aniversário, Da poesia da vida, mudança, mundo afora

sobre o mês de junho e um poema por semana #2

mas meu deus do céu, não! esse meu projeto está mais para um poema por ano do que por semana, não é não!? mas vamos que vamos, agora retomo com todo prazer aquilo a que me propus.

bom, tudo sempre tem um motivo, e o motivo que fez ausentar-me daqui foi uma mudança de casa. mudança essa que começou no mês de maio e que concluiu-se  neste mês de junho.

a casa escolhida deu mais, muito mais trabalho do que o esperado. ela nos consumiu bons fins-de-semana em família, e muitos outros dias meus apenas. eu, quando entrei na casa, de cara vi que ela daria trabalho, mas eu vi mais do que trabalho ali: eu vi um potencial lar. e me apaixonei por ela. mas como joão gilberto já cantou: o coração tem razões que a própria razão desconhece.

e assim, baseando-me pura e simplesmente no meu coração, escolhi essa casa em que agora habitamos e que já muito amamos. apesar do trabalho que ela ainda nos dá, veja só.

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amor à primeira pisada

mas o tempo passou, o que parecia nunca se ajeitar, deu-se um jeito ou ajeitou-se. nossa casa está com cheiro de casa, cara de casa, vida de casa. e anda difícil mesmo é sair de casa.

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e ando encantada com cada novo canto. plus eu tenho duas roseiras para chamar de minhas

mas o mais legal para mim é que eu completei primaveras na nova casa! e nesse aniversário eu tive muito para agradecer. e só de me lembrar que eu ficava triste nos meus aniversários… haha. o bom de amadurecer, eu acho, é que a gente vai cada vez mais dando valor ao que realmente importa para nós. e a gente vai descobrindo cada vez mais, o que realmente importa.

pois bem, completei anos na casa nova. e fiquei muito feliz pelo ano que se passou e mais ainda pelo novo ano que tenho pela frente!

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moi: the birthday girl. repara só na toalha amassada tirada da caixa de mudança especialmente para a ocasião (mentira, foi a primeira que achei na caixa)

e esse meu junho tem sido muito especial. eu amo o mês de junho! faço anos, é o mês de festa junina (aliás, para o ano que vem já prevejo uma baita festa junina por aqui), mês dos festejos que mais gosto! e porque é verão por aqui, e até sol e calor eu tive no meu aniversário (abafa o fato de ter chovido os sete dias posteriores a ele).

junho só não foi melhor porque hoje recebemos a notícia de que o uk resolveu sair da união européia. só lamento que no mundo de hoje as pessoas insistam em reforçar fronteiras que nos separam, e insistam com seus discursos conservadores, com argumentos sofistas e pouco agregadores. mas what happened is happened.

because it’s june june june! hahaha amo

mas apesar de toda alegria, toda mudança e todo trabalho dela resultado, aniversário é tempo de reflexão para mim. tempo de olhar com carinho para mim mesma, de reorganizar algumas coisas, de realinhar outras, de traçar metas, de ver o que tem funcionado, o que precisa mudar e o que precisa ficar. e nesse espírito de reflexão, o poema que me vem à mente, e que me caiu como uma luva foi um poema tão, mais tão especial e tão belo, que às vezes, chega a me faltar o ar ao recitá-lo: degraus (stufen) de hermann hesse.

e esse ano ao relê-lo não pude conter as lágrimas. diz tanto de mim e diz tanto da vida. e nesse espírito de novos começos (casa, ano…) eu me rendo aos seus encantos, mas sempre disposta a recomeçar se preciso for, porque “o apelo da vida nunca tem fim”.

e não me atrevo a dizer mais nada, para preservar toda beleza do poema de hesse. ei-lo aqui:

Degraus

Assim como toda flor perde o viço e como toda juventude

Cede à idade, floresce cada degrau da vida, 

Floresce toda sabedoria também e toda virtude
A seu tempo, e não pode durar para sempre.
O coração deve, em cada chamado da vida,
Estar pronto para a despedida e para o recomeço,
Para se dar, na valentia e sem qualquer
Luto, a outras novas ligações.
E em todo começo reside um encanto próprio
Que nos protege e nos ajuda a viver.

Transponhamos serenos espaço a espaço
E a nenhum nos prendamos qual a uma pátria.
O espírito do mundo não quer nos atar nem comprimir,
Ele quer elevar-nos degrau a degrau, alastrar-nos.
Mal nos habituamos a ser íntimos
De um ambiente, ameaça o relaxar-se.
Só quem está pronto para partir e viajar
Poderá eludir o hábito paralisante.

Acaso a hora da morte ainda nos envie
Ao encontro de novos espaços,
Jamais há de cessar o clamor da vida por nós…
Eia, pois, coração, despede-te e convalesce!

Hermann Hesse (1877-1962), Alemanha
in “O jogo das contas de vidro”, trad. de Thessalonian (transtrazendo.blogspot.com)

Stufen

Wie jede Blüte welkt und jede Jugend
Dem Alter weicht, blüht jede Lebensstufe,
Blüht jede Weisheit auch und jede Tugend
Zu ihrer Zeit und darf nicht ewig dauern.
Es muß das Herz bei jedem Lebensrufe
Bereit zum Abschied sein und Neubeginne,
Um sich in Tapferkeit und ohne Trauern
In andre, neue Bindungen zu geben.
Und jedem Anfang wohnt ein Zauber inne,
Der uns beschützt und der uns hilft, zu leben.

Wir sollen heiter Raum um Raum durchschreiten,
An keinem wie an einer Heimat hängen,
Der Weltgeist will nicht fesseln uns und engen,
Er will uns Stuf’ um Stufe heben, weiten.
Kaum sind wir heimisch einem Lebenskreise
Und traulich eingewohnt, so droht Erschlaffen,
Nur wer bereit zu Aufbruch ist und Reise,
Mag lähmender Gewöhnung sich entraffen.

Es wird vielleicht auch noch die Todesstunde
Uns neuen Räumen jung entgegen senden,
Des Lebens Ruf an uns wird niemals enden…
Wohlan denn, Herz, nimm Abschied und gesunde!

Da poesia da vida, mudança, mundo afora, naturebices, palavras soltas ao vento

das memórias afetivas e um poema por semana

memória é um trem doido mesmo. do nada, num dia qualquer, em circunstâncias despretensiosas você passa por uma situação que te evoca lembranças que parecem até ser de outra vida, de tão longínquas e desconectadas do presente que são.

e os gatilhos que despertam lembranças são tão inesperados e tão particulares, que eu sempre me surpreendo com minha própria memória.

hoje eu estava num café esperando pelo meu expresso. e do nada, o cheiro do chocolate quente do meu predecessor na fila chegou a mim. as repetidas lufadas pareciam jogar na minha cara o quão gostoso aquele chocolate quente era e o quão desinteressante meu café seria perto daquela exuberância cremosa.

por segundos eu me arrependi do fundo da minha alma por não tomar mais leite, e muito menos leite com achocolatados. me arrependi por não ter pedido um golinho do chocolate quente pro meu colega de fila. 

por segundos pensei no quanto o tempo passa e no quanto os gostos mudam. seja por necessidade, seja porque se quis que mudassem.

lembrei, já com meu café em mãos, da minha infância regada a leite de vaca com toddy ou nescau.  e também me lembrei do quanto o leite com chocolate  parecia infinitamente mais gostoso na casa da tia zeza, ou na casa da vó chica ( a grama do vizinho,  sabe como é).

e me peguei pensando no quão longe dessa infância eu estou. não só pelos anos passados, mas muito mais pela distância geográfica em que me encontro de todo meu passado.

faz pouco tempo que me mudei para inglaterra. mas faz muito tempo que estou fora “de casa”.  eu sempre soube que não ficaria  naquele lugar que nasci e cresci.  tudo muda, mesmo que por lá ficasse, nada seria igual à essa infância da minha memória.

às vezes, só o que me faz falta é me saber parte de algo. às vezes, o que me faz falta são as pessoas. às vezes, todas as coisas me fazem falta. mas aí eu me lembro do fernando pessoa que deu voz a ricardo reis quando disse “para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui…”. não exagera a falta, porque a vida é assim mesmo: ora se tem, ora não tem.  não exclui a responsabilidade das escolhas: ganhar e perder são dois lados da mesma moeda.

e ele continua dizendo: …”Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive”. e aí me volto inteira pro presente, sorvo meu café muito bem tirado, me ponho inteira novamente em todos os sentidos, levanto para resolver minhas coisas com a sensação de que a vida é exatamente tão gostosa quanto àquela vida do leite com nescau.  mas volto pra casa ainda com a memória olfativa do chocolate quente.

resolvo fazer um para mim. com leite de amêndoas e cacau puro. porque apesar das memórias serem as mesmas (graças a deus), os paladares já são outros. devo dizer graças a deus também? talvez deva.

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meu chocolate quente não ficou atrás do chocolate do costa 🙂

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mais dia menos dia vou escrever o porquê de ter mudado o nome do blog, o tanto que gosto de poesia e um pouco mais. por enquanto, quero apenas “estrear” minha ideia/vontade de deixar aqui alguns dos poemas que mais gosto.  a ideia original era deixar um poema por dia, mas não sou disciplinada a ponto de passar todos os dias no blog. um por semana, por ora, está de bom tamanho, e cabe bem na minha lista de afazeres (e espero poder cumprir).

o poema da semana não poderia ser outro que não o  acima citado. espero que goste tanto quanto eu (embora eu tenha enormes desconfianças de gente que não gosta de fernando pessoa. nem de poesia 😉 ).

Põe quanto És no Mínimo que Fazes

Para ser grande, sê inteiro: nada
          Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
          No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda
          Brilha, porque alta vive Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa
Do cotidiano, mambembe, mudança, mundo afora

2015, beijos não me liga!

Sabe, gratidão é um sentimento interessante. Ou você sente ou você não sente. Não dá pra ser meio grato na vida pelas coisas e pelas pessoas.

Tem gente que é grata sem fazer esforço.  Tem gente que aprende a ser grata. E de fato, acredito eu, gratidão é um exercício diário. Pelo menos pra mim, que não sou Mestre zazen nessa vida.

Ser grato quando tudo está top é  fácil,  diz muita gente. Quero ver agradecer quando a vida vai as merdas! Completam esses mesmos incrédulos.

Eu já discordo sabe, eu acho que gratidão vem muito de mãos dadas com a felicidade: independem das circunstâncias para ser e ter. É mais um estado de espírito, uma resolução interna, um postura de vida, enfim.

Eu desconfio seriamente de quem vive dizendo que ah! tudo bem, mas ser feliz em Paris (em Nova York, em Berlin…) É bem mais fácil.  Eu acho que felicidade e gratidão a gente carrega com a gente, independente do lugar.

OK, OK eu não quero ser simplista. Esse papo rende muitas horas e muitas cervejas pra gente chegar talvez a conclusão de que, a pessoa tendo o basicão das necessidades físicas supridas (casa, comida, emprego, roupa, amores, biritas ocasionais, amigos…) ela pode ser feliz e grata pela vida. Ela pode, mas depende dela querer.

Tem horas que a gente tem mesmo que pedir um tempo, reclamar (mesmo sabendo que não vai resolver, mas pelo menos vai aliviar um pouco), tem horas que a gente pede pra sair, tem horas que a gente sucumbe mesmo ao pessimismo, à desilusão.

Meu 2015 foi assim: cheio de altos e baixos. E apesar de racionalmente me manter na meta, não desistir  (nem dava), eu escolhi ser grata. Não aquela gratidão Luz e flor yoga suco verde do instagram ( embora não veja problemas nisso também ). Mas a minha particular e intransferível  gratidão: Pela minha vida, ora capenga, ora funcionando com eficiência. Pela minha vida como ela é, pelas pessoas que dela fazem parte, por aquelas que passaram para ensinar-me, pelo meu filho sempre tão disposto a recomeçar,  pelo meu marido sempre tão respeitador dos meus tempos.

Talvez gratidão seja uma, talvez gratidão sejam muitas coisas, eu sei que em 2015 eu escolhi ser grata, eu aprendi a ser grata.

Se valeu a pena?  Não  sei. Só  sei que eu passaria pelas mesmas coisas que passei, com ou sem ela. Mas a gratidão nestes casos, neste ano que passou me ajudou a aceitar com mais maturidade, sem grandes dramas tudo que despencou na minha cabeça.

Pensando bem, valeu sim.

Estamos no Brasil agora, celebrando com a família.  E embora eu tenha escolhido a gratidão como caminho, um caminho, eu só quero dizer neste último dia do ano de 2015, que sinto-me grata por esse ano estar no fim. Porque não sou tão evoluída assim, e não é porque eu entendi que precisava passar por tudo que passei, e passei agradecendo por ter forças e apoio, que eu vou dizer que foi um ano bom. Foi nada. Pelo menos no que diz respeito ao bom no sentido champanhe caviar Paris é uma festa uhul 2015 irado. Não,  Foi bom no sentido : tá ruim, mas tá  bom. Compreende?

Não faço promessas mirabolantes para 2016. Nem tenho grandes metas. Já me basta,  por ora, saber que será tudo novo: país novo, casa nova, nova língua, um novo dia a dia para descobrir e por fazer.

Entro com fé  (que essa não pode faltar e que não costuma falhar), com alegria e tá dá. .. com gratidão!

Desejo  à  você que lê essas linhas um feliz e maravilhoso 2016. E se você quiser, tente agradecer mais (lembrando que não somos partidários da gratidão Polyana).

Escrevi e não li, grata pela compreensão!

 

 

 

 

 

Alemanha, mudança, mundo afora

de sina itinerante

segundo o dicionário houaiss da língua portuguesa, o adjetivo itinerante significa também, que ou aquele que transita, que se desloca, que viaja.

o adjetivo se aplica com maestria no nosso caso.

eu já perdi as contas das vezes que nos mudamos. desde que estou com o joão colecionamos 11 casas em 13 anos juntos, sob o mesmo teto.

se eu gosto de mudar de casa? sim e não. não, eu não gosto da bagunça, do encaixotamento, das inúmeras burocracias e probleminhas decorrentes de uma mudança. sim, eu adoro uma casa nova, um lugar novo, uma vida nova.

toda mudança me traz aquela sensação de zerar a vida. puxa, um lugar novinho para (re)começar. experimentar novos caminhos, descobrir novas pessoas, novos supermercados, novas praças, novos parques, novos cheiros, novos sabores, novas regras, novas línguas, novas formas de pensar…

mas também a sensação de zerar a vida. só que o lado b de zerar  a vida. puxa, ter que descobrir supermercados, praças, parques, familiriazar-se com a cidade, os caminhos, as pessoas, outra língua, outras regras, outras formas de pensar, outros cheiros, outros sabores…

tem hora que cansa? tem. mas tem hora que cansa também ficar no mesmo lugar. veja, nem sempre o mesmo lugar significa ruim. pelo contrário, nunca ficamos em um lugar sem querer ficar nele.

mas eu não sei o que acontece com a gente. eu e o joão temos um comichão que se retroalimenta. quando um está sossegado o outro vai lá cutucar.

chegou um dia em que um olhou pro outro e disse: nossa a alemanha é massa, mas não é nosso lugar no mundo. vamos mudar? e não é que da teoria partimos para prática?!

e toda vez, toda vez que eu começo a empacotar as coisas eu penso: onde estávamos com a cabeça? e toda vez, toda vez que a gente começa a procurar um novo lar a gente pensa: onde estávamos com a cabeça? e toda vez, toda vez que a gente chega num novo lugar a gente pensa: onde estávamos com a cabeça.? e sobretudo, toda vez, toda vez que o tomás fica mais de um mês perdido na nova realidade e nos levando às raias da loucura, a gente se pergunta: onde estávamos com a cabeça, minha nossa senhora da paciência?

mas toda vez, toda vez que passado o tsunami de novidades, quando a vida atinge a velocidade de cruzeiro, quando nos vemos no novo, pensamos: que bom que fizemos!

por essas e por outras é que não me preocupo com o futuro. todas as preocupações com o tempo são dissolvidas. eu me preocupo em não saber viver o presente.

porque essa transição, essa fase de não estar nem cá nem lá, essa fase em que não vale a pena renovar contrato disso ou daquilo, em que você não pode se comprometer com muita coisa, porque sabe que não vai mais estar ali se precisarem de você… isso pra mim é o mais difícil.

e me é difícil, porque eu acabo me esquecendo das coisas importantes e que fazem a vida num determinado lugar mais saborosas, por causa desse pensamento do já não vale mais a pena!

viver com a cabeça no aqui e no agora. viver pensando no que virá, mas sem estar no que está por vir. este é o meu desafio.

é o tal negócio que o chico e o edu lobo cantaram e eu me sinto completamente representada: …”a arte deixar algum lugar quando não se tem pra onde ir”…

na prática existe um lugar, uma casa, mas não existem relações, dia a dia, rotinas, rostos e lugares familiares…

mas não reclamo da vida não. deus me livre reclamar da vida que eu mesma escolhi pra mim, que escolhemos pra nós.

algo me diz que desta vez será por muito mais tempo. espero, de coração, que este algo esteja coberto de razão.

enquanto o novo não chega, vou vivendo o presente. que é o que tenho, que é o que me faz ter fé no futuro.

e quem advinhar pra onde vamos ganha um postal :-)!!!!

Alemanha, mudança, mundo afora

aliar o discurso à prática

ou da difícil arte de encontrar o equilíbrio

eu sempre gostei de mudanças. de todos os tipos: mudar o corte de cabelo, a mobília da sala, mudar de casa, de cidade, de país, mudar de opinião… talvez por gostar tanto de mudanças é que eu tenha encarado a maior mudança da minha vida, que claro, foi a maternidade. mas hoje não é sobre isso que quero falar.

há tempos já, que eu (nós aqui em casa, no caso) estou numa pegada mais consciente quando o assunto é consumo. pelo menos eu achava que estava.

a maneira como eu passei a consumir foi uma grande mudança na minha vida. ao invés de ter dez cremes para o rosto, eu passei a comprar um único, cuja origem é a mais natural possível, e que na sua produção não sejam, nem pessoas,nem o meio ambiente, prejudicados. do creme passou para todas as outras coisas: roupas, gêneros alimentícios, shampoos, sabonetes…

por serem mais caros, verdade seja dita, eu pasei a pensar muito mais antes de investir.

porque um mundo onde crianças um pouco maiores que meu filho colhem algodão pra eu comprar roupa baratinha baratinha aqui na alemanha, não pode ser considerado justo. porque um mundo onde gente dorme nas fábricas para produzir produtos baratos que “pedem” para serem substituídos a cada seis meses, não pode dar certo.

fácil? ai se fosse. tem minha consciência gritando pelas desigualdades de um lado. e tem meu bolso gritando pelas economias,de outro.

e tem meu filho que cresceu mais do que abobrinha no último ano, com calças batendo nas canelas, e blusas mais mostrando do que cobrindo o umbigo. sem contar as esfregações de roupa parquinhos da vida afora. cara, moleque acaba com as roupas. como fazer? se eu fosse investir somente em roupas produzidas com algodão orgânico e, comprovadamente, sem mão de obra escrava, eu estava perdida, falida,fudida.

acontece que nós mudamos de casa no começo de janeiro (eu já falei que nossa sina é mambembe). e puta que pariu, da onde foi que surgiu taaaaaaaanta coisa. como assim? você não estava numa pegada de consumo consciente, darling?

não sei onde estava toda essa minha consciência, porque olha, eu tenho coisa pra caraleo. triste constatar isso, sabe? por um lado, vem um sentimento enorme de gratidão por ser tão afortunada e ter muito mais do que preciso, do que precisamos. por outro, vem uma certa angústia de ter comprado muito mais do que precisava, precisávamos.

eu sei que é tarde (pero no mucho) para fazer promessas de ano novo, mas eu realmente quero nesse 2015 comprar apenas o necessário. para mim, para o tom. para o o joão eu nem falo, porque casei-me com um franciscano, que nunca precisa de nada, tudo sempre está bom (benzadeus).

quem sabe eu coloque em prática um desejo antigo e aprenda a costurar? quem sabe também, eu passe a fazer mais coisas no estilo diy para minha casa? quem sabe eu ponha à prova meus talentos manuais? quem sabe, né?

o que eu sei é que nesse ritmo não dá mais pra continuar. não dá mais pra mim, pra minha família, nem pra esse mundo beirando ao colapso social, material, ecológico. até mesmo porque, no ritmo que mudamos de casa, de vida, não dá para ajuntar e acumular tanta coisa, por vezes, inútil. prefiro acumular memórias, experiências, amizades, aprendizados…

e que caia um raio e me parta ao meio se eu comprar um grampo que seja, sem necessidade.

lembrando que livros são sempre necessários e que, pra onde quer que formos, sempre daremos jeito de levar.  embora a gente sempre se arrependa. mas é só por um momento.

que eu termine esse ano que mal começou com menos tralhas. em todos os sentidos.

às vezes eu queria se como caracol, que vai com a casa nas costas.
às vezes eu queria ser como caracol, que vai com a casa nas costas.
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pra ele tudo é festa

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mudança, outro blog, veganismo

Muitas mudanças e um desafio!

O verão continua, os dias de sol absoluto nem tanto. O calor, o viver para fora, o brincar de se sujar, os dias mais longos… tudo isso ainda permanece. Uma outra rotina, ou ainda, uma pausa na rotina para viver o que o tempo agora nos oferece, também permanece.

O que não permanece são os pensamentos, as vontades… a vida com seu dinamismo e com suas  surpresas sempre nos oferece oportunidades para não ficarmos parados, para crescermos, para aprendermos, para nos questionarmos, nos aceitarmos (ou não), para enfim, mudar o que for preciso.

A necessidade de mudança bateu com força na minha porta. Ou muda ou muda foi a mensagem clara. O processo (interno) de mudança é longo e requer paciência; muito mais consigo do que com o tempo.

Nesse ínterim tenho lido muita coisa que só tem corroborado minha sede de mudança, que só tem confirmado meu desejo de mudar. Nos entrementes, além das leituras, fizemos, eu e João, dez anos de casados, comecei a fazer yoga, a fazer terapia em alemão (e eu fico impressionada com o fato das coisas estarem fluindo), outro bebê tem pairado sobre minha cabeça (por enquanto só cabeça mesmo), e eu comecei a flertar forte e rasgadamente com o veganismo.  Tenho tentado aqui e ali, um dia vai bem, dois o três muito mal, mas sem grande sucesso, quando o assunto e constância.

Isso mesmo, você leu certo. Vegetariana eu já sou, mas eu quis dar um passo além, e parar de comer todo e qualquer produto de origem animal. 

Mas eu sou teimosa. E preguiçosa. E sem-vergonha. Sobretudo sem-vergonha. Então, eu me propus um desafio: me alimentar durante 30 dias sem nenhum produto de origem animal. Sem carne (fácil), sem leite e todos os seus derivados. Zero, nada, nenhum, hum-hum!

Mas você já parou para pensar na quantidade de produtos que consumimos que leva leite e seus derivados? E eu preciso confessar que eu adoro leite. E iogurte, e manteiga, e sorvete, e uma infinidade guloseimas e gostosuras que contêm leite.

Neste ponto você deve estar se perguntando o que é que tem a ver alhos com bugalhos? E eu tenho um argumento convincente, pelo menos pra mim. Nesse processo de mudança, eu senti que precisava fazer algo diferente do que tenho feito há anos, algo que rompesse com meus paradigmas, com minhas convicções, com minhas zonas de conforto. Algo que demandasse de mim muita coragem, e acima de tudo, determinação. Eu não sei como eu vou passar por esses 30 dias, por esse processo. Mas eu sei que no fim, lá na frente, eu vou ter aprendido outras coisas.

Uma alimentação vegana vai me obrigar a comprar outros produtos, conhecer novos sabores, se abrir para uma nova maneira de pensar e de comer, vai me fazer circular por outros mercados, outras padarias, outros restaurantes, outras freguesias. Afinal, uma pizza no meu italiano preferido, um capucino italiano no meio da tarde, meu Hagen-Daz no fim de semana, meu cheesecake na Starbucks e outras cositas mas não farão mais parte do meu cotidiano. Pelo menos não no próximo mês.

Eu poderia fazer isso na minha, mas você se recorda que eu sou sem-vergonha, né? Então, eu resolvi compartilhar quase que diariamente essa minha experiência. Tornando público eu firmo um compromisso. Ao firmar o compromisso eu me obrigo a cumpri-lo. É claro que não é nada preto no branco. O importante é ser divertido, pra mim e para quem, por ventura, me acompanhar nessa minha empreitada.

Um mês não representa nada em termos de uma vida inteira, é verdade. Mas para mim, neo momento atual que tenho vivido e passado, pode e vai representar muita coisa.

Para tanto eu criei até um outro blog. É que não quis misturar muito as estações. O que eu vivo acaba por interferir na minha maneira de se relacionar não só com o Tomás e o João, como também com todo o resto ao meu redor. Mas aqui eu relato a minha passagem pela maternidade e a passagem da maternidade por mim. Aqui tem muito meu e muito do Tom, uma fusão, um embolado difícil de separar, de perceber, de nomear.

Como eu queria algo muito mais meu, então eu criei o Brezel com Feijão para contar e compartilhar desse meu desafio auto imposto, por assim dizer.

É isso. Vamos ver no que vai dar. Eu sei que eu vou me divertir (uma dose de otimismo não prejudica, vá!)!

Vamos junto?

EM TEMPO: Por não ser aconselhado (há controvérsias) para crianças, Tomás e João vão continuar com suas dietas habituais. A pessoa louca que se propôs o desafio fui eu, apenas eu!