antes de ser mãe eu não sabia que..., com açúcar com afeto, Da poesia da vida, Do cotidiano, filosofia de boteco, palavras soltas ao vento, Tomás, tudo sobre minha mãe

Túnel do tempo

A memória da gente é coisa engraçada demais. Pelo menos a minha é. Talvez eu seja caso de estudo, porquê pra mim, memória é feito uma casa cheia de cômodos com suas janelas e portas fechadas.

Daí basta um cheiro, uma voz, um rosto familiar, uma música, uma palavra e pronto… lá se vai abrir aquele cômodo empoeirado em algum canto da memória.

O problema, às vezes, é que transferimos sentimentos e sensações do presente para o passado e vice-versa. Por vezes também abrimos mais de um cômodo de uma vez gerando interferências que nem sempre correspondem com a veracidade do que de fato ocorreu. Complicado, né?

Eu, por exemplo, tinha pra mim que o Tomás só chorou nos primeiros meses de vida. Pois é, em que cômodo escuro da minha memória tão distorcida eu guardava lembranças desvinculadas da realidade?

Mas se tem uma coisa que pais de primeira viagem fazem a exaustão é tirar muitas fotos e filmar seus rebentos. Tudo é digno de nota: das reais fofuras às escatologias. Nada escapa às lentes dos pais principiantes.

Ainda bem!

Digo isso porque dia desses comecei a olhar pastas e pastas com fotos e vídeos do Tomás, para selecionar algumas fotos para revelar. E então, além da overdose de fofura ao rever meu filho em tempos de bebê, eu pude também ressignificar o período em que acreditava que meu filho não fazia outra coisa da vida além de chorar.

Que surpresa redescobrir meu filho. Que surpresa sabê-lo e entendê-lo como um bebê… normal.

Eu não sei, sabe? Mas acho que na categoria memória, existe uma subcategoria memória materna. Porque não há de existir bicho com memória mais seletiva do que o bicho mãe. Algumas coisas não esquecemos jamais, vide o dia do nascimento. Outras lembramos vagamente, vide noites insones. Outras nem lembramos mais, vide… não me lembro.

Eu acho que os deuses mnemônicos fazem isso conosco mães: acharás que sofres, esqueceras que um dia achou, e por fim lembrarás apenas de toda fofura. Conto com os mesmos deuses para esquecer tão rapidamente da fase das birras. Amém.

Para os descrentes, uma prova da fofura.

 
P.S.: Foi difícil escolher um entre tantos.
P.P.S.: Eu sei que é sacanagem colocar um vídeo com baralho de secador de cabelo, mas pense que o vídeo poderia durar bem mais do que os 30 segundos.
 

antes de ser mãe eu não sabia que..., tudo sobre minha mãe

Foi a minha mãe que disse

Eu peço licença poética para as meninas donas da praça, mas eu achei muito digno colocar aqui o e-mail que minha mãe me mandou, agradecida pelo meu post. Não precisava agradecer, mãe. Foi sincero, foi de coração.

Por ser esse um blog de mãe, aqui todas as mães que quiserem têm espaço garantido. Corporativismo descarado, saca?

Com vocês, a minha mãe:

Resposta ao carinho

Minha querida Gabriela,

Que declaração de amor foi essa (referente ao seu ultimo post)? Chorei em bicas, muito obrigada!

Quando eu te vi pela primeira vez com o Tomás nos braços foi o momento mais emocionante da minha vida, naquela hora eu já entendi que vc com certeza seria uma mãe melhor do que eu fui, prometi para mim mesma que tudo aquilo que eu havia recebido da minha mãe eu daria para vc e que o seu filho seria a criança mais amada do mundo.

Tenho muito orgulho de vc. Eu não sabia até vc nascer que uma mãe poderia aprender tanto com um filho mas vc sempre foi uma filha que me ensinou muito desde muito pequena e isso me confundia muito. Hoje observando o Tomás eu entendo…vc sempre foi muito inteligente e diferente das outras crianças, feito o seu filho.

Vc me ensinou (e esperou pacientemente) a entender e a respeitar diferenças e opiniões. Vc esperou eu me tornar uma pessoa melhor para me amar. Todo esse processo de amadurecimento eu devo a vc minha filha! Eu te admiro e respeito muito, vc é uma referência para mim Gabriela pois a observo e vejo que mulher e mãe maravilhosa vc se tornou e eu tb! Desejo ser em muitas coisas parecida com vc ; )

Beijos,
Mami

Olha, eu sempre odiei essa palavra, mas não achei outra para melhor descrever a minha: fofa!

E agora chega de rasgação de seda, dona Ziloca. E se você quiser passar uma semana cá comigo, me ajudando com o Tomás e os afazeres domésticos, eu é que fico agradecida. Afinal, ainda sou sua filha, e para que servem os filhos, senão para dar aquela ferradinha nas mães?

mãe zen, mães não são de ferro, tudo sobre minha mãe, um bebê muda o que? tudo

O que você sabe sobre as mães?

Um pouco antes de ser mãe eu já tinha começado a enxergar minha própria mãe de maneira diferente. Não que a nossa relação fosse conflituosa antes, mas eu ainda guardava algumas diferenças e rancorizinhos. Coisas de filha.

Um pouco antes de ser mãe, eu resolvi que já era hora de colocar pontos finais em questões antigas com minha mãe, e seguir uma vida livre de entraves e barreiras. É que no fim dos 20 anos, a gente se cansa de culpar pai, mãe ou quem quer que seja, por nossos problemas ainda não solucionados.

Um pouco antes de ser mãe, eu já havia perdoado, e considere a palavra perdão da maneira como quiser, não necessariamente o perdão cristão, de um bocado de coisa. Um pouco antes de ser mãe, eu acreditei que o ser mãe era tarefa não tão difícil, e que respeitar um outro ser na sua individualidade e nas suas peculiaridades seria natural.

Quando estava prestes a me tornar mãe de fato, passando pelas dores do parto, eu não pensei em nada, não. Meses depois, com meu filho nos braços e tendo que ser mãe, eu humanizei minha mãe. Humanizei porque pensei que ela havia passado pelas mesmas dores que eu, porque talvez ela tivesse passado pelos mesmos problemas e questionamentos que eu passei no meu pós-parto, e a humanizei porque ela, com apenas 19 anos de idade, teve que crescer e ser mãe. A minha mãe.

Isso não significa que eu concorde com tudo que minha mãe fez, da maneira que ela fez. Isso significa que eu, como mãe, percebi que como seres humanos, erramos e acertamos. E como mãe, mesmo querendo acertar, erra-se. Foda isso, viu! E por isso, mesmo não concordando cem por cento com minha mãe (até hoje), eu a considero muito mais hoje do que a dez anos atrás.

Como mãe, eu percebi que mães são criaturas que merecem muito respeito. Respeito, porque elas tentam com todas as forças fazer o seu melhor. Como mãe, eu sei que nem sempre meu melhor é o suficiente; como mãe, agora sei, que mesmo querendo acertar, eu erro feio; como mãe que sou, eu sei que pedir desculpas, não é só reconhecer um erro, é de fato lamentar por ele. Não um lamento vazio ou um lamento autoflagelador, um lamento sincero de quem não queria errar com alguém que me foi confiado e que quero tanto. E é prometer a si mesma, que vai tentar agir melhor. Uma promessa tão sincera, tão verdadeira, que chega a doer.

Eu, já mãe, quis precisar da minha mãe. E gostei disso. Eu, já mãe, precebi, que mães não são criaturas sobrenaturais, são apenas humanas. Que mães são mulheres, e como mulher que me tornei e sou, sei que nem sempre é fácil ser apenas mulher, quem dirá mãe e mulher, tudo junto ao mesmo tempo!

Mães são criaturas fantásticas, não acha?! Elas fazem uma casa funcionar, muitas vezes trabalhando fora, podem não ser excelente cozinheiras, mas sempre têm uma receita reconfortante e familiar, procuram fazer da casa um ninho, e ainda pensam em detalhes que só mães conseguem pensar!

Por exemplo, antes de ser mãe, eu achava que seria fácil manter uma casa bonita como a da minha mãe, sempre com flores, tudo no lugar e cheiro de pão saindo do forno. Ainda que tenha aprendido muito com ela sobre administração do lar, minha casa insiste em ser marrommeno, ter sempre flores velhas ou plantas mortas, bagunça por todos os cantos, e cheiro de pão…queimado. E aí eu me pergunto, quando é, senhor, que eu vou ser um pouquinho parecida com minha mãe?

Mas isso, claro, depois que me tornei mãe. Porque antes de ser mãe, a simples ideia de ser parecida com a minha, em qualquer coisa que fosse, me dava medo. Hoje, engraçado, não só consigo admirá-la, como desejo ser em muitas coisas como ela.

Como mãe e mulher, eu acredito que nem toda mulher precisa passar pela experiência da maternidade para reconstruir essa mãe interna. Esse foi o meu caminho. Agora, como mãe e mulher, eu acredito que toda mulher deveria, ao menos tentar, fazer as pazes com a própria mãe. Ainda que secretamente.

Afinal, presente ou não em nossas vidas, mãe é única, e a carregamos conosco a vida toda. Então, que seja leve o carregar.