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“less is more”


eu sempre achei muito chique aquelas pessoas cujas vidas cabem numa mala e numa caixa de papelão. já reparou nelas em filmes? aquelas que dizem: vou-me embora! e ao abrirem o guarda-roupa, todos os pertences cabem na única mala da Casa? seriam elas hoje as chamadas minimalistas? ou tais pessoas só existem na ficção mesmo? 

não sei dizer, mas sei que as do primeiro grupo rendem reportagens de revista e livros de auto-ajuda. já eu, particularmente, nunca fui nem minimalista e nem imitei a ficção. porque a bem da verdade, nem uma mala para passar um fim de semana na cidade ao lado eu sei arrumar. 

 mas durante esta minha vida mambembe, eu tive que aprender na raça, a minimizar. e toda vez que me mudo, e foram muitas mudanças na última década, eu juro – sempre no calor da hora-  que não comprarei uma agulha sequer.  o que acaba nunca acontecendo, porque minha memória sempre apaga o caos de toda mudança. faz desaparecer os momentos de desespero onde me pergunto do porquê ter comprado isso ou aquilo, faz virar fumaça tudo que acabo tendo que reciclar.

 e apesar do aprendizado, ainda estou longe de ser uma…. minimalista.

apesar de toda reciclagem e renovada que uma mudança de casa e de vida exige, eu percebi que tenho muitas coisas, sobretudo louças e livros. coisas que possuem valor emocional para mim. e que me custam desapegar.

hoje eu conto com poucos pares de sapato, ainda não tenho o guarda-roupa mais funcional e prático do mundo, mas conto nos dedos quantas peças de roupa comprei para mim neste ano que passou. e só as comprei pois a barriga a crescer exigiu.

 bijuterias não as compro mais. há tempos fiz uma seleção minuciosa dos meus balangandãs, o que foi ótimo. restaram apenas os que ganhei e/ou peças de valor sentimental. deixei-os todos  à vista, e no último ano os usei muito mais.

já fui de exibir uma coleção de cosméticos e maquiagem. percebi que não precisava e, veja só – não queria- de tudo aquilo. e confesso ter sido uma grande libertação para mim apresentar a minha cara lavada por aí.

e porque estou a dizer tudo isto? porque me deparei com uma reportagem sobre minimalismo/minimalistas, e embora concorde com a necessidade de consumirmos conscientemente, me incomoda a ideia de que armários, gavetas e prateleiras quase vazios tragam paz de espírito e felicidade.

na outra ponta, também não acho que acumular objetos tenha o mesmo efeito.

veja, é que estão a dizer que viver com duas t-shirts e uma xícara de café é o suprassumo da liberdade. e caso você tenha mais que isso, talvez você precise reconsiderar essa sua vida tão abarrotada de coisas, mas tão vazia de sentido.

talvez, junto com menos acumuladores, o mundo precise de menos gente dizendo pra você e pra mim o que é liberdade e o que é paz de espírito. pois essas reportagens cheias de frases feitas e estáticas alarmantes não me convencem. 

ademais, excluindo-se os exageros e trazendo à Luz o bom senso, o que seria pouco? Ou muito? Ou suficiente? Como disse Virginia Otten “ninguém se contenta com o pouco. só se esse pouco for muito”.  

pois é.

minha paz de espírito está mas minhas prateleiras tão cheias de livros. livros que me acompanham desde nossa primeira casa, que nos viram fazer nossa história. está no meu guarda-louça abarratodo, cujas louças sussurram causos de família e tantos outros mais.

a vida não precisa ser cheia, atravancada, acumulada. mas minimizá-la drasticamente seria reduzir muito de mim mesma. e não estou disposta a isto hoje.

em tempos onde se prega o despojamento de quase todas as coisas, menos da obrigação de ser grato e feliz e simples (mesmo que seja ai comer um prato de abacate com pão a cinquenta dinheiros), escolher acumular memórias é quase uma ousadia.

eu ouso acumular memórias, inclusive as físicas. como também ouso acumular algumas frustrações, uma ou outra tristeza, alguns xingamentos à vida quando achar que devo, ouso alguns luxos…nem com as palavras eu consigo ser minimalista, imagina na vida!

vou continuar achando chique quem com uma só mala vai pro mundo. assim como vou continuar deixando que minhas memórias e minhas conquistas ocupem o espaço que precisam, e que merecem.

pouco ou muito podem ser igualmente bom ou ruim. talvez o problema seja achar que o pouco ou o muito definam quem e o que se é. enquanto isso eu, definitivamente, vou tendo a certeza de que uma vida com uma mala só não é pra mim. 

 

 

 

 

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mambembe, mundo afora

a mudança (resumão)

como mais de meia dúzia de pessoas me mandaram e-mail perguntando sobre nossa mudança, e como eu percebi que escrevia vários e-mails semelhantes para cada uma delas, resolvi responder de uma vez só e em forma de post, pra quem perguntou e pra quem não perguntou também. mas isso não significa que eu não vá responder cada uma um dia desses. tenham fé!

bom, hoje faz dez dias que eu e tomás chegamos na inglaterra. joão já estava aqui trabalhando e arrumando, sobretudo, a casa para nossa chegada.

estamos num apartamento provisório e completamente mobiliado. embora não tenha morrido de amores por ele, penso que foi o melhor, por ora. com o básico assegurado, teremos calma para escolher a casa que será nosso lar por um bom tempo. nada melhor do que ver com os olhos e com o coração os cantos da cidade.

nosso tempo nesse apartamento não será nem tão curto assim (5 meses), mas era o que tínhamos disponível no momento. e convenhamos, nada que uma ida à ikea com suas velas e tapetes e plantas e panos de prato, não resolva. minha urgência, na verdade, é transformar um apê cafona num lar com cheiro de bolo, com cheiro da gente, sabe?

as tchentas caixas com nossas coisas estão num guarda móveis ainda, uma vez que elas não caberiam de forma alguma no nosso diminuto apartamento. algumas coisas fazem falta, mas nessa vida mambembe a gente aprende a desapegar (por um tempo, ou pra sempre) e mais ainda, a se virar com o que tem em mãos.

tomás me surpreendeu e tem me surpreendido enormemente. embora já tenhamos tido alguns stresses, no geral, ela está muito bem mesmo:animado, empolgado, visivelmente feliz. à princípio, meu coração de mãe não quis que ele chegasse e fosse direto para uma escola, com aulas já começadas em setembro, sem saber a língua. decidimos, até mesmo com base na nossa malfadada experiência na alemanha, que conheceríamos as possíveis escolas, conversaríamos e então tomaríamos uma decisão.

no quesito escola estamos numa corrida contra o tempo. vamos inscrevê-lo, já fora do prazo, para o próximo ano letivo que começará em setembro. a escolha da escola está diretamente relacionada à escolha do bairro, uma vez que a inscrição só é feita para as escolas do bairro em que se mora. por isso o conhecer primeiro, por isso o conversar e explicar. tenho estado estranhamente calma quando penso sobre isso, vai ver é alguma coisa que tem no chá de camomila inglês, que aliás, tenho tomado aos litros.

a ideia era eu fazer um homeschooling com o tomás até setembro. já vi que não vai rolar. não tanto por uma necessidade dele, mas muito mais por uma necessidade minha. temos visto (e gostado) a nursery da universidade, que é mais flexível, e que aceita crianças de cinco anos. à princípio duas vezes por semana, mas não excluo a possibilidade de aumentar para uma vez mais.

esses primeiros dias foram como todos os primeiros dias num novo lugar: burocracias, familiarização das rotas, dos lugares, mapeamento de supermercados, playgrounds…

nosso alarme de incêndio já disparou sem termos colocado fogo na casa. aparentemente, nosso vizinho o fez. quase morremos de susto, tomás desatou a chorar, pra depois desatar a rir e a vibrar com a chegada dos bombeiros, liguei desesperada para o meu marido, que me mandou sair imediatamente de casa, coisa que fizemos com trajes pouco apropriados para o frio… ou seja, nossos primeiros dias por aqui foram perfeitamente normais.

ainda não conseguimos passear, e tudo parece estranhamente novo, assim como um sapato novíssimo, que por mais que seja encantador e belíssimo, precisa de um tempo para lacear e se adaptar aos pés.

dez dias não são nada, eu sei. mas a cada dia temos a convicção de que estamos no lugar certo, na hora certa. e a cada dia eu tenho certeza de que com o joão e com o tomás eu iria até pra marte, e começaria do zero tudo outra vez.

pronto! nosso 2016 oficialmente começou.

 

Do cotidiano, mambembe, mudança, mundo afora

2015, beijos não me liga!

Sabe, gratidão é um sentimento interessante. Ou você sente ou você não sente. Não dá pra ser meio grato na vida pelas coisas e pelas pessoas.

Tem gente que é grata sem fazer esforço.  Tem gente que aprende a ser grata. E de fato, acredito eu, gratidão é um exercício diário. Pelo menos pra mim, que não sou Mestre zazen nessa vida.

Ser grato quando tudo está top é  fácil,  diz muita gente. Quero ver agradecer quando a vida vai as merdas! Completam esses mesmos incrédulos.

Eu já discordo sabe, eu acho que gratidão vem muito de mãos dadas com a felicidade: independem das circunstâncias para ser e ter. É mais um estado de espírito, uma resolução interna, um postura de vida, enfim.

Eu desconfio seriamente de quem vive dizendo que ah! tudo bem, mas ser feliz em Paris (em Nova York, em Berlin…) É bem mais fácil.  Eu acho que felicidade e gratidão a gente carrega com a gente, independente do lugar.

OK, OK eu não quero ser simplista. Esse papo rende muitas horas e muitas cervejas pra gente chegar talvez a conclusão de que, a pessoa tendo o basicão das necessidades físicas supridas (casa, comida, emprego, roupa, amores, biritas ocasionais, amigos…) ela pode ser feliz e grata pela vida. Ela pode, mas depende dela querer.

Tem horas que a gente tem mesmo que pedir um tempo, reclamar (mesmo sabendo que não vai resolver, mas pelo menos vai aliviar um pouco), tem horas que a gente pede pra sair, tem horas que a gente sucumbe mesmo ao pessimismo, à desilusão.

Meu 2015 foi assim: cheio de altos e baixos. E apesar de racionalmente me manter na meta, não desistir  (nem dava), eu escolhi ser grata. Não aquela gratidão Luz e flor yoga suco verde do instagram ( embora não veja problemas nisso também ). Mas a minha particular e intransferível  gratidão: Pela minha vida, ora capenga, ora funcionando com eficiência. Pela minha vida como ela é, pelas pessoas que dela fazem parte, por aquelas que passaram para ensinar-me, pelo meu filho sempre tão disposto a recomeçar,  pelo meu marido sempre tão respeitador dos meus tempos.

Talvez gratidão seja uma, talvez gratidão sejam muitas coisas, eu sei que em 2015 eu escolhi ser grata, eu aprendi a ser grata.

Se valeu a pena?  Não  sei. Só  sei que eu passaria pelas mesmas coisas que passei, com ou sem ela. Mas a gratidão nestes casos, neste ano que passou me ajudou a aceitar com mais maturidade, sem grandes dramas tudo que despencou na minha cabeça.

Pensando bem, valeu sim.

Estamos no Brasil agora, celebrando com a família.  E embora eu tenha escolhido a gratidão como caminho, um caminho, eu só quero dizer neste último dia do ano de 2015, que sinto-me grata por esse ano estar no fim. Porque não sou tão evoluída assim, e não é porque eu entendi que precisava passar por tudo que passei, e passei agradecendo por ter forças e apoio, que eu vou dizer que foi um ano bom. Foi nada. Pelo menos no que diz respeito ao bom no sentido champanhe caviar Paris é uma festa uhul 2015 irado. Não,  Foi bom no sentido : tá ruim, mas tá  bom. Compreende?

Não faço promessas mirabolantes para 2016. Nem tenho grandes metas. Já me basta,  por ora, saber que será tudo novo: país novo, casa nova, nova língua, um novo dia a dia para descobrir e por fazer.

Entro com fé  (que essa não pode faltar e que não costuma falhar), com alegria e tá dá. .. com gratidão!

Desejo  à  você que lê essas linhas um feliz e maravilhoso 2016. E se você quiser, tente agradecer mais (lembrando que não somos partidários da gratidão Polyana).

Escrevi e não li, grata pela compreensão!

 

 

 

 

 

Alemanha, Do cotidiano, Heidelberg, mambembe

Natalinas #1

Então chegou Dezembro, então chegou o frio (por essas bandas,eu digo), então é quase Natal, então…

Então que a preguiça por aqui anda grande. Lá fora a temperatura só faz descer, aqui dentro a vontade de jogar o despertador pela janela, e ficar na cama, embaixo das cobertas, só faz crescer.

Vontade de ficar no parquinho? Nenhuma, mas se não sai com moleque, moleque destrói a casa.

Mas falemos de coisas boas. Eu adoro Dezembro. Mesmo! Em Dezembro nasceu Tomás, em Dezembro tem Mercado de Natal, tem Glühwein, tem luzes, tem cidade enfeitada, tem cheiro de especiarias e confeitos no ar.

Eu não enfeitei minha casa, não. Ainda não. Já falei que vira o ano e a gente muda de casa? Então, estou falando agora. Preguiça!!!

Mas Tomás não perdoa minha preguiça, e nem deixa a gente desanimar. Neste fim de semana compraremos nossa àrvore de Natal.

Bem de leve, a casa vai ficando com cara de festividades.

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E como fica nesse frio a imensa votade de mastigar? Alface? Claro que não! Vontade de comer biscoito, chocolate, bolo, se joagr no vinho tinto e nas massas em geral todo dia… A ginástica manda lembranças, eu só mando beijo, me esqueça. Aguardemos a virada do Ano.

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Este ano decidi que faria um calendário do advento diferente. No ano passado deu um baita trampo, gastei uma grana, e o resultado foi um monte de bugiganga esquecida. Desta vez decidi comprar um pronto, com mini chocolates. Pelo menos os chocolates são meio amargos, orgânicos e com açúcar mascavo. Pouco prendada, muito preguiçosa. Eu sei. Mas o Tomás está feliz igual que nem no ano passado.

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E antes que me julguem mais pela minha preguiça, Dezembro é aniversário e Natal, ou seja, Tomás conta com presentes grandes. De maneira que pequenos chocolates estã de bom tamanho. Consumismo exagerado e acumulação de coisas desnecessárias procuramos fortemente não praticar.

No mais, o que mais pega para nós é a falta de sol e os dias cada vez mais curtos. Mas contamos com as luzes dos festejos natalinos para dar uma alegrada. E uma tapeada.

Volto com mais Natalinas.

Escrevi, não revisei. Perdoem os erros. Já falei que vou mudar de casa? Então…

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a vida é mais, Alemanha, curtindo a vida adoidado, Do cotidiano, Heidelberg, mambembe, mundo afora, primavera que te quero

Uma pequena reflexão sobre o fim do inverno

O inverno aqui onde moro foi bem ameno. Não teve neve.  Não teve sequer aquele frio de tiritar. OK, um ou outro dia, mas nada que tenha dado a tônica para esse último inverno. E ninguém gosta de inverno ameno; o desejo é por neve, muita neve. O que, convenhamos, torna a estação mais bonita mesmo.

Mesmo a gente esquecendo o saco que é acordar cedo pra tirar neve da calçada,  mesmo a gente esquecendo como é andar empurrando carrinho de bebê com neve, mesmo a gente esquecendo da merda que é o cotidiano e todas as implicações que da vida com neve derivam, mesmo e ainda assim, a gente quer um inverno branquinho de neve.

Não importando se o mesmo foi severo ou ameno, no começo de Março estamos todos de saco bem do cheio cansados do inverno. E o que queremos? Primavera, pois bem!

E aí num dia de sol, ao olhar pela minha janela e avistar ciclistas com suas saias vaporosas, alemães com casacos abertos, e alemãezinhos sem gorros e sem saquinhos nos carrinhos, acreditei que Primavera já era. E perceba que meia dúzia de pessoas num espaço de tempo de três minutos, não pode ser considerada uma amostragem real e séria da vida. Mas enfim, a pessoa acredita no que ela quer acreditar.

o sol que engana os incautos

Até me esqueci da previsão do tempo, nem chequei o app de temperatura do celular, tamanha minha felicidade. Por via das dúvidas fui conferir a temperatura no termômetro que fica no quarto, e ao me deparar com os 25 graus apontados, nem me passou pela cabeça que aquela era uma temperatura fictícia, uma vez que naquela hora, o sol batia de cheio no sensor do termômetro.

Saí de casa toda serelepe e com roupas esvoaçantes, alegre como o dia, com o sol, quase que oferecendo beijos de amor como cantou o poeta.  A verdade é que ao dobrar a esquina eu já havia me arrependido do meu otimismo, e sobretudo do meu amadorismo. Ao dobrar a esquina, também me deparei com a camada da população mais agasalhada da cidade, com casacos grossos, gorros, cachecóis e luvas.

Eu bem que podia ser como as alemãs geradas, nascidas e criadas em terras tão geladas, que em cujos DNAs carregam gerações e gerações de sobreviventes das maiores friacas conhecidas e até desconhecidas que o mundo já passou.  Eu bem que podia ser como as alemãs geradas, nascidas e criadas em terras tão geladas, que não ligam a mínima se o inverno acabou ou não, querendo mais é usar os modelitos da próxima estação.  Elas sim, podem bancar saia, meia-calça e sapatilhas em módicos cinco graus.

Ao me afastar um quarteirão de casa, decidi que era hora de acabar com aquela palhaçada, que era hora de dar fim às cãibras nos pés, que era hora de aquecer as ancas e a garganta. Meu sonho naquele momento era um chá pelando de quente e me agasalhar até os dentes.

Na volta pra casa ainda encontro um grupo de mulheres indianas que me olhavam surpresas por me verem em trajes tão primaveris, a despeito da  real temperatura.  Decerto acharam que eu era uma dessas raparigas geradas, nascidas e criadas em terras tão geladas.

Mas eu não sou. Sou apenas uma sul-americana ansiando pela Primavera. Ponto.

tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais

Alemanha, Do cotidiano, Heidelberg, mambembe, mundo afora

Algumas coisas que eu sinto falta morando fora

1. Padaria

A padaria alemã é de tirar o chapéu. Os pães daqui são deliciosos, e saudáveis, e (podem ser) orgânicos, e são integrais de verdade… Coisa de louco entrar em qualquer padaria por essas bandas de cá.

Mas…

Mas elas não têm balcão onde se possa sentar e pedir um pãozinho pra comer na hora. Não do jeito que concebemos no Brasil. Eu sinto falta mesmo é do balcão de padaria. Oi? Pois é, sabe aquele balcão que você chega e solta Oi campeão, me vê um pão na chapa e um café com leite. Café de coador, por favor!. Sabe aquele balcão pra onde a gente se dirige e já conhece o chapeiro, aquele balcão que a gente toma o café da manhã com pressa antes de ir pra aula ou pro trabalho, ou vai no meio da tarde quando bate uma fome de coisa simples, de… coisa de padaria?

E daí chega aquele pão francês quentinho, num prato duralex junto com famoso pingado? Nossa, salivei agora! Pois é exatamente disso que eu sinto saudade.

Por aqui existem os Cafés, eu sei,  mas não são a mesma coisa. Nos Cafés tem os capuccinos deliciosamente cremosos, ou os latte machiatos, ou os cafès cremes da vida, todos servidos em xícaras belíssimas e chiquérrimas, eu sei. Eu sei também que não há nada mais glamouroso do que sentar num Café, ler um livro e se entregar ao dolce far niente. 

Mas…

… desde quando mãe se entrega ao dolce far niente, né minha gente? Qualquer visita a um Café que não seja para mães com crianças pequenas, é no mínimo, o oposto do luxo. Ainda mais com um filhote desfraldado que faz questão de fazer o número um E o número dois em todos os banheiros diferentes por onde passa. Fala pra mim se tem algum glamour limpar bunda de moleque fora de casa?

Enfim, saudades dos balcões de padaria!

2. Cabeleireiro & Co por preços camaradas 

Well, reclamação quase unânime da mulherada brasileira que não pode se acabar num salão de cabeleireiro por aqui.  Fato é que não dá pra mudar (e manter) drasticamente o corte de cabelo, ou ir a cada três, quatro meses  só pra cortar as pontinhas.  Desculpa aí, as rycas e phynas que podem! Que o luxo, o glamour e o poder permaneçam com vocês.

Nestas idas e vindas, e somando todo o tempo que já morei fora, eu nunca aprendi direito a fazer as coisas by myself . Eu me viro muito bem na cozinha, eu me viro bem na faxina e arrumação da casa e em outras cositas mas, mas eu confesso que nos cuidados pessoais eu sou um zero à esquerda.

Não sirvo pra manicure de mim mesma, e muito menos pra pagar quinze contos de euro pra moça nem mandar um oi pra minha cutícula. Fico com as mãos por fazer mesmo.

E depilação então? Depilação não é tão fácil de achar por aqui, e quando acho também não dá pra se depilar de cima a baixo todo santo mês. Sendo eu detentora de pelos nos lugares mais improváveis e menos convenientes, eu sinto falta pra caramba da Bra, a minha depiladora querida.

Acaba sendo na base da gilette mesmo, apesar de não gostar do resultado. Mas uma vez que já fui capaz de me auto flagelar com bolhas e hematomas decidi não mais me arriscar.

Eu acho super digna e valiosa toda essa discussão a respeito da depilação feminina, mas eu merrrma não banco pernas, axilas e virilhas cabeludas. Digo e repito: EU não banco. É o tipo de coisa tão enraizada na minha cabeça, que só tirando pela raiz mesmo. De preferência com cera quente.

3. Não ser escrava do secador de cabelos

Ô saudade de lavar os cabelos e sair de casa com as madeixas molhadas mesmo. Deixar secar ao tempo, no sol, no vento!

Pois se eu sair com os cabelos molhados aqui, certeza que a vida me dá de presente uma gripe e/ou uma sinusite crônica, pra dizer o mínimo.

Eu acho muito chato secar o cabelo, tenho preguiça mortal. De maneira que não o lavo todos os dias. Pode me julgar, não ligo. Sou adepta do shampoo a seco e sigo feliz assim.

E também né, a gente lava e seca os cabelos, põe toca, quando não põe toma chuva… No fim do dia sua voz continua a mesma, mas o seus cabelos… Ai, preguiça mesmo!

Em tempo: eu não lavo os cabelos todos os dias para não ter que seca-los todos os dias. Mas banho eu continuo tomando t-o-d-o-s os dias!

Outra coisa que eu sinto falta, mas pode entrar nessa mesma categoria, é de não ser escrava do hidratante. No Brasil eu passava hidrante para ficar cheirosa, ou nos meses mais frios quando a pele, de leve, dava uma ressecada.

Se eu saio do banho e não passo hidratante é uma coceira sem fim. Sem contar que a pele mais parece um craquelé. Preguiça também!

minha pele sem hidratante/ imagem: de.wikipedia.org

4. Falar português

Meu marido não é gringo, de modos que a gente conversa a beça em bom português. O pequeno, por enquanto, só quer falar português conosco (e ele fala, viu! como fala esse pequeno).

Mas sabe, tem horas que cansa um bocado se expressar numa língua que não é sua. Tem horas que eu quero ligar o piloto automático e não me preocupar com nada. Nem com pronúncia, nem com declinação, nem com vocabulário.

Eu sei, eu sei, em Roma, como os romanos, mas tem dias que cansa mais do que em outros. Tem dias que eu queria estar numa roda e só jogar papo fora.

Na mesma categoria entra ler jornal em português.

5. Não pensar na vida com tanta antecedência

Eu juro que não sei como os alemães conseguem se planejar com tanta antecedência. Eu sofro um tantico pra entrar no esquema deles.

Se eu vou estar livre no dia 18 de Outubro às 20 horas? Cara, eu espero estar viva! Muita água vai passar por debaixo da ponte! Não posso te responder agora! Minha vontade é responder assim, mas em vez disso a gente abre a agenda e vê se o raio do dia, naquela hora não tem nada marcado. Vai que tem, né?

Isso pra mim, que tenho como lema não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar, é difícil, viu! Se eu falar que é fácil eu estou mentindo.

Mas de novo: em Roma, como os romanos. E bora andar com agenda pra cima e pra baixo. E um dia, quando menos se espera, você já está como eles. E se alguém cancela alguma coisa com você( tipo com cinco horas de antecedência) você fica puta da vida!

Tenso!

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São apenas algumas coisas, a lista pode ser bem maior, dependendo do dia e da hora. Tudo isso varia de pessoa pra pessoa, de lugar pra lugar também. Mas o certo é que não há ganhos sem perdas. E se a vida fosse só ganhos, não passaria de uma imensa perda, como bem já disse um grande amigo (que é outra coisa que eu sinto falta pra caralho, dos amigos) que é também poeta.

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Pessoal, eu me abalei demais com um anônimo desaforado que passou por aqui. Ainda não aprendi a lidar com esse tipo de coisa. Não precisava de tanto, muito menos de post mal escrito e mal educado. Para os que me leem, peço que relevem. 

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Casa limpa e arrumada

Eu sempre tive faxineira no Brasil. Desde a primeira vez, quando eu e João decidimos juntar os trapinhos e reuni-los sob um mesmo teto. Fato esse que gerou muita comoção familiar, uma vez que fomos morar juntos sem nos casar. Eu na graduação, ele no doutorado. Mas nem é sobre isso que vim aqui falar, nem que a casa era uma gracinha com rede na varanda, com hortinha e com pé de acerola no quintal. Não, não. Eu vim dizer que mesmo na simplicidade, numa casa pequena e aconchegante, quase sem mobília, mas cheia de amor e vontade de amar; mesmo nessa casa modesta, a gente tinha uma faxineira.

O que o dinheiro de duas bolsas podia pagar, era a dona Ana de quinze em quinze dias. E a sua visita era esperada com ansiedade e louça fazendo aniversário na pia. Nunca fui boa em mandar. Eu dizia o que queria, ela fazia (às vezes bem, às vezes nem tanto), mas quem se importava com isso naquela época? Eu que não. João muito menos. A gente ficava muito feliz de ter a louça e o banheiro lavados, chão varrido, pó espanado e roupa passada. Afinal, a gente queria morar junto, mas cuidar da casa juntos, bem…

Então a vida nos trouxe para a Alemanha, e na Alemanha não tinha essa de dona Ana não. Mas quem ligava? Eu que não. João muito menos. A gente queria mais era se jogar nos prazeres etílicos (e esses não faltaram), morrer de dormir no dia seguinte, curtir um pileque, colocar mochila nas costas e correr Europa afora. Casa era lugar de passagem, embora fôssemos e ainda somos, muito caseiros. Quando a coisa ficava preta, encardida mesmo, quando não havia um copo, um talher ou um prato limpo, e/ou quando íamos receber visita, a gente dava um trato geral. E pra nós estava ótimo desse jeito, nesse esquema meio assim… república.

Depois de um tempo, queríamos mais era aquietar o corpo e o coração. Ter um teto mais definitivo. E voltamos ao Brasil. A casa já era vista com mais carinho, quase um ninho. Mais mobília, mais livros, mais fotos, mais lembranças…. As visitas da faxineira se tornaram mais frequentes, e a casa, puxa! A casa era um brinco! Embora minha, nossa participação no processo fosse mínima.

Daí, minha gente, que com ninho feito chegou filhote. Filhote chega, e acontece o que? A vida muda,e o ninho vira de cabeça pra baixo! Quando Tomás era bebê, tínhamos faxineira três vezes por semana! E mesmo que adorasse com todas as minhas forças ter a cozinha, os banheiros e todo o resto da casa cheiroso e arrumado, me irritava imensamente ter uma pessoa “estranha” dentro de casa dia sim dia não.

Resumindo bem essa parte, e poupando os leitores e leitoras de todos os detalhes sórdidos, no fim das contas contávamos com a faxineira duas vezes na semana.

Mas a vida nos trouxe de volta para a Alemanha, e eu sabia que a gente teria que se virar com casa, roupa, comida e filho pequeno. Tudo junto ao mesmo tempo agora e todos os dias. Paniquei, claro! Afinal, com filho não dá pra viver no caos. Mas a gente respira fundo, conta até dez e acredita! acredita na gente mesmo, na ajuda do marido, e na gente mesmo de novo.

E eu só sei que tenho aprendido muito nesse tempo cuidando da casa sozinha. Deixei de lado meu perfeccionismo, aquele lado besta de que só limparia a casa se fosse pra fazer tudo de cabo a rabo, jogando água e desinfetante feito maluca. Aprendi que existem outras formas de limpar e cuidar, aprendi que é melhor fazer um pouquinho por dia, do que acumular e deixar pra fazer tudo num só dia. Aprendi que manter é regra de ouro. Aprendi a amar minha lava-louças incondicionalmente, aprendi que lenços umedecidos de limpeza não é coisa de preguiçoso, aprendi que cuidar da casa pode e deve ser prazeroso, aprendi a relativizar a bagunça, aprendi que ninguém morre por não ter faxineira.

Na minha casa as panelas não refletem a nossa imagem, os vidros das janelas não são quase invisíveis de tão limpos, e os azulejos do banheiro não resplandecem limpeza. Mas quem liga? Eu que não. João muito menos. Porém, tem sempre roupa limpa nas gavetas, a louça não faz aniversário na pia, os ácaros não fazem festas psicodélicas e temos um lar mais do que decente, mais do que aconchegante. Temos sim, uma casa limpa e arrumada. Ainda que as fronteiras para a defiiniçao de arrumada tenham sido bastante alargadas.

Não vou mentir. Vez ou outra eu sinto saudades da dona Ana, e de todas as outras donas que passaram por nossas casas e por nossas vidas. Mas eu sinto saudades mesmo da minha rede na varanda, da nossa horta, do nosso pé de acerola carregado de frutinhos. Afinal de contas, uma casa, mais do que limpa e arrumada, uma casa puxa! É feita das memórias e das gentes que passam por ela.

Imagens pinterest

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Beija, beija. Tá calor, tá calor

Atravessamos o Atlântico e cá estamos em terras calientes. E não é só o clima que anda quente não. Tomás anda derretendo de tanto amor que tem recebido. São abraços e carinhos e beijinhos sem ter fim. Saudades acumuladas sendo dia após dia extirpadas, e avós exibindo sorriso de orelha a orelha.

E assim, vamos fazendo nosso estoque de calor humano para esse ano. Nos aquecendo para nosso retorno daqui alguns dias.

Aproveito que ainda dá tempo, e desejo um feliz ano novo para quem nos lê. Que esse ano comece e termine cheio de carinho de gente que nos quer bem, e cheio de gente a quem queremos bem também. E que não nos preocupemos, porque todo o resto vem.

Um feliz e leve 2014!

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Mudança pouca é bobagem

Lar doce lar

Os ventos da mudança andam soprando com tanta força para o nosso lado que, não bastasse as mudanças internas, resolvi mudar de casa também. Por sorte, no mesmo país, ainda na mesma cidade.

A terceira do ano. Terceira mudança, e o ano está em Outubro. Inspira… Expira…. Oooooom.

Pois é, quando eu digo que nossa sina é mambembe, cigana o povo acha que eu exagero.

Apesar do trabalho, apesar da dor de cabeça, apesar dos pesares, eu gosto de mudanças. É bem verdade que o processo é, por vezes, doloroso, trabalhoso, massacrante, desgastante… mas o resultado é sempre bom!

Faço minhas as palavras do Chico: as pessoas têm medo das mudanças… eu tenho medo que as coisas não mudem.

E pra completar o espírito de mudança, eu resolvi mudar a cara do blog. Ai se todas as mudanças fossem fáceis, leves e coloridas como essa do blog! O processo todo ficou por conta da Lu e da Flávia, moçoilas que dispensam maiores apresentações de seus já comprovados talentos.

Obrigada meninas pela paciência! E sobretudo pelo resultado! Estou absolutamente in love!

E no meio dessa bagunça toda, eu ando correndo pra ter um casa com cara de casa, administrando um pequeno mais perdido que cachorro em dia de mudança (literalmente) e tendo que lidar com algumas provisoriedades próprias de uma casa nova.

E por falar em provisoriedade… sabe, eu nunca mais vou reclamar de pedreiros no Brasil. Eu começo a crer que existe um pacto mundial entre os pedreiros, pacto esse que os impede de entregar uma casa dentro do prazo estipulado. Prazo esse que os obriga a refazer trabalhos pelo simples prazer de nos ver putos, pelo simples prazer de ter alguém ligando louca e repetidamente porque o aquecedor ainda não funciona, porque a torneira ainda pinga, porque isso e mais aquilo.

Pois é, e ainda assim eu continuando gostando de mudar. De casa, de cidade, de país, de vida, de ideia… Marido e filho ainda são os mesmos. Ufa!

antes de ser mãe eu não sabia que..., Da poesia da vida, Do cotidiano, mambembe, mundo afora, Tomás

Tudo o que eu me lembro sobre livros

Mamãe, eu quero colocar um livro em cima do outro até chegar no céu!
Eu sempre gostei muito de livros, sempre. Quando era menina, bem menina, e nem podia ler ainda, me fascinavam eram as ilustrações. Às vezes tão expressivas, tão reais, que pareciam querer sair das páginas a qualquer momento. Eu não me lembro como foi a sensação de ler sozinha, nem me lembro qual foi o primeiro livro que li sozinha. O que eu me lembro é que livros sempre fizeram parte da minha história de vida. As leituras da escola nunca foram pra mim um martírio, uma coisa enfadonha. Assim como a lista de livros para o vestibular também não o foi. É bem verdade que eu gostei mais de uns do que de outros, e que se relesse tantos outros hoje, sem a pressão do tempo, com a maturidade que tenho, com o conhecimento de mundo que adquiri, certamente aproveitaria-os muito mais.
Quando eu era menina, eu bem me lembro que não podia ter todos os livros que queria. Na verdade, eu nem tive muitos. Livros infantis eram tudo, menos baratos. E lembro também, que eles ficavam resguardados às livrarias pouco aconchegantes e convidativas, onde se escondiam no meio de tantos outros livros didáticos. Nessas livrarias, a gente só entrava mesmo era para comprar a lista de livros que usaríamos naquele ano letivo. Livros extracurriculares, por assim dizer, minha mãe comprava através de catálogos.
A melhor coisa que meus pais fizeram para mim foi tornarem-se sócios de um Gabinete de Leitura. Lá eu criei asas para voar para muito além daquela pacata e provinciana Jundiaí da minha infância e primeira adolescência. Lá eu delirava de alegria. Lá, aos doze anos, eu conheci os grandes clássicos, os grandes autores, os pequenos e os desconhecidos também. Eu me lembro que eu levei pra casa um exemplar da Divina Comédia, de Dante Alighieri. Eu não entendi porra nenhuma, mas mesmo assim era como se eu estivesse levando para casa um livro sagrado, um livro cheio de mistérios. Mistérios tão maiores do que eu, um livro que pedia reverência. Eu me sentia muito importante, muito especial com ele guardado na minha mochila. E todos aqueles livros de arte? Santo deus, que mundo foi aquele que se descortinou pra mim! 
Eu me lembro também que foi lá que descobri, dentre tantos outros, o Ítalo Calvino. Teve um livro dele que eu renovei seis semanas consecutivas! Eu já tinha lido o livro de cabo a rabo, mas eu queria extrair mais e mais, eu não queria me despedir dele. Quem deu fim àquela relação foi a Lú, a atendente do Gabinete na época, que me disse sem grandes pesares que naquela semana eu não poderia renovar o livro. Alguém, algum maldito alguém, já o havia reservado.
Eu me lembro que desde que me conheço por gente, meu sonho era ter uma biblioteca em casa. Não ter os livros na estante da sala como parte da decoração; eu queria uma biblioteca de verdade, com estantes cheias de livros, sofás que me abraçassem, com uma escrivaninha grande o suficiente para que eu pudesse tomar notas e confortável o suficiente para que eu me esquecesse do tempo; uma biblioteca banhada de luz natural  durante o dia, e de luz focada e precisa à noite. Eu não me lembro de pensar em quem iria limpar esses livros todos, mas sonhos são sonhos, né? 
Eu suspiro toda vez que entro numa biblioteca. Perdoem a comparação, mas é como se entrasse numa igreja, num território sagrado. Talvez o silêncio exigido, os cochichos sibilados, a seriedade dos que as frequentam me façam pensar nessa comparação profana. Mas a verdade é que eu adoro uma biblioteca, seus cheiros, seus sons abafados, a quantidade de pensamentos reunidos…É quase como um céu.
Os livros sempre me ajudaram a descobrir o mundo, um mundo, meu mundo. Sempre me apresentaram formas de pensamento até então desconhecidas, sempre me ajudaram a extirpar preconceitos, sempre me fizeram rir ou chorar ou os dois ao mesmo tempo, sempre me inspiraram mudanças, sempre me possibilitaram uma fuga imediata, ainda que imaginária. Livros sempre me mostraram um pedaço de mim, do outro, das coisas, da vida, pedaços esses que nunca imaginei que pudessem existir.  
Eu me lembro também que foi num Setembro, que parecia qualquer, que a vida sorriu para mim. E como num romance, o João aconteceu. Acontece que eu não imaginava que além de poesia o que viria seria amor. Um amor de altos e baixos, um amor de esfria e esquenta. Um amor como dos livros? Um amor que daria um livro. Uma história de amor que faria história nas nossas vidas. E no meio de muitas outras histórias, a Alemanha cruzou nosso caminho.
Eu me lembro que quando cheguei na Alemanha pela primeira vez, eu não acreditava que livros pudessem ser tão baratos! Mas que merda, eu ainda não sabia alemão! Tanto suor e tantas, meu deus, tantas lágrimas derramadas para aprender o alemão. Para entender outra cultura, para não me sentir menos, para me saber diferente, para enfim poder sentar e ler um livro em alemão. Anos e muitos cursos depois, claro!
Alguns anos e nenhum curso depois, eu e João fizemos um filho. A gravidez desse filho foi cercada de leituras. Sobre parto e sobre tantas outras coisas também. Mas a verdade é que não há livro no mundo que dê conta, que saiba contar o que é a chegada de um filho. Um filho muda muito, quase tudo. Esse filho ao nascer trouxe consigo um dos capítulos mais bonitos da nossa história. E em paralelo vai escrevendo a sua própria, por enquanto, com nossa ajuda.
O parto do meu filho marcou, da maneira mais bonita, a minha história. Antes dele eu era. Agora com ele, eu sou. E isso a gente não aprende em livro nenhum, a gente só aprende sendo.
Nossa história chega no hoje, e no hoje a Alemanha é de novo presente. Presente no tempo e presente que a vida deu. Aqui e agora, com filho parido e longe de estar criado, temos juntos aprendido muito, crescido muito.  Aprendizados e crescimentos que não se contam em livros, porque são muito nossos.
Hoje, com uma biblioteca longe de ser a dos meus sonhos, não só pelo espaço como também pelo sem fim de livros que ainda queremos comprar (e será que a lista um dia terá fim?), compartilhamos nossos livros com os livros do Tomás. E olha, nem na minha biblioteca dos sonhos, eu imaginava que os livros do Tom pudessem trazer tanta vida e tanto colorido a qualquer prateleira. Não só porque os livros dele são muito mais coloridos e bonitos que os nossos, mas também pelo prazer de saber que compartilhamos com ele nosso apreço pelas palavras.
Tem coisas que não estão nos livros, tem outras que nem cabem em livros; tem outras tantas mais que nem dão um livro.  Mas no meio de todas elas, muitas mais são e já foram contadas e recontadas. E eu me lembro de já ter querido ler todos os livros do mundo, porque achava que todos eles cabiam numa única e grande biblioteca.
E sabe do eu me lembrei agora? De cheiro de livro novo! Como eu adoro! E assim como com livros novos que podemos até saber um pouco do enredo, das personagens, a gente só sabe mesmo o que acontece ao abrir e ler até o fim. Não adianta ouvir a história através de outros. Têm histórias que ou se lê ou se escreve. Ninguém pode nos dar.
Acho que a maternidade também é assim. A gente pode até saber de antemão um bocado de coisa, mas só se sabe mesmo se abrindo e vivenciando. E aí, como que livro novinho, novinho, eu me lembrei do cheiro do Tomás quando nos meus braços pela primeira vez.  Mas essa história fica para outra hora.
E assim, era uma vez, uma menina que amava livros. E tinha um monte deles. E…