Pensamentos aleatóreos sobre o Tomás no Kindergarten

Antes, muito antes de saber que eu tinha um Tomás na barriga, eu e João já havíamos nos decidido por um Kindergarten Waldorf. No matter where. No Brasil, na Alemanha, na Conchinchina, onde Judas perdeu as botas… tendo um pelas bandas, lá então seria.

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Eu já contei aqui e aqui da nossa frustrada tentativa na creche Waldorf. Demos uma pausa, mas continuamos inscritos para o Kindergarten, na mesma escola. No fundo, eu sabia, a despeito da minha prévia decisão, que lá era o melhor lugar para ele. É claro que, por muitas vezes, eu me perguntava será mesmo? Quem quer tanto que seja lá: você e João, Tomás ou o destino? (sim, eu acredito em destino, não da forma banal e cafona como é pregada por aí). Eu acredito em encontros, eu acredito nas pessoas certas no momento certo. Muito luz e flor? Pode ser. Mas eu sou uma mãe Waldorf, então…

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Quando fomos conversar com o professor do Tomás (sim, o Tom tem professor) ele, do alto da sua experiência,  nos aconselhou  que seria melhor um de nós ficarmos com o Tomás durante o tempo que ele precisasse. Normalmente, a fase de adaptação no Kindergarten não é assim. Mas eles (professor, escola, outros pais) foram e são muito sensíveis em relação a situação do Tomás. O fato de morarmos há um ano na Alemanha, o fato do Tomás não falar alemão, o fato de nunca ter ficado com outra pessoas a não ser comigo e com o pai… Sinceramente? Não acho que encontraria tanta compreensão, tanta sensibilidade e tanto respeito ao tempo do meu filho em outro lugar. Apenas acho, sem grandes confirmações.

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É claro que o um de nós no caso sou eu. Quem traz o pão para casa é o João, logo… E neste tempo que tenho ficado com meu filho, e tenho conhecido as outras crianças, e tenho cruzado com outros pais, e tenho visto com meus olhos tudo o que é feito lá, e tenho visto com meu coração como tudo é feito, tenho ficado cada vez mais segura de cortar nosso cordão umbilical e deixar meu filho passar para outra etapa de sua vidinha. A estruturação do dia, as músicas, os rituais, os brinquedos e o brincar… tudo me cala fundo. É como se eu encontrasse ressonância com aquilo que acredito.

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Sabe, por muitas vezes eu cheguei a pensar que se eu tivesse tido no ano passado essa segurança interna que agora tenho, teria dado certo já no ano passado. Mas eu não tinha. O que eu tinha era um contrato interno comigo mesma de que ficaria os três primeiros anos com meu filho. Contratos internos são mais difíceis de quebrar. E agora, coincidência ou não, eu sinto que eu e Tomás estamos prontos para uma outra fase. Complicado, né?

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Eu já não estava mais dando conta de suprir as necessidades do meu filho. Ele precisa agora também de limites externos, contato com o outro, aprender o alemão… coisas que sozinha eu já não podia dar. E tudo bem; cada fase com suas necessidades, cada fase com sua doação. Minha terapeuta já disse: apenas viva essa fase! E assim estou. Vivendo.

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Por falar em outra fase… Tomás dá passos rumo ao aprendizado de uma nova língua, à aquisição de novas competências sociais, ao conhecimento de novas pessoas de referência… e tem dado provas que vai ser mais rápido do que todos imaginávamos. Enquanto ele sua a camisetinha para conquistar um novo lugar ao sol, eu em breve, vou suar a camisa, e deixar de ser mãe em tempo integral em casa, para ser mãe em tempo integral com vaga na universidade e com trabalho em vista. E eu me sinto como uma menininha de seis anos que vai no começo do ano comprar o caderno novo para escola!

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E eu estou lá no Kindergarten, mas não estou de espectadora não! Eu tenho colocado a mão na massa. Eu tenho limpado, cozinhado, trocado criança, costurado, capinado… O Tomás vê que a mãe está lá, mas ele tem que se virar. No começo meu coração se contorcia de dó por vê-lo ali como o diferente, o que não sabe como as coisas funcionam, o que não fala a língua… Mas eu não posso privá-lo de passar pelas próprias experiências de vida, de se virar sozinho. Afinal, não é sempre que mamãe estará lá para ele.

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E que fique claro que tudo que digo aqui é apenas minha experiência pessoal, longe de qualquer julgamento alheio. Até mesmo porquê, circunstâncias de vida são pessoais e intransferíveis.

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Mas de todas as minhas atividades lá, a que eu mais tenho gostado é a de cozinhar. Tudo o que eles comem é feito lá mesmo pela assistente. Três vezes na semana tem pão integral, cada um de um tipo. Nos outros dois, um mingau de arroz ou de painço. Tudo é integral e nada é adoçado com açúcar (refinado, mascavo nem demerara). Tenho aprendido receitas maravilhosas e bem mais saudáveis. Como o bolo de aniversário feito com farinha integral, leite de arroz e adoçado com xarope de agave.

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Aliás, este post era apenas para passar a receita do bolo, mas eu acabei costurando um pensamento aqui e ali, e quando vi…. 

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No calor da hora eu peguei a receita e fiz em casa. Me esquecendo que a receita serve vinte crianças e mais três adultos. Temos bolo para semanas agora. Quem quiser comer bolo com chá, pode se achegar. Mas você tem que trazer a(s) cria(s) e jurar que não vai me chamar de louca, que essa prolixidade toda de pensamento é coisa de toda mãe. Jura mesmo?

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A receita eu passo outro dia.

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Uma foto por semana – semana #2

Tomás e a febre

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Tudo começou com o Martin e seu atchim sem fim

Passou para o Louis que nada fazia, além de assoar o nariz

A pobre da Flora, xiii! Pegou catapora

E na outra semana?

Sobrou para o Tomás: de molho, na cama!

Febre, lágrimas, dorzinha aqui e ali

Mas nada deixou o menino mais feliz

Do que ficar de novo só com a mama!

Brinquedos com orientação Waldorf

Quando você pensa em brinquedo Waldorf aposto que a primeira coisa que lhe vem à mente são aquelas bonecas de pano! Se você conhece um pouco mais da pedagogia Waldorf, você também poderá pensar em brinquedos de madeira.

Em ambos os casos vocês está correta (o). Porém, nem toda boneca de pano e nem todo brinquedo de madeira (muito menos) é de orientação Waldorf. Ainda que o fato de serem de pano ou madeira seja um mérito enorme no meio dessa selva de plástico, luzes, sons e cores chamativas, os brinquedos Waldorf se diferenciam pela maneira que são produzidos. E claro, por toda a filosofia da Pedagogia Waldorf, derivada da Antroposofia.

Um brinquedo Waldorf sempre será confeccionado com materiais naturais, como tecidos de puro algodão, feltro de lã e lã de carneiro. No caso dos brinquedos de madeira, a madeira utilizada sempre será de cultivo certificado ou reaproveitada, não existindo no produto final (brinquedo) cantos vivos, farpas, nem pregos e/ou parafusos aparentes. Quando coloridos, são feitos com tintas naturais, atóxicas, solúveis em água ou recebem apenas acabamento com cera de abelhas. Geralmente são pesados e maciços, conferindo resistência ao material.

Um brinqueo Waldorf tem, por princípio, a intenção de estimular a criatividade e o livre brincar; de desenvolver os sentidos da criança.

Rudolf Steiner, criador da Pedagogia Waldorf, já em sua época dizia que os brinquedos de plástico, ou os brinquedos mecanizados eram brinquedos “mortos”, pois não possibilitam à criança o desenvolvimento pleno de sua criatividade.

A confecção de um brinquedo Waldorf sempre levará em conta a responsabilidade social (nunca empregará trabalho escravo, por exemplo) e sempre que possível, optará pelo comércio equitativo.

Levando tudo isso em conta, é claro que um brinquedo Waldorf  não será exatamente barato. Mas você concorda que nesse mar de brinquedos, muitos, mas muitos brinquedos mesmo, que na minha humilde opinião não passam da mais pura porcaria, também não são baratos?

Eu não sou pedagoga, mas como mãe de um menino de dois anos e meio eu sei, na prática, da importância do brincar. E é exatamente por acreditar nessa importância,  que os brinquedos do Tomás estão cada vez menos… plastificados.

Confesso que a mudança para Alemanha facilitou nosso trabalho. Muitos brinquedos do Tom não puderam vir, e na ausência de avós, tias, padrinhos e amigos para mimá-lo presenteá-lo, o ritmo de ganhar brinquedos diminuiu bastante. E além disso, como passamos, nós os pais, a sermos os únicos e maiores fornecedores de brinquedos ao Tom, imaginem quais escolhemos?

E querem saber de uma coisa? Ficou claro também que criança não precisa de muito brinquedo. Com pouco se faz muito. E um dos maiores brinquedos que demos ao Tomás foi a possibilidade de ter contato com a natureza, através dos muitos parques que temos por aqui.

É impressionante como a imaginação do pequeno corre solta com aquilo que, nós adultos, talvez consideremos como pouco.

Eu não sou pedagoga, mas como mãe de um menino de dois anos e meio eu sei, na prática, que meu filho precisa de tempo, de brinquedos adequados e de apoio para brincar.

Pode parecer pouco, pode parecer sem glamour, pode parecer tão sem-graça, mas garanto que não é!

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Quer comprar verdadeiros brinquedos Waldorf no Brasil? Então não deixe de visitar o site da livraria antroposófica e o blog dos educadores Waldorf lá de Bauru. Gente que faz cada coisa linda, que dá vontade de comprar já!

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crédito das imagens http://www.livipur.de/

Ouça um bom conselho – Parte 2

 “O tempo perguntou para o tempo qual é o tempo que o tempo tem. O tempo respondeu pro tempo que não tem tempo de dizer pro tempo que o tempo do tempo é o tempo que o tempo tem”.

Eu comprei um livro há algum tempo atrás. Sabe aqueles que a gente vê e de cara passa a achar a leitura obrigatória, neccessária. Esse livro ficou, pelos mais variados motivos, depois de comprado, deixado de lado. Foi a mudança de casa, de vida, que fez com que na arrumação, eu olhasse de novo pra ele com o mesmo interesse que me fez comprá-lo. A viagem fez com que priorizassemos alguns livros para trazer de imediato conosco, e confesso que o fato de ser um livro finhinho fez com que ele ganhasse a disputa entre livros de peso, em todos os sentidos.

Mesmo assim, e mesmo depois da mudança, da chegada e da acomodada, o livro permaneceu de lado. Então, um dia eu resolvi lê-lo e ta-ram… o livro era tudo o que eu precisava naquele momento. O livro em questão se chama Jardim-de-Infância* de Helle Heckmann. O livro muito me fez pensar, mas um trecho em particular me tocou fundo. O trecho em questão eu transcrevo logo abaixo:

“Estar consciente do próprio papel como pai ou mãe requer muito mais atenção. As crianças precisam de tempo, tanto qualitativa quanto quantitativamente. Ser capaz de integrar-se na vida, tendo uma infância em que haja tempo suficiente para imitar a vida em redor, é extremamente importante. A infância nunca retorna. É uma situação única.”**

Ser capaz de integrar-se na vida ao seu redor… Tempo… Tempo… Tempo… O trecho acima, mais as mensagens que recebi, mais a pergunta da querida Celi, causaram uma revolução em mim. Já não era sem tempo.

Antes mesmo de começar com essa história de voltar para Alemanha, eu pensava em colocar o Tomás na escola. Pra cuidar das minhas coisas, sabe? Nem eu sei bem o que são essas coisas, mas eu queria cuidar delas. Quando é que você vai voltar a cuidar das suas coisas? ou ainda É , já está na hora de você correr atrás das suas coisas!, muita gente próxima, muita gente querida, e muita gente que não me conhece patavinas, sempre me confrontava com as minhas coisas.

Por minhas coisas, eu devo entender uma vida produtiva intelectual e financeiramente, uma vida além e aquém das rotinas e dos afazeres doméstico-maternais. Eu nunca escondi de ninguém que eu fico com o Tomás, e que eu não trabalho fora de casa. E com o tempo a decisão de ficar com meu filho foi pesando. Não pra mim, mas para os outros.

Mas é claro, que com o tempo, isso também passou a me incomodar. Perguntas do tipo, o que eu tinha estudado, onde eu tinha estudado, o que eu já tinha feito, se eu realmente estava 100% do meu tempo em casa… começaram a ficar desconfortáveis. Minhas respostas de que meus planos “profissionais” eram para um médio, e até longo prazo soavam tão sem crédito ou tão absurdas, que eu já tive que ouvir que filho atrapalha um bocado a vida da mulher.
 
Então, pouco a pouco, eu fui sendo convencida ou fui querendo me convencer, que dois anos full time Mom já estava de bom tamanho, de que realmente eu precisava correr, e correr louca e afoitamente, atrás das minhas famigeradas coisas. Dentro dessa forma de pensar parecia óbvio que, onde quer que eu estivesse, Tomás com pouco mais de dois anos iria pra escola.

E a resposta, minha querida Celi, à sua pergunta é: o motivo para eu ter colocado o Tomás na Krippe, tão cedo, tão logo chegamos à Alemanha, foi porque eu precisava correr atrás das minhas coisas, fazer as minhas coisas.

No meio do caminho eu esqueci que o Tomás faz parte das minhas coisas, no meio do caminho eu esqueci que a Alemanha era um mundo absolutamente novo para meu filho, no meio do caminho eu esqueci que meu filho passou a ter só a mim e ao pai, no meio do caminho tinha uma pedra, e essa pedra atende pelo nome de minhas coisas.

Não me entendam mal. Eu não acho que depois da maternidade a mulher necessite ser irremediavelmente a santa mãe que a tudo abnega em prol do filho abençoado amém. Eu continuo o mesmo bicho egoísta e egocêntrico (OK, um pouco menos egoísta e egocêntrica),querendo  meus momentos e tempo para, vejam só, minhas coisas. Mas minhas prioridades mudaram um pouco (e bota pouco nisso) depois da chegada do Tom. E não estou entrando na enfadonha seara das mães que trabalham fora vs mães que ficam em casa. Eu acredito, de verdade, que cada família tenha um ritmo, uma dinâmica, suas particulares circunstâncias que levam a uma mulher trabalhar ou não fora de casa.

Todos os dias, ao levar meu filho para escola eu pensava se aquilo era o melhor para ele naquele momento. E filho fareja melhor do que qualquer lobo mau de conto de fadas a insegurança da mãe. Se eu não estava segura para deixar o Tomás lá, porque ele haveria de ficar seguro para lá permanecer? Não é fácil ser demascarada por um homenzinho de um metro de altura, detentor de dois olhinhos redondos e chorosos. Desconcerto é pouco.

À essa altura você já deve ter sacado que o Tom não vai mais à escola. E não vai mesmo. Depois de uma conversa longa e franca com a pontecial futura cuidadora do Tomás ficou claro para nós que ele ainda não está preparado, que ele precisa de um pouco mais de tempo para chegar na Alemanha.  Tudo bem ele precisar de um tempo maior, tudo bem nós precisarmso de um tempo maior. Assimilar à nova vida ao seu redor leva tempo, um tempo que precisa ser respeitado. Faremos uma pausa até setembro.

Sabe, antes mesmo do Tom nascer eu já havia optado por um parto natural, porque acreditava que era a melhor maneira dele chegar a esse mundo no tempo dele. E assim foi. Tomás nasceu no tempo dele; o seu tempo foi respeitado. Por que cargas d’água essa minha vontade de respeitar o tempo do meu filho ficou lá no parto?  Respeitar o tempo de nascer é um começo. É só o começo.

Mas e quanto às minhas coisas? As outras coisas, diferentes do Tomás, eu vou me ocupar, adivinhem? com o tempo. Quando eu estiver preparada, o Tomás também estará. E que tempo é esse? perguntam os mais afoitos. Não importa. Afinal, como já disse o trava línguas lá em cima, eu também não tenho tempo de dizer pro tempo que o tempo do tempo é o tempo que o tempo tem.

Uma das coisas que eu mais gosto de estar aqui na Alemanha é poder ver a mudança das estações. Nosso andar fica exatamente na altura da copa de duas árvores. Quando aqui chegamos estava muito frio, e os galhos desnudos das árvores acomodavam gentilmente a neve que caía. Com o tempo, a neve e o frio deram lugar à temperaturas mais amenas e aos brotos que vieram a florescer. Hoje a copa das árvores está coberta de verde, e dá uma privacidade ímpar à nossa sala de jantar. E olhando de fora, parece que foi de um dia para o outro. Mas não foi. Foi um processo, nem rápido nem lento. Foi no tempo que precisava ser. E quem passou pela friaca forte do hemísferio norte sabe que nem os desejos mais fortes, nem as preces mais crentes conseguiram apressar a chegada da primavera. O tempo se ocupa dele mesmo, independente de nós.

E antes que esse post vire um post pseudo-filosófico eu vou me embora, porque meu filhote já dormiu, e agora é tempo de arrumar a louça e tomar um banho.

Ah! o meu conselho? Dê tempo ao tempo!

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Um muito obrigada mais do que especial ao João, pai do Tomás e meu companheiro de vida e da lida, que me apoia em todas as minhas decisões. Sendo ouvido sempre aberto e ombro sempre disposto para inevitáveis choros, respeitador do nosso tempo, meu e do Tom, porque o nosso acaba sendo também ele e dele. Obrigada por tudo!

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* Heckmann, Helle. Jardim-de-infância: estruturando o ritmo diário segundo as necessidades da criança pequena. Federação da Escolas Waldorf no Brasil: Aliança Pela Infãncia, 2008

** idem, pág. 11

Ouça um bom conselho – Parte 1

Quero começar o post de hoje falando um pouco sobre a escola do Tomás. Como eu disse há algumas semanas atrás, trata-se de uma escola antroposófica, ou Waldorf.

Sobre a pedagia Waldorf, eu deixo com vocês um trecho do que a Sociedade Antroposófica Brasileira escreveu (o texto na íntegra você pode ler aqui):

A Pedagogia Waldorf foi introduzida por Rudolf Steiner em 1919, em Stuttgart, Alemanha, inicialmente em uma escola para os filhos dos operários da fábrica de cigarros Waldorf-Astória (daí seu nome), a pedido deles. Distinguindo-se desde o início por ideais e métodos pedagógicos até hoje revolucionários, ela cresceu continuamente, com interrupção durante a 2a. guerra mundial, e proibição no leste europeu até o fim dos regimes comunistas. Hoje conta com mais de 1.000 escolas no mundo inteiro (aí excluídos os jardins de infância Waldorf isolados).


Uma das principais características da Pedagogia Waldorf é o seu embasamento na concepção de desenvolvimento do ser humano introduzida por Rudolf Steiner. Essa concepção leva em conta as diferentes características das crianças e adolescentes segundo sua idade aproximada. O ensino é dado de acordo com essas características: um mesmo assunto nunca é dado da mesma maneira em idades diferentes.

Bom, o  trecho acima tem o intuito de informar, afinal, eu já ouvi de muita gente: Ah! eu já ouvi falar, sim. Mas o que é mesmo a pedagogia Waldorf?

E eu acho que (e essa é a minha opinião, sem nenhum embasamento estatístico), diferente de outras pedagogias menos tradicionais, a Waldorf é a mais vista com desconfianças e mal-entendidos.  Não vai ser hoje que eu vou me alongar sobre ela, e muito menos tentar desfazer os mal-entendidos. Não teria tempo, e não é essa minha proposta para o post de hoje.

Muito bem, esclarecido um pouco (ao menos), do que se trata a pedagogia Waldorf, vamos ao post propriamente dito.

Escolas, ou espaços para crianças abaixo dos três anos aqui na Alemanha é algo relativamente novo. Há dez anos atrás, e eu falo por mim que chegava nessa terra há exatos dez anos atrás, crianças abaixo de três anos ficavam, em sua grande maioria, com suas mães. A exceção era cara demais, e só aquelas que podiam arcar financeiramente, deixavam seus filhos com uma Tagesmutter ou em uma creche.

As coisas mudaram nos últimos anos, e a Alemanha precisou se adequar à essa nova realidade, disponibilizando mais lugares nas creches a preços compatíveis com a realidade financeira da classe média alemã. Sim, porque por mais que uma criança receba benefícios do estado alemão, deixar uma criança abaixo dos três anos na escola é mais caro (às vezes muito mais caro) do que o Kindergarten.

E agora eu falo da Alemanha em que vivo. Existem outros estados, com outras situações. Existem outras cidades, com outras situações. Então, eu não quero enfiar tudo no mesmo balaio e dizer taxativa: na Alemanha é assim!

Bom, e daí? Não era da escola do Tomás que você queria falar? Muito bem, na escola do Tomás o foco é no cuidado, no desenvolvimento dos movimentos psico-motores, e na autonomia da criança. Na escola do Tomás existem, além dos tradicionais e já amplamente conhecidos brinquedos Waldorf, objetos de madeira que estimulam a capacidade de movimento das crianças pequenas, assim como sua autonomia. Esses objetos de madeira foram construídos baseados na tese da pediatra e pedagoga húngara Emmi Pikler. Eu não podia tirar fotos da escola do Tom, mas era mais ou menos assim:

 Imagens http://www.dasi-berlin.de

A rotina é bem estruturada e segue sempre a mesma ordem: chegar, colocar o sapato de ficar dentro de casa, comer (geralmente pão integral com geléia, maçã), tomar chazinho, preparar-se para sair, ficar uma hora fora (tanque de areia, gramado) brincando, voltar, lavar as mãos, trocar fralda, almoçar e dormir. Para cada situação existe uma música, um verso ou uma rima. Pintar, desenhar, recortar e todas essa atividades manuais são encaradas como atividades para o Kindergarten. Na visão da antroposofia, a criança abaixo dos três anos precisa de cuidados e contato com a natureza.

Eu conversei com um bocado de gente depois do último post, de maneira que eu não me lembro mais quem me disse que nas escolas Waldorf as coisas não são muito estruturadas. Ritmo, ritual e rotina é a tríade da pedagogia Waldorf; se alguém conheceu alguma escola que se diz Waldorf sem isso, então tem alguma coisa muito errada.

Para as crianças da Krippe a comida é, além de vegetariana, de cultivo biodinâmico. É claro que essa realidade é possível, ou talvez mais possível, por aqui. Eu não conheci nenhuma escola Waldorf no Brasil então, de novo, falo só do que vimos e vivemos.

Quando aqui chegamos, depois de três semanas para ser mais exata, entramos em contato com a Escola Waldorf daqui. Entramos em contato meio descrentes, afinal, já sabíamos que era complicado e muito concorrido conseguir uma vaga em uma Krippe. Porém, a sorte parecia sorrir para nós, pois logo no começo de Março tinha um lugar vago em um dos grupos. Entendemos, ou quisemos entender,  esse fato como um bom sinal, um bom presságio, e lá fomos nós conhecer a escola e conversar com as futuras professoras/cuidadoras do nosso filho.

Como eu já disse no post anterior,  a eleita escola do Tomás compartilha dos nossos valores e convicções. Além do mais, a abertura e o respeito para com meu filho e para conosco, que eu vi ali, me encantaram. E se você conhece alguma escola Waldorf que não é aberta e não respeita os indivíduos como eles são, de novo, tem alguma coisa muito errada.

Tudo isso para dizer que eu (João também, claro!) estava certa de que ali seria o melhor lugar para o Tom. Eu só não estava certa de uma coisa: seria o tempo certo, ou melhor, seria o tempo do Tomás ficar ali?

E eu quero agradecer a todos que me enviaram email, mensagem via FB, à Dani que até Nutella me ofereceu!, todos, todos, sem exceção me fizeram pensar, refletir, ponderar nossa situação. Alguns tocaram em questões muito relevantes que eu não queria ver.  Não vou dizer que foi fácil, mas como eu tinha pedido ajuda, ela veio. E quando pedimos, é bom saber que o que vai ser recebido nem sempre vem em forma de carinho.

Mas foi a Celi que deixando um comentário no post anterior assim ó: … queria saber como foi a decisão de colocarem ele no Kinderkrippe. Tiveram um bom motivo, não? me fez pensar, e pensar e pensar. Celi querida, você não tem ideia do quanto essa pergunta ficou martelando em mim!!!

Mas agora o post já ficou muito longo. No próximo eu conto o desdobramento dessa martelação.

Eu me considerava natureba…

A imagem vem daqui: http://kita.waldorf-hd.de/

Mais do que eu mesma, muita gente me considerava natureba. Muita gente leia-se família e amigos, o que OK, nem é tanta gente assim. Mas mesmo assim, eu super me considerava do circuito alternativo.

Vegetariana, que na gravidez comeu carne, recicladora de lixo, não possuidora de carro, usuária de um sem número de produtos da Weleda, frequentadora assídua das Reformhäuser na Alemanha, consumidora de produtos locais e orgânicos, e mais um sem fim dessa pegada considerada como… alternativa.

Daí eu engravidei. E procurei uma médica… antroposófica. E uma doula. E resolvi PARIR meu filho. Assim, tipo bicho, tipo louca, tipo gente alternativa, tipo gente… natureba. E amamentei em livre demanda, e slinguei até minhas costas aguentarem, e compartilhei cama, e só usei Weleda na cria, e sempre que po$$ível comprei roupa Bio, e comprei comida orgânica, e brinquedo de madeira, e mais um sem fim de coisas consideradas como… alternativas.

Mas daí, eu coloco meu filho numa escola Waldorf e pronto! Daí você se descobriu entre iguais? Alguém me pergunta. Não! respondo eu. Pronto, daí eu me descobri um fake absoluto! Porque se tem uma galera que pode ser considerada Natureba E alternativa é essa galera da escola do Tomás.

Mais sobre nossas impressões e vivências vou contando aos poucos.

Mas já adianto que estamos nos saindo muito bem, apesar de falsários no meio bicho grilo! Adianto também que igualar Waldorf a bicho grilo é, além de errôneo, preconceituoso. Ainda assim, eu continuo sendo fake.