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O fim do fim

2012 foi o ano que já começou fadado ao fim. Antes mesmo que começasse já se esperava seu fim apocalíptico. Como sabíamos, prevíamos e esperávamos, o mundo não acabou, mas 2012 finalmente, veja só, está para acabar. Acabar de vez, não de maneira catastrófica e desoladora, mas seguindo a ordem natural das coisas, seguindo a ordem do mundo tal como o conhecemos, de um dia que corre depois do outro, de um mês que corre depois do outro,  e que chegando no fim do calendário simplesmente…acaba.

2012 vai se acabando e deixando para trás dias difíceis, dias de dúvidas, dias de desesperanças, dias de pequenos apocalipses, dias de “é o fim da picada”.  2012 vai se acabando e deixando para trás muito cansaço e pouco fazer, muito esperar e pouco aceitar. É… esse ano que já vai passando não foi nada fácil pra mim. É que na vida é assim mesmo, existem anos melhores e piores, anos mais felizes e anos menos felizes. Anos que se vão e deixam muita saudade, e anos que se vão com a leve impressão de que já vão tarde.

E por falar em fim, estamos vivendo nossos últimos dias de Brasil. Passando todo o tempo possível ao lado de pessoas amadas, sabendo que todo tempo possível será insuficiente para retribuir todo o afeto que temos recebido.  Apesar da saudade que já se apresenta a cada despedida, a alegria do novo também se faz presente, e nessas horas não consigo deixar de pensar nas palavras do poeta “coisa que gosto é poder partir sem ter planos, melhor ainda é poder voltar quando quero”. E pra nós, mambembes de coração, muito da beleza da vida está nesse vai e vem sem fim.

O que mais vai chegando ao fim é este post. Mas não sem antes perguntar se você  já parou pra pensar que não há sombra sem luz, dias sem noites, mal sem bem? Assim como não há  fim sem começo. E apesar de, no hemisfério sul, o verão estar em seu auge, e as águas de março estarem tão distantes, o fim de 2012, pra mim, é promessa de vida no meu coração. No meu fim de ano, no meu fim de ciclo, no fim de um mundo muito meu, muito particular, eu sinto aquele frio gostoso na barriga, frio gostoso que sempre sentimos diante do novo.

E este post sem vergonha vai chegando ao fim desejoso de um Feliz Natal, e desejoso das melhores e maiores alegrias para 2013 à todas (e todos, para contemplar meu público masculino, que provavelmente se resume ao meu marido e ao meu pai) que nos acompanham e acompanharam neste longo e pavoroso 2012!

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Nos últimos dias o mundo não acabou, mas muita coisa aconteceu. Dentre elas, Tomás completou dois aninhos. Dois! Já me diziam antes, mas é verdade: o tempo corre! Meu filhote já é um menino.

Quem mais completou dois anos foi a Laura da Dani. Parabéns Laura Linda, parabéns Dani!

E para aumentar o time dos nascidos no dia 20 de Dezembro, nasceu o Leo da Cris! Tão lindo, tão lindo que até dá vontade de ter outro bebê.Mas já passou. Parabéns, querida! Muito leite e muitas noites de sono para vocês!

Até 2013 pessoal!

Para ouvir o melô do fim do mundo é só clicar

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Das convicções, o medo do segundo, a Starbucks e o mundo dos sonhos

Antes, bem antes do Tomás nascer, quando eu pensava em filhos, eu pensava sempre em dois. Dois parecia ser um número bacana. E tinha mais, eu pensava em ter os dois com pouca diferença de idade.

Mas antes de chegar no ponto de querer ter dois filhos, eu achei melhor omitir de vocês, minha convicção fulera de que não queria ter filho nenhum. Convicção essa que meu marido nem sequer chegou a levar a sério.

Bom, o Tomás nasceu. E com ele muita coisa também nasceu, outras só brotaram, mas ainda não floresceram, e outras morreram. Foram-se, acabaram-se, escafederam-se. Convicções de toda sorte, gênero, número e grau, se esfarelam na sua frente, dia após dia quando se tem um filho.

Então que aquele ser fofinho, guloso, insone e chorão, apesar de ter matado sem dó muitas das minhas antigas convicções, me trouxe uma outra convicção. Veja que eu sou teimosa. E apegada. Eu preciso de uma, só para não perder o costume. A convicção de que eu não teria mais filhos, de nenhum jeito e de jeito nenhum! Ponto.

Meu marido zen, baseado naquela minha primeira convicção acima, aquela de que eu nunca teria filhos, dá de ombros toda vez que eu falo que não quero ter outro filho. Convenhamos, eu caí em descrédito. Então quando o assunto é segundo filho, eu falo CONVICTA que não terá um segundo, nem aqui, nem na China. E ele: Uhum, o tempo dirá. Ou ainda Se for para ser, você vai sentir. Hoje, só de pensar na ideia, o que eu sinto é pâ-ni-co, mas se realmente for pra ser, eu espero sentir outra coisa.

Mas por que não ter outro filho? Os argumentos são muitos, mas não quero fazer do post um manifesto ao filho único. Muito dinheiro, muito tempo, muita doação, muito espaço, muito amor. Eu estou reclamando disso tudo? Não, não e não. É assim que é, é assim que deve, ou deveria, ser. O que faço para o Tomás faço de bom grado, de coração, com alma. Mas vira e mexe me pergunto se a dedicação que dei e dou para o Tomás eu poderia dar para outro filho.

Eu já comentei que fiquei com o Tom durante o seu primeiro ano de vida, e agora no segundo, continuo sendo mãe em tempo integral. E gosto disso. Mas sei também que uma hora ele terá outras necessidades, e será uma outra fase dele e minha. Terei eu vontade/coragem de começar tudo de novo?

Sem contar que nós mudamos pra caramba. A cada dois, dois anos e meio, mudamos de casa, de cidade, de país. OK, nos últimos nove anos o país em questão tem sido a Alemanha. Ainda assim, toda mudança exige esforço, adaptação, espera. E agora com o Tom, outras variantes entraram na jogada. Colocar mais um mambembe nesse mundão? Ficar grávida sabe deus onde? Trazer outro filho sabe deus em que lugar? Ideia pouco convidativa.

E mesmo vendo o Tom passar por fases as mais fofas, as mais gostosas, a certeza de que tudo melhora por um lado, de que o trabalho muda, nem o melhor da maternidade me anima para um segundo.

Mas citando meu marido: só o tempo dirá. Ou não, né?

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Eu conheci a Starbucks relativamente tarde. Em Hamburgo, a primeira filial da marca foi inaugurada em 2006, e depois da primeira, outras pipocaram pela cidade. Alguns colegas americans do curso de alemão, alucinaram com a chegada da Starbucks na cidade. E eu, aproveitando a euforia alheia, fui saber o que tinha de tão alucinante por lá. A minha favorita era a da Colonnaden. Como eu não tinha filho ainda, eu podia me dar ao luxo de escolher uma filial com escadas. Em Heidelberg, a minha Starbucks preferida é a da Universitätsplatz, por questões de comodidade mesmo. O ponto final do ônibus que pegava é quase em frente à ela, e ao que tudo indica todas as mamas de Heidelberg também elegeram aquela filial como a favorita. De maneira que, dependendo do dia e da hora, há congestionamento de carrinhos, e nos trocadores.

Para ser bem sincera, o que mais me agrada na Starbucks não é o café. Aliás, eu acho uma perversidade pegar os melhores grãos de café do mundo, e ainda assim produzir um café fraco e sem graça. Mas voltando, o que mais me agrada na Starbucks é o ambiente, que apesar de padrão everywhere, é aconchegante, a música, jazz, thanks God!, e se você for fã como eu de alguns rótulos americanos como muffins, brownies e cheesecakes, então você me entenderá um pouquinho mais.

Logo, para ouvir uma música decente, me esparramar num sofá macio, usar um banheiro limpo, ter internet de graça, jornais e revistas dos mais variados, eu tolero o/a atendente me fazer perguntas que me deixam nervosa. Como por exemplo, qual o tamanho do capuccino, com leite integral, desnatado ou de soja (oi?), com expresso duplo ou simples…. Gente, pra que complicar o modo de tomar um café?

E eu sempre me imaginei num dia de fúria, batendo no balcão e falando é só um capuccino, porra!. Mas claro, isso nunca aconteceu e nem nunca acontecerá. Pois bem sabemos que dias de fúria quiçá em filmes dão certo. E eu não quero ser apenas uma louca brasileira presa por ter surtado no balcão da Starbucks. Péssimo…

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Eu sempre tive sonhos muito reais. Cores, feições, paisagens, cheiros, vozes… misturas de vivências, lembranças, lugares e pessoas conhecidos, uma mélange de emoções e sensações. Meus sonhos são como telas ou filmes. Surreais, é bem verdade. Estranhos, fantasiosos, bizarros…

E dia desses eu tive um desses sonhos extremamente simbólicos. Cono todos o são, diria algum psicanalista. Se tivesse vocação para sonhos proféticos, estaria eu com a pulga atrás da orelha.

Eu sonhei que estava na Starbucks de Heidelberg. Na verdade, em sonhos, o lugar nunca é exatamente o mesmo. Estava eu sentada lendo um jornal. Mas eu o lia de cabeça para baixo, uma vez que do jeito “certo” de ler, as letras se tornavam símbolos totalmente desconhecidos para mim. Nas janelas, cortinas de veludo vermelho bloqueavam a luz. E pelo lugar, havia gatos espalhados. Eu estava num sofá, e me esforçava para ficar à vontade, mas estava nitidamente incomodada. Com tudo. Algumas pessoas usavam máscaras, e outras eram completamente carecas.

Um casal muito alto, de cabelos e pele bem claros, e com olhos muito azuis sentou-se comigo. Bom, na Alemanha gente alta, loira, branca e de olho azul é carne de vaca, né! Mas eles não eram “normais”. Alguma coisa neles era diferente, porém aparentemente, eram como qualquer outra pessoa.

Esse casal sabia meu nome. Só a mulher falava comigo, mas o homem era amigável. Ela me disse que eu tinha a missão de trazer para o mundo deles (hum…) uma criança. E que eles me prometiam um nascimento sem dor. E que a menina deveria se chamar….Pia.

Abrindo parênteses… Se eu pudesse dialogar no sonho, eu diria que se a missão deles era me convencer da minha missão, então a missão deles falhou. Compreendeu? Se queriam mesmo me convencer a ter outro filho, então que viessem com argumentos muito mais elaborados. Afinal, nascimento sem dor também é possível nessas paragens. Que viessem com a promessa de que eu não teria Baby Blues, de que eu dormiria uma noite inteira desde o primeiro dia de pós-parida, e de que eu sairia da maternidade a Gisele Bündchen morena. Eu diria também que por ora, eu não quero parir nem aqui, nem no mundo deles. E que não tinha essa de escolher o nome da minha cria. Até mesmo porquê, Pia na minha terra, é onde se lava louça. Fechando parênteses.

O tal sonho termina como a maioria dos sonhos; sem pé nem cabeça.

Bom, como já disse, ainda bem que não tenho veia de profeta. Assim sendo, posso ficar sossegada. Afinal, foi apenas um sonho.

Não é o que minha terapeuta diria. Tenho certeza. Aliás, acho que ela vai a delírio na minha próxima sessão.

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Nos primeiros dias, meses do Tomás, eu me perguntava porque ninguém, NIN-GUÉM, nem a minha própria mãe, me disse o quão difícil seria. Simplesemente porque não dá para falar dessas coisas. Elas se contrapõem com as expectativas do novo que está por vir, e temos para nós que o novo, sem exceção, é bom. E é bom mesmo! Ter um bebê em casa é uma delícia. Ter tido o Tomás foi e é uma delícia. Foi a melhor coisa que eu já fiz na minha vida, sem dúvida. Mas nos esquecemos que o novo, sem exceção, exige adaptação. Nos primeiros dias, meses do Tomás, eu me perguntava como alguém, em sã consciência, poderia querer outro filho. E por nenhum momento, ao me fazer essa pergunta, eu lembrava que as pessoas passam pelo que têm que passar, do jeito que precisam passar.

E depois, o tempo, sempre ele, se encarrega de fechar as feridas, de redimensionar os sofrimentos, de resignificar as dores. E com o tempo, as mémorias que de fato importam, as de peso, são as mais leves, mais alegres, mais doces. Então, nós pegamos essas memórias afetivas, e as sacralizamos no nosso santuário de ideias. E toda vez que nele entramos, nos sentimos confortadas. E toda vez que dele saímos, nos sentimos mais fortes, mais confiantes. E bingo!, descobrimos o como a humanidade se perpetua, e descobrimos que é possível desejar outro filho.

Eu dise que é possível desejar outro filho. No meu caso, do possível para o real já é outro papo.

Então Sr. Universo, vê se para de mandar mensageiros nórdicos através de sonhos para me convencer do que não é preciso ser convencido. Afinal, eu estou convicta, lembra? E não venha o Sr. rir das minhas convicções! Para isso, já me basta meu marido.

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Família Mambembe

Quando eu era menina, eu dizia que meu sonho era conhecer o mundo inteiro. Muita gente achava tão exagerado: afinal, o que uma menina de 10, 11 anos de idade, que mal conhecia Jundiaí e região sabia sobre o mundo inteiro?

Daí que o tempo passou, mas a vontade de expandir minhas fronteiras, físicas e pessoais, essa nunca passou. Pelo contrário, só aumentou.

Então aos 19 eu ingressei na universidade. E fui conhecendo um bocado de gente, que me levou a conhecer outro bocado de gente, que me levou a conhecer o João.

Quando eu conheci o João, eu suspeitava que a vida estava me dando um presente, mas nem nos meus maiores devaneios eu poderia imaginar tudo de tão especial que a chegada (e a permanência) dele na minha vida me traria.

Eu não imaginava que a vida estava me trazendo um cara mais inquieto, com mais vontade de conhecer esse mundo afora do que eu. Um cara que me disse um dia, que uma das músicas do Chico que ele mais gostava era Mambembe.

Eu não imaginava que ele queria compartilhar sua vida e seus sonhos comigo, e nem imagina que juntos, nós somaríamos sonhos e tornaríamos muito deles realidade. Inclusive o sonho de trazer para esse mundo um menininho tão lindo.

Foi por causa do João que fomos parar na Alemanha, e lá vivemos por quase cinco anos em três cidade diferentes. Foi junto com ele que pegamos carona, trens, aviões, perdemos trens e voos, dormimos mal em albergues mequetrefes, dormimos bem em hotéis pagos pela universidade, comemos mal, comemos bem, tomamos porres, fomos roubados (oi Praga, oi Barcelona!), voltamos, recebemos amigos, fomos recebidos, fizemos viagens de baixíssimo orçamento (graças à ele, porque eu como administradora sou uma lástima), corremos um pedacinho desse mundão.

Daí veio a vontade de aquietar-se um pouco, de ajuntar os livros, os cds, as fotos, as estórias num cantinho, de rever amigos que ficaram, e voltamos. Mas mambembe que é mambembe está sempre com comichão. E mesmo em terra brasilis outra mudança se deu. Outra cidade aconteceu.

Eu já perdi as contas de quantas mudanças, quantas casas passamos, quantas coisas deixamos pra trás, e quantas trouxemos conosco. Já perdi as contas de quantas vezes tivemos que alterar nosso endereço para continuar recebendo correspondências importantes, já perdi as contas de quantas vezes o coração saiu apertado e chegou renovado de esperanças.

Os últimos anos certamente foram agitados, uma loucura até, mas foram anos maravilhosos, de muitas descobertas e muitos aprendizados. Aprendizados que não cabem num papel, descobertas que não cabem numa conversa.

Hoje, com Tomás, a mambembice está meio adormecida, mas só um pouco. Outros projetos, outras mudanças à vista. Mas dessa vez com gostinho especial, pois temos um mambembezinho conosco, que desde a barriga já direcionava nossas escolhas e planos.

Eu só sei que aquela menina que queria conhecer o mundo cresceu, já viveu muita coisa, mas ainda quer viver muito mais. Ela não faz ideia de onde, nem como estará nos próximos anos, mas espera de coração, que a vontade, o comichão de conhecer o mundo, as coisas, as pessoas, a disposição para mudar, nunca desapareçam. Afinal, como diz a letra do Chico …”dormindo na estrada, no nada, no nada. E esse mundo é todo meu”… É, esse mundo é todo nosso, e falta muito ainda pra ver!

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Foi a Lu querida que tornou em realidade lúdica nossa estória mambembe. Ela é a responsável por deixar a nossa casa mais bonita, e com a nossa cara. Obrigada Lu!

Espero que vocês também gostem e se sintam em casa. Entrem e fiquem à vontade!