das surpresas

a gente se acha no controle de tudo, se não de tudo, pelo menos da parte que nos cabe no nosso latifúndio.

a gente acha que pode controlar as pequenas coisas, e também aquelas maiores. a gente gosta dessa sensação de controlar aquilo que chamamos de nossa vida.

mas a vida como bem sabemos, e fingimos que esquecemos, está sempre disposta a nos mostrar que as coisas não são bem assim, preto no branco, que nem sempre dois e dois são quatro, que nem sempre é o que parece ser…

e foi assim, nessa certeza de que tudo estava no seu lugar, que não haveria grandes mudanças no porvir, que 2018 não me reservava nenhuma grande surpresa – justo eu tão escaldada pela vida e suas reviravoltas – foi assim que me descobri grávida pela terceira vez!

e assim, há catorze semanas e meia, minha surpresa tem um coração a bater mais rápido que o meu, e cresce, cresce, cresce…

será outro bebê de primavera e outra primavera se fará em mim!

mas até lá que eu viva um dia de cada vez, para não perder as boas surpresas da vida, como já bem disse alguém que não me lembro agora. e com a certeza de que a vida, essa a gente não controla. ainda bem!

pequenas notas para mim mesma

nunca deixe a roupa acumular

nem a louça que parece se reproduzier em velocidade absurda

não deixe a bagunça tomar conta do quarto, da sala, da bancada, da mente

diga sim quando realmente quiser, e use o não com mais frequência

envie aquela carta

convide aquela pessoa para um Café

faça aquele telefonema

admita que acha um porre a obrigação de ser feliz o tempo todo

permita-se a felicidade mesmo que fora de hora

seja gentil consigo mesma

pega leve nas cobranças – consigo e com os outros

baixe as expectativas

não duvide de você

respeite o Tempo, tudo passa, isso também passará

respira fundo

beba mais água

e saiba que em alguns (muitos) dias você vai querer mandar tudo e todos às favas

e vai ser ótimo se você realmente mandar mesmo

mas a louça, por favor, não deixe a louça acumular

um breve relato do que foi e do que tem sido

Violeta já tem nove semanas,e parece que foi ontem mesmo que a segurei em meus braços pela primeira vez. 

e parece que foi ontem mesmo, depois de cinco horas de parto ativo, sendo duas de expulsivo e uma cesárea de emergência,  que eu finalmente conhecia a minha menina.

nunca pensei que faria parte das estatísticas das cesarianas que salvam vidas, ainda mais após um primeiro parto vaginal, onde fisiologicamente foi tudo perfeito. ninguém esperava. nem eu, nem João, nem as midwives, nem os médicos. mas fizemos parte.

e tê-la em meus braços depois de toda minha Via Crucis foi a maior e melhor sensação de alívio da minha vida. 

tem sido uma delícia amamentar novamente. ela não é tão gulosa como era seu irmão, mas ainda assim mama bastante, a minha pulguinha.

aliás, tem sido uma delícia ter um bebê de novo em casa.

Tomás está apaixonado pela irmã e tem se saído muito bem como irmão mais velho. tivemos alguns dias de choro, uma sensibilidade maior, mas tudo foi se ajustando e ele agora não tem sentido mais as mudanças na sua rotinininha. 

eu estou ótima físicamente, jamais esperava me recuperar tão rápido como me recuperei. emocionalmente então, nem se fala.  eu que experimentei uma depressão pós-parto da primeira vez, sei hoje o que é estar bem depois da chegada de um filho.

e eu não tenho tido tempo de passar por aqui por motivos bastante óbvios: quando Violeta dorme eu tenho que escolher entre lavar a louça ou a roupa, ou tentar arrumar a casa, ou comer ou tomar banho, ou ir ao banheiro… e quando me dou conta, já é hora de buscar o Tom na escola.

por falar em escola, vem “ni mim” férias de verão! é só o que penso.

e é isso, por ora, o que tenho para dizer. Vivi dorme há meia hora, e antes que ela acorde para mamar, vou lá lavar uma louça.

mas volto pra relatar com detalhes o nascimento da Vivi. Alguém ainda se interessa por relato de parto?🤔

beijos nossos e até o próximo post.

tempo de espera ou too much information de uma uma só vez

a espera do gestar é, para mim, a única espera realmente gostosa. às vezes bate aquela vontade louca de ter o bebê nos braços, mas ao mesmo tempo é muito gostoso sentir o bebê dentro de mim.

não sei se pelo fato desta ser minha última gestação, ou se pelo fato de já ter passado por uma gravidez, ou se pelas duas coisas, só sei que tenho a impressão de que o tempo tem voado agora.  quando me dou conta o aplicativo no meu celular já me avisa que o bebê está do tamanho de uma banana, e só o que penso é que ontem mesmo eu tinha completado 16 semanas. uma loucura!

apesar da rapidez com que tem passado, temos todos curtido muito a barriga. tomás tem sido extremamente carinhoso, curioso e participativo. tenho certeza de que ele será um super irmão! sempre me pergunta como me sinto, faz carinho na minha barriga, conversa comigo sobre possíveis nomes,  não esquecendo de reforçar que quem escolhe o nome é o bebê. aliás, que fase gostosa essa em que está meu primogênito: muito companheiro, esperto, curioso, engraçado, carinhoso, e por vezes, tão crescido, tão independente, um lord… a cada dia meu amor por ele só faz crescer! incrível isso de amar um filho (e mais de um, no caso)!

ah! esqueci de mencionar que teremos uma menina!estamos muito felizes com a chegada de uma bebéia, mas não tenho dúvidas de que estaríamos igualmente felizes se fosse um menino. eles são o que são independente do gênero, isso é certo. mas sim, estamos contentíssimos com o fato de ser uma menininha!

a descoberta não nos fez pintar o quarto de rosa, nem qualquer coisa do tipo. aliás, ela vai ficar no nosso quarto nos primeiros meses, pois eu quero amamentar assim como fiz com o tom. e também porque eu não estou com a menor vontade de mexer no quarto de hóspedes para torná-lo um quarto de “bebê”.  dividir quarto com o irmão está fora de cogitação, pelo menos por agora. o gap entre eles é muito grande, e um bebê “atrapalharia”o sono do tomi, com suas intermináveis acordadas para mamar e trocar fraldas. mas pra ser bem sincera, o que torna o argumento irrefutável, é porque eu quero mesmo que ela fique no nosso quarto!

sobre nomes, e eu ainda quero escrever um post só sobre isso (porque adoro), temos dois. dois diametralmente opostos, mas igualmente lindos hehe. porém, ainda não batemos o martelo.  o tom tem razão, ela é quem precisa nos assoprar o nome dela! aguardemos então.

a bebéia tem mexido bastante e tem se desenvolvido bem. no ultrassom de 20 semanas a midwife me disse que minha placenta estava baixa (placenta praevia) e por isso, eu terei que fazer outro ultrassom com 34 semanas. prometi pra mim mesma não me preocupar, não me desesperar. conversei com um médico que me acalmou, dizendo que 20 semanas é muito cedo para definir um diagnóstico de placenta praevia e consequentemente de uma cesárea. sigo confiante no parto natural e com pensamento positivo de que tudo há de dar certo.

por falar em parto, logo na primeira consulta com a midwife ela me perguntou onde eu queria ter o bebê: em casa, numa casa de parto ou no hospital.  eu disse que precisava pensar, e no formulário ela colocou a opção default, que é no hospital. Mas me disse que não havia problema nenhum em mudar mais tarde.

ela me falou do parto domiciliar com uma segurança e uma naturalidade espantosas. no entanto eu, particularmente, exclui o parto domiciliar. é seguro, ainda mais pra quem já pariu um filho e tem uma gestação sem intercorrências como é o meu caso até aqui, mas não sei, sinto que não é pra mim. até reli o livro da ana vieira pereira, do ventre ao berço: em casa; é encantador, é mágico… porém tem uma pulguinha atrás da minha orelha, uma coisa aqui dentro me dizendo que não. ainda não consegui nomear o porquê dessa resistência, desse receio, só sei que por ora, prefiro aceitar e respeitar-me.

fiquei com a casa de parto (birth centre), que aliás é dentro do hospital, porém em nada lembra um hospital e é comandada apenas pelas midwives. o fato de não parecer um hospital, mas ter a estrutura de um a uma porta de distância me tranquiliza. não sei viu, parece que a gente vai ficando mais velha e vai ficando mais medrosa. a segurança de um hospital tem gritado na minha cabeça.

cada parto é um parto, e por mais que eu saiba o que esperar agora que o parir não é totalmente desconhecido para mim, eu sei que cada filho chega do seu jeito, trazendo consigo o que precisa ser trazido. não tenho mais medo da dor do parto,  mas confesso que o puerpério ainda me assombra. mas como disse lorna, minha midwife: não é porque você teve depressão pós parto na primeira vez, que você terá novamente. além do mais, você terá visitas constantes nas primeiras semanas, e nós costumamos agir muito rápido nesses casos. você não estará sozinha, e não consideramos esse tema um tabu! alívio, alívio, alívio. e muito amô por você, lorna!

mas como disse acima, não quero me preocupar, nem quero me desesperar. por nada, aliás. gestar é tempo de esperar, e que esse esperar seja leve e gostoso, porque certamente deixará saudade. enquanto isso, bora fazer yoga e meditar!

wish me luck, babe! 😉

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Birras: variações do mesmo tema

E daí que com dois anos de idade teve uma mudança de país. Teve um mundo totalmente novo lá fora, e no mundo de dentro, teve um sujeito chilicando dia sim, dia também. Teve ainda a ideia de jerico de colocar o mesmo sujeito na escolinha. Tudo isso somado aos terribles two e voilá : barracos e siricoticos e chiliques e pitis e faniquitos (tudo assim, sem vírgula mesmo, pra não dar tempo de respirar) tornaram-se parte intrínseca de nossas vidas.

Ainda bem que paciência de mãe é um recurso renovável e quase inesgotável.  E dá-lhe muita paciência,  e compreensão, e cartilha anti birras, e suporte, e fé e… resignação. É uma fase. É uma fase que começa nos dois anos e acaba talvez nos 20 quando o sujeito começa a criar vergonha na cara, e percebe por conta própria, que não vale a pena contestar tu-do (eu disse tu-do) que a mãe diz.

 

 

meu birrento favorito

meu birrento favorito

 

 

Então que com três anos teve férias no Brasil teve vô e vós e tias, e não teve rotina, e quase tudo podia, e teve volta prazAlemanha, e não teve mais a galere toda se revezando na atenção pro sujeito, tem ida ao Kindergarten, tem mudança de professor…

Rotina, cansaço, atenção, limites amorosos, paciência, clareza (para mãe), regras claras, simples e consistentes (para o filho). Tudo isso ajuda, mas posso falar? Não resolve assim, num passe de mágica.

A “mágica” consiste em respirar, contar até dez (mais de uma vez), perceber os meus limites, entender minhas limitações e me controlar. Porque tem dias, que só por gezuis, tem dias que dá vontade de sumir no mundo sem avisar ninguém.

Os três anos e meio chegaram, e meu filho ainda varia entre a criatura mais fofa e esperta e carinhosa do mundo, e a criatura mais criaturenta e chiliquenta e birrenta. Assustador!

Antes as birras acabassem quando a cria fizesse três anos… que maravilha viver lá lá lá.

O post não tem nada de novo, nem nada de útil. Não passa mesmo de um simples desabafo.

Porque como mãe eu sei que tudo passa. Mas mesmo assim, algumas palavras de encorajamento e suporte não me fariam nada mal.

Assim sendo, por favor, me deem cá um abraço.

Shit happens

O título já diz muito. A vida de verdade é assim, tem hora que dá certo, tem hora que não dá.

Por exemplo, quando a gente deleta quase todas as fotos do perfil do google + se esquecendo que ele está vinculado com o blogger, e quando você vê… seu blog não tem foto nenhuma.

Ou quando você, por razões que a própria razão desconhece, perde três (longas) postagens no prelo.

Ou ainda quando coisas de vulto e significado e importâncias muito maiores parecem ruir em três, dois, um… deixando a gente assim, com cara de onde estou, quem sou, para onde vou.

E o Guimarães Rosa disse assim: O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.O que ela quer da gente é coragem.

E quando a vida pede a gente dá.

Porque também já bem disseram: a vida só se dá pra quem se deu.

Vou ali me dar pra vida e já volto. 
 
 

Pensamentos aleatóreos sobre o Tomás no Kindergarten

Antes, muito antes de saber que eu tinha um Tomás na barriga, eu e João já havíamos nos decidido por um Kindergarten Waldorf. No matter where. No Brasil, na Alemanha, na Conchinchina, onde Judas perdeu as botas… tendo um pelas bandas, lá então seria.

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Eu já contei aqui e aqui da nossa frustrada tentativa na creche Waldorf. Demos uma pausa, mas continuamos inscritos para o Kindergarten, na mesma escola. No fundo, eu sabia, a despeito da minha prévia decisão, que lá era o melhor lugar para ele. É claro que, por muitas vezes, eu me perguntava será mesmo? Quem quer tanto que seja lá: você e João, Tomás ou o destino? (sim, eu acredito em destino, não da forma banal e cafona como é pregada por aí). Eu acredito em encontros, eu acredito nas pessoas certas no momento certo. Muito luz e flor? Pode ser. Mas eu sou uma mãe Waldorf, então…

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Quando fomos conversar com o professor do Tomás (sim, o Tom tem professor) ele, do alto da sua experiência,  nos aconselhou  que seria melhor um de nós ficarmos com o Tomás durante o tempo que ele precisasse. Normalmente, a fase de adaptação no Kindergarten não é assim. Mas eles (professor, escola, outros pais) foram e são muito sensíveis em relação a situação do Tomás. O fato de morarmos há um ano na Alemanha, o fato do Tomás não falar alemão, o fato de nunca ter ficado com outra pessoas a não ser comigo e com o pai… Sinceramente? Não acho que encontraria tanta compreensão, tanta sensibilidade e tanto respeito ao tempo do meu filho em outro lugar. Apenas acho, sem grandes confirmações.

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É claro que o um de nós no caso sou eu. Quem traz o pão para casa é o João, logo… E neste tempo que tenho ficado com meu filho, e tenho conhecido as outras crianças, e tenho cruzado com outros pais, e tenho visto com meus olhos tudo o que é feito lá, e tenho visto com meu coração como tudo é feito, tenho ficado cada vez mais segura de cortar nosso cordão umbilical e deixar meu filho passar para outra etapa de sua vidinha. A estruturação do dia, as músicas, os rituais, os brinquedos e o brincar… tudo me cala fundo. É como se eu encontrasse ressonância com aquilo que acredito.

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Sabe, por muitas vezes eu cheguei a pensar que se eu tivesse tido no ano passado essa segurança interna que agora tenho, teria dado certo já no ano passado. Mas eu não tinha. O que eu tinha era um contrato interno comigo mesma de que ficaria os três primeiros anos com meu filho. Contratos internos são mais difíceis de quebrar. E agora, coincidência ou não, eu sinto que eu e Tomás estamos prontos para uma outra fase. Complicado, né?

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Eu já não estava mais dando conta de suprir as necessidades do meu filho. Ele precisa agora também de limites externos, contato com o outro, aprender o alemão… coisas que sozinha eu já não podia dar. E tudo bem; cada fase com suas necessidades, cada fase com sua doação. Minha terapeuta já disse: apenas viva essa fase! E assim estou. Vivendo.

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Por falar em outra fase… Tomás dá passos rumo ao aprendizado de uma nova língua, à aquisição de novas competências sociais, ao conhecimento de novas pessoas de referência… e tem dado provas que vai ser mais rápido do que todos imaginávamos. Enquanto ele sua a camisetinha para conquistar um novo lugar ao sol, eu em breve, vou suar a camisa, e deixar de ser mãe em tempo integral em casa, para ser mãe em tempo integral com vaga na universidade e com trabalho em vista. E eu me sinto como uma menininha de seis anos que vai no começo do ano comprar o caderno novo para escola!

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E eu estou lá no Kindergarten, mas não estou de espectadora não! Eu tenho colocado a mão na massa. Eu tenho limpado, cozinhado, trocado criança, costurado, capinado… O Tomás vê que a mãe está lá, mas ele tem que se virar. No começo meu coração se contorcia de dó por vê-lo ali como o diferente, o que não sabe como as coisas funcionam, o que não fala a língua… Mas eu não posso privá-lo de passar pelas próprias experiências de vida, de se virar sozinho. Afinal, não é sempre que mamãe estará lá para ele.

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E que fique claro que tudo que digo aqui é apenas minha experiência pessoal, longe de qualquer julgamento alheio. Até mesmo porquê, circunstâncias de vida são pessoais e intransferíveis.

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Mas de todas as minhas atividades lá, a que eu mais tenho gostado é a de cozinhar. Tudo o que eles comem é feito lá mesmo pela assistente. Três vezes na semana tem pão integral, cada um de um tipo. Nos outros dois, um mingau de arroz ou de painço. Tudo é integral e nada é adoçado com açúcar (refinado, mascavo nem demerara). Tenho aprendido receitas maravilhosas e bem mais saudáveis. Como o bolo de aniversário feito com farinha integral, leite de arroz e adoçado com xarope de agave.

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Aliás, este post era apenas para passar a receita do bolo, mas eu acabei costurando um pensamento aqui e ali, e quando vi…. 

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No calor da hora eu peguei a receita e fiz em casa. Me esquecendo que a receita serve vinte crianças e mais três adultos. Temos bolo para semanas agora. Quem quiser comer bolo com chá, pode se achegar. Mas você tem que trazer a(s) cria(s) e jurar que não vai me chamar de louca, que essa prolixidade toda de pensamento é coisa de toda mãe. Jura mesmo?

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A receita eu passo outro dia.

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Ouça um bom conselho – Parte 2

 “O tempo perguntou para o tempo qual é o tempo que o tempo tem. O tempo respondeu pro tempo que não tem tempo de dizer pro tempo que o tempo do tempo é o tempo que o tempo tem”.

Eu comprei um livro há algum tempo atrás. Sabe aqueles que a gente vê e de cara passa a achar a leitura obrigatória, neccessária. Esse livro ficou, pelos mais variados motivos, depois de comprado, deixado de lado. Foi a mudança de casa, de vida, que fez com que na arrumação, eu olhasse de novo pra ele com o mesmo interesse que me fez comprá-lo. A viagem fez com que priorizassemos alguns livros para trazer de imediato conosco, e confesso que o fato de ser um livro finhinho fez com que ele ganhasse a disputa entre livros de peso, em todos os sentidos.

Mesmo assim, e mesmo depois da mudança, da chegada e da acomodada, o livro permaneceu de lado. Então, um dia eu resolvi lê-lo e ta-ram… o livro era tudo o que eu precisava naquele momento. O livro em questão se chama Jardim-de-Infância* de Helle Heckmann. O livro muito me fez pensar, mas um trecho em particular me tocou fundo. O trecho em questão eu transcrevo logo abaixo:

“Estar consciente do próprio papel como pai ou mãe requer muito mais atenção. As crianças precisam de tempo, tanto qualitativa quanto quantitativamente. Ser capaz de integrar-se na vida, tendo uma infância em que haja tempo suficiente para imitar a vida em redor, é extremamente importante. A infância nunca retorna. É uma situação única.”**

Ser capaz de integrar-se na vida ao seu redor… Tempo… Tempo… Tempo… O trecho acima, mais as mensagens que recebi, mais a pergunta da querida Celi, causaram uma revolução em mim. Já não era sem tempo.

Antes mesmo de começar com essa história de voltar para Alemanha, eu pensava em colocar o Tomás na escola. Pra cuidar das minhas coisas, sabe? Nem eu sei bem o que são essas coisas, mas eu queria cuidar delas. Quando é que você vai voltar a cuidar das suas coisas? ou ainda É , já está na hora de você correr atrás das suas coisas!, muita gente próxima, muita gente querida, e muita gente que não me conhece patavinas, sempre me confrontava com as minhas coisas.

Por minhas coisas, eu devo entender uma vida produtiva intelectual e financeiramente, uma vida além e aquém das rotinas e dos afazeres doméstico-maternais. Eu nunca escondi de ninguém que eu fico com o Tomás, e que eu não trabalho fora de casa. E com o tempo a decisão de ficar com meu filho foi pesando. Não pra mim, mas para os outros.

Mas é claro, que com o tempo, isso também passou a me incomodar. Perguntas do tipo, o que eu tinha estudado, onde eu tinha estudado, o que eu já tinha feito, se eu realmente estava 100% do meu tempo em casa… começaram a ficar desconfortáveis. Minhas respostas de que meus planos “profissionais” eram para um médio, e até longo prazo soavam tão sem crédito ou tão absurdas, que eu já tive que ouvir que filho atrapalha um bocado a vida da mulher.
 
Então, pouco a pouco, eu fui sendo convencida ou fui querendo me convencer, que dois anos full time Mom já estava de bom tamanho, de que realmente eu precisava correr, e correr louca e afoitamente, atrás das minhas famigeradas coisas. Dentro dessa forma de pensar parecia óbvio que, onde quer que eu estivesse, Tomás com pouco mais de dois anos iria pra escola.

E a resposta, minha querida Celi, à sua pergunta é: o motivo para eu ter colocado o Tomás na Krippe, tão cedo, tão logo chegamos à Alemanha, foi porque eu precisava correr atrás das minhas coisas, fazer as minhas coisas.

No meio do caminho eu esqueci que o Tomás faz parte das minhas coisas, no meio do caminho eu esqueci que a Alemanha era um mundo absolutamente novo para meu filho, no meio do caminho eu esqueci que meu filho passou a ter só a mim e ao pai, no meio do caminho tinha uma pedra, e essa pedra atende pelo nome de minhas coisas.

Não me entendam mal. Eu não acho que depois da maternidade a mulher necessite ser irremediavelmente a santa mãe que a tudo abnega em prol do filho abençoado amém. Eu continuo o mesmo bicho egoísta e egocêntrico (OK, um pouco menos egoísta e egocêntrica),querendo  meus momentos e tempo para, vejam só, minhas coisas. Mas minhas prioridades mudaram um pouco (e bota pouco nisso) depois da chegada do Tom. E não estou entrando na enfadonha seara das mães que trabalham fora vs mães que ficam em casa. Eu acredito, de verdade, que cada família tenha um ritmo, uma dinâmica, suas particulares circunstâncias que levam a uma mulher trabalhar ou não fora de casa.

Todos os dias, ao levar meu filho para escola eu pensava se aquilo era o melhor para ele naquele momento. E filho fareja melhor do que qualquer lobo mau de conto de fadas a insegurança da mãe. Se eu não estava segura para deixar o Tomás lá, porque ele haveria de ficar seguro para lá permanecer? Não é fácil ser demascarada por um homenzinho de um metro de altura, detentor de dois olhinhos redondos e chorosos. Desconcerto é pouco.

À essa altura você já deve ter sacado que o Tom não vai mais à escola. E não vai mesmo. Depois de uma conversa longa e franca com a pontecial futura cuidadora do Tomás ficou claro para nós que ele ainda não está preparado, que ele precisa de um pouco mais de tempo para chegar na Alemanha.  Tudo bem ele precisar de um tempo maior, tudo bem nós precisarmso de um tempo maior. Assimilar à nova vida ao seu redor leva tempo, um tempo que precisa ser respeitado. Faremos uma pausa até setembro.

Sabe, antes mesmo do Tom nascer eu já havia optado por um parto natural, porque acreditava que era a melhor maneira dele chegar a esse mundo no tempo dele. E assim foi. Tomás nasceu no tempo dele; o seu tempo foi respeitado. Por que cargas d’água essa minha vontade de respeitar o tempo do meu filho ficou lá no parto?  Respeitar o tempo de nascer é um começo. É só o começo.

Mas e quanto às minhas coisas? As outras coisas, diferentes do Tomás, eu vou me ocupar, adivinhem? com o tempo. Quando eu estiver preparada, o Tomás também estará. E que tempo é esse? perguntam os mais afoitos. Não importa. Afinal, como já disse o trava línguas lá em cima, eu também não tenho tempo de dizer pro tempo que o tempo do tempo é o tempo que o tempo tem.

Uma das coisas que eu mais gosto de estar aqui na Alemanha é poder ver a mudança das estações. Nosso andar fica exatamente na altura da copa de duas árvores. Quando aqui chegamos estava muito frio, e os galhos desnudos das árvores acomodavam gentilmente a neve que caía. Com o tempo, a neve e o frio deram lugar à temperaturas mais amenas e aos brotos que vieram a florescer. Hoje a copa das árvores está coberta de verde, e dá uma privacidade ímpar à nossa sala de jantar. E olhando de fora, parece que foi de um dia para o outro. Mas não foi. Foi um processo, nem rápido nem lento. Foi no tempo que precisava ser. E quem passou pela friaca forte do hemísferio norte sabe que nem os desejos mais fortes, nem as preces mais crentes conseguiram apressar a chegada da primavera. O tempo se ocupa dele mesmo, independente de nós.

E antes que esse post vire um post pseudo-filosófico eu vou me embora, porque meu filhote já dormiu, e agora é tempo de arrumar a louça e tomar um banho.

Ah! o meu conselho? Dê tempo ao tempo!

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Um muito obrigada mais do que especial ao João, pai do Tomás e meu companheiro de vida e da lida, que me apoia em todas as minhas decisões. Sendo ouvido sempre aberto e ombro sempre disposto para inevitáveis choros, respeitador do nosso tempo, meu e do Tom, porque o nosso acaba sendo também ele e dele. Obrigada por tudo!

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* Heckmann, Helle. Jardim-de-infância: estruturando o ritmo diário segundo as necessidades da criança pequena. Federação da Escolas Waldorf no Brasil: Aliança Pela Infãncia, 2008

** idem, pág. 11

O que você sabe sobre as mães?

Um pouco antes de ser mãe eu já tinha começado a enxergar minha própria mãe de maneira diferente. Não que a nossa relação fosse conflituosa antes, mas eu ainda guardava algumas diferenças e rancorizinhos. Coisas de filha.

Um pouco antes de ser mãe, eu resolvi que já era hora de colocar pontos finais em questões antigas com minha mãe, e seguir uma vida livre de entraves e barreiras. É que no fim dos 20 anos, a gente se cansa de culpar pai, mãe ou quem quer que seja, por nossos problemas ainda não solucionados.

Um pouco antes de ser mãe, eu já havia perdoado, e considere a palavra perdão da maneira como quiser, não necessariamente o perdão cristão, de um bocado de coisa. Um pouco antes de ser mãe, eu acreditei que o ser mãe era tarefa não tão difícil, e que respeitar um outro ser na sua individualidade e nas suas peculiaridades seria natural.

Quando estava prestes a me tornar mãe de fato, passando pelas dores do parto, eu não pensei em nada, não. Meses depois, com meu filho nos braços e tendo que ser mãe, eu humanizei minha mãe. Humanizei porque pensei que ela havia passado pelas mesmas dores que eu, porque talvez ela tivesse passado pelos mesmos problemas e questionamentos que eu passei no meu pós-parto, e a humanizei porque ela, com apenas 19 anos de idade, teve que crescer e ser mãe. A minha mãe.

Isso não significa que eu concorde com tudo que minha mãe fez, da maneira que ela fez. Isso significa que eu, como mãe, percebi que como seres humanos, erramos e acertamos. E como mãe, mesmo querendo acertar, erra-se. Foda isso, viu! E por isso, mesmo não concordando cem por cento com minha mãe (até hoje), eu a considero muito mais hoje do que a dez anos atrás.

Como mãe, eu percebi que mães são criaturas que merecem muito respeito. Respeito, porque elas tentam com todas as forças fazer o seu melhor. Como mãe, eu sei que nem sempre meu melhor é o suficiente; como mãe, agora sei, que mesmo querendo acertar, eu erro feio; como mãe que sou, eu sei que pedir desculpas, não é só reconhecer um erro, é de fato lamentar por ele. Não um lamento vazio ou um lamento autoflagelador, um lamento sincero de quem não queria errar com alguém que me foi confiado e que quero tanto. E é prometer a si mesma, que vai tentar agir melhor. Uma promessa tão sincera, tão verdadeira, que chega a doer.

Eu, já mãe, quis precisar da minha mãe. E gostei disso. Eu, já mãe, precebi, que mães não são criaturas sobrenaturais, são apenas humanas. Que mães são mulheres, e como mulher que me tornei e sou, sei que nem sempre é fácil ser apenas mulher, quem dirá mãe e mulher, tudo junto ao mesmo tempo!

Mães são criaturas fantásticas, não acha?! Elas fazem uma casa funcionar, muitas vezes trabalhando fora, podem não ser excelente cozinheiras, mas sempre têm uma receita reconfortante e familiar, procuram fazer da casa um ninho, e ainda pensam em detalhes que só mães conseguem pensar!

Por exemplo, antes de ser mãe, eu achava que seria fácil manter uma casa bonita como a da minha mãe, sempre com flores, tudo no lugar e cheiro de pão saindo do forno. Ainda que tenha aprendido muito com ela sobre administração do lar, minha casa insiste em ser marrommeno, ter sempre flores velhas ou plantas mortas, bagunça por todos os cantos, e cheiro de pão…queimado. E aí eu me pergunto, quando é, senhor, que eu vou ser um pouquinho parecida com minha mãe?

Mas isso, claro, depois que me tornei mãe. Porque antes de ser mãe, a simples ideia de ser parecida com a minha, em qualquer coisa que fosse, me dava medo. Hoje, engraçado, não só consigo admirá-la, como desejo ser em muitas coisas como ela.

Como mãe e mulher, eu acredito que nem toda mulher precisa passar pela experiência da maternidade para reconstruir essa mãe interna. Esse foi o meu caminho. Agora, como mãe e mulher, eu acredito que toda mulher deveria, ao menos tentar, fazer as pazes com a própria mãe. Ainda que secretamente.

Afinal, presente ou não em nossas vidas, mãe é única, e a carregamos conosco a vida toda. Então, que seja leve o carregar.

Fora de serviço

Só para avisar que nosso sumiço se deve à uma rinofaringite do Tomás, aos molares que despontam, uma casa que mais parece o cenário do Armagedon, um marido viajando absurdos e que, quando em casa, é só o pó da rabióla, e uma mãe muito, muito cansada.

Muito tempo longe da internet, muito tempo longe dos blogs amigos, mas como mãe e ser humano que sou, sei que é só uma fase. Apenas uma fase onde tudo parece demorar em ser tão ruim.

Gostei demais dos comentários sobre a trilogia do meu relato de parto. Prometo responder os que ficaram sem respostas.

Beijos e não nos esqueçam!

A imagem vem do blog mãe digital.