inclusive mãe.

algumas pessoas também citaram o fato dos filhos crescerem e ignorarem os pais. e me pergunto: o que seria ignorar os pais? eu, particularmente, vejo meus filhos como seres autônomos e independentes de mim;  a cada dia essa independência torna-se maior, e eu acho natural, desejável e saudável. a relação pais e filhos é um construto diário e constante. eu amo e respeito meus filhos não apenas porque eles são meus filhos (e vice-versa), mas porque diariamente construimos uma relação baseada no diálogo, no amor e no respeito. acho difícil ignorar e ser ignorado nessas bases. se é fácil? claro que não! mas eu escolho isso para mim.

nietzshe uma vez escreveu: quem quer por você? e esta pergunta é tão impactante para tudo nessa vida, que chega a me paralisar, às vezes. quem quer que você seja mãe? você ou seu/sua companheiro(a)? seus pais? a sociedade? quem não quer ter filhos? você? os livros? seu/sua companheiro(a)? eu sei que nossas escolhas não são 100% conscientes, mas quanto mais conscientes fizermos nossas escolhas, mas chance de agradarmos a nós mesmos teremos.

uma maternidade ressentida ( a saber, uma mulher arrepender-se de ter se tornado mãe) é totalmente legítima e não deve ser tratada como tabu, especialmente numa sociedade que espera que as mães amem seus filhos acima de tudo, e que abram mão de suas próprias vidas por eles. você não acha interessante que muitas mulheres tenham usado os comentários (sob uma identidade irreconhecível) para dizer que que se arrependiam de serem mães?  eu não só acho interessante como triste, porque uma mulher não pode dizer isso que imediatamente é julgada. e acredito que se fosse mais fácil admitir isso sem olhares tortos, a relação delas próprias com a maternidade real poderia dar um passo qualitativo.

eu só me tornei mãe porque o componente filhos entrou na minha vida, mas eu não deixei as outras partes pelo caminho ao tornar-me mãe, eu apenas acrescentei mais uma. parece simples essa matemática, mas não foi e não tem sido simples. porém, acredito que falar sem dramas das dificuldades, e dos sentimentos menos nobres, torna o meu maternar mais consciente,  menos rígido, menos culposo, mais leve e mais amoroso. comigo mesma e com meus filhos.

ideal mesmo seria que todos os filhos fossem desejados e amados e respeitados e educados para um mundo tal e qual, nós adultos, desejamos pra nós no agora. e não apenas vistos como serezinhos hiperprotegidos, mimados, predadores do planeta terra, consumistas em potencial e herdeiros de um mundo fadado ao fracasso. talvez seja idealismo demais. talvez… mas se eu fosse escrever um livro eu teria mais de 40 razões para dar do porquê acreditar nesse ideal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Das coisas que eu jurei que nunca faria

No aeroporto lotado eu disse para meu filho que caso ele saísse de perto de mim alguém o levaria embora.

Não, eu não me orgulho disso.

OK, eu não disse que o homem do saco o levaria.

E continuo não me orgulhando disso.

OK, o aeroporto estava uma loucura; de alguma maneira ele precisava entender que ficar perto de mim era uma questão de segurança.

OK, eu escolhi a mais fácil para mim. Não precisei dar zilhões de explicações, como sempre em se tratando do meu filho.

OK, eu escolhi a pior maneira para ele, que não pode exercer seu direito de perguntar.

OK, estamos bem são e salvos.

OK, eu continuo não me orgulhando de nada disso.

E eu que jurei de pé junto que jamais falaria algo do gênero?

**********

Há tempos que o Tomás precisa cortar o cabelo.O assunto sempre vem acompanhado de choro e de repetidos eu não vou nunca deixar cortarem o meu cabelo.

Cansada da ladainha, e cansada de dar argumentos do quão legal seria ir ao salão cortar o cabelo, eu meio que desisti de tocar no assunto.

Então, um dia folheando uma revista com o Tomás empoleirado no meu colo, eu me deparo com este camarada aqui:

 

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O Tomás me pergunta quem é o sujeito. Eu respondo. Ele pergunta por que que o cabelo dele é assim. E eu respondo: porque ele nunca deixava a mãe dele levá-lo para cortar o cabelo!

Muito choro (da parte do meu filho, claro). E a certeza (minha, claro) de que finalmente cortaríamos o cabelo.

Não, eu não me orgulho disso.

OK, eu escolhi a maneira mais fácil para mim de convencê-lo a cortar o cabelo.

OK, foi a maneira mais ridícula e menos nobre.

OK, Tomás vai cortar o cabelo. No fim funcionou.

OK, eu continuo não me orgulhando de nada disso.

E eu que jurei de pé junto que jamais falaria algo do gênero?

**********

Eu havia jurado por todos os santos que jamais usaria argumentos pouco ortodoxos, ou a pedagogia do medo, da comparação e tantas outras (anti) pedagogias com o meu filho.

Mas a despeito do meu juramento, às vezes me pego fazendo algumas das coisas que jurei que jamais faria.

É claro que existe um norte, o qual me atenho e não cedo jamais: bater e gritar estão realmente fora de cogitação. É claro que falo de maneira impaciente, é claro que preciso contar até dez e sair de perto, é claro que uso de argumentos estapafúrdios (os exemplos acima são apenas dois entre centenas). Mas não há nada que meu filho faça ou diga, que justifique uma agressão da minha parte. Nada mesmo.

A verdade é que criar filhos está longe de ser tarefa simples e com fórmula pronta. A verdade é que para criar um filho é preciso muito autoconhecimento e muita autoeducação.

Autoconhecimento, para tornar consciente nossos monstros, nossos medos, nossas sombras. Acho que não existe nada mais desumano do que bombardear uma criança que me foi confiada com meu material inconsciente, do que transferir para meu filho tudo aquilo que está encoberto (embora a transferência seja inevitável em tantas vezes).

Autoeducação, porque bem sabemos que todas criança (ainda mais na primeira infância) aprende através de exemplos. E é tão difícil ser exemplo quando me percebo tão falha em tantas coisas.

Simples? Não, já falei logo acima que não.

E apesar da dificuldade, dos inúmeros erros, de alguns acertos, eu tenho aprendido muito e tenho me tornado uma pessoa melhor. Engraçado, né? Eu, na qualidade de mãe que quer para o filho apenas o melhor e que ele possa com isso fazer o melhor de si, acabo me tornando melhor. Por ele, para ele. Mas também por nós, para nós.

**********

Uma vez eu li* que Freud disse que ninguém, de fato, perdoa a pessoa que o educou; porque o processo de educar deixa influências, cicatrizes e limitações permanentes. No entanto, o laissez-faire, ou seja, não colocar limites e apenas expor nossos filhos ao mundo de maneira simplista, resultaria num desastre muito maior.

Ou seja, conte com as cagadas e espere até o dia de que suas orelhas irão ferver quando seu/sua filho/a se deitar na divã, e dizer que a culpa de tudo que ele/a está passando é sua, só porque você é mãe dele/a.

Exagero, eu sei. Mas com as cagadas pode continuar contando.

Na perspectiva mais otimista da vida, de toda cagada, alguma vira adubo. Adubo para crescer e florescer coisas boas e bacanas.

**********
E por fim, eu mesma dei uma aparada na cabeleira do Tom. De leve, pra apagar incêndio. E por fim, nem precisava da pressa pra cortar o cabelo.

cabelo

E por fim, ele ainda há de me odiar por cortar os cabelos dele e deixá-los todos tortos. E por tirar fotos deles assim. E por publicá-las.

E eu que jurei que nunca iria estragar o cabelo do meu filho?

*JOHNSON, Robert A. & RUHL, Jerry M. Viver a vida não vivida. Editora Vozes

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Por favor, me corrijam se eu estiver errada

Quando saiu a notícia de que a Wanessa Camargo havia dado à luz ao seu segundo filho via parto normal eu fui lá ver: http://maternar.blogfolha.uol.com.br/2014/06/19/nasce-de-parto-normal-segundo-filho-de-wanessa-camargo/

E fiquei feliz por ela. Feliz porque a gente sabe da dificuldade que é em terras brasillis ter um parto normal depois de uma cesárea.

Internet afora a notícia foi divulgada. Internet afora a notícia foi comentada. E os comentários na internet são pra quem tem estômago, viu!

Wanessa Camargo foi criticada, chamada de louca, desqualificada enquanto mulher, mãe, profissional e ser humano. Muitas pessoas não se cansavam de dizer que essa “moda” de parto normal/natural já estava cansando.

As adeptas do parto humanizado comemoraram e refutavam todos os “argumentos” depreciativos.

Pois é, meu marido me pergunta porque eu leio os comentários. Eu também me pergunto porque me presto a isso.

Semanas depois foi Sandy quem deu à luz ao seu primeiro filho. E eu também fui lá ver: http://f5.folha.uol.com.br/celebridades/2014/06/1475550-nasce-theo-primeiro-filho-da-cantora-sandy.shtml

Eu me alegrei pelo nascimento do filho dela. Eu me alegro por cada criança que nasce nesse mundo.

Eu tampouco julgo a cesárea da Sandy. Não sou médica, não acompanhei a menina na sua gestação, o pouco ou o nada que sei sobre a vida dela, o sei através da mídia enviesada.

Internet afora a notícia foi divulgada. Internet afora a notícia foi comentada. Eu já falei que os comentários na internet são para quem tem estômago?

Algumas pessoas adeptas ao parto humanizado criticaram a cesárea da Sandy. Aqui é preciso dizer que, partindo do princípio de que nem todas as pessoas nesse mundo sejam gente fina e elegante, é natural que em todo movimento hajam militantes que não sejam gente assim educada demais. Lamento, de verdade, pelos comentários em nada positivos dessas pessoas.

Eu, graças a deus, só conheço as militantes lindas, finas e elegantes.

Foi o que bastou para que comentários extremamente rudes começassem a ser jogados contra azíndia toda do parto normal. Foi o que bastou para as cesariadas (sem conotação pejorativa, por favor!!!) dizerem que não eram “menasmain” (ZZZZzzzzzzZZZZZ róooooooooinc) que as paridas e por aí vai.

Não adiantou ninguém tentar desenhar o quadro para que se pudesse entender o porquê do VBAC (Vaginal birth after cesarean) da Wanessa ser comemorado, e o porquê da cesárea da Sandy ter sido “lamentada”. Como fez aliás a sempre ótima Gabi Sallit com esse texto aqui.

O furdunço já estava armado, e nos comentários sobre a cesárea da Sandy azíndia humanizada representavam a ignorância, a intolerância, a chatice. A palavra sororidade foi utilizada em tom de sermão.

O mais interessante é que quando azíndia humanizada foram parabenizar a Wanessa (e a equipe médica) pelo parto normal e foram criticadas, ninguém contrário àzíndia todas pediu respeito pelas escolhas da mulher, ninguém lembrou da palavra sororidade, ninguém falou em julgamento ou livre arbítrio.

É impressão minha ou o respeito no caso só vale pra quem pensa igual? É impressão minha ou a maioria absoluta mesmo acha parir uma ideia absurda?

Por favor, me corrijam se eu estiver errada.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Shit happens

O título já diz muito. A vida de verdade é assim, tem hora que dá certo, tem hora que não dá.

Por exemplo, quando a gente deleta quase todas as fotos do perfil do google + se esquecendo que ele está vinculado com o blogger, e quando você vê… seu blog não tem foto nenhuma.

Ou quando você, por razões que a própria razão desconhece, perde três (longas) postagens no prelo.

Ou ainda quando coisas de vulto e significado e importâncias muito maiores parecem ruir em três, dois, um… deixando a gente assim, com cara de onde estou, quem sou, para onde vou.

E o Guimarães Rosa disse assim: O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.O que ela quer da gente é coragem.

E quando a vida pede a gente dá.

Porque também já bem disseram: a vida só se dá pra quem se deu.

Vou ali me dar pra vida e já volto. 
 
 

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Dos perigos de se comparar

Houve um tempo em que eu senti muito orgulho da minha barriga. Muito mesmo. E olha que minha barriga nunca foi sarada, chapada ou “negativa”. Nesse tempo eu estava grávida, e meu orgulho não era pelo fato de poder comer por dois, ou melhor, minha barriga grávida nunca foi uma desculpa para “expor” sem medo de ser feliz uma silhueta curvilínea – e porque não?- tão feminina.

Nesse tempo eu estava simplesmente feliz com minhas formas arredondadas e com minhas carnes macias. Mais do que feliz, eu estava completamente bem naquele corpo que já comportava outro corpo; com aquele outro corpo que dentro de mim crescia.

Pela primeira vez em anos eu fazia escolhas não apenas baseadas nas calorias, mas na qualidade do que ingeria. Pela primeira vez em anos eu fazia escolhas não apenas baseadas na (vã) batalha de caber numa calça 38, mas sim no nosso estar bem. Pela primeira vez em muitos anos, eu abria mão de algumas coisas não por um biquíni P, mas sim por respeito não só a mim, mas sobretudo ao corpo que também nutria.

Embora não muito distante, esse tempo passou. E não me lembro do quando exatamente, depois de gerar e parir, que minhas formas outrora tão orgulhosas – e porque não? – tão deliciosas, passaram a ser incômodas novamente. Eu não me lembro do quando exatamente, depois de gerar e parir, que minhas escolhas voltaram a se basear na simples conta de calorias, na motivação (insana) de caber num manequim 36, nas privações (idiotas) para um próximo verão.

E corroborando a tese de que meus peitos, minha barriga, meus quadris e minhas coxas são curvilíneos demais para os tempos atuais, me deparo quase sempre com fotos na internet, de mães recém paridas exibindo suas (boas) formas em seus biquínis bem pequenininhos.

O problema não são as fotos, nem os outros, embora já tenham dito que o inferno são sempre os outros. E os outros no caso,  são as mães celebridades com seus corpos esculturais a despeito de seus bebês pequenos. O problema é a comparação. No caso, eu me comparar com gente que nem conheço, com gente que tem uma vida diametralmente oposta à minha. E ainda que levassem uma vida muito parecida com a que eu levo, nenhuma comparação faria sentido, nenhuma comparação faz sentido.

Não faz sentido, porque cada barriga tem sua história de vida. Não importa se é a minha, se é a da Gisele Bündchen, se é a da mãe que encontro no parquinho.

Cada barriga sabe do frio que sentiu diante de uma decisão importante, cada barriga sabe como é ter zilhões de borboletas voando dentro dela nos momentos mais mágicos, cada barriga sabe a responsabilidade de gestar e parir não só um filho, mas também escolhas; cada barriga sabe o quão custoso, às vezes, é manter um rei dentro dela; cada barriga carrega as marcas das próprias experiências, carrega os excessos, as faltas; cada barriga sabe, ou deveria saber, do quê tem fome, e do quê está cheia.

Entenda, não apoio excessos de nenhum tipo. Nem tanto ao mar, nem tanto ao céu. Nem engordar oitocentos quilos na gravidez, nem emagrecer mil e duzentos quilos por pressões externas. Nem deixar de se preocupar com a alimentação e a saúde, muito menos fazer do peso, do corpo a maior ocupação da vida.

E eu mesma fecho a boca quando o zíper da calça não quer mais fechar, por exemplo. Mas decidi que não vou mais me comparar com capas de revista ou mães celebridades, decidi que não vou mais me auto impor um padrão de beleza e de magreza que pouco ou nenhum sentido me fazem, decidi que não quero mais ser escrava de dietas da moda.

Decidi gostar de mim do jeito que sou, e isso não significa que eu não possa melhorar algumas coisas em mim. Decidi me orgulhar do que sou, do que tenho.

Decidi me aceitar, apesar de e inclusive com minhas limitações. E esse é o tipo de decisão que não dá mais pra empurrar com a barriga.

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Porque educação ainda funciona – ou dias de bruxas soltas

Eu não leio todos os blogs maternos, assim como não é todo mundo que lê o meu

Na internet apesar de não ver a cara das pessoas, a gente não gosta/ gosta de cara, do blog delas

Pensamentos afim convergem. Contrários divergem. Parece óbvio, mas nem sempre o divergente é bacana e tem bom senso

Gosto é feito bunda, cada um tem a sua. Como reza o dito popular

Eu não entro na casa alheia desrespeitando espaço que não me diz respeito. Por que cargas d’água a imensa maioria não faz o mesmo? Fica a reflexão

Quando eu escrevo algum texto, eu não estou cutucando ninguém, nem mandando indiretas para ninguém. Queria ter esse tempo para, ou não ter mais nada que fazer da minha vida

Quando eu coloco uma frase, uma vírgula de outro/a autor/a eu coloco os créditos. Independente se o autor/a no caso tiver milhões de leitores ou se ele tiver um público mais restrito

O fato de citar alguém não significa amor eterno à pessoa em questão, significa apenas que você reconhece àquela ideia como boa/interessante, mas que não foi você que teve.

Uma frase pequena também entra na categoria citação.É sempre bom lembrar. Ainda mais quando algum texto é recente

Dedos duros existem aos montes. Thanks God!

Cansada dessa porra

Fim

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E por falar em saudade…

Até ontem usava o sapato do macaco. Como crescem esses pequenos!

Reza a lenda, uma lenda, que a palavra saudade surgiu na época do descobrimento do Brasil. Ela personificou e definiu a melancolia que os portugueses, tão distantes de tudo aquilo que era seus, sentiam.

Verdade ou não, e toda lenda tem um quê de verdadeiro, a mais portuguesa das palavras é pra mim, mais do que uma palavra. É todo um sentimento, sentimento esse que não cabe só em palavra.

Aliás, a saudade enquanto palavra é sempre a definição da tristeza, da falta, do padecimento, da ausência. Enquanto sentimento, ainda que aproximados, nenhum desses sentimentos para mim são a saudade, nenhum deles é uma saudade. Porque para mim a saudade se basta. Saudade se sente e só. Porque saudade é trazer o passado para o presente, e suspendê-lo. É um suspirar. É um sorrir-se por dentro. Saudade é a prova de que tudo passa, e ao mesmo tempo, de que tudo fica.

Eu sou saudosista, confesso. Porque toda saudade é ausência assimilada. E como já disse o grandissíssimo Drummond “…ausência assimilada, ninguém rouba mais de mim”.

Pois é, ando saudosa demais. Não tanto do Brasil que ficou distante, nem do tudo e do tanto que por lá ficaram. Ando saudosa mesmo dos tempos que meu filho era um bebê.

Saudade de mãe é engraçada demais. Mãe se alegra com o presente, suspira com o futuro, mas sempre tem no peito um não sei o quê, uma chavinha no coração que sempre abre as lembranças de quando se carregava a cria nos braços. 

E não é que não queira que meu filho cresça. Juro que não é isso! Até mesmo porquê, não querer que filho cresça é dar um tiro no pé. Filhos crescem e ponto. E se vão a cuidar de suas vidas, e se vão a descobrir outros mundos, e se vão a ser eles mesmos no mundo.

E mesmo assim, e mesmo quando for assim, eu vou continuar sentindo saudade do tempo que carregava Tomás na minha barriga, do dia do seu nascimento, dos dias de pequenice que pareciam eternos.

Recém-paridos: mãe e filho. E não dá pra exigir do marido que ele tire uma foto perfeita nessa hora

 Me deixa, vai! Quem é mãe sabe que essa é a saudade mais gostosa de se sentir. E eu vou ter que discordar do meu sempre querido Chico: a saudade não é o revés do parto. A saudade já nasce no parto.

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Não se afobe não que nada é pra já*

J.  é casada com B., e ambos são pais de D. (2 anos) e de M. de apenas 8 meses. Quando D. ainda era um bebê, J. se candidatou para uma bolsa de estudos na Alemanha.. J. comemorava o fim da amamentação com taças e mais taças de vinho quando descobriu-se grávida de M.. Logo agora que eu parei de amamentar? Logo agora que eu me candidatei para uma bolsa de estudos em outro país? Não importava o motivo, a pergunta Logo agora? era o principal.  J. ainda se recuperava da notícia da segunda gestação quando a notícia da aprovação da bolsa saiu. Não era um bom momento, mas desistir da bolsa também não era uma opção. J. conseguiu adiar sua vinda para à Alemanha. Mesmo assim, ela e seu marido aterrisaram numa terra estrangeira com dois bebês à tiracolo. A pequena M. contava apenas com dois meses recém-completos, quando por longínquas terras aportaram.

O marido de J. conseguiu uma licença de doze meses em seu escritório, e topou o desafio de ser “dono-de-casa”. A ideia original era colocar D., a então mais velha na creche, e ele ficaria  “apenas” com a bebê.  No entanto, a adaptação de D. foi extremamente sofrida e acabou não se dando. Tudo bem, disse ele; eu fico com as duas.

À essa altura J. se perguntava todos os dias o que ela estava fazendo na Alemanha; não havia um só dia que ela não pensasse que aquilo tudo não passava da mais pura loucura. Porém, ela, eles à dois, eles à quatro, porém a vida, porém tudo e todos se arranjaram, e à sua maneira, as coisas foram se acertando.

Todas as noites J. acorda mais de uma vez, seja para dar de mamar à sua caçula, seja para acudir sua mais velha. E na manhã seguinte, J. não pensa no cansaço, na falta de sono. J. diz que não pensa em nada, que sai de casa e vai trabalhar mais um pouco em sua tese de doutoramento em filologia do grego antigo.

J. diz que de alguma maneira é possível, que de alguma maneira funciona, que de alguma maneira  ela conseguiu bons progressos em seu trabalho. J. e B. estão há quase sete meses na Alemanha, e não conhecem direito a cidadezinha linda em que estão morando, e muito menos pensam em viajar pela Europa, como era o planejado quando ao se candidatar para bolsa tinham apenas D.. J., B., D., e M., vivem um dia de cada vez. E para eles está bom assim, tem sido bom assim.

J. não pensa em fazer um doutorado brilhante, nem em participar das maiores e melhores conferências de sua área. J. é grata à oportunidade que teve, ao reconhecimento acadêmico que recebe não só de seus colegas como de seu Professor; J. é grata ao marido e ao seu apoio, J. é grata às suas filhas, sobretudo às suas filhas. E sua gratidão é genuína e até palpável.

Talvez J. não pense muito sobre, talvez não dê muita importância para, mas a verdade é que J. é bonita que só vendo. Talvez ela acredite que tenha olheiras enormes, talvez ela pense que seus cabelos poderiam estar melhor, talvez ela acredite que seu corpo esteja longe de voltar ao “normal”.

A verdade é que olhando de fora, J. é dona de uma beleza franca e real, uma beleza tão feminina e tão dela, que ao olhar para ela fica difícil não pensar em uma deusa grega. Exalando feminilidade por todos os poros, compartilhando força e determinação. J. é humana mas tem algo de sobre-humano também. Algo que nos fascina, que nos encanta, que nos intriga.

Mesmo assim, J. é real, J. e sua família existem. E moram no prédio ao lado do meu. J. é tão mulher e tão mãe quanto eu, quanto você. Tão humana quanto nós todas juntas.

E quando eu penso que não dou conta de nada, que minha casa está fadada ao caos absoluto e sem fim, que eu sou uma merda em forma de mãe, que minha aparência não tem mais salvação, que meu marido não merece uma mulher tão incapaz, que blá blá blá, eu paro e me lembro da J.. Eu não me comparo com ela, porque sei que cada um tem uma vida, que cada um, o que quer que isso signifique, segue o seu próprio destino.

E daí eu penso que eu tenho muito a que ser grata, que eu já aprendi um bocado de coisa nessa vida, e que já não posso mais me dar ao luxo de esquecê-las. E daí eu penso que de fato o essencial é invisível aos olhos, e que já faz um tempo que eu tenho procurado pelo essencial na minha vida, nas minhas relações, ao trilhar meus caminhos. E daí eu penso que se já faz algum tempo que eu tenho vivido procurando ser fiel à mim mesma e aos meus princípios, uma hora tudo há de se arranjar.

Não como num passe de mágica, não como algo caído do céu, que fique claro. Já não sou mais tão ingênua assim. Mas sim porquê ao viver a vida do jeito que acredito, a vida lá na frente saberá me devolver. A vida sempre devolve.

E mais uma vez eu volto a pensar na J., que apesar das dúvidas, dos medos, das circunstâncias… se deu pra vida. E a vida tem se dado pra ela. Seja em forma de força, seja em forma de otimismo, seja em forma de amor, seja em forma de recursos internos e externos inesperados, seja na forma do que for.

E daí eu penso que vale a pena se dar aberta e rasgadamente para a vida. E daí eu penso que o poeta estava mais do que certo. De fato, a vida só se dá pra se deu!

E tudo se aquieta aqui dentro de mim.

*Da canção Futuros amantes do sempre Chico Buarque

a vida é mais, aguenta coração, Alemanha, antes de ser mãe eu não sabia que..., dilemas da vida moderna, Do cotidiano, escola, mães não são de ferro

Aí vem o desespero

Eu anunciei que ia me ausentar, e acabei voltando. Meu anúncio não foi nenhum tipo de estratégia, e minha volta é por puro desespero.

Vou abrir meu coração e pedir ajuda para as mãe tudo e tudo as mãe.  Como eu disse aqui o Tomás está frequentando uma escola ou uma creche, ou em bom alemão, uma Kinderkrippe.

Muito bem,  meu raciocíonio foi de que quanto antes ele começasse a frequentar uma escolinha, mais rápido ele se acostumaria com a língua e com o país. Principalmente com a língua, uma vez que nós não falamos alemão com ele em casa, e começar de uma hora para outra seria, no minímo, estranho.

Então que a gente escolheu uma escola que vai de encontro com nossos valores e convicções, uma escola aberta, uma escola com porquinho, cabrinha, galo, galinha, ganso e o caramba à quatro, uma escola com comida vegetariana e orgânica, uma escola com cuidadoras simpáticas, sensíveis e amorosas,uma escola com as criança loira de zóio azul mais loira de zóio azul desse mundo, uma escola com os brinquedos de madeira e as bonecas de pano mais lindos desse mundo, e o moleque se recusa a ficar nela. Ele não chora um pouquinho, pede a mamãe e volta a brincar. Deixa eu repetir: ele se RE-CU-SA a ficar na escola.

Levando em conta que o país é novo, a língua é nova, as pessoas são novas, enfim, tudo é novo para o Tomás, e que a única coisa “velha” e segura sou eu; levando em conta que o menino ficou comigo desde que nasceu, levando em conta que ainda vai fazer três meses que chegamos por aqui, levando em conta tantas outras coisas que eu ainda nem me dei conta, só o que eu tenho a dizer é que tá… phoda.

Então, a gente sempre ouviu que criança se adapta rápido, que criança aprende muito rápido uma língua e blá blá blá blá. Mas o que é ser rápido, né? E, no meu caso, pressa pra quê? De modos que, eu não sei se desisto do processo agora, e volto com essa ideia de escola lá pro fim do verão por aqui, quando espero em deus (andar com fé eu vou), Tomás estará mais aclimatado. Ou se tento mais o mês de Maio.

E sem contar o grude que esse menino anda comigo. Tudo é a mãe, com a mãe. TU-DO. E vem a vontade de ficar sozinha, e vem a culpa por querer ficar sozinha, por não estar dando tudo (e isso existe?) que meu filho precisa nessa fase da vida dele, e… Sem querer fazer um melodrama, mas já fazendo…

Não sei se você já se sentiu assim, mas eu ando com uma vontade de dar uma sumida de cena, sabe? Voltar quando tudo estiver lindo e funcionando, sabe? Mas não dá, né?! A gente é protagonista da própria vida, e não tem jeito, eu tenho que enfrentar plateia e holofotes e desempenhar o papel que me foi designado. O problema é que eu nem sei direito qual é o meu papel nessa história toda.

E olha minha gente, eu não vou sumir, não, porque eu sou tão ordinária quanto esse desabafo, viu?! Mas agora vocês me dão licença que eu vou ali no meu canto chorar mais pouquinho. 

E estou aceitando conselhos, abraços, chazinhos, novenas e um sem fim de carinhos. É que eu tô bem da precisada.

Tomás e sua  carinha de quem não está a fim de muita coisa
a vida é mais, Alemanha, dilemas da vida moderna, Heidelberg

A mãe que queria ser malabarista

O malabarismo da vida requer fé.  Manipular a vida com destreza e equilíbrio é para os fortes, é para os que querem. Não sou das mais otimistas, mas também não desisto fácil.

Já  no malabarismo da maternidade, eu me sinto como uma “bêbada equilibrista”. Derrapando aqui e ali, deixando a peteca cair, procurando sempre por  aquele equilíbrio sóbrio. Maternidade é andar na corda bamba, e ter que admitir estar na corda bamba. É viver quase sempre com medo de cair. E se cair? Nada melhor do que os versos de Paulo Vanzolini: …”reconhece a queda e não desanima, levanta sacode a poeira, e dá a volta por cima.”

A procura do equilíbrio custa força, custa vontade, custa tempo. Tempo para  reconhecer os erros, tempo para se reinventar, tempo para encarar a realidade, tempo para criar coragem, tempo de agir e tempo de esperar resultados.

E o que é o tempo pra cada um (filho-pai-mãe), se cada um é único, e cada um precisa de seu próprio…tempo?

Não é falta de tempo que irá me ausentar daqui. O que irá me ausentar daqui é a vontade de viver a vida que só cabe a mim viver.

Se eu vou ter um dia uma vida equilibrada, se eu vou ser um dia uma mãe equilibrada? Honestamente, não sei. E quer saber? Agora não me importa. O que me mantêm, ainda que capenga, é  a minha dose de desequilíbrio temperada de leve com uma certa dose de esperança e outra, um tiquinho maior, de loucura.

Porque o malabarismo da vida requer fé, sim. Mas são só os minimamente loucos que se lançam na corda bamba.  Concorda?
 

Imagem daqui