de sina itinerante

segundo o dicionário houaiss da língua portuguesa, o adjetivo itinerante significa também, que ou aquele que transita, que se desloca, que viaja.

o adjetivo se aplica com maestria no nosso caso.

eu já perdi as contas das vezes que nos mudamos. desde que estou com o joão colecionamos 11 casas em 13 anos juntos, sob o mesmo teto.

se eu gosto de mudar de casa? sim e não. não, eu não gosto da bagunça, do encaixotamento, das inúmeras burocracias e probleminhas decorrentes de uma mudança. sim, eu adoro uma casa nova, um lugar novo, uma vida nova.

toda mudança me traz aquela sensação de zerar a vida. puxa, um lugar novinho para (re)começar. experimentar novos caminhos, descobrir novas pessoas, novos supermercados, novas praças, novos parques, novos cheiros, novos sabores, novas regras, novas línguas, novas formas de pensar…

mas também a sensação de zerar a vida. só que o lado b de zerar  a vida. puxa, ter que descobrir supermercados, praças, parques, familiriazar-se com a cidade, os caminhos, as pessoas, outra língua, outras regras, outras formas de pensar, outros cheiros, outros sabores…

tem hora que cansa? tem. mas tem hora que cansa também ficar no mesmo lugar. veja, nem sempre o mesmo lugar significa ruim. pelo contrário, nunca ficamos em um lugar sem querer ficar nele.

mas eu não sei o que acontece com a gente. eu e o joão temos um comichão que se retroalimenta. quando um está sossegado o outro vai lá cutucar.

chegou um dia em que um olhou pro outro e disse: nossa a alemanha é massa, mas não é nosso lugar no mundo. vamos mudar? e não é que da teoria partimos para prática?!

e toda vez, toda vez que eu começo a empacotar as coisas eu penso: onde estávamos com a cabeça? e toda vez, toda vez que a gente começa a procurar um novo lar a gente pensa: onde estávamos com a cabeça? e toda vez, toda vez que a gente chega num novo lugar a gente pensa: onde estávamos com a cabeça.? e sobretudo, toda vez, toda vez que o tomás fica mais de um mês perdido na nova realidade e nos levando às raias da loucura, a gente se pergunta: onde estávamos com a cabeça, minha nossa senhora da paciência?

mas toda vez, toda vez que passado o tsunami de novidades, quando a vida atinge a velocidade de cruzeiro, quando nos vemos no novo, pensamos: que bom que fizemos!

por essas e por outras é que não me preocupo com o futuro. todas as preocupações com o tempo são dissolvidas. eu me preocupo em não saber viver o presente.

porque essa transição, essa fase de não estar nem cá nem lá, essa fase em que não vale a pena renovar contrato disso ou daquilo, em que você não pode se comprometer com muita coisa, porque sabe que não vai mais estar ali se precisarem de você… isso pra mim é o mais difícil.

e me é difícil, porque eu acabo me esquecendo das coisas importantes e que fazem a vida num determinado lugar mais saborosas, por causa desse pensamento do já não vale mais a pena!

viver com a cabeça no aqui e no agora. viver pensando no que virá, mas sem estar no que está por vir. este é o meu desafio.

é o tal negócio que o chico e o edu lobo cantaram e eu me sinto completamente representada: …”a arte deixar algum lugar quando não se tem pra onde ir”…

na prática existe um lugar, uma casa, mas não existem relações, dia a dia, rotinas, rostos e lugares familiares…

mas não reclamo da vida não. deus me livre reclamar da vida que eu mesma escolhi pra mim, que escolhemos pra nós.

algo me diz que desta vez será por muito mais tempo. espero, de coração, que este algo esteja coberto de razão.

enquanto o novo não chega, vou vivendo o presente. que é o que tenho, que é o que me faz ter fé no futuro.

e quem advinhar pra onde vamos ganha um postal :-)!!!!

aliar o discurso à prática

ou da difícil arte de encontrar o equilíbrio

eu sempre gostei de mudanças. de todos os tipos: mudar o corte de cabelo, a mobília da sala, mudar de casa, de cidade, de país, mudar de opinião… talvez por gostar tanto de mudanças é que eu tenha encarado a maior mudança da minha vida, que claro, foi a maternidade. mas hoje não é sobre isso que quero falar.

há tempos já, que eu (nós aqui em casa, no caso) estou numa pegada mais consciente quando o assunto é consumo. pelo menos eu achava que estava.

a maneira como eu passei a consumir foi uma grande mudança na minha vida. ao invés de ter dez cremes para o rosto, eu passei a comprar um único, cuja origem é a mais natural possível, e que na sua produção não sejam, nem pessoas,nem o meio ambiente, prejudicados. do creme passou para todas as outras coisas: roupas, gêneros alimentícios, shampoos, sabonetes…

por serem mais caros, verdade seja dita, eu pasei a pensar muito mais antes de investir.

porque um mundo onde crianças um pouco maiores que meu filho colhem algodão pra eu comprar roupa baratinha baratinha aqui na alemanha, não pode ser considerado justo. porque um mundo onde gente dorme nas fábricas para produzir produtos baratos que “pedem” para serem substituídos a cada seis meses, não pode dar certo.

fácil? ai se fosse. tem minha consciência gritando pelas desigualdades de um lado. e tem meu bolso gritando pelas economias,de outro.

e tem meu filho que cresceu mais do que abobrinha no último ano, com calças batendo nas canelas, e blusas mais mostrando do que cobrindo o umbigo. sem contar as esfregações de roupa parquinhos da vida afora. cara, moleque acaba com as roupas. como fazer? se eu fosse investir somente em roupas produzidas com algodão orgânico e, comprovadamente, sem mão de obra escrava, eu estava perdida, falida,fudida.

acontece que nós mudamos de casa no começo de janeiro (eu já falei que nossa sina é mambembe). e puta que pariu, da onde foi que surgiu taaaaaaaanta coisa. como assim? você não estava numa pegada de consumo consciente, darling?

não sei onde estava toda essa minha consciência, porque olha, eu tenho coisa pra caraleo. triste constatar isso, sabe? por um lado, vem um sentimento enorme de gratidão por ser tão afortunada e ter muito mais do que preciso, do que precisamos. por outro, vem uma certa angústia de ter comprado muito mais do que precisava, precisávamos.

eu sei que é tarde (pero no mucho) para fazer promessas de ano novo, mas eu realmente quero nesse 2015 comprar apenas o necessário. para mim, para o tom. para o o joão eu nem falo, porque casei-me com um franciscano, que nunca precisa de nada, tudo sempre está bom (benzadeus).

quem sabe eu coloque em prática um desejo antigo e aprenda a costurar? quem sabe também, eu passe a fazer mais coisas no estilo diy para minha casa? quem sabe eu ponha à prova meus talentos manuais? quem sabe, né?

o que eu sei é que nesse ritmo não dá mais pra continuar. não dá mais pra mim, pra minha família, nem pra esse mundo beirando ao colapso social, material, ecológico. até mesmo porque, no ritmo que mudamos de casa, de vida, não dá para ajuntar e acumular tanta coisa, por vezes, inútil. prefiro acumular memórias, experiências, amizades, aprendizados…

e que caia um raio e me parta ao meio se eu comprar um grampo que seja, sem necessidade.

lembrando que livros são sempre necessários e que, pra onde quer que formos, sempre daremos jeito de levar.  embora a gente sempre se arrependa. mas é só por um momento.

que eu termine esse ano que mal começou com menos tralhas. em todos os sentidos.

às vezes eu queria se como caracol, que vai com a casa nas costas.

às vezes eu queria ser como caracol, que vai com a casa nas costas.

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pra ele tudo é festa

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Uma pequena reflexão sobre o fim do inverno

O inverno aqui onde moro foi bem ameno. Não teve neve.  Não teve sequer aquele frio de tiritar. OK, um ou outro dia, mas nada que tenha dado a tônica para esse último inverno. E ninguém gosta de inverno ameno; o desejo é por neve, muita neve. O que, convenhamos, torna a estação mais bonita mesmo.

Mesmo a gente esquecendo o saco que é acordar cedo pra tirar neve da calçada,  mesmo a gente esquecendo como é andar empurrando carrinho de bebê com neve, mesmo a gente esquecendo da merda que é o cotidiano e todas as implicações que da vida com neve derivam, mesmo e ainda assim, a gente quer um inverno branquinho de neve.

Não importando se o mesmo foi severo ou ameno, no começo de Março estamos todos de saco bem do cheio cansados do inverno. E o que queremos? Primavera, pois bem!

E aí num dia de sol, ao olhar pela minha janela e avistar ciclistas com suas saias vaporosas, alemães com casacos abertos, e alemãezinhos sem gorros e sem saquinhos nos carrinhos, acreditei que Primavera já era. E perceba que meia dúzia de pessoas num espaço de tempo de três minutos, não pode ser considerada uma amostragem real e séria da vida. Mas enfim, a pessoa acredita no que ela quer acreditar.

o sol que engana os incautos

Até me esqueci da previsão do tempo, nem chequei o app de temperatura do celular, tamanha minha felicidade. Por via das dúvidas fui conferir a temperatura no termômetro que fica no quarto, e ao me deparar com os 25 graus apontados, nem me passou pela cabeça que aquela era uma temperatura fictícia, uma vez que naquela hora, o sol batia de cheio no sensor do termômetro.

Saí de casa toda serelepe e com roupas esvoaçantes, alegre como o dia, com o sol, quase que oferecendo beijos de amor como cantou o poeta.  A verdade é que ao dobrar a esquina eu já havia me arrependido do meu otimismo, e sobretudo do meu amadorismo. Ao dobrar a esquina, também me deparei com a camada da população mais agasalhada da cidade, com casacos grossos, gorros, cachecóis e luvas.

Eu bem que podia ser como as alemãs geradas, nascidas e criadas em terras tão geladas, que em cujos DNAs carregam gerações e gerações de sobreviventes das maiores friacas conhecidas e até desconhecidas que o mundo já passou.  Eu bem que podia ser como as alemãs geradas, nascidas e criadas em terras tão geladas, que não ligam a mínima se o inverno acabou ou não, querendo mais é usar os modelitos da próxima estação.  Elas sim, podem bancar saia, meia-calça e sapatilhas em módicos cinco graus.

Ao me afastar um quarteirão de casa, decidi que era hora de acabar com aquela palhaçada, que era hora de dar fim às cãibras nos pés, que era hora de aquecer as ancas e a garganta. Meu sonho naquele momento era um chá pelando de quente e me agasalhar até os dentes.

Na volta pra casa ainda encontro um grupo de mulheres indianas que me olhavam surpresas por me verem em trajes tão primaveris, a despeito da  real temperatura.  Decerto acharam que eu era uma dessas raparigas geradas, nascidas e criadas em terras tão geladas.

Mas eu não sou. Sou apenas uma sul-americana ansiando pela Primavera. Ponto.

tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais

Algumas coisas que eu sinto falta morando fora

1. Padaria

A padaria alemã é de tirar o chapéu. Os pães daqui são deliciosos, e saudáveis, e (podem ser) orgânicos, e são integrais de verdade… Coisa de louco entrar em qualquer padaria por essas bandas de cá.

Mas…

Mas elas não têm balcão onde se possa sentar e pedir um pãozinho pra comer na hora. Não do jeito que concebemos no Brasil. Eu sinto falta mesmo é do balcão de padaria. Oi? Pois é, sabe aquele balcão que você chega e solta Oi campeão, me vê um pão na chapa e um café com leite. Café de coador, por favor!. Sabe aquele balcão pra onde a gente se dirige e já conhece o chapeiro, aquele balcão que a gente toma o café da manhã com pressa antes de ir pra aula ou pro trabalho, ou vai no meio da tarde quando bate uma fome de coisa simples, de… coisa de padaria?

E daí chega aquele pão francês quentinho, num prato duralex junto com famoso pingado? Nossa, salivei agora! Pois é exatamente disso que eu sinto saudade.

Por aqui existem os Cafés, eu sei,  mas não são a mesma coisa. Nos Cafés tem os capuccinos deliciosamente cremosos, ou os latte machiatos, ou os cafès cremes da vida, todos servidos em xícaras belíssimas e chiquérrimas, eu sei. Eu sei também que não há nada mais glamouroso do que sentar num Café, ler um livro e se entregar ao dolce far niente. 

Mas…

… desde quando mãe se entrega ao dolce far niente, né minha gente? Qualquer visita a um Café que não seja para mães com crianças pequenas, é no mínimo, o oposto do luxo. Ainda mais com um filhote desfraldado que faz questão de fazer o número um E o número dois em todos os banheiros diferentes por onde passa. Fala pra mim se tem algum glamour limpar bunda de moleque fora de casa?

Enfim, saudades dos balcões de padaria!

2. Cabeleireiro & Co por preços camaradas 

Well, reclamação quase unânime da mulherada brasileira que não pode se acabar num salão de cabeleireiro por aqui.  Fato é que não dá pra mudar (e manter) drasticamente o corte de cabelo, ou ir a cada três, quatro meses  só pra cortar as pontinhas.  Desculpa aí, as rycas e phynas que podem! Que o luxo, o glamour e o poder permaneçam com vocês.

Nestas idas e vindas, e somando todo o tempo que já morei fora, eu nunca aprendi direito a fazer as coisas by myself . Eu me viro muito bem na cozinha, eu me viro bem na faxina e arrumação da casa e em outras cositas mas, mas eu confesso que nos cuidados pessoais eu sou um zero à esquerda.

Não sirvo pra manicure de mim mesma, e muito menos pra pagar quinze contos de euro pra moça nem mandar um oi pra minha cutícula. Fico com as mãos por fazer mesmo.

E depilação então? Depilação não é tão fácil de achar por aqui, e quando acho também não dá pra se depilar de cima a baixo todo santo mês. Sendo eu detentora de pelos nos lugares mais improváveis e menos convenientes, eu sinto falta pra caramba da Bra, a minha depiladora querida.

Acaba sendo na base da gilette mesmo, apesar de não gostar do resultado. Mas uma vez que já fui capaz de me auto flagelar com bolhas e hematomas decidi não mais me arriscar.

Eu acho super digna e valiosa toda essa discussão a respeito da depilação feminina, mas eu merrrma não banco pernas, axilas e virilhas cabeludas. Digo e repito: EU não banco. É o tipo de coisa tão enraizada na minha cabeça, que só tirando pela raiz mesmo. De preferência com cera quente.

3. Não ser escrava do secador de cabelos

Ô saudade de lavar os cabelos e sair de casa com as madeixas molhadas mesmo. Deixar secar ao tempo, no sol, no vento!

Pois se eu sair com os cabelos molhados aqui, certeza que a vida me dá de presente uma gripe e/ou uma sinusite crônica, pra dizer o mínimo.

Eu acho muito chato secar o cabelo, tenho preguiça mortal. De maneira que não o lavo todos os dias. Pode me julgar, não ligo. Sou adepta do shampoo a seco e sigo feliz assim.

E também né, a gente lava e seca os cabelos, põe toca, quando não põe toma chuva… No fim do dia sua voz continua a mesma, mas o seus cabelos… Ai, preguiça mesmo!

Em tempo: eu não lavo os cabelos todos os dias para não ter que seca-los todos os dias. Mas banho eu continuo tomando t-o-d-o-s os dias!

Outra coisa que eu sinto falta, mas pode entrar nessa mesma categoria, é de não ser escrava do hidratante. No Brasil eu passava hidrante para ficar cheirosa, ou nos meses mais frios quando a pele, de leve, dava uma ressecada.

Se eu saio do banho e não passo hidratante é uma coceira sem fim. Sem contar que a pele mais parece um craquelé. Preguiça também!

minha pele sem hidratante/ imagem: de.wikipedia.org

4. Falar português

Meu marido não é gringo, de modos que a gente conversa a beça em bom português. O pequeno, por enquanto, só quer falar português conosco (e ele fala, viu! como fala esse pequeno).

Mas sabe, tem horas que cansa um bocado se expressar numa língua que não é sua. Tem horas que eu quero ligar o piloto automático e não me preocupar com nada. Nem com pronúncia, nem com declinação, nem com vocabulário.

Eu sei, eu sei, em Roma, como os romanos, mas tem dias que cansa mais do que em outros. Tem dias que eu queria estar numa roda e só jogar papo fora.

Na mesma categoria entra ler jornal em português.

5. Não pensar na vida com tanta antecedência

Eu juro que não sei como os alemães conseguem se planejar com tanta antecedência. Eu sofro um tantico pra entrar no esquema deles.

Se eu vou estar livre no dia 18 de Outubro às 20 horas? Cara, eu espero estar viva! Muita água vai passar por debaixo da ponte! Não posso te responder agora! Minha vontade é responder assim, mas em vez disso a gente abre a agenda e vê se o raio do dia, naquela hora não tem nada marcado. Vai que tem, né?

Isso pra mim, que tenho como lema não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar, é difícil, viu! Se eu falar que é fácil eu estou mentindo.

Mas de novo: em Roma, como os romanos. E bora andar com agenda pra cima e pra baixo. E um dia, quando menos se espera, você já está como eles. E se alguém cancela alguma coisa com você( tipo com cinco horas de antecedência) você fica puta da vida!

Tenso!

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São apenas algumas coisas, a lista pode ser bem maior, dependendo do dia e da hora. Tudo isso varia de pessoa pra pessoa, de lugar pra lugar também. Mas o certo é que não há ganhos sem perdas. E se a vida fosse só ganhos, não passaria de uma imensa perda, como bem já disse um grande amigo (que é outra coisa que eu sinto falta pra caralho, dos amigos) que é também poeta.

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Pessoal, eu me abalei demais com um anônimo desaforado que passou por aqui. Ainda não aprendi a lidar com esse tipo de coisa. Não precisava de tanto, muito menos de post mal escrito e mal educado. Para os que me leem, peço que relevem. 

Beija, beija. Tá calor, tá calor

Atravessamos o Atlântico e cá estamos em terras calientes. E não é só o clima que anda quente não. Tomás anda derretendo de tanto amor que tem recebido. São abraços e carinhos e beijinhos sem ter fim. Saudades acumuladas sendo dia após dia extirpadas, e avós exibindo sorriso de orelha a orelha.

E assim, vamos fazendo nosso estoque de calor humano para esse ano. Nos aquecendo para nosso retorno daqui alguns dias.

Aproveito que ainda dá tempo, e desejo um feliz ano novo para quem nos lê. Que esse ano comece e termine cheio de carinho de gente que nos quer bem, e cheio de gente a quem queremos bem também. E que não nos preocupemos, porque todo o resto vem.

Um feliz e leve 2014!

Tudo o que eu me lembro sobre livros

Mamãe, eu quero colocar um livro em cima do outro até chegar no céu!
Eu sempre gostei muito de livros, sempre. Quando era menina, bem menina, e nem podia ler ainda, me fascinavam eram as ilustrações. Às vezes tão expressivas, tão reais, que pareciam querer sair das páginas a qualquer momento. Eu não me lembro como foi a sensação de ler sozinha, nem me lembro qual foi o primeiro livro que li sozinha. O que eu me lembro é que livros sempre fizeram parte da minha história de vida. As leituras da escola nunca foram pra mim um martírio, uma coisa enfadonha. Assim como a lista de livros para o vestibular também não o foi. É bem verdade que eu gostei mais de uns do que de outros, e que se relesse tantos outros hoje, sem a pressão do tempo, com a maturidade que tenho, com o conhecimento de mundo que adquiri, certamente aproveitaria-os muito mais.
Quando eu era menina, eu bem me lembro que não podia ter todos os livros que queria. Na verdade, eu nem tive muitos. Livros infantis eram tudo, menos baratos. E lembro também, que eles ficavam resguardados às livrarias pouco aconchegantes e convidativas, onde se escondiam no meio de tantos outros livros didáticos. Nessas livrarias, a gente só entrava mesmo era para comprar a lista de livros que usaríamos naquele ano letivo. Livros extracurriculares, por assim dizer, minha mãe comprava através de catálogos.
A melhor coisa que meus pais fizeram para mim foi tornarem-se sócios de um Gabinete de Leitura. Lá eu criei asas para voar para muito além daquela pacata e provinciana Jundiaí da minha infância e primeira adolescência. Lá eu delirava de alegria. Lá, aos doze anos, eu conheci os grandes clássicos, os grandes autores, os pequenos e os desconhecidos também. Eu me lembro que eu levei pra casa um exemplar da Divina Comédia, de Dante Alighieri. Eu não entendi porra nenhuma, mas mesmo assim era como se eu estivesse levando para casa um livro sagrado, um livro cheio de mistérios. Mistérios tão maiores do que eu, um livro que pedia reverência. Eu me sentia muito importante, muito especial com ele guardado na minha mochila. E todos aqueles livros de arte? Santo deus, que mundo foi aquele que se descortinou pra mim! 
Eu me lembro também que foi lá que descobri, dentre tantos outros, o Ítalo Calvino. Teve um livro dele que eu renovei seis semanas consecutivas! Eu já tinha lido o livro de cabo a rabo, mas eu queria extrair mais e mais, eu não queria me despedir dele. Quem deu fim àquela relação foi a Lú, a atendente do Gabinete na época, que me disse sem grandes pesares que naquela semana eu não poderia renovar o livro. Alguém, algum maldito alguém, já o havia reservado.
Eu me lembro que desde que me conheço por gente, meu sonho era ter uma biblioteca em casa. Não ter os livros na estante da sala como parte da decoração; eu queria uma biblioteca de verdade, com estantes cheias de livros, sofás que me abraçassem, com uma escrivaninha grande o suficiente para que eu pudesse tomar notas e confortável o suficiente para que eu me esquecesse do tempo; uma biblioteca banhada de luz natural  durante o dia, e de luz focada e precisa à noite. Eu não me lembro de pensar em quem iria limpar esses livros todos, mas sonhos são sonhos, né? 
Eu suspiro toda vez que entro numa biblioteca. Perdoem a comparação, mas é como se entrasse numa igreja, num território sagrado. Talvez o silêncio exigido, os cochichos sibilados, a seriedade dos que as frequentam me façam pensar nessa comparação profana. Mas a verdade é que eu adoro uma biblioteca, seus cheiros, seus sons abafados, a quantidade de pensamentos reunidos…É quase como um céu.
Os livros sempre me ajudaram a descobrir o mundo, um mundo, meu mundo. Sempre me apresentaram formas de pensamento até então desconhecidas, sempre me ajudaram a extirpar preconceitos, sempre me fizeram rir ou chorar ou os dois ao mesmo tempo, sempre me inspiraram mudanças, sempre me possibilitaram uma fuga imediata, ainda que imaginária. Livros sempre me mostraram um pedaço de mim, do outro, das coisas, da vida, pedaços esses que nunca imaginei que pudessem existir.  
Eu me lembro também que foi num Setembro, que parecia qualquer, que a vida sorriu para mim. E como num romance, o João aconteceu. Acontece que eu não imaginava que além de poesia o que viria seria amor. Um amor de altos e baixos, um amor de esfria e esquenta. Um amor como dos livros? Um amor que daria um livro. Uma história de amor que faria história nas nossas vidas. E no meio de muitas outras histórias, a Alemanha cruzou nosso caminho.
Eu me lembro que quando cheguei na Alemanha pela primeira vez, eu não acreditava que livros pudessem ser tão baratos! Mas que merda, eu ainda não sabia alemão! Tanto suor e tantas, meu deus, tantas lágrimas derramadas para aprender o alemão. Para entender outra cultura, para não me sentir menos, para me saber diferente, para enfim poder sentar e ler um livro em alemão. Anos e muitos cursos depois, claro!
Alguns anos e nenhum curso depois, eu e João fizemos um filho. A gravidez desse filho foi cercada de leituras. Sobre parto e sobre tantas outras coisas também. Mas a verdade é que não há livro no mundo que dê conta, que saiba contar o que é a chegada de um filho. Um filho muda muito, quase tudo. Esse filho ao nascer trouxe consigo um dos capítulos mais bonitos da nossa história. E em paralelo vai escrevendo a sua própria, por enquanto, com nossa ajuda.
O parto do meu filho marcou, da maneira mais bonita, a minha história. Antes dele eu era. Agora com ele, eu sou. E isso a gente não aprende em livro nenhum, a gente só aprende sendo.
Nossa história chega no hoje, e no hoje a Alemanha é de novo presente. Presente no tempo e presente que a vida deu. Aqui e agora, com filho parido e longe de estar criado, temos juntos aprendido muito, crescido muito.  Aprendizados e crescimentos que não se contam em livros, porque são muito nossos.
Hoje, com uma biblioteca longe de ser a dos meus sonhos, não só pelo espaço como também pelo sem fim de livros que ainda queremos comprar (e será que a lista um dia terá fim?), compartilhamos nossos livros com os livros do Tomás. E olha, nem na minha biblioteca dos sonhos, eu imaginava que os livros do Tom pudessem trazer tanta vida e tanto colorido a qualquer prateleira. Não só porque os livros dele são muito mais coloridos e bonitos que os nossos, mas também pelo prazer de saber que compartilhamos com ele nosso apreço pelas palavras.
Tem coisas que não estão nos livros, tem outras que nem cabem em livros; tem outras tantas mais que nem dão um livro.  Mas no meio de todas elas, muitas mais são e já foram contadas e recontadas. E eu me lembro de já ter querido ler todos os livros do mundo, porque achava que todos eles cabiam numa única e grande biblioteca.
E sabe do eu me lembrei agora? De cheiro de livro novo! Como eu adoro! E assim como com livros novos que podemos até saber um pouco do enredo, das personagens, a gente só sabe mesmo o que acontece ao abrir e ler até o fim. Não adianta ouvir a história através de outros. Têm histórias que ou se lê ou se escreve. Ninguém pode nos dar.
Acho que a maternidade também é assim. A gente pode até saber de antemão um bocado de coisa, mas só se sabe mesmo se abrindo e vivenciando. E aí, como que livro novinho, novinho, eu me lembrei do cheiro do Tomás quando nos meus braços pela primeira vez.  Mas essa história fica para outra hora.
E assim, era uma vez, uma menina que amava livros. E tinha um monte deles. E…

Não se afobe não que nada é pra já*

J.  é casada com B., e ambos são pais de D. (2 anos) e de M. de apenas 8 meses. Quando D. ainda era um bebê, J. se candidatou para uma bolsa de estudos na Alemanha.. J. comemorava o fim da amamentação com taças e mais taças de vinho quando descobriu-se grávida de M.. Logo agora que eu parei de amamentar? Logo agora que eu me candidatei para uma bolsa de estudos em outro país? Não importava o motivo, a pergunta Logo agora? era o principal.  J. ainda se recuperava da notícia da segunda gestação quando a notícia da aprovação da bolsa saiu. Não era um bom momento, mas desistir da bolsa também não era uma opção. J. conseguiu adiar sua vinda para à Alemanha. Mesmo assim, ela e seu marido aterrisaram numa terra estrangeira com dois bebês à tiracolo. A pequena M. contava apenas com dois meses recém-completos, quando por longínquas terras aportaram.

O marido de J. conseguiu uma licença de doze meses em seu escritório, e topou o desafio de ser “dono-de-casa”. A ideia original era colocar D., a então mais velha na creche, e ele ficaria  “apenas” com a bebê.  No entanto, a adaptação de D. foi extremamente sofrida e acabou não se dando. Tudo bem, disse ele; eu fico com as duas.

À essa altura J. se perguntava todos os dias o que ela estava fazendo na Alemanha; não havia um só dia que ela não pensasse que aquilo tudo não passava da mais pura loucura. Porém, ela, eles à dois, eles à quatro, porém a vida, porém tudo e todos se arranjaram, e à sua maneira, as coisas foram se acertando.

Todas as noites J. acorda mais de uma vez, seja para dar de mamar à sua caçula, seja para acudir sua mais velha. E na manhã seguinte, J. não pensa no cansaço, na falta de sono. J. diz que não pensa em nada, que sai de casa e vai trabalhar mais um pouco em sua tese de doutoramento em filologia do grego antigo.

J. diz que de alguma maneira é possível, que de alguma maneira funciona, que de alguma maneira  ela conseguiu bons progressos em seu trabalho. J. e B. estão há quase sete meses na Alemanha, e não conhecem direito a cidadezinha linda em que estão morando, e muito menos pensam em viajar pela Europa, como era o planejado quando ao se candidatar para bolsa tinham apenas D.. J., B., D., e M., vivem um dia de cada vez. E para eles está bom assim, tem sido bom assim.

J. não pensa em fazer um doutorado brilhante, nem em participar das maiores e melhores conferências de sua área. J. é grata à oportunidade que teve, ao reconhecimento acadêmico que recebe não só de seus colegas como de seu Professor; J. é grata ao marido e ao seu apoio, J. é grata às suas filhas, sobretudo às suas filhas. E sua gratidão é genuína e até palpável.

Talvez J. não pense muito sobre, talvez não dê muita importância para, mas a verdade é que J. é bonita que só vendo. Talvez ela acredite que tenha olheiras enormes, talvez ela pense que seus cabelos poderiam estar melhor, talvez ela acredite que seu corpo esteja longe de voltar ao “normal”.

A verdade é que olhando de fora, J. é dona de uma beleza franca e real, uma beleza tão feminina e tão dela, que ao olhar para ela fica difícil não pensar em uma deusa grega. Exalando feminilidade por todos os poros, compartilhando força e determinação. J. é humana mas tem algo de sobre-humano também. Algo que nos fascina, que nos encanta, que nos intriga.

Mesmo assim, J. é real, J. e sua família existem. E moram no prédio ao lado do meu. J. é tão mulher e tão mãe quanto eu, quanto você. Tão humana quanto nós todas juntas.

E quando eu penso que não dou conta de nada, que minha casa está fadada ao caos absoluto e sem fim, que eu sou uma merda em forma de mãe, que minha aparência não tem mais salvação, que meu marido não merece uma mulher tão incapaz, que blá blá blá, eu paro e me lembro da J.. Eu não me comparo com ela, porque sei que cada um tem uma vida, que cada um, o que quer que isso signifique, segue o seu próprio destino.

E daí eu penso que eu tenho muito a que ser grata, que eu já aprendi um bocado de coisa nessa vida, e que já não posso mais me dar ao luxo de esquecê-las. E daí eu penso que de fato o essencial é invisível aos olhos, e que já faz um tempo que eu tenho procurado pelo essencial na minha vida, nas minhas relações, ao trilhar meus caminhos. E daí eu penso que se já faz algum tempo que eu tenho vivido procurando ser fiel à mim mesma e aos meus princípios, uma hora tudo há de se arranjar.

Não como num passe de mágica, não como algo caído do céu, que fique claro. Já não sou mais tão ingênua assim. Mas sim porquê ao viver a vida do jeito que acredito, a vida lá na frente saberá me devolver. A vida sempre devolve.

E mais uma vez eu volto a pensar na J., que apesar das dúvidas, dos medos, das circunstâncias… se deu pra vida. E a vida tem se dado pra ela. Seja em forma de força, seja em forma de otimismo, seja em forma de amor, seja em forma de recursos internos e externos inesperados, seja na forma do que for.

E daí eu penso que vale a pena se dar aberta e rasgadamente para a vida. E daí eu penso que o poeta estava mais do que certo. De fato, a vida só se dá pra se deu!

E tudo se aquieta aqui dentro de mim.

*Da canção Futuros amantes do sempre Chico Buarque

Mando notícias do lado de cá

Chegamos, finalmente, ao nosso destino. O frio é grande, assim como a pressa de azeitar a vida, uma rotina.

Tom está bem, um pouco gripado, mas bem. Anda estranhando uma coisa aqui e ali, mas no geral, está se saindo muito bem. E para nosso desespero, anda mais birrento do que nunca. Paciência tem sido nossa palavra de ordem.

Pra tudo, aliás. Tudo tem tempo certo para acontecer, não é mesmo?

Volto quando puder.

Bitocas gripadas de nós três.

Reflexões mambembes

Ando vivendo as voltas de uma bagunça, que olha, vou te contar! São muitas caixas, e malas, e sacolas, e espaços antes cheios agora vazios, e vice-versa. E no meio de tanta bagunça, tem Tomás entrando em caixa, entrando em mala, tirando de mala e colocando em caixa, tirando de caixa e colocando em mala, às vezes só tirando, às vezes escondendo, às vezes reorganizando à sua maneira.

E no meio de tanta bagunça, tem o coração dividido, o peito comprimido, a garganta em nó. Tem a lembrança de tantas outras mudanças,  sem filho, com filho e com filho de novo. Faz-se as contas e percebe-se que, faz quase dez anos que nossa vida gira de dois em dois anos. Dois anos aqui, dois anos ali, dois anos de novo aqui, mais dois anos de novo ali…

E no meio de tanta bagunça, percebemos o tanto que ficou em nós de cada novo lugar, o tanto que vai deles conosco, o tanto que deixamos, do tanto de raízes que criamos para novamente, nos arrancarmos*. E em meio à bagunça do nosso coração, a gente erra o rumo, acerta o rumo, parte com malas cheias de esperança. Esperança no futuro, esperança nos reencontros, esperança, por que não?, na felicidade.

E no meio de tanta bagunça, o que nos conforta é a certeza de que partiremos e sempre voltaremos, mesmo sem saber para onde; é a certeza de que tudo se ajeita, e se acomoda, e se aquieta. Inclusive o coração. O que nos conforta são as palavras do poeta, de que as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão**.  Ficarão nas nossas recordações mais felizes, e nas mais engrançadas também; ficarão nas fotos, nos objetos que trazemos e levamos; ficarão nas pessoas que conhecemos e com as quais nos deixamos conhecer; ficarão impressas na alma, onde nada, nem o tempo, nem as distâncias podem apagar.

E depois, de finda a bagunça, a gente faz como o outro poeta,  que vai deixando a pele em cada palco, e nem seuqer olha para trás. E nunca, jamais, dizemos adeus.***

* Da canção Na carreira, Chico Buarque e Edu Lobo do musical O grande circo místico

** Do poema Memória de Carlos Drummond de Andrade

*** Da canção Na carreira, Chico Buarque e Edu Lobo do musical O grande circo místico.

O fim do fim

2012 foi o ano que já começou fadado ao fim. Antes mesmo que começasse já se esperava seu fim apocalíptico. Como sabíamos, prevíamos e esperávamos, o mundo não acabou, mas 2012 finalmente, veja só, está para acabar. Acabar de vez, não de maneira catastrófica e desoladora, mas seguindo a ordem natural das coisas, seguindo a ordem do mundo tal como o conhecemos, de um dia que corre depois do outro, de um mês que corre depois do outro,  e que chegando no fim do calendário simplesmente…acaba.

2012 vai se acabando e deixando para trás dias difíceis, dias de dúvidas, dias de desesperanças, dias de pequenos apocalipses, dias de “é o fim da picada”.  2012 vai se acabando e deixando para trás muito cansaço e pouco fazer, muito esperar e pouco aceitar. É… esse ano que já vai passando não foi nada fácil pra mim. É que na vida é assim mesmo, existem anos melhores e piores, anos mais felizes e anos menos felizes. Anos que se vão e deixam muita saudade, e anos que se vão com a leve impressão de que já vão tarde.

E por falar em fim, estamos vivendo nossos últimos dias de Brasil. Passando todo o tempo possível ao lado de pessoas amadas, sabendo que todo tempo possível será insuficiente para retribuir todo o afeto que temos recebido.  Apesar da saudade que já se apresenta a cada despedida, a alegria do novo também se faz presente, e nessas horas não consigo deixar de pensar nas palavras do poeta “coisa que gosto é poder partir sem ter planos, melhor ainda é poder voltar quando quero”. E pra nós, mambembes de coração, muito da beleza da vida está nesse vai e vem sem fim.

O que mais vai chegando ao fim é este post. Mas não sem antes perguntar se você  já parou pra pensar que não há sombra sem luz, dias sem noites, mal sem bem? Assim como não há  fim sem começo. E apesar de, no hemisfério sul, o verão estar em seu auge, e as águas de março estarem tão distantes, o fim de 2012, pra mim, é promessa de vida no meu coração. No meu fim de ano, no meu fim de ciclo, no fim de um mundo muito meu, muito particular, eu sinto aquele frio gostoso na barriga, frio gostoso que sempre sentimos diante do novo.

E este post sem vergonha vai chegando ao fim desejoso de um Feliz Natal, e desejoso das melhores e maiores alegrias para 2013 à todas (e todos, para contemplar meu público masculino, que provavelmente se resume ao meu marido e ao meu pai) que nos acompanham e acompanharam neste longo e pavoroso 2012!

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Nos últimos dias o mundo não acabou, mas muita coisa aconteceu. Dentre elas, Tomás completou dois aninhos. Dois! Já me diziam antes, mas é verdade: o tempo corre! Meu filhote já é um menino.

Quem mais completou dois anos foi a Laura da Dani. Parabéns Laura Linda, parabéns Dani!

E para aumentar o time dos nascidos no dia 20 de Dezembro, nasceu o Leo da Cris! Tão lindo, tão lindo que até dá vontade de ter outro bebê.Mas já passou. Parabéns, querida! Muito leite e muitas noites de sono para vocês!

Até 2013 pessoal!

Para ouvir o melô do fim do mundo é só clicar

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