Mudança pouca é bobagem

Lar doce lar

Os ventos da mudança andam soprando com tanta força para o nosso lado que, não bastasse as mudanças internas, resolvi mudar de casa também. Por sorte, no mesmo país, ainda na mesma cidade.

A terceira do ano. Terceira mudança, e o ano está em Outubro. Inspira… Expira…. Oooooom.

Pois é, quando eu digo que nossa sina é mambembe, cigana o povo acha que eu exagero.

Apesar do trabalho, apesar da dor de cabeça, apesar dos pesares, eu gosto de mudanças. É bem verdade que o processo é, por vezes, doloroso, trabalhoso, massacrante, desgastante… mas o resultado é sempre bom!

Faço minhas as palavras do Chico: as pessoas têm medo das mudanças… eu tenho medo que as coisas não mudem.

E pra completar o espírito de mudança, eu resolvi mudar a cara do blog. Ai se todas as mudanças fossem fáceis, leves e coloridas como essa do blog! O processo todo ficou por conta da Lu e da Flávia, moçoilas que dispensam maiores apresentações de seus já comprovados talentos.

Obrigada meninas pela paciência! E sobretudo pelo resultado! Estou absolutamente in love!

E no meio dessa bagunça toda, eu ando correndo pra ter um casa com cara de casa, administrando um pequeno mais perdido que cachorro em dia de mudança (literalmente) e tendo que lidar com algumas provisoriedades próprias de uma casa nova.

E por falar em provisoriedade… sabe, eu nunca mais vou reclamar de pedreiros no Brasil. Eu começo a crer que existe um pacto mundial entre os pedreiros, pacto esse que os impede de entregar uma casa dentro do prazo estipulado. Prazo esse que os obriga a refazer trabalhos pelo simples prazer de nos ver putos, pelo simples prazer de ter alguém ligando louca e repetidamente porque o aquecedor ainda não funciona, porque a torneira ainda pinga, porque isso e mais aquilo.

Pois é, e ainda assim eu continuando gostando de mudar. De casa, de cidade, de país, de vida, de ideia… Marido e filho ainda são os mesmos. Ufa!

Não se afobe não que nada é pra já*

J.  é casada com B., e ambos são pais de D. (2 anos) e de M. de apenas 8 meses. Quando D. ainda era um bebê, J. se candidatou para uma bolsa de estudos na Alemanha.. J. comemorava o fim da amamentação com taças e mais taças de vinho quando descobriu-se grávida de M.. Logo agora que eu parei de amamentar? Logo agora que eu me candidatei para uma bolsa de estudos em outro país? Não importava o motivo, a pergunta Logo agora? era o principal.  J. ainda se recuperava da notícia da segunda gestação quando a notícia da aprovação da bolsa saiu. Não era um bom momento, mas desistir da bolsa também não era uma opção. J. conseguiu adiar sua vinda para à Alemanha. Mesmo assim, ela e seu marido aterrisaram numa terra estrangeira com dois bebês à tiracolo. A pequena M. contava apenas com dois meses recém-completos, quando por longínquas terras aportaram.

O marido de J. conseguiu uma licença de doze meses em seu escritório, e topou o desafio de ser “dono-de-casa”. A ideia original era colocar D., a então mais velha na creche, e ele ficaria  “apenas” com a bebê.  No entanto, a adaptação de D. foi extremamente sofrida e acabou não se dando. Tudo bem, disse ele; eu fico com as duas.

À essa altura J. se perguntava todos os dias o que ela estava fazendo na Alemanha; não havia um só dia que ela não pensasse que aquilo tudo não passava da mais pura loucura. Porém, ela, eles à dois, eles à quatro, porém a vida, porém tudo e todos se arranjaram, e à sua maneira, as coisas foram se acertando.

Todas as noites J. acorda mais de uma vez, seja para dar de mamar à sua caçula, seja para acudir sua mais velha. E na manhã seguinte, J. não pensa no cansaço, na falta de sono. J. diz que não pensa em nada, que sai de casa e vai trabalhar mais um pouco em sua tese de doutoramento em filologia do grego antigo.

J. diz que de alguma maneira é possível, que de alguma maneira funciona, que de alguma maneira  ela conseguiu bons progressos em seu trabalho. J. e B. estão há quase sete meses na Alemanha, e não conhecem direito a cidadezinha linda em que estão morando, e muito menos pensam em viajar pela Europa, como era o planejado quando ao se candidatar para bolsa tinham apenas D.. J., B., D., e M., vivem um dia de cada vez. E para eles está bom assim, tem sido bom assim.

J. não pensa em fazer um doutorado brilhante, nem em participar das maiores e melhores conferências de sua área. J. é grata à oportunidade que teve, ao reconhecimento acadêmico que recebe não só de seus colegas como de seu Professor; J. é grata ao marido e ao seu apoio, J. é grata às suas filhas, sobretudo às suas filhas. E sua gratidão é genuína e até palpável.

Talvez J. não pense muito sobre, talvez não dê muita importância para, mas a verdade é que J. é bonita que só vendo. Talvez ela acredite que tenha olheiras enormes, talvez ela pense que seus cabelos poderiam estar melhor, talvez ela acredite que seu corpo esteja longe de voltar ao “normal”.

A verdade é que olhando de fora, J. é dona de uma beleza franca e real, uma beleza tão feminina e tão dela, que ao olhar para ela fica difícil não pensar em uma deusa grega. Exalando feminilidade por todos os poros, compartilhando força e determinação. J. é humana mas tem algo de sobre-humano também. Algo que nos fascina, que nos encanta, que nos intriga.

Mesmo assim, J. é real, J. e sua família existem. E moram no prédio ao lado do meu. J. é tão mulher e tão mãe quanto eu, quanto você. Tão humana quanto nós todas juntas.

E quando eu penso que não dou conta de nada, que minha casa está fadada ao caos absoluto e sem fim, que eu sou uma merda em forma de mãe, que minha aparência não tem mais salvação, que meu marido não merece uma mulher tão incapaz, que blá blá blá, eu paro e me lembro da J.. Eu não me comparo com ela, porque sei que cada um tem uma vida, que cada um, o que quer que isso signifique, segue o seu próprio destino.

E daí eu penso que eu tenho muito a que ser grata, que eu já aprendi um bocado de coisa nessa vida, e que já não posso mais me dar ao luxo de esquecê-las. E daí eu penso que de fato o essencial é invisível aos olhos, e que já faz um tempo que eu tenho procurado pelo essencial na minha vida, nas minhas relações, ao trilhar meus caminhos. E daí eu penso que se já faz algum tempo que eu tenho vivido procurando ser fiel à mim mesma e aos meus princípios, uma hora tudo há de se arranjar.

Não como num passe de mágica, não como algo caído do céu, que fique claro. Já não sou mais tão ingênua assim. Mas sim porquê ao viver a vida do jeito que acredito, a vida lá na frente saberá me devolver. A vida sempre devolve.

E mais uma vez eu volto a pensar na J., que apesar das dúvidas, dos medos, das circunstâncias… se deu pra vida. E a vida tem se dado pra ela. Seja em forma de força, seja em forma de otimismo, seja em forma de amor, seja em forma de recursos internos e externos inesperados, seja na forma do que for.

E daí eu penso que vale a pena se dar aberta e rasgadamente para a vida. E daí eu penso que o poeta estava mais do que certo. De fato, a vida só se dá pra se deu!

E tudo se aquieta aqui dentro de mim.

*Da canção Futuros amantes do sempre Chico Buarque

Ouça um bom conselho – Parte 2

 “O tempo perguntou para o tempo qual é o tempo que o tempo tem. O tempo respondeu pro tempo que não tem tempo de dizer pro tempo que o tempo do tempo é o tempo que o tempo tem”.

Eu comprei um livro há algum tempo atrás. Sabe aqueles que a gente vê e de cara passa a achar a leitura obrigatória, neccessária. Esse livro ficou, pelos mais variados motivos, depois de comprado, deixado de lado. Foi a mudança de casa, de vida, que fez com que na arrumação, eu olhasse de novo pra ele com o mesmo interesse que me fez comprá-lo. A viagem fez com que priorizassemos alguns livros para trazer de imediato conosco, e confesso que o fato de ser um livro finhinho fez com que ele ganhasse a disputa entre livros de peso, em todos os sentidos.

Mesmo assim, e mesmo depois da mudança, da chegada e da acomodada, o livro permaneceu de lado. Então, um dia eu resolvi lê-lo e ta-ram… o livro era tudo o que eu precisava naquele momento. O livro em questão se chama Jardim-de-Infância* de Helle Heckmann. O livro muito me fez pensar, mas um trecho em particular me tocou fundo. O trecho em questão eu transcrevo logo abaixo:

“Estar consciente do próprio papel como pai ou mãe requer muito mais atenção. As crianças precisam de tempo, tanto qualitativa quanto quantitativamente. Ser capaz de integrar-se na vida, tendo uma infância em que haja tempo suficiente para imitar a vida em redor, é extremamente importante. A infância nunca retorna. É uma situação única.”**

Ser capaz de integrar-se na vida ao seu redor… Tempo… Tempo… Tempo… O trecho acima, mais as mensagens que recebi, mais a pergunta da querida Celi, causaram uma revolução em mim. Já não era sem tempo.

Antes mesmo de começar com essa história de voltar para Alemanha, eu pensava em colocar o Tomás na escola. Pra cuidar das minhas coisas, sabe? Nem eu sei bem o que são essas coisas, mas eu queria cuidar delas. Quando é que você vai voltar a cuidar das suas coisas? ou ainda É , já está na hora de você correr atrás das suas coisas!, muita gente próxima, muita gente querida, e muita gente que não me conhece patavinas, sempre me confrontava com as minhas coisas.

Por minhas coisas, eu devo entender uma vida produtiva intelectual e financeiramente, uma vida além e aquém das rotinas e dos afazeres doméstico-maternais. Eu nunca escondi de ninguém que eu fico com o Tomás, e que eu não trabalho fora de casa. E com o tempo a decisão de ficar com meu filho foi pesando. Não pra mim, mas para os outros.

Mas é claro, que com o tempo, isso também passou a me incomodar. Perguntas do tipo, o que eu tinha estudado, onde eu tinha estudado, o que eu já tinha feito, se eu realmente estava 100% do meu tempo em casa… começaram a ficar desconfortáveis. Minhas respostas de que meus planos “profissionais” eram para um médio, e até longo prazo soavam tão sem crédito ou tão absurdas, que eu já tive que ouvir que filho atrapalha um bocado a vida da mulher.
 
Então, pouco a pouco, eu fui sendo convencida ou fui querendo me convencer, que dois anos full time Mom já estava de bom tamanho, de que realmente eu precisava correr, e correr louca e afoitamente, atrás das minhas famigeradas coisas. Dentro dessa forma de pensar parecia óbvio que, onde quer que eu estivesse, Tomás com pouco mais de dois anos iria pra escola.

E a resposta, minha querida Celi, à sua pergunta é: o motivo para eu ter colocado o Tomás na Krippe, tão cedo, tão logo chegamos à Alemanha, foi porque eu precisava correr atrás das minhas coisas, fazer as minhas coisas.

No meio do caminho eu esqueci que o Tomás faz parte das minhas coisas, no meio do caminho eu esqueci que a Alemanha era um mundo absolutamente novo para meu filho, no meio do caminho eu esqueci que meu filho passou a ter só a mim e ao pai, no meio do caminho tinha uma pedra, e essa pedra atende pelo nome de minhas coisas.

Não me entendam mal. Eu não acho que depois da maternidade a mulher necessite ser irremediavelmente a santa mãe que a tudo abnega em prol do filho abençoado amém. Eu continuo o mesmo bicho egoísta e egocêntrico (OK, um pouco menos egoísta e egocêntrica),querendo  meus momentos e tempo para, vejam só, minhas coisas. Mas minhas prioridades mudaram um pouco (e bota pouco nisso) depois da chegada do Tom. E não estou entrando na enfadonha seara das mães que trabalham fora vs mães que ficam em casa. Eu acredito, de verdade, que cada família tenha um ritmo, uma dinâmica, suas particulares circunstâncias que levam a uma mulher trabalhar ou não fora de casa.

Todos os dias, ao levar meu filho para escola eu pensava se aquilo era o melhor para ele naquele momento. E filho fareja melhor do que qualquer lobo mau de conto de fadas a insegurança da mãe. Se eu não estava segura para deixar o Tomás lá, porque ele haveria de ficar seguro para lá permanecer? Não é fácil ser demascarada por um homenzinho de um metro de altura, detentor de dois olhinhos redondos e chorosos. Desconcerto é pouco.

À essa altura você já deve ter sacado que o Tom não vai mais à escola. E não vai mesmo. Depois de uma conversa longa e franca com a pontecial futura cuidadora do Tomás ficou claro para nós que ele ainda não está preparado, que ele precisa de um pouco mais de tempo para chegar na Alemanha.  Tudo bem ele precisar de um tempo maior, tudo bem nós precisarmso de um tempo maior. Assimilar à nova vida ao seu redor leva tempo, um tempo que precisa ser respeitado. Faremos uma pausa até setembro.

Sabe, antes mesmo do Tom nascer eu já havia optado por um parto natural, porque acreditava que era a melhor maneira dele chegar a esse mundo no tempo dele. E assim foi. Tomás nasceu no tempo dele; o seu tempo foi respeitado. Por que cargas d’água essa minha vontade de respeitar o tempo do meu filho ficou lá no parto?  Respeitar o tempo de nascer é um começo. É só o começo.

Mas e quanto às minhas coisas? As outras coisas, diferentes do Tomás, eu vou me ocupar, adivinhem? com o tempo. Quando eu estiver preparada, o Tomás também estará. E que tempo é esse? perguntam os mais afoitos. Não importa. Afinal, como já disse o trava línguas lá em cima, eu também não tenho tempo de dizer pro tempo que o tempo do tempo é o tempo que o tempo tem.

Uma das coisas que eu mais gosto de estar aqui na Alemanha é poder ver a mudança das estações. Nosso andar fica exatamente na altura da copa de duas árvores. Quando aqui chegamos estava muito frio, e os galhos desnudos das árvores acomodavam gentilmente a neve que caía. Com o tempo, a neve e o frio deram lugar à temperaturas mais amenas e aos brotos que vieram a florescer. Hoje a copa das árvores está coberta de verde, e dá uma privacidade ímpar à nossa sala de jantar. E olhando de fora, parece que foi de um dia para o outro. Mas não foi. Foi um processo, nem rápido nem lento. Foi no tempo que precisava ser. E quem passou pela friaca forte do hemísferio norte sabe que nem os desejos mais fortes, nem as preces mais crentes conseguiram apressar a chegada da primavera. O tempo se ocupa dele mesmo, independente de nós.

E antes que esse post vire um post pseudo-filosófico eu vou me embora, porque meu filhote já dormiu, e agora é tempo de arrumar a louça e tomar um banho.

Ah! o meu conselho? Dê tempo ao tempo!

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Um muito obrigada mais do que especial ao João, pai do Tomás e meu companheiro de vida e da lida, que me apoia em todas as minhas decisões. Sendo ouvido sempre aberto e ombro sempre disposto para inevitáveis choros, respeitador do nosso tempo, meu e do Tom, porque o nosso acaba sendo também ele e dele. Obrigada por tudo!

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* Heckmann, Helle. Jardim-de-infância: estruturando o ritmo diário segundo as necessidades da criança pequena. Federação da Escolas Waldorf no Brasil: Aliança Pela Infãncia, 2008

** idem, pág. 11

Ouça um bom conselho – Parte 1

Quero começar o post de hoje falando um pouco sobre a escola do Tomás. Como eu disse há algumas semanas atrás, trata-se de uma escola antroposófica, ou Waldorf.

Sobre a pedagia Waldorf, eu deixo com vocês um trecho do que a Sociedade Antroposófica Brasileira escreveu (o texto na íntegra você pode ler aqui):

A Pedagogia Waldorf foi introduzida por Rudolf Steiner em 1919, em Stuttgart, Alemanha, inicialmente em uma escola para os filhos dos operários da fábrica de cigarros Waldorf-Astória (daí seu nome), a pedido deles. Distinguindo-se desde o início por ideais e métodos pedagógicos até hoje revolucionários, ela cresceu continuamente, com interrupção durante a 2a. guerra mundial, e proibição no leste europeu até o fim dos regimes comunistas. Hoje conta com mais de 1.000 escolas no mundo inteiro (aí excluídos os jardins de infância Waldorf isolados).


Uma das principais características da Pedagogia Waldorf é o seu embasamento na concepção de desenvolvimento do ser humano introduzida por Rudolf Steiner. Essa concepção leva em conta as diferentes características das crianças e adolescentes segundo sua idade aproximada. O ensino é dado de acordo com essas características: um mesmo assunto nunca é dado da mesma maneira em idades diferentes.

Bom, o  trecho acima tem o intuito de informar, afinal, eu já ouvi de muita gente: Ah! eu já ouvi falar, sim. Mas o que é mesmo a pedagogia Waldorf?

E eu acho que (e essa é a minha opinião, sem nenhum embasamento estatístico), diferente de outras pedagogias menos tradicionais, a Waldorf é a mais vista com desconfianças e mal-entendidos.  Não vai ser hoje que eu vou me alongar sobre ela, e muito menos tentar desfazer os mal-entendidos. Não teria tempo, e não é essa minha proposta para o post de hoje.

Muito bem, esclarecido um pouco (ao menos), do que se trata a pedagogia Waldorf, vamos ao post propriamente dito.

Escolas, ou espaços para crianças abaixo dos três anos aqui na Alemanha é algo relativamente novo. Há dez anos atrás, e eu falo por mim que chegava nessa terra há exatos dez anos atrás, crianças abaixo de três anos ficavam, em sua grande maioria, com suas mães. A exceção era cara demais, e só aquelas que podiam arcar financeiramente, deixavam seus filhos com uma Tagesmutter ou em uma creche.

As coisas mudaram nos últimos anos, e a Alemanha precisou se adequar à essa nova realidade, disponibilizando mais lugares nas creches a preços compatíveis com a realidade financeira da classe média alemã. Sim, porque por mais que uma criança receba benefícios do estado alemão, deixar uma criança abaixo dos três anos na escola é mais caro (às vezes muito mais caro) do que o Kindergarten.

E agora eu falo da Alemanha em que vivo. Existem outros estados, com outras situações. Existem outras cidades, com outras situações. Então, eu não quero enfiar tudo no mesmo balaio e dizer taxativa: na Alemanha é assim!

Bom, e daí? Não era da escola do Tomás que você queria falar? Muito bem, na escola do Tomás o foco é no cuidado, no desenvolvimento dos movimentos psico-motores, e na autonomia da criança. Na escola do Tomás existem, além dos tradicionais e já amplamente conhecidos brinquedos Waldorf, objetos de madeira que estimulam a capacidade de movimento das crianças pequenas, assim como sua autonomia. Esses objetos de madeira foram construídos baseados na tese da pediatra e pedagoga húngara Emmi Pikler. Eu não podia tirar fotos da escola do Tom, mas era mais ou menos assim:

 Imagens http://www.dasi-berlin.de

A rotina é bem estruturada e segue sempre a mesma ordem: chegar, colocar o sapato de ficar dentro de casa, comer (geralmente pão integral com geléia, maçã), tomar chazinho, preparar-se para sair, ficar uma hora fora (tanque de areia, gramado) brincando, voltar, lavar as mãos, trocar fralda, almoçar e dormir. Para cada situação existe uma música, um verso ou uma rima. Pintar, desenhar, recortar e todas essa atividades manuais são encaradas como atividades para o Kindergarten. Na visão da antroposofia, a criança abaixo dos três anos precisa de cuidados e contato com a natureza.

Eu conversei com um bocado de gente depois do último post, de maneira que eu não me lembro mais quem me disse que nas escolas Waldorf as coisas não são muito estruturadas. Ritmo, ritual e rotina é a tríade da pedagogia Waldorf; se alguém conheceu alguma escola que se diz Waldorf sem isso, então tem alguma coisa muito errada.

Para as crianças da Krippe a comida é, além de vegetariana, de cultivo biodinâmico. É claro que essa realidade é possível, ou talvez mais possível, por aqui. Eu não conheci nenhuma escola Waldorf no Brasil então, de novo, falo só do que vimos e vivemos.

Quando aqui chegamos, depois de três semanas para ser mais exata, entramos em contato com a Escola Waldorf daqui. Entramos em contato meio descrentes, afinal, já sabíamos que era complicado e muito concorrido conseguir uma vaga em uma Krippe. Porém, a sorte parecia sorrir para nós, pois logo no começo de Março tinha um lugar vago em um dos grupos. Entendemos, ou quisemos entender,  esse fato como um bom sinal, um bom presságio, e lá fomos nós conhecer a escola e conversar com as futuras professoras/cuidadoras do nosso filho.

Como eu já disse no post anterior,  a eleita escola do Tomás compartilha dos nossos valores e convicções. Além do mais, a abertura e o respeito para com meu filho e para conosco, que eu vi ali, me encantaram. E se você conhece alguma escola Waldorf que não é aberta e não respeita os indivíduos como eles são, de novo, tem alguma coisa muito errada.

Tudo isso para dizer que eu (João também, claro!) estava certa de que ali seria o melhor lugar para o Tom. Eu só não estava certa de uma coisa: seria o tempo certo, ou melhor, seria o tempo do Tomás ficar ali?

E eu quero agradecer a todos que me enviaram email, mensagem via FB, à Dani que até Nutella me ofereceu!, todos, todos, sem exceção me fizeram pensar, refletir, ponderar nossa situação. Alguns tocaram em questões muito relevantes que eu não queria ver.  Não vou dizer que foi fácil, mas como eu tinha pedido ajuda, ela veio. E quando pedimos, é bom saber que o que vai ser recebido nem sempre vem em forma de carinho.

Mas foi a Celi que deixando um comentário no post anterior assim ó: … queria saber como foi a decisão de colocarem ele no Kinderkrippe. Tiveram um bom motivo, não? me fez pensar, e pensar e pensar. Celi querida, você não tem ideia do quanto essa pergunta ficou martelando em mim!!!

Mas agora o post já ficou muito longo. No próximo eu conto o desdobramento dessa martelação.

A mãe que queria ser malabarista

O malabarismo da vida requer fé.  Manipular a vida com destreza e equilíbrio é para os fortes, é para os que querem. Não sou das mais otimistas, mas também não desisto fácil.

Já  no malabarismo da maternidade, eu me sinto como uma “bêbada equilibrista”. Derrapando aqui e ali, deixando a peteca cair, procurando sempre por  aquele equilíbrio sóbrio. Maternidade é andar na corda bamba, e ter que admitir estar na corda bamba. É viver quase sempre com medo de cair. E se cair? Nada melhor do que os versos de Paulo Vanzolini: …”reconhece a queda e não desanima, levanta sacode a poeira, e dá a volta por cima.”

A procura do equilíbrio custa força, custa vontade, custa tempo. Tempo para  reconhecer os erros, tempo para se reinventar, tempo para encarar a realidade, tempo para criar coragem, tempo de agir e tempo de esperar resultados.

E o que é o tempo pra cada um (filho-pai-mãe), se cada um é único, e cada um precisa de seu próprio…tempo?

Não é falta de tempo que irá me ausentar daqui. O que irá me ausentar daqui é a vontade de viver a vida que só cabe a mim viver.

Se eu vou ter um dia uma vida equilibrada, se eu vou ser um dia uma mãe equilibrada? Honestamente, não sei. E quer saber? Agora não me importa. O que me mantêm, ainda que capenga, é  a minha dose de desequilíbrio temperada de leve com uma certa dose de esperança e outra, um tiquinho maior, de loucura.

Porque o malabarismo da vida requer fé, sim. Mas são só os minimamente loucos que se lançam na corda bamba.  Concorda?
 

Imagem daqui

Eu me considerava natureba…

A imagem vem daqui: http://kita.waldorf-hd.de/

Mais do que eu mesma, muita gente me considerava natureba. Muita gente leia-se família e amigos, o que OK, nem é tanta gente assim. Mas mesmo assim, eu super me considerava do circuito alternativo.

Vegetariana, que na gravidez comeu carne, recicladora de lixo, não possuidora de carro, usuária de um sem número de produtos da Weleda, frequentadora assídua das Reformhäuser na Alemanha, consumidora de produtos locais e orgânicos, e mais um sem fim dessa pegada considerada como… alternativa.

Daí eu engravidei. E procurei uma médica… antroposófica. E uma doula. E resolvi PARIR meu filho. Assim, tipo bicho, tipo louca, tipo gente alternativa, tipo gente… natureba. E amamentei em livre demanda, e slinguei até minhas costas aguentarem, e compartilhei cama, e só usei Weleda na cria, e sempre que po$$ível comprei roupa Bio, e comprei comida orgânica, e brinquedo de madeira, e mais um sem fim de coisas consideradas como… alternativas.

Mas daí, eu coloco meu filho numa escola Waldorf e pronto! Daí você se descobriu entre iguais? Alguém me pergunta. Não! respondo eu. Pronto, daí eu me descobri um fake absoluto! Porque se tem uma galera que pode ser considerada Natureba E alternativa é essa galera da escola do Tomás.

Mais sobre nossas impressões e vivências vou contando aos poucos.

Mas já adianto que estamos nos saindo muito bem, apesar de falsários no meio bicho grilo! Adianto também que igualar Waldorf a bicho grilo é, além de errôneo, preconceituoso. Ainda assim, eu continuo sendo fake.

Mando notícias do lado de cá

Chegamos, finalmente, ao nosso destino. O frio é grande, assim como a pressa de azeitar a vida, uma rotina.

Tom está bem, um pouco gripado, mas bem. Anda estranhando uma coisa aqui e ali, mas no geral, está se saindo muito bem. E para nosso desespero, anda mais birrento do que nunca. Paciência tem sido nossa palavra de ordem.

Pra tudo, aliás. Tudo tem tempo certo para acontecer, não é mesmo?

Volto quando puder.

Bitocas gripadas de nós três.

Reflexões mambembes

Ando vivendo as voltas de uma bagunça, que olha, vou te contar! São muitas caixas, e malas, e sacolas, e espaços antes cheios agora vazios, e vice-versa. E no meio de tanta bagunça, tem Tomás entrando em caixa, entrando em mala, tirando de mala e colocando em caixa, tirando de caixa e colocando em mala, às vezes só tirando, às vezes escondendo, às vezes reorganizando à sua maneira.

E no meio de tanta bagunça, tem o coração dividido, o peito comprimido, a garganta em nó. Tem a lembrança de tantas outras mudanças,  sem filho, com filho e com filho de novo. Faz-se as contas e percebe-se que, faz quase dez anos que nossa vida gira de dois em dois anos. Dois anos aqui, dois anos ali, dois anos de novo aqui, mais dois anos de novo ali…

E no meio de tanta bagunça, percebemos o tanto que ficou em nós de cada novo lugar, o tanto que vai deles conosco, o tanto que deixamos, do tanto de raízes que criamos para novamente, nos arrancarmos*. E em meio à bagunça do nosso coração, a gente erra o rumo, acerta o rumo, parte com malas cheias de esperança. Esperança no futuro, esperança nos reencontros, esperança, por que não?, na felicidade.

E no meio de tanta bagunça, o que nos conforta é a certeza de que partiremos e sempre voltaremos, mesmo sem saber para onde; é a certeza de que tudo se ajeita, e se acomoda, e se aquieta. Inclusive o coração. O que nos conforta são as palavras do poeta, de que as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão**.  Ficarão nas nossas recordações mais felizes, e nas mais engrançadas também; ficarão nas fotos, nos objetos que trazemos e levamos; ficarão nas pessoas que conhecemos e com as quais nos deixamos conhecer; ficarão impressas na alma, onde nada, nem o tempo, nem as distâncias podem apagar.

E depois, de finda a bagunça, a gente faz como o outro poeta,  que vai deixando a pele em cada palco, e nem seuqer olha para trás. E nunca, jamais, dizemos adeus.***

* Da canção Na carreira, Chico Buarque e Edu Lobo do musical O grande circo místico

** Do poema Memória de Carlos Drummond de Andrade

*** Da canção Na carreira, Chico Buarque e Edu Lobo do musical O grande circo místico.

Vida bandida

Imagina que a sua vida tenha uma versão oficial. E que esta versão oficial foi você mesma que concebeu, escreveu e dirige. Bonita até, esta versão oficial. Imagina que nesta versão oficial, você tenha muitas idealizações. Mesmo sabendo que o ideal nem sempre é o real. Às vezes a versão oficial da vida flui, te dando a certeza que a vida só pode ser assim, e de nenhum outro jeito. Às vezes ela corre trôpega, arrastada. Nada que o deixar umas ilusõezinhas pelo caminho não resolva.

Então você acha que vai vivendo esta versão oficial sem grandes percalços, afinal você concluiu seus estudos, se casou, viajou, trabalha, tenta ser gente fina quase sempre, não é nem bonita nem feia, nem burra nem genial, faz análise, quer e tenta fazer o bem, já conheceu muita gente bacana, e engravidou. Engravidar também fazia parte da sua versão oficial. Embora não desde o seu princípio. Daí você jura de pé junto, que jamais idealizou um filho, jamais! Eu, hein! Imagina se… Um filho, um elemento novo nesse novo script chegou. Chegou diferente daquilo que você imaginava, daquilo que ó céus, você idealizava.

Então a realidade se contrapôs à sua versão oficial da vida. Na versão oficial da vida não existia depressão pós-parto, filho que quer mamar de hora em hora, que chora demais, que só quer colo… E esse afastar-se da gênese, do certo, te custa tanta energia, tanta dor desnecessária, tanta lamúria.

Mas quem manda nessa porra aqui ainda sou eu! Você diz pra si mesma. E tenta dar uma acochambrada na sua já capenga versão oficial. Por onde começar? Pelos amigos que se ressentiram de, nos primeiros meses de vida do seu filho, você nem sequer responder e-mail? Ou quando o fazia sequer dava o tom de la vie en rose que eles tanto queriam ouvir, ignorando solenemente que a pegada com recém-nascido é pancadão? Ou reestruturar um novo projeto de família, onde o filho é demandante sim, o marido precisa trabalhar e viajar, e a casa insiste em ser cronicamente uma bagunça? Neste mar de dúvidas e incertezas, você se sente à deriva, sem eira nem beira, abandonada à própria sorte.

Na versão oficial dos fatos da minha própria versão oficial de vida, meu filho só chorou nos oito primeiros meses da vida dele. Ou seria eu que só chorei nestes oitos primeiros meses? Na versão oficial dos fatos da minha própria versão oficial de vida, eu fui a pior mãe que meu filho poderia ter tido, a pior companheira para meu marido. E a versão oficial só degringola, porque os fatos, as pessoas, os novos elementos e circunstâncias que dela vieram a fazer parte, em nada tinham a ver com o meu projeto inicial de versão oficial. Verdade? E aqui eu mudo de parágrafo.

Vivendo uma vida marginal, longe daquela versão oficial, eu me dou conta que caralho!, eu aprendi muito mais do que imaginava aprender, eu vivi muito mais do que eu esperava viver, eu me dei muito mais do que imaginava ser possível me dar, eu me reinventei muito mais vezes que ousava ser possível fazê-lo, eu descobri que meu filho é o melhor filho que eu poderia ter, que meu filho é o melhor que ele pode ser, e que ser mãe é se aceitar pra depois aceitar o outro. Do jeito que ele é.

Então eu descobri que esta vida marginal, pode não ser perfeita. Mas é muito mais emocionante, porque feita, construída com um pouco daquilo que já fui, com um pouco daquilo que sou e pouco mais daquilo que quero ser. Somado ao pouco que cada um que por mim passou e deixou. E ao muito que meu filho me trouxe e me traz. Ao muito que ele me dá. Ao muito que ele soma em mim.

Para ser sincera, eu acho que desta versão oficial de vida, eu mantenho apenas uma lista: a lista das coisas que não tolero. A saber: comida fria, café fraco, chocolate diet e pessoas sem coração. É, acho que a lista serve bem pra qualquer tipo, fase e circunstância de vida, não?

Pensando bem, a versão oficial da História, não é a História verdadeira. Assim como a versão oficial da vida, não é a verdadeira vida. É por isso que eu vou me emaranhando mais e mais nesse meu projeto bandido de uma vida de improviso, de desapego, de saber levar-se e deixar ir, projeto mambembe de vida. Enfim, sendo gauche e torcendo para encontros furtivos e inesperados com anjos tortos. Eles sim, sabem das coisas.

A versão oficial é que eu sempre fui lindo!

Das convicções, o medo do segundo, a Starbucks e o mundo dos sonhos

Antes, bem antes do Tomás nascer, quando eu pensava em filhos, eu pensava sempre em dois. Dois parecia ser um número bacana. E tinha mais, eu pensava em ter os dois com pouca diferença de idade.

Mas antes de chegar no ponto de querer ter dois filhos, eu achei melhor omitir de vocês, minha convicção fulera de que não queria ter filho nenhum. Convicção essa que meu marido nem sequer chegou a levar a sério.

Bom, o Tomás nasceu. E com ele muita coisa também nasceu, outras só brotaram, mas ainda não floresceram, e outras morreram. Foram-se, acabaram-se, escafederam-se. Convicções de toda sorte, gênero, número e grau, se esfarelam na sua frente, dia após dia quando se tem um filho.

Então que aquele ser fofinho, guloso, insone e chorão, apesar de ter matado sem dó muitas das minhas antigas convicções, me trouxe uma outra convicção. Veja que eu sou teimosa. E apegada. Eu preciso de uma, só para não perder o costume. A convicção de que eu não teria mais filhos, de nenhum jeito e de jeito nenhum! Ponto.

Meu marido zen, baseado naquela minha primeira convicção acima, aquela de que eu nunca teria filhos, dá de ombros toda vez que eu falo que não quero ter outro filho. Convenhamos, eu caí em descrédito. Então quando o assunto é segundo filho, eu falo CONVICTA que não terá um segundo, nem aqui, nem na China. E ele: Uhum, o tempo dirá. Ou ainda Se for para ser, você vai sentir. Hoje, só de pensar na ideia, o que eu sinto é pâ-ni-co, mas se realmente for pra ser, eu espero sentir outra coisa.

Mas por que não ter outro filho? Os argumentos são muitos, mas não quero fazer do post um manifesto ao filho único. Muito dinheiro, muito tempo, muita doação, muito espaço, muito amor. Eu estou reclamando disso tudo? Não, não e não. É assim que é, é assim que deve, ou deveria, ser. O que faço para o Tomás faço de bom grado, de coração, com alma. Mas vira e mexe me pergunto se a dedicação que dei e dou para o Tomás eu poderia dar para outro filho.

Eu já comentei que fiquei com o Tom durante o seu primeiro ano de vida, e agora no segundo, continuo sendo mãe em tempo integral. E gosto disso. Mas sei também que uma hora ele terá outras necessidades, e será uma outra fase dele e minha. Terei eu vontade/coragem de começar tudo de novo?

Sem contar que nós mudamos pra caramba. A cada dois, dois anos e meio, mudamos de casa, de cidade, de país. OK, nos últimos nove anos o país em questão tem sido a Alemanha. Ainda assim, toda mudança exige esforço, adaptação, espera. E agora com o Tom, outras variantes entraram na jogada. Colocar mais um mambembe nesse mundão? Ficar grávida sabe deus onde? Trazer outro filho sabe deus em que lugar? Ideia pouco convidativa.

E mesmo vendo o Tom passar por fases as mais fofas, as mais gostosas, a certeza de que tudo melhora por um lado, de que o trabalho muda, nem o melhor da maternidade me anima para um segundo.

Mas citando meu marido: só o tempo dirá. Ou não, né?

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Eu conheci a Starbucks relativamente tarde. Em Hamburgo, a primeira filial da marca foi inaugurada em 2006, e depois da primeira, outras pipocaram pela cidade. Alguns colegas americans do curso de alemão, alucinaram com a chegada da Starbucks na cidade. E eu, aproveitando a euforia alheia, fui saber o que tinha de tão alucinante por lá. A minha favorita era a da Colonnaden. Como eu não tinha filho ainda, eu podia me dar ao luxo de escolher uma filial com escadas. Em Heidelberg, a minha Starbucks preferida é a da Universitätsplatz, por questões de comodidade mesmo. O ponto final do ônibus que pegava é quase em frente à ela, e ao que tudo indica todas as mamas de Heidelberg também elegeram aquela filial como a favorita. De maneira que, dependendo do dia e da hora, há congestionamento de carrinhos, e nos trocadores.

Para ser bem sincera, o que mais me agrada na Starbucks não é o café. Aliás, eu acho uma perversidade pegar os melhores grãos de café do mundo, e ainda assim produzir um café fraco e sem graça. Mas voltando, o que mais me agrada na Starbucks é o ambiente, que apesar de padrão everywhere, é aconchegante, a música, jazz, thanks God!, e se você for fã como eu de alguns rótulos americanos como muffins, brownies e cheesecakes, então você me entenderá um pouquinho mais.

Logo, para ouvir uma música decente, me esparramar num sofá macio, usar um banheiro limpo, ter internet de graça, jornais e revistas dos mais variados, eu tolero o/a atendente me fazer perguntas que me deixam nervosa. Como por exemplo, qual o tamanho do capuccino, com leite integral, desnatado ou de soja (oi?), com expresso duplo ou simples…. Gente, pra que complicar o modo de tomar um café?

E eu sempre me imaginei num dia de fúria, batendo no balcão e falando é só um capuccino, porra!. Mas claro, isso nunca aconteceu e nem nunca acontecerá. Pois bem sabemos que dias de fúria quiçá em filmes dão certo. E eu não quero ser apenas uma louca brasileira presa por ter surtado no balcão da Starbucks. Péssimo…

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Eu sempre tive sonhos muito reais. Cores, feições, paisagens, cheiros, vozes… misturas de vivências, lembranças, lugares e pessoas conhecidos, uma mélange de emoções e sensações. Meus sonhos são como telas ou filmes. Surreais, é bem verdade. Estranhos, fantasiosos, bizarros…

E dia desses eu tive um desses sonhos extremamente simbólicos. Cono todos o são, diria algum psicanalista. Se tivesse vocação para sonhos proféticos, estaria eu com a pulga atrás da orelha.

Eu sonhei que estava na Starbucks de Heidelberg. Na verdade, em sonhos, o lugar nunca é exatamente o mesmo. Estava eu sentada lendo um jornal. Mas eu o lia de cabeça para baixo, uma vez que do jeito “certo” de ler, as letras se tornavam símbolos totalmente desconhecidos para mim. Nas janelas, cortinas de veludo vermelho bloqueavam a luz. E pelo lugar, havia gatos espalhados. Eu estava num sofá, e me esforçava para ficar à vontade, mas estava nitidamente incomodada. Com tudo. Algumas pessoas usavam máscaras, e outras eram completamente carecas.

Um casal muito alto, de cabelos e pele bem claros, e com olhos muito azuis sentou-se comigo. Bom, na Alemanha gente alta, loira, branca e de olho azul é carne de vaca, né! Mas eles não eram “normais”. Alguma coisa neles era diferente, porém aparentemente, eram como qualquer outra pessoa.

Esse casal sabia meu nome. Só a mulher falava comigo, mas o homem era amigável. Ela me disse que eu tinha a missão de trazer para o mundo deles (hum…) uma criança. E que eles me prometiam um nascimento sem dor. E que a menina deveria se chamar….Pia.

Abrindo parênteses… Se eu pudesse dialogar no sonho, eu diria que se a missão deles era me convencer da minha missão, então a missão deles falhou. Compreendeu? Se queriam mesmo me convencer a ter outro filho, então que viessem com argumentos muito mais elaborados. Afinal, nascimento sem dor também é possível nessas paragens. Que viessem com a promessa de que eu não teria Baby Blues, de que eu dormiria uma noite inteira desde o primeiro dia de pós-parida, e de que eu sairia da maternidade a Gisele Bündchen morena. Eu diria também que por ora, eu não quero parir nem aqui, nem no mundo deles. E que não tinha essa de escolher o nome da minha cria. Até mesmo porquê, Pia na minha terra, é onde se lava louça. Fechando parênteses.

O tal sonho termina como a maioria dos sonhos; sem pé nem cabeça.

Bom, como já disse, ainda bem que não tenho veia de profeta. Assim sendo, posso ficar sossegada. Afinal, foi apenas um sonho.

Não é o que minha terapeuta diria. Tenho certeza. Aliás, acho que ela vai a delírio na minha próxima sessão.

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Nos primeiros dias, meses do Tomás, eu me perguntava porque ninguém, NIN-GUÉM, nem a minha própria mãe, me disse o quão difícil seria. Simplesemente porque não dá para falar dessas coisas. Elas se contrapõem com as expectativas do novo que está por vir, e temos para nós que o novo, sem exceção, é bom. E é bom mesmo! Ter um bebê em casa é uma delícia. Ter tido o Tomás foi e é uma delícia. Foi a melhor coisa que eu já fiz na minha vida, sem dúvida. Mas nos esquecemos que o novo, sem exceção, exige adaptação. Nos primeiros dias, meses do Tomás, eu me perguntava como alguém, em sã consciência, poderia querer outro filho. E por nenhum momento, ao me fazer essa pergunta, eu lembrava que as pessoas passam pelo que têm que passar, do jeito que precisam passar.

E depois, o tempo, sempre ele, se encarrega de fechar as feridas, de redimensionar os sofrimentos, de resignificar as dores. E com o tempo, as mémorias que de fato importam, as de peso, são as mais leves, mais alegres, mais doces. Então, nós pegamos essas memórias afetivas, e as sacralizamos no nosso santuário de ideias. E toda vez que nele entramos, nos sentimos confortadas. E toda vez que dele saímos, nos sentimos mais fortes, mais confiantes. E bingo!, descobrimos o como a humanidade se perpetua, e descobrimos que é possível desejar outro filho.

Eu dise que é possível desejar outro filho. No meu caso, do possível para o real já é outro papo.

Então Sr. Universo, vê se para de mandar mensageiros nórdicos através de sonhos para me convencer do que não é preciso ser convencido. Afinal, eu estou convicta, lembra? E não venha o Sr. rir das minhas convicções! Para isso, já me basta meu marido.