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dos ares ingleses e da maternidade compulsória

os ares ingleses não têm sido gentis conosco. desde que chegamos aqui o tomás passou por cinco viroses terríveis. claro que coincidiu com o fato dele ter entrado na escola, e sua convivência com todos os novos vírus que o cercam.

o mais recente deles foi um noro vírus (ou a gripe do estômago) extremamente popular nos meses de inverno por aqui. é o inferno na terra, ainda que por 48 horas. vômitos de hora em hora, roupas de cama, toalhas, paredes e chão carimbados, diarréia, uma criança amuada, e máquina de lavar e secadora trabalhando à exaustão.

nossa senhora da gestação dessa vez não deu conta. achou que limpar tanta sujeira e receber um jato de vômito nos cabelos já era demais, e tirou sua proteção.  resultado óbvio, eu peguei a virose. ontem eu estava só o reboco. acabada era pouco. hoje eu consegui manter uma maça, duas torradas, e líquidos (água, chá, limão com água) no meu estômago.

a despeito de toda escatologia hoje, embora me sentindo fraca, eu sai da cama para ler e aproveitei para dar uma espiada na internet.  e a internet é sempre um campo muito vasto e fértil, não é mesmo?

e foi nesse vasto mundo que eu me deparei com essa reportagem http://estilo.uol.com.br/gravidez-e-filhos/noticias/bbc/2016/12/09/tenho-motivos-para-odiar-criancas-o-polemico-testemunho-de-escritora-francesa-que-se-arrepende-de-ser-mae.htm

abaixo da foto de uma mulher bonita, trajando um maiô, em uma paisagem igualmente bela lemos o seguinte:

A autora francesa Corinne Maier, que tem dois filhos, anuncia para quem quiser ouvir sua opinião de que, no mundo atual, os adultos estão tão obsessivos por seus filhos e tão exaustos por ter de cuidar deles que não têm energia para mais nada.

seu livro cujo título é No Kids: 40 Good Reasons Not to Have Childrenfoi lançado, segundo a reportagem, em 2009 e eu só fui saber dele agora, em 2016. embora se tivesse sabido da sua existência antes, isso não mudaria os meus planos de ter filhos.

mas gostaria de fazer uma análise sobre a proposta da autora. mesmo que correndo o risco de ser injusta, afinal não li o livro, e minha análise será baseada apenas na curta reportagem, ainda assim gostaria de tecer minhas considerações a respeito.

vamos lá. um dos contras citados na reportagem seria a questão da super população mundial …Em 2100, seremos 11 bilhões. Como o planeta vai alimentar todo mundo?” 

este é um argumento que honestamente não me assusta. primeiro porque não é o mundo inteiro que consome no mesmo ritmo que as nações industrializadas. vivemos num mundo absurdamente desigual onde 1 bilhão de pessoas passam fome (segundo o IFPRI, International Food Policy Research Institut https://www.ifpri.org), enquanto 1,3 bilhão de tonelada de tudo que é produzido no mundo é jogado no lixo.  segundo a ONU se esse desperdício fosse reduzido ( veja, reduzido apenas)  seria o suficiente para alimentar… 2 bilhões de pessoas! falta comida mesmo?

eu sei que tem outras questões em jogo, como a água  doce e potável, por exemplo. a água é um recurso finito e muita gente usa como se fosse infinito. talvez eu na minha ingenuidade e no meu otimismo, ache que ao fazer a minha parte (e sei de mais gente que também o faz) o futuro dos nossos filhos não será apocalíptico. acho que ao consumir menos, consumir orgânicos/produtos de produtores locais, usar conscientemente os recursos naturais, evitar o desperdício dentro da nossa casa (coisa que eu evito/luto constantemente), sinceramente acho que é uma saída viável e inteligente. desde que seja consistente, não dá pra adotar tais medidas apenas de vez em quando. é necessário tê-las como um estilo de vida consciente.

ainda sobre este ponto, eu acredito que deveríamos cobrar nossos governantes por planos mais ambiciosos de preservação ambiental, e também, cobrá-los por ações mais concretas a curto, médio e longo prazo. Quantos estão dispostos a fazer isso, não é mesmo? minha pergunta vale para ambos os lados (governo e sociedade).

outro ponto citado foi  Vivemos em uma sociedade obsessiva por crianças. Um filho é considerado uma garantia de felicidade, um desenvolvimento pessoal e até um status social.” sério mesmo que vivemos numa sociedade obsessiva por crianças?  pois eu, na minha perspectiva de mãe acho o contrário, acho que vivemos numa sociedade que exclui crianças dos espaços públicos, que espera que elas sejam mini adultos, que nunca chorem, que nunca incomodem… talvez eu tenha entendido errado a frase dela, mas essa obsessão tal qual eu entendo a palavra, eu não vejo não.

sobre filho ser considerado uma garantia de felicidade, desenvolvimento pessoal e até status social, well… eu não posso dizer os motivos pelos quais os outros quiseram ter filhos, e acredito até que algumas pessoas os tenham por esses motivos  citados por ela. mas no meu caso, honestamente, não foi. eu sei que quando se tem filhos projeções são inevitáveis, mas cabe a cada mãe/pai torná-las conscientes e baixar a bola se for o caso. a minha garantia de felicidade soy yo, não é marido, não é emprego, não é post code, não é jeans 36 e muito menos filho. embora meus filhos me tragam muitas alegrias também; mas não porque eu espero que eles me façam felizes, e sim porque relações próximas e afetivas nos trazem alegrias ( e raiva, e tristeza, e cansaço e outras cositas mas). sobre a questão do status social, pffff… cago e ando, perdoem meu francês.

mas vamos em frente que tem mais. ela diz ainda ” indivíduos que não têm filhos são descritos como egoístas e cidadãos de segunda classe. Muitos deles se sentem pressionados a se justificar: ‘Eu não posso ter filhos, mas eu adoro crianças.’ Quando ouço isso, logo faço um comentário para inflamar a conversa. Algo como: ‘Eu tenho filhos, mas tenho razões para odiar crianças’.”  mesmo que alguém decida não ter filhos por razões egoístas (e defina razões egoístas para mim cara pálida) este alguém está totalmente em seu direito. não vejo filhos como algo compulsório. na vida a gente tem que seguir as leis e pagar impostos (e se você tem filhos você tem que educá-los) de resto não tem que nada não. cidadãos de segunda classe? isso existe? pessoas são pessoas, com ou sem filhos. sobre justificar-se por não ter filhos… acredite, se você os tivesse também teria de justificar-se (por que só um? por que três?  por que não dá um biscoito recheado? e assim vai).

e o crème de la crème para mim foi  ‘Eu tenho filhos, mas tenho razões para odiar crianças’.  olha, nessa minha vida de mãe, eu já desejei sumir no mundo sem avisar ninguém e voltar quando meu filho tivesse 20 anos (provavelmente sentirei isso novamente com o bebê que ainda está na minha barriga). não porque eu odiei o meu filho, mas muito mais porque eu estava exausta, exaurida, perdida, sozinha, sem saber o que fazer. na minha opinião você pode odiar coentro, tofu, mc donalds, mas odiar criança, gato, cachorro, odiar qualquer pessoa diz mais sobre você mesmo do que sobre o outro. se antes de ser mãe eu  já não tinha razões para odiar crianças, hoje como uma eu vejo que não tenho mesmo!

sigamos. outra questão colocada foi …Por que tanta pressão? A resposta, claro, é fornecer um número ainda maior de miniconsumidores que não vão se cansar nunca do capitalismo, que precisa vender sempre mais. É em nome das crianças que os pais compram carros, máquinas de lavar, casas e gadgets.” vivemos em uma sociedade extremamente consumista, é verdade. mas, conhece aquela máxima né: exemplo arrasta?! pois, se você só pensa em comprar, se você mostra para seu filho que ter é mais importante do que ser, provavelmente seu filho também pensará (e agirá) assim, não se cansando nunca do capitalismo e do consumo excessivo. legal mostrar pro nossos filhos que as coisas tem um valor além daquele da etiqueta, que aquela roupa, aquele livro, aquele alimento vem de tal lugar, foi produzido sem trabalho escravo, sem desperdiçar recursos naturais e humanos, e por isso é preciso cuidar bem daquilo. nem sempre é possível, comprar coisas ética e politicamente corretas, eu sei. mas não é necessário gastar os tufos dos mufurufos pra ensinar pra uma criança o valor das coisas.

outra coisa que sozinha daria um outro livro Eu mesma hoje sou perfeitamente ciente de como estava envolvida – envolvida demais – e como me tornei o estereótipo da “mãe judia” (superprotetora, intromissiva e controladora). E isso produz crianças hipercontroladas e hiperobservadas. Tanto que eu penso em como eles conseguem, de fato, virar adultos.” o papel dela como mãe é um problema dela (e dos filhos dela), mas não existe apenas um modelo de maternidade. inclusive, este modelo por ela citado, não é o modelo que eu quero pra mim. sabe, a gente vive num mundo onde as pessoas parecem saber mais do que nós sobre nossos filhos. só pode brinquedo waldorf, só pode quarto montessori, só pode criação com apego, ou pode deixar na frente da tv sim, pode danoninho sim, pode cesárea eletiva sim e etc (sim, eu exagerei nos extremos propositalmente). gente, a categoria boas mães é muito ampla, e contempla na minha opinião, quem está atrás de informação, quem se dispõe a pensar e fazer diferente se o que se faz não traz resultados. e sobretudo se o que se faz é confortável pra quem faz e para todos os envolvidos. a busca do equilibrio é uma constante na vida, porque não seria também na maternidade?

calma que eu estou acabando. outro ponto que não poderia faltar é o dinheiro Criar meus filhos não apenas me deixou exausta, mas também me levou à falência. Em breve, minha filha vai terminar seus estudos. Vou dar uma festa. Finalmente não ter mais que bancá-la. Que alívio!”  não só acredito como concordo com a exaustão. obviamente não temos a mesma liberdade financeira de antes da chegada dos filhos; todo nosso planejamento financeiro é  baseado majoritariamente pensando neles. e eu não vejo nisso um problema. e sinceramente, não acho que meus filhos me levarão à falência. sei que os gastos acompanham o crescimento dele, mas até agora estamos longe da falência, e não a prevejo mesmo num futuro distante. somos de dar o passo do tamanho das nossas pernas. o que está além, ou  se espera ou não se dá.

e por fim Crianças, bem-vindas e boa sorte na entrada nesse mundo podre que seus pais, que te amam muitíssimo, te deixaram. Eles passaram tanto tempo cuidando de vocês que não tiveram tempo de transformar o mundo. Eles desistiram, penduraram as chuteiras. ‘A criança é o que há de mais importante….'” cuidar dos meus filhos, da maneira que eu concebo o cuidar, é para mim um fator transformador. criar cidadãos conscientes de si, das pessoas e do mundo ao seu redor é uma tarefa e tanto. tarefa essa que tomo com satisfação. eu sei por experiência própria que nem tudo são flores, mas eu digo que, para mim, mesmo com os percalços, vale a pena. e eu não pendurei as chuteiras não, porque tomar esta tarefa para si significa não desistir. e sei de muito mais gente que também não pendurou. e  também vejo os meus, os seus, os nossos filhos como o que há de mais importante na construção desse novo mundo (uhul pique nova era).

olha, como eu disse eu não li o livro e suas 40 razões para não ter filhos, e por isso mesmo não vou ficar  aqui criticando a autora. até mesmo porque, na minha opinião, você não precisa de muitas ou poucas razões para ter ou não ter filhos; bastam que sejam as suas e que você fique satisfeitx com elas.

o que eu gostaria de criticar, na verdade, é a obrigatoriedade velada na nossa sociedade da mulher tornar-se mãe. não estou dizendo que o foi o caso com madame maier, mas ao ler os comentários eu pude ver que muitas mulheres se sentiram representadas e validadas em suas convicções, como que dizendo “tá vendo, eu não preciso ser mãe”. não, colega, você não precisa ser nada que você não queira. inclusive mãe.

algumas pessoas também citaram o fato dos filhos crescerem e ignorarem os pais. e me pergunto: o que seria ignorar os pais? eu, particularmente, vejo meus filhos como seres autônomos e independentes de mim;  a cada dia essa independência torna-se maior, e eu acho natural, desejável e saudável. a relação pais e filhos é um construto diário e constante. eu amo e respeito meus filhos não apenas porque eles são meus filhos (e vice-versa), mas porque diariamente construimos uma relação baseada no diálogo, no amor e no respeito. acho difícil ignorar e ser ignorado nessas bases. se é fácil? claro que não! mas eu escolho isso para mim.

nietzshe uma vez escreveu: quem quer por você? e esta pergunta é tão impactante para tudo nessa vida, que chega a me paralisar, às vezes. quem quer que você seja mãe? você ou seu/sua companheiro(a)? seus pais? a sociedade? quem não quer ter filhos? você? os livros? seu/sua companheiro(a)? eu sei que nossas escolhas não são 100% conscientes, mas quanto mais conscientes fizermos nossas escolhas, mas chance de agradarmos a nós mesmos teremos.

uma maternidade ressentida ( a saber, uma mulher arrepender-se de ter se tornado mãe) é totalmente legítima e não deve ser tratada como tabu, especialmente numa sociedade que espera que as mães amem seus filhos acima de tudo, e que abram mão de suas próprias vidas por eles. você não acha interessante que muitas mulheres tenham usado os comentários (sob uma identidade irreconhecível) para dizer que que se arrependiam de serem mães?  eu não só acho interessante como triste, porque uma mulher não pode dizer isso que imediatamente é julgada. e acredito que se fosse mais fácil admitir isso sem olhares tortos, a relação delas próprias com a maternidade real poderia dar um passo qualitativo.

eu só me tornei mãe porque o componente filhos entrou na minha vida, mas eu não deixei as outras partes pelo caminho ao tornar-me mãe, eu apenas acrescentei mais uma. parece simples essa matemática, mas não foi e não tem sido simples. porém, acredito que falar sem dramas das dificuldades, e dos sentimentos menos nobres, torna o meu maternar mais consciente,  menos rígido, menos culposo, mais leve e mais amoroso. comigo mesma e com meus filhos.

ideal mesmo seria que todos os filhos fossem desejados e amados e respeitados e educados para um mundo tal e qual, nós adultos, desejamos pra nós no agora. e não apenas vistos como serezinhos hiperprotegidos, mimados, predadores do planeta terra, consumistas em potencial e herdeiros de um mundo fadado ao fracasso. talvez seja idealismo demais. talvez… mas se eu fosse escrever um livro eu teria mais de 40 razões para dar do porquê acreditar nesse ideal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Do cotidiano, filosofia de boteco

Preciso me encontrar

Quando eu comecei a escrever nesse blog há quase cinco anos atrás, eu comecei por puro desespero. Meu filho contava com quase cinco meses, eu havia passado por um puerperio terrível e tinha uma depressão ainda não diagnosticada.

Se o blog me ajudou? Um pouco, sim. Conheci virtualmente pessoas sempre dispostas a dar conselhos amorosos, demonstrar solidariedade aos percalços da maternidade; a escrita, de certa forma, ajudou a colocar ordem nos pensamentos, a suprir a falta de mim mesma, a nomear sentimentos…

Hoje se fala abertamente por aí sobre maternidade e depressão, embora esse lado b da maternidade ainda seja visto com olhos tortos, julgamentos e preconceitos.

Com o passar dos meses e dos anos, acredito que ter um blog e fazer parte de uma comunidade virtual de mães, acabou sendo uma ajuda para lidar com as diferentes fases de crescimento do meu filho, uma ajuda para lidar com os desafios e as descobertas de cada fase.

O desespero inicial que foi o estopim para criar esse blog há muito se dissolveu, assim como muitas dúvidas e medos daqueles tempos. Eu mudei, claro. Não só pessoalmente, com amadurecimento e alguns cabelos brancos, mas também geograficamente. Muitas vezes. Meu filho cresceu, e embora a maternidade tenha o mesmo gosto da  descoberta todos os dias, aquele gostinho de ter meu filho em meus braços pela primeirissima vez, ela se tornou bem mais serena (ou teria eu me tornado mais serena?).

Tudo que escrevi aqui não é só para mim e para minha terapia pessoal, ou para quem lê o blog. É também sobre e para o meu filho. E agora eu tenho um filho falante, que me conta altas histórias e com quem eu protagonizo altas aventuras, mas que exatamente por falar, me pede para que suas narrativas e peripécias não sejam espalhadas. Acho justo. 

A blogosfera materna mudou. Admiro quem soube mudar junto com ela e ao mesmo tempo soube se recriar sem perder a ternura. Hoje há tantos blogs maternos que eu nem sabia que existiam, e tantos outros que eu nem saberei que existem, muito pelo fato de eu não estar mais na fase das noites insones, mamadas em livre demanda, saltos de desenvolvimento e cia. 

Muita gente ainda tem usado o Facebook como plataforma de compartilhamento e interação sobre maternidade e afins, mas a esse espaço eu já não pertenço e não pretendo pertencer.

E c’est la vie.

Aqui no blog tem memórias minhas por demais preciosas, coisas que escrevi não somente para não esquecer-me delas, mas também para me lembrar do quão especial a vida é, de que tudo se supera, de que eu mesma me superei, de que a vida é assim mesmo, feita de altos e baixos. E abandonar essas memórias seria abandonar uma parte importante de mim mesma.

Mas escrever só sobre maternidade já não me apetece, embora a maternidade seja a minha principal “ocupação ” no momento. 

Por ora, tenho que lidar com a imensa vontade de continuar a escrever, mas também de ressignificar aquilo que quero compartilhar. Não quero vir aqui e escrever bobagenzinhas que não fazem sentido nem a mim mesma só para ter um blog ativo. Mas também não quero desativar o blog de vez, e muito menos quero fazer drama.

O melhor que tenho a fazer agora é esperar e aproveitar a primavera, arejar os pensamentos, assistir ao sol nascer (coisa fácil de se fazer com filho madrugador), ver as as águas dos rios correr (com a devida licença poética), ouvir os pássaros cantar (porque moro perto de uma floresta, e mesmo que não morasse é primavera e eles estão à todo vapor), eu quero viver (obrigada Candeia por ter escrito essa maravilhosa canção)*.

E como já disse o Chico Buarque: …”correndo no escuro, pichado no muro, você vai saber de mim”…. 

Saberá porque voltarei, e voltarei porque quero tanto. Só resta-me saber quando, como e talvez onde.

P.S.: um abraço apertado a todos que passam por crise bloguisticas hoho

*Preciso me encontrar – Candeia

http://youtu.be/plOTKOJ32Os

 

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Dos perigos de se comparar

Houve um tempo em que eu senti muito orgulho da minha barriga. Muito mesmo. E olha que minha barriga nunca foi sarada, chapada ou “negativa”. Nesse tempo eu estava grávida, e meu orgulho não era pelo fato de poder comer por dois, ou melhor, minha barriga grávida nunca foi uma desculpa para “expor” sem medo de ser feliz uma silhueta curvilínea – e porque não?- tão feminina.

Nesse tempo eu estava simplesmente feliz com minhas formas arredondadas e com minhas carnes macias. Mais do que feliz, eu estava completamente bem naquele corpo que já comportava outro corpo; com aquele outro corpo que dentro de mim crescia.

Pela primeira vez em anos eu fazia escolhas não apenas baseadas nas calorias, mas na qualidade do que ingeria. Pela primeira vez em anos eu fazia escolhas não apenas baseadas na (vã) batalha de caber numa calça 38, mas sim no nosso estar bem. Pela primeira vez em muitos anos, eu abria mão de algumas coisas não por um biquíni P, mas sim por respeito não só a mim, mas sobretudo ao corpo que também nutria.

Embora não muito distante, esse tempo passou. E não me lembro do quando exatamente, depois de gerar e parir, que minhas formas outrora tão orgulhosas – e porque não? – tão deliciosas, passaram a ser incômodas novamente. Eu não me lembro do quando exatamente, depois de gerar e parir, que minhas escolhas voltaram a se basear na simples conta de calorias, na motivação (insana) de caber num manequim 36, nas privações (idiotas) para um próximo verão.

E corroborando a tese de que meus peitos, minha barriga, meus quadris e minhas coxas são curvilíneos demais para os tempos atuais, me deparo quase sempre com fotos na internet, de mães recém paridas exibindo suas (boas) formas em seus biquínis bem pequenininhos.

O problema não são as fotos, nem os outros, embora já tenham dito que o inferno são sempre os outros. E os outros no caso,  são as mães celebridades com seus corpos esculturais a despeito de seus bebês pequenos. O problema é a comparação. No caso, eu me comparar com gente que nem conheço, com gente que tem uma vida diametralmente oposta à minha. E ainda que levassem uma vida muito parecida com a que eu levo, nenhuma comparação faria sentido, nenhuma comparação faz sentido.

Não faz sentido, porque cada barriga tem sua história de vida. Não importa se é a minha, se é a da Gisele Bündchen, se é a da mãe que encontro no parquinho.

Cada barriga sabe do frio que sentiu diante de uma decisão importante, cada barriga sabe como é ter zilhões de borboletas voando dentro dela nos momentos mais mágicos, cada barriga sabe a responsabilidade de gestar e parir não só um filho, mas também escolhas; cada barriga sabe o quão custoso, às vezes, é manter um rei dentro dela; cada barriga carrega as marcas das próprias experiências, carrega os excessos, as faltas; cada barriga sabe, ou deveria saber, do quê tem fome, e do quê está cheia.

Entenda, não apoio excessos de nenhum tipo. Nem tanto ao mar, nem tanto ao céu. Nem engordar oitocentos quilos na gravidez, nem emagrecer mil e duzentos quilos por pressões externas. Nem deixar de se preocupar com a alimentação e a saúde, muito menos fazer do peso, do corpo a maior ocupação da vida.

E eu mesma fecho a boca quando o zíper da calça não quer mais fechar, por exemplo. Mas decidi que não vou mais me comparar com capas de revista ou mães celebridades, decidi que não vou mais me auto impor um padrão de beleza e de magreza que pouco ou nenhum sentido me fazem, decidi que não quero mais ser escrava de dietas da moda.

Decidi gostar de mim do jeito que sou, e isso não significa que eu não possa melhorar algumas coisas em mim. Decidi me orgulhar do que sou, do que tenho.

Decidi me aceitar, apesar de e inclusive com minhas limitações. E esse é o tipo de decisão que não dá mais pra empurrar com a barriga.

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Túnel do tempo

A memória da gente é coisa engraçada demais. Pelo menos a minha é. Talvez eu seja caso de estudo, porquê pra mim, memória é feito uma casa cheia de cômodos com suas janelas e portas fechadas.

Daí basta um cheiro, uma voz, um rosto familiar, uma música, uma palavra e pronto… lá se vai abrir aquele cômodo empoeirado em algum canto da memória.

O problema, às vezes, é que transferimos sentimentos e sensações do presente para o passado e vice-versa. Por vezes também abrimos mais de um cômodo de uma vez gerando interferências que nem sempre correspondem com a veracidade do que de fato ocorreu. Complicado, né?

Eu, por exemplo, tinha pra mim que o Tomás só chorou nos primeiros meses de vida. Pois é, em que cômodo escuro da minha memória tão distorcida eu guardava lembranças desvinculadas da realidade?

Mas se tem uma coisa que pais de primeira viagem fazem a exaustão é tirar muitas fotos e filmar seus rebentos. Tudo é digno de nota: das reais fofuras às escatologias. Nada escapa às lentes dos pais principiantes.

Ainda bem!

Digo isso porque dia desses comecei a olhar pastas e pastas com fotos e vídeos do Tomás, para selecionar algumas fotos para revelar. E então, além da overdose de fofura ao rever meu filho em tempos de bebê, eu pude também ressignificar o período em que acreditava que meu filho não fazia outra coisa da vida além de chorar.

Que surpresa redescobrir meu filho. Que surpresa sabê-lo e entendê-lo como um bebê… normal.

Eu não sei, sabe? Mas acho que na categoria memória, existe uma subcategoria memória materna. Porque não há de existir bicho com memória mais seletiva do que o bicho mãe. Algumas coisas não esquecemos jamais, vide o dia do nascimento. Outras lembramos vagamente, vide noites insones. Outras nem lembramos mais, vide… não me lembro.

Eu acho que os deuses mnemônicos fazem isso conosco mães: acharás que sofres, esqueceras que um dia achou, e por fim lembrarás apenas de toda fofura. Conto com os mesmos deuses para esquecer tão rapidamente da fase das birras. Amém.

Para os descrentes, uma prova da fofura.

 
P.S.: Foi difícil escolher um entre tantos.
P.P.S.: Eu sei que é sacanagem colocar um vídeo com baralho de secador de cabelo, mas pense que o vídeo poderia durar bem mais do que os 30 segundos.
 

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Porque educação ainda funciona – ou dias de bruxas soltas

Eu não leio todos os blogs maternos, assim como não é todo mundo que lê o meu

Na internet apesar de não ver a cara das pessoas, a gente não gosta/ gosta de cara, do blog delas

Pensamentos afim convergem. Contrários divergem. Parece óbvio, mas nem sempre o divergente é bacana e tem bom senso

Gosto é feito bunda, cada um tem a sua. Como reza o dito popular

Eu não entro na casa alheia desrespeitando espaço que não me diz respeito. Por que cargas d’água a imensa maioria não faz o mesmo? Fica a reflexão

Quando eu escrevo algum texto, eu não estou cutucando ninguém, nem mandando indiretas para ninguém. Queria ter esse tempo para, ou não ter mais nada que fazer da minha vida

Quando eu coloco uma frase, uma vírgula de outro/a autor/a eu coloco os créditos. Independente se o autor/a no caso tiver milhões de leitores ou se ele tiver um público mais restrito

O fato de citar alguém não significa amor eterno à pessoa em questão, significa apenas que você reconhece àquela ideia como boa/interessante, mas que não foi você que teve.

Uma frase pequena também entra na categoria citação.É sempre bom lembrar. Ainda mais quando algum texto é recente

Dedos duros existem aos montes. Thanks God!

Cansada dessa porra

Fim

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Casa limpa e arrumada

Eu sempre tive faxineira no Brasil. Desde a primeira vez, quando eu e João decidimos juntar os trapinhos e reuni-los sob um mesmo teto. Fato esse que gerou muita comoção familiar, uma vez que fomos morar juntos sem nos casar. Eu na graduação, ele no doutorado. Mas nem é sobre isso que vim aqui falar, nem que a casa era uma gracinha com rede na varanda, com hortinha e com pé de acerola no quintal. Não, não. Eu vim dizer que mesmo na simplicidade, numa casa pequena e aconchegante, quase sem mobília, mas cheia de amor e vontade de amar; mesmo nessa casa modesta, a gente tinha uma faxineira.

O que o dinheiro de duas bolsas podia pagar, era a dona Ana de quinze em quinze dias. E a sua visita era esperada com ansiedade e louça fazendo aniversário na pia. Nunca fui boa em mandar. Eu dizia o que queria, ela fazia (às vezes bem, às vezes nem tanto), mas quem se importava com isso naquela época? Eu que não. João muito menos. A gente ficava muito feliz de ter a louça e o banheiro lavados, chão varrido, pó espanado e roupa passada. Afinal, a gente queria morar junto, mas cuidar da casa juntos, bem…

Então a vida nos trouxe para a Alemanha, e na Alemanha não tinha essa de dona Ana não. Mas quem ligava? Eu que não. João muito menos. A gente queria mais era se jogar nos prazeres etílicos (e esses não faltaram), morrer de dormir no dia seguinte, curtir um pileque, colocar mochila nas costas e correr Europa afora. Casa era lugar de passagem, embora fôssemos e ainda somos, muito caseiros. Quando a coisa ficava preta, encardida mesmo, quando não havia um copo, um talher ou um prato limpo, e/ou quando íamos receber visita, a gente dava um trato geral. E pra nós estava ótimo desse jeito, nesse esquema meio assim… república.

Depois de um tempo, queríamos mais era aquietar o corpo e o coração. Ter um teto mais definitivo. E voltamos ao Brasil. A casa já era vista com mais carinho, quase um ninho. Mais mobília, mais livros, mais fotos, mais lembranças…. As visitas da faxineira se tornaram mais frequentes, e a casa, puxa! A casa era um brinco! Embora minha, nossa participação no processo fosse mínima.

Daí, minha gente, que com ninho feito chegou filhote. Filhote chega, e acontece o que? A vida muda,e o ninho vira de cabeça pra baixo! Quando Tomás era bebê, tínhamos faxineira três vezes por semana! E mesmo que adorasse com todas as minhas forças ter a cozinha, os banheiros e todo o resto da casa cheiroso e arrumado, me irritava imensamente ter uma pessoa “estranha” dentro de casa dia sim dia não.

Resumindo bem essa parte, e poupando os leitores e leitoras de todos os detalhes sórdidos, no fim das contas contávamos com a faxineira duas vezes na semana.

Mas a vida nos trouxe de volta para a Alemanha, e eu sabia que a gente teria que se virar com casa, roupa, comida e filho pequeno. Tudo junto ao mesmo tempo agora e todos os dias. Paniquei, claro! Afinal, com filho não dá pra viver no caos. Mas a gente respira fundo, conta até dez e acredita! acredita na gente mesmo, na ajuda do marido, e na gente mesmo de novo.

E eu só sei que tenho aprendido muito nesse tempo cuidando da casa sozinha. Deixei de lado meu perfeccionismo, aquele lado besta de que só limparia a casa se fosse pra fazer tudo de cabo a rabo, jogando água e desinfetante feito maluca. Aprendi que existem outras formas de limpar e cuidar, aprendi que é melhor fazer um pouquinho por dia, do que acumular e deixar pra fazer tudo num só dia. Aprendi que manter é regra de ouro. Aprendi a amar minha lava-louças incondicionalmente, aprendi que lenços umedecidos de limpeza não é coisa de preguiçoso, aprendi que cuidar da casa pode e deve ser prazeroso, aprendi a relativizar a bagunça, aprendi que ninguém morre por não ter faxineira.

Na minha casa as panelas não refletem a nossa imagem, os vidros das janelas não são quase invisíveis de tão limpos, e os azulejos do banheiro não resplandecem limpeza. Mas quem liga? Eu que não. João muito menos. Porém, tem sempre roupa limpa nas gavetas, a louça não faz aniversário na pia, os ácaros não fazem festas psicodélicas e temos um lar mais do que decente, mais do que aconchegante. Temos sim, uma casa limpa e arrumada. Ainda que as fronteiras para a defiiniçao de arrumada tenham sido bastante alargadas.

Não vou mentir. Vez ou outra eu sinto saudades da dona Ana, e de todas as outras donas que passaram por nossas casas e por nossas vidas. Mas eu sinto saudades mesmo da minha rede na varanda, da nossa horta, do nosso pé de acerola carregado de frutinhos. Afinal de contas, uma casa, mais do que limpa e arrumada, uma casa puxa! É feita das memórias e das gentes que passam por ela.

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