Pensamentos aleatóreos sobre o Tomás no Kindergarten

Antes, muito antes de saber que eu tinha um Tomás na barriga, eu e João já havíamos nos decidido por um Kindergarten Waldorf. No matter where. No Brasil, na Alemanha, na Conchinchina, onde Judas perdeu as botas… tendo um pelas bandas, lá então seria.

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Eu já contei aqui e aqui da nossa frustrada tentativa na creche Waldorf. Demos uma pausa, mas continuamos inscritos para o Kindergarten, na mesma escola. No fundo, eu sabia, a despeito da minha prévia decisão, que lá era o melhor lugar para ele. É claro que, por muitas vezes, eu me perguntava será mesmo? Quem quer tanto que seja lá: você e João, Tomás ou o destino? (sim, eu acredito em destino, não da forma banal e cafona como é pregada por aí). Eu acredito em encontros, eu acredito nas pessoas certas no momento certo. Muito luz e flor? Pode ser. Mas eu sou uma mãe Waldorf, então…

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Quando fomos conversar com o professor do Tomás (sim, o Tom tem professor) ele, do alto da sua experiência,  nos aconselhou  que seria melhor um de nós ficarmos com o Tomás durante o tempo que ele precisasse. Normalmente, a fase de adaptação no Kindergarten não é assim. Mas eles (professor, escola, outros pais) foram e são muito sensíveis em relação a situação do Tomás. O fato de morarmos há um ano na Alemanha, o fato do Tomás não falar alemão, o fato de nunca ter ficado com outra pessoas a não ser comigo e com o pai… Sinceramente? Não acho que encontraria tanta compreensão, tanta sensibilidade e tanto respeito ao tempo do meu filho em outro lugar. Apenas acho, sem grandes confirmações.

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É claro que o um de nós no caso sou eu. Quem traz o pão para casa é o João, logo… E neste tempo que tenho ficado com meu filho, e tenho conhecido as outras crianças, e tenho cruzado com outros pais, e tenho visto com meus olhos tudo o que é feito lá, e tenho visto com meu coração como tudo é feito, tenho ficado cada vez mais segura de cortar nosso cordão umbilical e deixar meu filho passar para outra etapa de sua vidinha. A estruturação do dia, as músicas, os rituais, os brinquedos e o brincar… tudo me cala fundo. É como se eu encontrasse ressonância com aquilo que acredito.

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Sabe, por muitas vezes eu cheguei a pensar que se eu tivesse tido no ano passado essa segurança interna que agora tenho, teria dado certo já no ano passado. Mas eu não tinha. O que eu tinha era um contrato interno comigo mesma de que ficaria os três primeiros anos com meu filho. Contratos internos são mais difíceis de quebrar. E agora, coincidência ou não, eu sinto que eu e Tomás estamos prontos para uma outra fase. Complicado, né?

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Eu já não estava mais dando conta de suprir as necessidades do meu filho. Ele precisa agora também de limites externos, contato com o outro, aprender o alemão… coisas que sozinha eu já não podia dar. E tudo bem; cada fase com suas necessidades, cada fase com sua doação. Minha terapeuta já disse: apenas viva essa fase! E assim estou. Vivendo.

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Por falar em outra fase… Tomás dá passos rumo ao aprendizado de uma nova língua, à aquisição de novas competências sociais, ao conhecimento de novas pessoas de referência… e tem dado provas que vai ser mais rápido do que todos imaginávamos. Enquanto ele sua a camisetinha para conquistar um novo lugar ao sol, eu em breve, vou suar a camisa, e deixar de ser mãe em tempo integral em casa, para ser mãe em tempo integral com vaga na universidade e com trabalho em vista. E eu me sinto como uma menininha de seis anos que vai no começo do ano comprar o caderno novo para escola!

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E eu estou lá no Kindergarten, mas não estou de espectadora não! Eu tenho colocado a mão na massa. Eu tenho limpado, cozinhado, trocado criança, costurado, capinado… O Tomás vê que a mãe está lá, mas ele tem que se virar. No começo meu coração se contorcia de dó por vê-lo ali como o diferente, o que não sabe como as coisas funcionam, o que não fala a língua… Mas eu não posso privá-lo de passar pelas próprias experiências de vida, de se virar sozinho. Afinal, não é sempre que mamãe estará lá para ele.

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E que fique claro que tudo que digo aqui é apenas minha experiência pessoal, longe de qualquer julgamento alheio. Até mesmo porquê, circunstâncias de vida são pessoais e intransferíveis.

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Mas de todas as minhas atividades lá, a que eu mais tenho gostado é a de cozinhar. Tudo o que eles comem é feito lá mesmo pela assistente. Três vezes na semana tem pão integral, cada um de um tipo. Nos outros dois, um mingau de arroz ou de painço. Tudo é integral e nada é adoçado com açúcar (refinado, mascavo nem demerara). Tenho aprendido receitas maravilhosas e bem mais saudáveis. Como o bolo de aniversário feito com farinha integral, leite de arroz e adoçado com xarope de agave.

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Aliás, este post era apenas para passar a receita do bolo, mas eu acabei costurando um pensamento aqui e ali, e quando vi…. 

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No calor da hora eu peguei a receita e fiz em casa. Me esquecendo que a receita serve vinte crianças e mais três adultos. Temos bolo para semanas agora. Quem quiser comer bolo com chá, pode se achegar. Mas você tem que trazer a(s) cria(s) e jurar que não vai me chamar de louca, que essa prolixidade toda de pensamento é coisa de toda mãe. Jura mesmo?

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A receita eu passo outro dia.

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Uma foto por semana – semana #2

Tomás e a febre

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Tudo começou com o Martin e seu atchim sem fim

Passou para o Louis que nada fazia, além de assoar o nariz

A pobre da Flora, xiii! Pegou catapora

E na outra semana?

Sobrou para o Tomás: de molho, na cama!

Febre, lágrimas, dorzinha aqui e ali

Mas nada deixou o menino mais feliz

Do que ficar de novo só com a mama!

No tempo dele

Eu não sabia, mas há muito eu esperava por ele. E no tempo dele, ele chegou.

E no tempo dele, ele nasceu. Nem um dia a mais, nem um dia a menos. Apenas no tempo dele.

No tempo dele ainda, aprendeu a andar, aprendeu a falar, aprendeu a pensar. E nesse espaço de tempo – nem curto, nem longo – apenas dele, aprendeu muito mais do que posso imaginar.

Todos os dias, no tempo dele, ele aprende uma coisa a mais.

No tempo dele, aprendeu cores, formas e palavras. Conheceu canções, rimas e histórias.

No tempo dele, abriu-se para o de fora.

No tempo dele, decidiu apartar-se das fraldas.

No tempo dele, escolheu a própria cama.

No tempo dele, dorme noite adentro. Coisa essa impossível até então.

No tempo dele, e só dele, desabrocha feito flor em botão.

O tempo dele é tão bonito que até parece conto de fadas.

Mas que tempo é esse? pergunta a senhora

O tempo dele é só o agora.

E por falar em saudade…

Até ontem usava o sapato do macaco. Como crescem esses pequenos!

Reza a lenda, uma lenda, que a palavra saudade surgiu na época do descobrimento do Brasil. Ela personificou e definiu a melancolia que os portugueses, tão distantes de tudo aquilo que era seus, sentiam.

Verdade ou não, e toda lenda tem um quê de verdadeiro, a mais portuguesa das palavras é pra mim, mais do que uma palavra. É todo um sentimento, sentimento esse que não cabe só em palavra.

Aliás, a saudade enquanto palavra é sempre a definição da tristeza, da falta, do padecimento, da ausência. Enquanto sentimento, ainda que aproximados, nenhum desses sentimentos para mim são a saudade, nenhum deles é uma saudade. Porque para mim a saudade se basta. Saudade se sente e só. Porque saudade é trazer o passado para o presente, e suspendê-lo. É um suspirar. É um sorrir-se por dentro. Saudade é a prova de que tudo passa, e ao mesmo tempo, de que tudo fica.

Eu sou saudosista, confesso. Porque toda saudade é ausência assimilada. E como já disse o grandissíssimo Drummond “…ausência assimilada, ninguém rouba mais de mim”.

Pois é, ando saudosa demais. Não tanto do Brasil que ficou distante, nem do tudo e do tanto que por lá ficaram. Ando saudosa mesmo dos tempos que meu filho era um bebê.

Saudade de mãe é engraçada demais. Mãe se alegra com o presente, suspira com o futuro, mas sempre tem no peito um não sei o quê, uma chavinha no coração que sempre abre as lembranças de quando se carregava a cria nos braços. 

E não é que não queira que meu filho cresça. Juro que não é isso! Até mesmo porquê, não querer que filho cresça é dar um tiro no pé. Filhos crescem e ponto. E se vão a cuidar de suas vidas, e se vão a descobrir outros mundos, e se vão a ser eles mesmos no mundo.

E mesmo assim, e mesmo quando for assim, eu vou continuar sentindo saudade do tempo que carregava Tomás na minha barriga, do dia do seu nascimento, dos dias de pequenice que pareciam eternos.

Recém-paridos: mãe e filho. E não dá pra exigir do marido que ele tire uma foto perfeita nessa hora

 Me deixa, vai! Quem é mãe sabe que essa é a saudade mais gostosa de se sentir. E eu vou ter que discordar do meu sempre querido Chico: a saudade não é o revés do parto. A saudade já nasce no parto.

Tudo o que eu me lembro sobre livros

Mamãe, eu quero colocar um livro em cima do outro até chegar no céu!
Eu sempre gostei muito de livros, sempre. Quando era menina, bem menina, e nem podia ler ainda, me fascinavam eram as ilustrações. Às vezes tão expressivas, tão reais, que pareciam querer sair das páginas a qualquer momento. Eu não me lembro como foi a sensação de ler sozinha, nem me lembro qual foi o primeiro livro que li sozinha. O que eu me lembro é que livros sempre fizeram parte da minha história de vida. As leituras da escola nunca foram pra mim um martírio, uma coisa enfadonha. Assim como a lista de livros para o vestibular também não o foi. É bem verdade que eu gostei mais de uns do que de outros, e que se relesse tantos outros hoje, sem a pressão do tempo, com a maturidade que tenho, com o conhecimento de mundo que adquiri, certamente aproveitaria-os muito mais.
Quando eu era menina, eu bem me lembro que não podia ter todos os livros que queria. Na verdade, eu nem tive muitos. Livros infantis eram tudo, menos baratos. E lembro também, que eles ficavam resguardados às livrarias pouco aconchegantes e convidativas, onde se escondiam no meio de tantos outros livros didáticos. Nessas livrarias, a gente só entrava mesmo era para comprar a lista de livros que usaríamos naquele ano letivo. Livros extracurriculares, por assim dizer, minha mãe comprava através de catálogos.
A melhor coisa que meus pais fizeram para mim foi tornarem-se sócios de um Gabinete de Leitura. Lá eu criei asas para voar para muito além daquela pacata e provinciana Jundiaí da minha infância e primeira adolescência. Lá eu delirava de alegria. Lá, aos doze anos, eu conheci os grandes clássicos, os grandes autores, os pequenos e os desconhecidos também. Eu me lembro que eu levei pra casa um exemplar da Divina Comédia, de Dante Alighieri. Eu não entendi porra nenhuma, mas mesmo assim era como se eu estivesse levando para casa um livro sagrado, um livro cheio de mistérios. Mistérios tão maiores do que eu, um livro que pedia reverência. Eu me sentia muito importante, muito especial com ele guardado na minha mochila. E todos aqueles livros de arte? Santo deus, que mundo foi aquele que se descortinou pra mim! 
Eu me lembro também que foi lá que descobri, dentre tantos outros, o Ítalo Calvino. Teve um livro dele que eu renovei seis semanas consecutivas! Eu já tinha lido o livro de cabo a rabo, mas eu queria extrair mais e mais, eu não queria me despedir dele. Quem deu fim àquela relação foi a Lú, a atendente do Gabinete na época, que me disse sem grandes pesares que naquela semana eu não poderia renovar o livro. Alguém, algum maldito alguém, já o havia reservado.
Eu me lembro que desde que me conheço por gente, meu sonho era ter uma biblioteca em casa. Não ter os livros na estante da sala como parte da decoração; eu queria uma biblioteca de verdade, com estantes cheias de livros, sofás que me abraçassem, com uma escrivaninha grande o suficiente para que eu pudesse tomar notas e confortável o suficiente para que eu me esquecesse do tempo; uma biblioteca banhada de luz natural  durante o dia, e de luz focada e precisa à noite. Eu não me lembro de pensar em quem iria limpar esses livros todos, mas sonhos são sonhos, né? 
Eu suspiro toda vez que entro numa biblioteca. Perdoem a comparação, mas é como se entrasse numa igreja, num território sagrado. Talvez o silêncio exigido, os cochichos sibilados, a seriedade dos que as frequentam me façam pensar nessa comparação profana. Mas a verdade é que eu adoro uma biblioteca, seus cheiros, seus sons abafados, a quantidade de pensamentos reunidos…É quase como um céu.
Os livros sempre me ajudaram a descobrir o mundo, um mundo, meu mundo. Sempre me apresentaram formas de pensamento até então desconhecidas, sempre me ajudaram a extirpar preconceitos, sempre me fizeram rir ou chorar ou os dois ao mesmo tempo, sempre me inspiraram mudanças, sempre me possibilitaram uma fuga imediata, ainda que imaginária. Livros sempre me mostraram um pedaço de mim, do outro, das coisas, da vida, pedaços esses que nunca imaginei que pudessem existir.  
Eu me lembro também que foi num Setembro, que parecia qualquer, que a vida sorriu para mim. E como num romance, o João aconteceu. Acontece que eu não imaginava que além de poesia o que viria seria amor. Um amor de altos e baixos, um amor de esfria e esquenta. Um amor como dos livros? Um amor que daria um livro. Uma história de amor que faria história nas nossas vidas. E no meio de muitas outras histórias, a Alemanha cruzou nosso caminho.
Eu me lembro que quando cheguei na Alemanha pela primeira vez, eu não acreditava que livros pudessem ser tão baratos! Mas que merda, eu ainda não sabia alemão! Tanto suor e tantas, meu deus, tantas lágrimas derramadas para aprender o alemão. Para entender outra cultura, para não me sentir menos, para me saber diferente, para enfim poder sentar e ler um livro em alemão. Anos e muitos cursos depois, claro!
Alguns anos e nenhum curso depois, eu e João fizemos um filho. A gravidez desse filho foi cercada de leituras. Sobre parto e sobre tantas outras coisas também. Mas a verdade é que não há livro no mundo que dê conta, que saiba contar o que é a chegada de um filho. Um filho muda muito, quase tudo. Esse filho ao nascer trouxe consigo um dos capítulos mais bonitos da nossa história. E em paralelo vai escrevendo a sua própria, por enquanto, com nossa ajuda.
O parto do meu filho marcou, da maneira mais bonita, a minha história. Antes dele eu era. Agora com ele, eu sou. E isso a gente não aprende em livro nenhum, a gente só aprende sendo.
Nossa história chega no hoje, e no hoje a Alemanha é de novo presente. Presente no tempo e presente que a vida deu. Aqui e agora, com filho parido e longe de estar criado, temos juntos aprendido muito, crescido muito.  Aprendizados e crescimentos que não se contam em livros, porque são muito nossos.
Hoje, com uma biblioteca longe de ser a dos meus sonhos, não só pelo espaço como também pelo sem fim de livros que ainda queremos comprar (e será que a lista um dia terá fim?), compartilhamos nossos livros com os livros do Tomás. E olha, nem na minha biblioteca dos sonhos, eu imaginava que os livros do Tom pudessem trazer tanta vida e tanto colorido a qualquer prateleira. Não só porque os livros dele são muito mais coloridos e bonitos que os nossos, mas também pelo prazer de saber que compartilhamos com ele nosso apreço pelas palavras.
Tem coisas que não estão nos livros, tem outras que nem cabem em livros; tem outras tantas mais que nem dão um livro.  Mas no meio de todas elas, muitas mais são e já foram contadas e recontadas. E eu me lembro de já ter querido ler todos os livros do mundo, porque achava que todos eles cabiam numa única e grande biblioteca.
E sabe do eu me lembrei agora? De cheiro de livro novo! Como eu adoro! E assim como com livros novos que podemos até saber um pouco do enredo, das personagens, a gente só sabe mesmo o que acontece ao abrir e ler até o fim. Não adianta ouvir a história através de outros. Têm histórias que ou se lê ou se escreve. Ninguém pode nos dar.
Acho que a maternidade também é assim. A gente pode até saber de antemão um bocado de coisa, mas só se sabe mesmo se abrindo e vivenciando. E aí, como que livro novinho, novinho, eu me lembrei do cheiro do Tomás quando nos meus braços pela primeira vez.  Mas essa história fica para outra hora.
E assim, era uma vez, uma menina que amava livros. E tinha um monte deles. E…

Tagarelices do Tom ou Meu spaghetti tá com chulé – EDITADO

Aqui está a prova do crime. A prova de que o Tom é um tagarela. A prova de que ele não dá muita bola pra comida.

E a prova, sobretudo, de que eu tenho muito o que aprender no quesito filmar meu filho. Perdoem a inaptidão.

E ao que tudo indica, eu também tenho dificuldades com as configurações do Youtube!

Mas que dèbut mais mequetrefe!

 Finalmente, lá vai:

Diálogos curiosos – pra dizer o mínimo

Tomás ixperto

Tomás anda numa fase nada boa de garfo. Passou de um menino guloso e glutão (no bom sentido), para um menino altamente seletivo e xexelento. Até o que antes comia com gosto, com boca boa, agora deu de fazer caretas e chilicar homericamente se coloco algo que ele diz não gostar em seu prato. Paciência, paciência, e mais paciência. Criatividade, criatividade e mais criatividade têm sido as palavras de ordem para fazê-lo comer de maneira saudável e variada.

Trata-se de uma fase, mais uma de muitas, eu sei. Mas como mãe, às vezes dá um desespero, bate uma incerteza, é como se nunca fosse passar.  A gente sabe que passa, né! Sempre passa.

Então que dia desses, ao chamá-lo para comer ele me veio com essa:

Mamãe, eu não sou Tomás. Eu sou um tipo de bichinho.

É mesmo? Qual bichinho você é?

Eu sou um elefante!

Hum… e aproveitando a deixa… Elefantes a-do-ram cenoura, brócolis, beterraba, batata doce!

Gente, pra ser sincera nem sei o que elefante come, mas eu não podia perder a oportunidade.

Depois de minutinhos de silêncio, ele me responde:

Mamãe, eu não sou mais um elefante. Eu sou um urso!

Uau! Ursos comem muito!

É, eu sou um urso porque eu só quero comer salmão! Tem salmão hoje?

Pensa que o menino nasceu ontem? Embasbacada só consegui responder que não, não teríamos salmão. Ele teria que se conformar com uma polenta turbinada.

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Tomás matador

Voltando da varanda, vem meu filho em tom muito sério:

Mamãe, o manjericão e a salsinha morreu* porque eu tirei terrinha do vaso.

Toda preocupada para que ele não se sentisse culpado com a “morte”  do manjericão e da salsinha, eu digo:

Não, filhote! Eles morreram porque estava (isso mesmo, no passado) muito calor e a mamãe esqueceu de molhar.

Tomás inconformado responde:

Nãaaaao, mamãe! O manjericão e a salsinha morreu* muuuuuuuuito depois que eu tirei a terrinha.

OK, Tomás! Nossas ervas morreram de morte matada e não de morte morrida.


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Tomás pidoncho

Meu filho adora bolo.  E não gosta pouco não. Já fazia um tempo que não saía bolos da cozinha, e ao dar-se conta da falta, Tom não deixou por menos.

Mamãe, que cheiro é esse?

Cheiro? Não estou sentido, Tom.

O que que tem no forno?

No forno? Nada, filho! Respondo espantada.

Ah!, então faz um bolo pra mim!

Fiz, né! E me restou outra alternativa depois de um pedido feito assim?

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Tomás por ele mesmo

João dando banho no rapaz. De repente:

Papai, sabe o que eu queria muito?

O que, Tom?

Eu queria muito que na barriga da mamãe tivesse um bebezito.

Ah, você queria um irmãozinho? 

É.

Vamos conversar com a mamãe sobre isso.

Tá bom!

Ahm? Oi? Como? Estou me fazendo de morta até hoje.

Quem pode com um menino desse?



Toda rotina tem seu encanto*

Texto publicado originalmente no MMqD em 29 de Outubro de 2012

Imagem daqui

 

Não sei você, mas eu, como boa geminiana que sou, adoro uma mudança. Não só as mudanças geográficas, as mudanças na mobília, no guarda-roupa, na aparência. Adoro coisas diferentes no meu dia-a-dia, adoro não seguir nenhuma rotina pré-estabelecida.  E sabe, antes de ser mãe, também graças à minha profissão, eu podia ser e estar mais livre, testar caminhos diferentes na ida e na volta, não voltar direto pra casa, não jantar ou não almoçar, me jogar numa tranqueira, passar uma tarde num museu ou em uma livraria, enfim, eu tinha tempo, vontade e condições para viver essa vida “desregrada”, essa vida “livre”.

Essa coisa livre e desregrada, essa vida aparentemente louca e selvagem, claro, não era uma eterna constante.  Por mais que eu não tivesse um chefe direto, eu também tinha que cumprir prazos, e por mais que fizesse meus horários, alguns deles eu não podia flexibilizar.  Mas ainda assim, eu tinha uma maior liberdade de ação e até mesmo de ócio nos meus dias pré maternidade.

Mas então, estava tudo muito bem, tudo muito ótimo, e ainda assim eu quis muito ser mãe. Alguém aqui conhece esse papo?  E o desejo só fez crescer. E como acontece com todo desejo, a gente só pensa no querer. E esse querer era tão bom, era tão grande, era tão maior que tudo, que quando dei por mim, não tinha mais volta. E então, desse querer enorme, desse querer intransigente, desse querer encantador nasceu Tomás.

E quando a minha vida era ainda somente essa querência toda, e mesmo depois, embuchada do filhote, claro que eu pensava que a minha vida mudaria, claro que eu pensava que eu teria que abrir mão de muitas coisas, claro que eu pressentia que a vida, dali pra frente, seria diferente. Mas o quanto tudo, tudo, muda com a chegada de um filho, só o tempo e, meu próprio filho, poderiam me mostrar.

E então, como era previsto, minha vida mudou. Pra caramba. Meus horários, de repente, não eram  mais meus, minha rotina ou falta dela, não era mais minha, nem meus peitos eram mais meus! A sensação era de que minha vida não era mais minha, de que eu não era mais eu. Como pode um serzinho tão pequeno, tão frágil, ter esse poder enorme? Parece que a luz que eu via no fim do túnel, nada mais era do que o trem que vinha me atropelar. Isso, de algum modo, te soa familiar?

Mas os dias foram passando, a  “calmaria”, dentro do possível, foi se instalando, eu e Tomás fomos nos acostumando. Eu com ele, ele comigo e com a vida. E a rotina de mãe, pai e filho foi se azeitando, e rodando, e juntos passamos a viver uma outra vida.

Com meu filho crescendo, eu fui percebendo, que não dava pra ser cada hora de um jeito, cada dia como melhor me conviesse. As necessidades do Tom foram tomando outras proporções, e eu percebi, que se não me organizasse, eu me perderia e me desesperaria.

E olha, não importa se você, assim como eu, fica com a cria em casa ou se você trabalha fora de casa. Talvez, para as mães que trabalhem fora a imposição dos horários para chegar no  trabalho, deixar filho na escolinha e tudo o mais, ajude na criação e na manutenção de uma rotina. Mas e depois do expediente, e nos fins de semana, não é mesmo?

Posto tudo isso, fica a pergunta: o que faria uma mãe diante das novas circunstâncias e exigências da vida? Resposta correta (se é que existe resposta correta pra vida): se adequaria à elas, claro! Mas eu, além de boa geminiana, sou muito teimosa, e peitei tudo e todos, querendo provar  que meu estilo de vida anterior poderia continuar tranquilamente, e que meu filho, como uma nova peça naquela antiga engrenagem, é quem deveria girar conforme meu ritmo. Alguém aqui já tentou isso? Desaconselho fortemente.

Como disse um filósofo, ou um poeta, ou um sábio, não sei bem ao certo, para se achar é preciso se perder. E eu me perdi. E me desesperei. E aos poucos, aos trancos e barrancos, com erros e acertos, com momentos de “abaixo à rotina”, intercalados com a imposição de uma rotina militar, fomos achando nosso equilíbrio familiar, e percebendo, como e porquê, o que dá e o que não dá certo.

A repetição das coisas no dia-a-dia me parecia muito enfadonha, e nada mais. E engraçado, o que antes era apenas coisa de Super Nanny maluca, passou a fazer algum sentido, e horários começaram a ser seguidos. E um outro ritmo foi se consolidando. E tal como numa orquestra, procuramos pela sintonia, pela afinação e pela parceria. Nem sempre é fácil conduzir essa batuta, mas a minha experiência tem me mostrado que quanto mais a rotina é seguida, mais fácil é sair dela sem danos para os envolvidos. Quanto mais a rotina é seguida, mais a exceção é tratada e apreciada como exceção. Quanto mais a rotina é seguida, mais calmos ficam mãe, pai e, principalmente filho.

Confesso que em alguns dias esse papo de “todo dia ela faz tudo sempre igual”, e principalmente a parte do “me sacode às seis horas da manhã” (que no meu caso, fica a cargo do meu filho me sacudir), me causa uma angústia, uma vontade de fugir, uma vontade de, em plena terça-feira, ter um dia, 24 horas inteirinhas, só e só pra mim. Isso, de algum modo, te soa familiar? Por favor, diga que sim!

Mas a gente vai levando, com ginga, com bossa, com choro, com reza. E vai deixando se levar, porque ser mãe é também seguir um pouco da intuição. E vai adestrando o olhar e o coração para as sutilezas e belezas que só dia-a-dia, que só uma refeição em família, feita religiosamente no mesmo horário e no mesmo lugar têm. E vai aprendendo que toda rotina também pode ser cheia de encantos.

*Título inspirado no filme homônimo de Yasujiro Ozu.

Ziguezagueando um post

Eu tenho um super despertador.  E eu nem preciso programar, ele se programa sozinho. E se acontecer uma tempestade solar, e se todos os aparelhos eletro-eletrônicos pifarem, e se todas as pilhas do mundo acabarem, meu despertador continuará funcionando.

Meu despertador é grande e deliciosamente fofo. E quando ele desperta, como é de se esperar em despertadores, ele quer que a casa toda acorde junto.

imagem daqui

Meu despertador atende pelo nome de Tomás, é de fabricação única e própria, feito com muito carinho, não está à venda (embora eu gostaria de emprestá-lo, mas só às vezes. Especialmente nos fins-de-semana), não se encontra no mercado e acorda com o sorriso mais lindo do mundo.

Há três anos atrás, nem nos meus maiores devaneios, eu poderia imaginar minhas manhãs começando dessa maneira.

Por falar em três anos atrás…

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Há três anos atrás eu me descobria grávida. Era primeiro de Maio de 2010. Há três anos atrás nós morávamos em São Paulo.

Por falar em São Paulo…

Eu adorava nosso apê em São Paulo. Era daqueles apartamentos antigos, do início da década de setenta, amplo e espaçoso, extremamente charmoso.

Mas ele tinha um problema insolúvel: a falta de sol. Situado no terceiro andar de um edifício rodeado de tantos outros, apenas uma fresta fina e esquálida de sol adentrava aquelas janelas. Olha, não é por nada, mas eu passei mais frio naquele apartamento do que em toda minha estada na Alemanha.

O jeito era sair para se aquecer na rua. Por sorte, tínhamos a Praça Buenos Aires como quintal, e a usávamos não só para tomar um solzinho, como também para ter paz e para ter o mínimo de contato com a natureza, mesmo que no meio daquela selvinha de pedra.

Mas voltando ao primeiro de Maio de 2010….

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 Naquele Maio de 2010 minha menstruação estava atrasada há poucos dias, e voltando do nosso banho de sol na Praça, eu disse para o João que queria comprar um teste de gravidez.

Outro?  Espera mais um pouco!

Eu quero hoje.

Percebendo que não valia à pena argumentar:

Então compra só um. E o mais barato que tiver.

A pessoa era a ansiedade em forma de gente, de maneira que jamais, jamais, esperaria até a manhã seguinte para fazer xixi sob aquele palitinho.

Chegando em casa e dois litros e meio de água depois, estava eu utilizando o teste. Depois de alguns minutos apareceram as duas esperadas listras.  Não eram tão fortes, mas eram suficientemente decentes.

João, eu estou grávida! 

Deixa eu ver!

….

É, parece positivo. Mas calma!

Ignorando a última frase eu digo

Eu estou grávida, deixa eu ligar para meus pais!

Não, tá louca??!!

Pro André e pra Carmen?

Não!!

E foi assim que eu, com o teste de gravidez mais fulera da farmácia, me descobri grávida naquele Maio paulistano.

Era sábado, e meu marido pragmático, aconselhou-me a ir na segunda-feira fazer o exame de sangue.

Na segunda cedo estava eu em um dos muitos laboratórios da igualmente vizinha Avenida Angélica.

Bom dia! Eu queria fazer um exame de gravidez.

Tem o pedido médico, senhora?

Não, eu queria fazer particular. Quanto custa?

25 Reais.

Vinte e cinco reais para saber se eu estava grávida?? Paguei sorrindo, e francamente, vinte e cinco foi de graça!

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Por falar em Avenida Angélica…

Eu me lembrei da minha amiga Thaís que mora na Frei Caneca, e do quanto eu ia até à casa dela. A pé. E adorava fazer aquele trajeto a pé. Às vezes ia por cima, às vezes por baixo, às vezes por dentro do bairro.

E ao me lembrar desses trajetos todos, eu me peguei sentindo saudades de São Paulo.

Eu odiava muita coisa por lá, é bem verdade. Precisava ser tudo tão longe, tão cheio, tão caro, tão congestionado, tão cinza, tão inseguro, precisava tanta pressa, tanta cegueira do outro, precisava ser tudo tanto nessa cidade tão superlativa?

Mas amava um tanto mais de outras coisas. Amava os cinemas, os teatros, e as livrarias, amava a comida árabe, judaica, japonesa… amava os museus, as músicas, e os botecos, amava a beleza escondida, amava o ininterrupto, o contínuo, amava e amo, sobretudo, as minhas pessoas queridas que por lá ainda estão.

E foi lembrando da Frei Caneca, da Angélica, da Paulista e da Augusta, que eu me dei conta de que tudo deixa saudade. Até São Paulo.

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E por falar em saudade…

Eu lembrei com saudade da minha gravidez. Muita saudade, até.

E eu achava que nunca, nunquinha me pegaria falando isso, mas… quem eu era mesmo antes do Tomás nascer?

Eu atravessei uma enorme ponte nesses três anos; saí de um jeito e cheguei do outro lado mãe. Mãe e um montão de coisa mais que fui pegando durante a travessia. E olhando pra trás, eu também me dou conta do quanto que eu deixei, e achava que nunca deixaria. De repente muita coisa, muita gente perde o sentido. E no mesmo repente muita coisa, muita gente passa a ter outro sentido ou até mais sentido.

Seria a maternidade uma ressignificação contínua da vida? Seria a maternidade um catalisador de processos pessoais, emocionais? Seria a maternidade a forma mais rasgada de ver a beleza na vida e da vida?

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E por falar em maternidade…

Eu não tenho resposta certa, convicta para nenhuma das perguntas acima.

Mas há três anos atrás, se me aparecesse um anjo e me contasse como seria a minha vida dali pra frente, assim na lata, na cara, sem me poupar de nenhum detalhe sórdido, assim, explodindo meu balão de ilusão que eu alimentava junto com aquela barriga grávida, eu certamente não acreditaria.

E talvez a beleza da vida esteja exatamente nas descobertas, nas quebradas de cara, nos acertos. Talvez seja olhar para trás e saber rir e chorar do que passou. Talvez…

O que eu sei até agora é que na maternidade não existem perdedores e vencedores. Não existem fracassos. Existem aprendizados.

E talvez a beleza esteja mesmo nos aprendizados.

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E por falar em beleza…

Se há três anos atrás, alguém me dissesse que eu veria meu filho na sala antes das seis da manhã lendo um livro para o ursinho dele, que ao fazer meu primeiro xixi do dia uma pessoinha puxaria seu banquinho e ficaria do meu lado tagarelando nesse mesmo horário matutino e que, apesar da madrugadisse, eu renovaria a minha convicção de que viver vale a pena, e que eu me apaixonaria um pouquinho mais… eu também duvidaria.

Então, eu deixo pra ter certezas, pra saber das coisas para amanhã ou depois.

Porque a única certeza que eu tenho hoje é de que amanhã estaremos todos, antes das seis, em pé.

E ainda assim a vida vai continuar bonita. Mais até, talvez.

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