gravidez, segundinho, uk, um bebê muda o que? tudo

…”te sinto mais bela, te fico na espera”…

Há quem diga que demorou muito. Eu já digo que nessas questões não existe muito tempo ou pouco tempo,  essas coisas acontecem no tempo certo, ou melhor, no tempo delas.

E foi assim, no tempo dele (ou dela) que  aconteceu! Estar grávida de novo é, ao mesmo tempo,  igual e diferente, o mesmo e o novo! Igualmente gostoso como a primeira vez, mas diferente da primeira vez. Muito do mesmo de tudo que já aprendi com a primeira, mas absurdamente novo em tantas outras coisas que pensei que nem existiam. Até mesmo porquê eu vou parir este bebê em outras terras,  e as coisas são um pouco diferentes por aqui. Coisa para outro post.

Fato: não penso, não falo e não vivo tanto esta gravidez como fiz com e na gravidez do Tomás.  E acho isto perfeitamente normal. Já tenho um filho, estou em outro momento de vida, outras demandas… o que não significa que não tenha os meus momentos e pensamentos  (deliciosos e alegres) voltados para a barriga que só faz crescer.

Conto com 18 semanas de gestação, uma midwife bacana, um único ultrassom na bagagem,  uma barriga de respeito,  sem mais enjoos e enxaquecas, sem o sono da morte, uma disposição que achei nunca mais sentir, cabelos brilhantes e uma alegria sem fim!

O bebê chega em Abril e Primavera em mim será!

 
 

 

 

 

antes de ser mãe eu não sabia que..., Do cotidiano, Tomás, um bebê muda o que? tudo

Toda rotina tem seu encanto*

Texto publicado originalmente no MMqD em 29 de Outubro de 2012

Imagem daqui

 

Não sei você, mas eu, como boa geminiana que sou, adoro uma mudança. Não só as mudanças geográficas, as mudanças na mobília, no guarda-roupa, na aparência. Adoro coisas diferentes no meu dia-a-dia, adoro não seguir nenhuma rotina pré-estabelecida.  E sabe, antes de ser mãe, também graças à minha profissão, eu podia ser e estar mais livre, testar caminhos diferentes na ida e na volta, não voltar direto pra casa, não jantar ou não almoçar, me jogar numa tranqueira, passar uma tarde num museu ou em uma livraria, enfim, eu tinha tempo, vontade e condições para viver essa vida “desregrada”, essa vida “livre”.

Essa coisa livre e desregrada, essa vida aparentemente louca e selvagem, claro, não era uma eterna constante.  Por mais que eu não tivesse um chefe direto, eu também tinha que cumprir prazos, e por mais que fizesse meus horários, alguns deles eu não podia flexibilizar.  Mas ainda assim, eu tinha uma maior liberdade de ação e até mesmo de ócio nos meus dias pré maternidade.

Mas então, estava tudo muito bem, tudo muito ótimo, e ainda assim eu quis muito ser mãe. Alguém aqui conhece esse papo?  E o desejo só fez crescer. E como acontece com todo desejo, a gente só pensa no querer. E esse querer era tão bom, era tão grande, era tão maior que tudo, que quando dei por mim, não tinha mais volta. E então, desse querer enorme, desse querer intransigente, desse querer encantador nasceu Tomás.

E quando a minha vida era ainda somente essa querência toda, e mesmo depois, embuchada do filhote, claro que eu pensava que a minha vida mudaria, claro que eu pensava que eu teria que abrir mão de muitas coisas, claro que eu pressentia que a vida, dali pra frente, seria diferente. Mas o quanto tudo, tudo, muda com a chegada de um filho, só o tempo e, meu próprio filho, poderiam me mostrar.

E então, como era previsto, minha vida mudou. Pra caramba. Meus horários, de repente, não eram  mais meus, minha rotina ou falta dela, não era mais minha, nem meus peitos eram mais meus! A sensação era de que minha vida não era mais minha, de que eu não era mais eu. Como pode um serzinho tão pequeno, tão frágil, ter esse poder enorme? Parece que a luz que eu via no fim do túnel, nada mais era do que o trem que vinha me atropelar. Isso, de algum modo, te soa familiar?

Mas os dias foram passando, a  “calmaria”, dentro do possível, foi se instalando, eu e Tomás fomos nos acostumando. Eu com ele, ele comigo e com a vida. E a rotina de mãe, pai e filho foi se azeitando, e rodando, e juntos passamos a viver uma outra vida.

Com meu filho crescendo, eu fui percebendo, que não dava pra ser cada hora de um jeito, cada dia como melhor me conviesse. As necessidades do Tom foram tomando outras proporções, e eu percebi, que se não me organizasse, eu me perderia e me desesperaria.

E olha, não importa se você, assim como eu, fica com a cria em casa ou se você trabalha fora de casa. Talvez, para as mães que trabalhem fora a imposição dos horários para chegar no  trabalho, deixar filho na escolinha e tudo o mais, ajude na criação e na manutenção de uma rotina. Mas e depois do expediente, e nos fins de semana, não é mesmo?

Posto tudo isso, fica a pergunta: o que faria uma mãe diante das novas circunstâncias e exigências da vida? Resposta correta (se é que existe resposta correta pra vida): se adequaria à elas, claro! Mas eu, além de boa geminiana, sou muito teimosa, e peitei tudo e todos, querendo provar  que meu estilo de vida anterior poderia continuar tranquilamente, e que meu filho, como uma nova peça naquela antiga engrenagem, é quem deveria girar conforme meu ritmo. Alguém aqui já tentou isso? Desaconselho fortemente.

Como disse um filósofo, ou um poeta, ou um sábio, não sei bem ao certo, para se achar é preciso se perder. E eu me perdi. E me desesperei. E aos poucos, aos trancos e barrancos, com erros e acertos, com momentos de “abaixo à rotina”, intercalados com a imposição de uma rotina militar, fomos achando nosso equilíbrio familiar, e percebendo, como e porquê, o que dá e o que não dá certo.

A repetição das coisas no dia-a-dia me parecia muito enfadonha, e nada mais. E engraçado, o que antes era apenas coisa de Super Nanny maluca, passou a fazer algum sentido, e horários começaram a ser seguidos. E um outro ritmo foi se consolidando. E tal como numa orquestra, procuramos pela sintonia, pela afinação e pela parceria. Nem sempre é fácil conduzir essa batuta, mas a minha experiência tem me mostrado que quanto mais a rotina é seguida, mais fácil é sair dela sem danos para os envolvidos. Quanto mais a rotina é seguida, mais a exceção é tratada e apreciada como exceção. Quanto mais a rotina é seguida, mais calmos ficam mãe, pai e, principalmente filho.

Confesso que em alguns dias esse papo de “todo dia ela faz tudo sempre igual”, e principalmente a parte do “me sacode às seis horas da manhã” (que no meu caso, fica a cargo do meu filho me sacudir), me causa uma angústia, uma vontade de fugir, uma vontade de, em plena terça-feira, ter um dia, 24 horas inteirinhas, só e só pra mim. Isso, de algum modo, te soa familiar? Por favor, diga que sim!

Mas a gente vai levando, com ginga, com bossa, com choro, com reza. E vai deixando se levar, porque ser mãe é também seguir um pouco da intuição. E vai adestrando o olhar e o coração para as sutilezas e belezas que só dia-a-dia, que só uma refeição em família, feita religiosamente no mesmo horário e no mesmo lugar têm. E vai aprendendo que toda rotina também pode ser cheia de encantos.

*Título inspirado no filme homônimo de Yasujiro Ozu.

a vida é mais, Alemanha, antes de ser mãe eu não sabia que..., Da poesia da vida, Do cotidiano, Heidelberg, um bebê muda o que? tudo

Vida bandida

Imagina que a sua vida tenha uma versão oficial. E que esta versão oficial foi você mesma que concebeu, escreveu e dirige. Bonita até, esta versão oficial. Imagina que nesta versão oficial, você tenha muitas idealizações. Mesmo sabendo que o ideal nem sempre é o real. Às vezes a versão oficial da vida flui, te dando a certeza que a vida só pode ser assim, e de nenhum outro jeito. Às vezes ela corre trôpega, arrastada. Nada que o deixar umas ilusõezinhas pelo caminho não resolva.

Então você acha que vai vivendo esta versão oficial sem grandes percalços, afinal você concluiu seus estudos, se casou, viajou, trabalha, tenta ser gente fina quase sempre, não é nem bonita nem feia, nem burra nem genial, faz análise, quer e tenta fazer o bem, já conheceu muita gente bacana, e engravidou. Engravidar também fazia parte da sua versão oficial. Embora não desde o seu princípio. Daí você jura de pé junto, que jamais idealizou um filho, jamais! Eu, hein! Imagina se… Um filho, um elemento novo nesse novo script chegou. Chegou diferente daquilo que você imaginava, daquilo que ó céus, você idealizava.

Então a realidade se contrapôs à sua versão oficial da vida. Na versão oficial da vida não existia depressão pós-parto, filho que quer mamar de hora em hora, que chora demais, que só quer colo… E esse afastar-se da gênese, do certo, te custa tanta energia, tanta dor desnecessária, tanta lamúria.

Mas quem manda nessa porra aqui ainda sou eu! Você diz pra si mesma. E tenta dar uma acochambrada na sua já capenga versão oficial. Por onde começar? Pelos amigos que se ressentiram de, nos primeiros meses de vida do seu filho, você nem sequer responder e-mail? Ou quando o fazia sequer dava o tom de la vie en rose que eles tanto queriam ouvir, ignorando solenemente que a pegada com recém-nascido é pancadão? Ou reestruturar um novo projeto de família, onde o filho é demandante sim, o marido precisa trabalhar e viajar, e a casa insiste em ser cronicamente uma bagunça? Neste mar de dúvidas e incertezas, você se sente à deriva, sem eira nem beira, abandonada à própria sorte.

Na versão oficial dos fatos da minha própria versão oficial de vida, meu filho só chorou nos oito primeiros meses da vida dele. Ou seria eu que só chorei nestes oitos primeiros meses? Na versão oficial dos fatos da minha própria versão oficial de vida, eu fui a pior mãe que meu filho poderia ter tido, a pior companheira para meu marido. E a versão oficial só degringola, porque os fatos, as pessoas, os novos elementos e circunstâncias que dela vieram a fazer parte, em nada tinham a ver com o meu projeto inicial de versão oficial. Verdade? E aqui eu mudo de parágrafo.

Vivendo uma vida marginal, longe daquela versão oficial, eu me dou conta que caralho!, eu aprendi muito mais do que imaginava aprender, eu vivi muito mais do que eu esperava viver, eu me dei muito mais do que imaginava ser possível me dar, eu me reinventei muito mais vezes que ousava ser possível fazê-lo, eu descobri que meu filho é o melhor filho que eu poderia ter, que meu filho é o melhor que ele pode ser, e que ser mãe é se aceitar pra depois aceitar o outro. Do jeito que ele é.

Então eu descobri que esta vida marginal, pode não ser perfeita. Mas é muito mais emocionante, porque feita, construída com um pouco daquilo que já fui, com um pouco daquilo que sou e pouco mais daquilo que quero ser. Somado ao pouco que cada um que por mim passou e deixou. E ao muito que meu filho me trouxe e me traz. Ao muito que ele me dá. Ao muito que ele soma em mim.

Para ser sincera, eu acho que desta versão oficial de vida, eu mantenho apenas uma lista: a lista das coisas que não tolero. A saber: comida fria, café fraco, chocolate diet e pessoas sem coração. É, acho que a lista serve bem pra qualquer tipo, fase e circunstância de vida, não?

Pensando bem, a versão oficial da História, não é a História verdadeira. Assim como a versão oficial da vida, não é a verdadeira vida. É por isso que eu vou me emaranhando mais e mais nesse meu projeto bandido de uma vida de improviso, de desapego, de saber levar-se e deixar ir, projeto mambembe de vida. Enfim, sendo gauche e torcendo para encontros furtivos e inesperados com anjos tortos. Eles sim, sabem das coisas.

A versão oficial é que eu sempre fui lindo!

mãe zen, mães não são de ferro, tudo sobre minha mãe, um bebê muda o que? tudo

O que você sabe sobre as mães?

Um pouco antes de ser mãe eu já tinha começado a enxergar minha própria mãe de maneira diferente. Não que a nossa relação fosse conflituosa antes, mas eu ainda guardava algumas diferenças e rancorizinhos. Coisas de filha.

Um pouco antes de ser mãe, eu resolvi que já era hora de colocar pontos finais em questões antigas com minha mãe, e seguir uma vida livre de entraves e barreiras. É que no fim dos 20 anos, a gente se cansa de culpar pai, mãe ou quem quer que seja, por nossos problemas ainda não solucionados.

Um pouco antes de ser mãe, eu já havia perdoado, e considere a palavra perdão da maneira como quiser, não necessariamente o perdão cristão, de um bocado de coisa. Um pouco antes de ser mãe, eu acreditei que o ser mãe era tarefa não tão difícil, e que respeitar um outro ser na sua individualidade e nas suas peculiaridades seria natural.

Quando estava prestes a me tornar mãe de fato, passando pelas dores do parto, eu não pensei em nada, não. Meses depois, com meu filho nos braços e tendo que ser mãe, eu humanizei minha mãe. Humanizei porque pensei que ela havia passado pelas mesmas dores que eu, porque talvez ela tivesse passado pelos mesmos problemas e questionamentos que eu passei no meu pós-parto, e a humanizei porque ela, com apenas 19 anos de idade, teve que crescer e ser mãe. A minha mãe.

Isso não significa que eu concorde com tudo que minha mãe fez, da maneira que ela fez. Isso significa que eu, como mãe, percebi que como seres humanos, erramos e acertamos. E como mãe, mesmo querendo acertar, erra-se. Foda isso, viu! E por isso, mesmo não concordando cem por cento com minha mãe (até hoje), eu a considero muito mais hoje do que a dez anos atrás.

Como mãe, eu percebi que mães são criaturas que merecem muito respeito. Respeito, porque elas tentam com todas as forças fazer o seu melhor. Como mãe, eu sei que nem sempre meu melhor é o suficiente; como mãe, agora sei, que mesmo querendo acertar, eu erro feio; como mãe que sou, eu sei que pedir desculpas, não é só reconhecer um erro, é de fato lamentar por ele. Não um lamento vazio ou um lamento autoflagelador, um lamento sincero de quem não queria errar com alguém que me foi confiado e que quero tanto. E é prometer a si mesma, que vai tentar agir melhor. Uma promessa tão sincera, tão verdadeira, que chega a doer.

Eu, já mãe, quis precisar da minha mãe. E gostei disso. Eu, já mãe, precebi, que mães não são criaturas sobrenaturais, são apenas humanas. Que mães são mulheres, e como mulher que me tornei e sou, sei que nem sempre é fácil ser apenas mulher, quem dirá mãe e mulher, tudo junto ao mesmo tempo!

Mães são criaturas fantásticas, não acha?! Elas fazem uma casa funcionar, muitas vezes trabalhando fora, podem não ser excelente cozinheiras, mas sempre têm uma receita reconfortante e familiar, procuram fazer da casa um ninho, e ainda pensam em detalhes que só mães conseguem pensar!

Por exemplo, antes de ser mãe, eu achava que seria fácil manter uma casa bonita como a da minha mãe, sempre com flores, tudo no lugar e cheiro de pão saindo do forno. Ainda que tenha aprendido muito com ela sobre administração do lar, minha casa insiste em ser marrommeno, ter sempre flores velhas ou plantas mortas, bagunça por todos os cantos, e cheiro de pão…queimado. E aí eu me pergunto, quando é, senhor, que eu vou ser um pouquinho parecida com minha mãe?

Mas isso, claro, depois que me tornei mãe. Porque antes de ser mãe, a simples ideia de ser parecida com a minha, em qualquer coisa que fosse, me dava medo. Hoje, engraçado, não só consigo admirá-la, como desejo ser em muitas coisas como ela.

Como mãe e mulher, eu acredito que nem toda mulher precisa passar pela experiência da maternidade para reconstruir essa mãe interna. Esse foi o meu caminho. Agora, como mãe e mulher, eu acredito que toda mulher deveria, ao menos tentar, fazer as pazes com a própria mãe. Ainda que secretamente.

Afinal, presente ou não em nossas vidas, mãe é única, e a carregamos conosco a vida toda. Então, que seja leve o carregar.

Alemanha, antes de ser mãe eu não sabia que..., Da poesia da vida, Do cotidiano, gracinhas do tom, um bebê muda o que? tudo

Breves notas sobre a alegria e corujices de uma mãe

Desculpem a corujice assim deslavada, mas o Tomás é um menininho especial. E muito feliz. As pessoas sempre comentam o quão risonho ele é, o quão doce é o seu sorriso. Na padaria ele é uma atração. Quando chega, as atendentes se abrem, dizem que são fã dele; uma até já pediu para pegá-lo. E eu me surpreendo com um filho que derrete as alemãs.

No italiano perto de casa, onde sempre pegamos um café, ele também é conhecido por “flertar” com todas as garçonetes. Até os garçons e o próprio Bellini, o italiano, quando o vêem, devolvem o sorriso. Um sorriso franco e alegre, como o do Tomás.

A verdade é que é impossível ficar indiferente à tamanha simpatia. Alguns ficam, e ele meio que não se conforma. Não faz mal Tomás, você ainda vai entender nessa vida, que nem todos estão preparados para receber o nosso melhor, e caso estejam, nem sempre estarão dispostos a retribuir.

Na creche, que é internacional, muitas mães se referem a ele como o happy boy, o smiley. E eu tenho que concordar, ele só acorda de corno virado, mas no restante do dia ele é só sorrisos.

Sorri, ou melhor, gargalha quando vê cachorro na rua, sorri mais para algumas pessoas sem um motivo aparente, sorri quando recebe um simples pedaço de pão das nossas mãos. Pode ser que as crianças em geral sejam felizes e sorridentes, mas meu filho é um arreganhado. Tão diferente de mim. Não sou cisuda, muito menos séria demais, mas não mostro meus dentes assim, o dia todo, para qualquer um. Já o Tomás…

Mas são nas pequenas coisas que a sua alegria me emociona. Quarta-feira passada, dia ensolarado e de temperatura amena, fomos até a varanda ver minhas rosas que nao resistiram ao frio intenso das últimas semanas. Descobrimos quatro, quatro joaninhas zanzando por lá. Tomás simplesmente alucinou. E ria. E parecia que queria falar. E parecia que queria voar junto com elas. E parecia tão grato por aquilo tudo. Tão bonito de se ver.

Eu já disse aqui, que depois que a gente se torna mãe, a gente redescobre um monte de coisas num mundo aparentemente velho. Só o Tomás mesmo para me fazer rir de doer as bochechas ao ver quatro joaninhas, só o Tomás mesmo para me trazer uma alegria tão genuína.

De tão genuína que é, chego a pedir aos céus, em oração, que nunca se acabe. É que depois do Tomás, meu mundo ficou tão mais colorido. De um colorido fresco, sabe? Desculpem a corujice assim deslavada, mas a alegria é tanta que eu precisava compartilhar.

aguenta coração, Alemanha, antes de ser mãe eu não sabia que..., Heidelberg, um aninho, um bebê muda o que? tudo

Fechando 2011 com chave de ouro

Pense numa linda casa. Apesar do inverno no hemisfério norte, pense num lindo jardim. Pense na mesma casa por dentro. Uma lareira, tapetes, almofadas e sofás tudo muito, muito aconchegante. Pense também numa linda decoração de Natal. Com uma maravilhosa árvore e o presépio mais fofo que se tem notícia. Pensou? Então pera lá que ela se tornará uma realidade

Fomos lindamente convidados para uma típica ocasião alemã na casa do anfitrião do João na Uni Heidelberg: Kaffe und Kuchen (café com bolo ou vice-versa). Que legal comer uma receita típica alemã! Que legal que ele tem dois filhos! Que legal conversar em alemão! Que legal!

Tudo muito legal, só que a gente sai do Brasil, mas o Brasil não sai da gente. Pra começar, deixamos pra comprar os presentes dos nossos anfitriões (flores e vinho) em cima da hora, claro! Com isso o Tomás não almoçou direito e tirou sua soneca fora de hora, e obviamente não dormiu tudo o que deveria. Nos atrasamos para pegar o trem, perdemos a conexão, atrasamos MEIA HORA, erramos a direção da casa, encontramos com o Professor na rua atrás de nós. Sim, ele estava preocupado e andando no frio e na chuva. Das ist eine Schande!* Só para temperar o enrredo, o Tomás não parava um minuto, meu cabelo estava num péssimo dia, e eu escolhi o pullover mais velho que eu tinha no armário.

Mas tudo bem, né? Essas coisas acontecem. Passada a vergonha, as desculpas, e pararará, tiramos os casacos e adentramos na sala de estar. A linda casa em questão se materializou diante dos meus olhos. E todos os potenciais perigos foram localizados. E putz, eram muitos. Já fiquei tensa. Mas vamos ver no que dá. Quem sabe meu filho, nesse dia, nessa hora, vai se comportar, e não vai querer mexer em TUDO!?

Sentamo-nos à mesa impecavelmente posta com a torta, os biscoitinhos, os Brezel, e o café do Brasil, que era pra gente se sentir um pouco em casa. Mal o pedaço de torta me foi servido, Tomás começou a apavorar. Meteu a mão no meu prato, pegou um pedaço da mesma e, antes mesmo que eu pudesse tirar de suas mãozinhas gordas, ele o enfiou muito rapidamente na boca. Quis sair do meu colo e começou a engatinhar. E a mexer na decoração de Natal, plus a decoração usual da casa. Desligou o som, abriu um armário com chave e quis amassar a Menu, a gatinha da casa.

Os dois filhos deles, o Janes e a Lotta (6 e 3 anos) trouxeram abaixo todos os brinquedos de bebê que estavam guardados. Mas quem disse que o Tomás quis brincar com eles? E quem disse que os dois quiseram brincar com o Tomás?

Mas o pior ainda estava por vir. O Tomás resolveu fazer uma quantidade monstruosa de côco. A dona da casa, prevendo que uma criança de um ano a visitaria, e prevendo que ela precisaria trocar as fraldas, manteve o trocador montado no banheiro. Olha quanta fofura, gente! Pois é, mas eu já contei que meu filho se recusa a trocar as fraldas? Que a cada troca de fralda é um escândalo? Não, então. Agora pense num escândalo. Pensou? Foi um tiquinho maior do que isso que você pensou. Ele NÃO parava no trocador. Com a bunda CHEIA de côco, ele não parou no trocador. Eu o troquei sobre protestos, gritos e choros, o mais rápido que consegui e suando em bicas. Quando enfim, ele, de fralda nova e roupa trocada (e valha-me deus, quanta roupa se usa nessa terra. Mães do hemisfério norte, meu profundo respeito!), coloquei o enfant terrible no chão, para que ele pudesse explorar o ambiente com a curiosidade que lhe é peculiar, quando noto que o trocador estava TODO sujo. Ai que vergonha! Chamei-a discretamente e muito sem graça, contei o que havia acontecido. Não sei se por notar minha tensão, minha vergonha e sei lá mais o que, só sei que ela nem se abalou.

Eu tenho a impressão, disse eu, que as crianças alemãs são tãaaaaaaao mais calmas. Ela disse que sem dúvida nehuma o Tomás era uma criança com temperamneto muito forte, mas que ele é muito normal para a idade dele. Não sei se ela quis ser gentil ou se é verdade mesmo. Eu só sei que meu estado de tensão estava nas alturas.

Resumindo: nossa tarde (minha e do João) foi correr atrás do Tomás, mal consegui ter uma conversa normal de adulto, minhas respostas se resumiam a uma frase, a palavra que eu mais usei foi Entschuldigung**, eu não comi direito a deliciosa Linzertorte feita por ela, eu não relaxei um minuto sequer. Passada a situação, eu acho que não era para tanto. Nossos anfitriões foram extremamente gentis e pareceram não se abalar nem um pouco com todas as peripécias, explorações e bagunças do nosso filho. Porém, em algumas horas eu não acreditava que aquele era meu filho.

Chego ao fim da minha estória e ao fim do ano com uma conclusão: relaxar. RE-LA-XAR. Se toda vez eu ficar nessa tensão, eu vou infartar antes do meu filho completar três anos. A segunda conclusão, um pouco menos reflexiva e mais do presente em que vivemos, é que é IMPOSSÍVEL ser fina com um filho de um ano. Pelo menos com o meu.

Porque olha, tudo o que eu não fui nessa tarde foi ser uma lady. Eu me senti o próprio elefante numa loja de cristais. Vergonha pouca é bobagem, né!

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Um feliz 2012 para todos nós! Esperemos que o mundo não acabe mesmo em 21 de Dezembro de 2012, porque senão, acabaria um dia depois do aniversário do Tomás. E aí não tem graça, né! Nem vai dar para comentar a festa de dois anos do meu filho! Assim não dá!

Beijo meu e do Tom

*Isso é uma vergonha!
**Desculpa

mambembe, mundo afora, sonhos, um bebê muda o que? tudo

Família Mambembe

Quando eu era menina, eu dizia que meu sonho era conhecer o mundo inteiro. Muita gente achava tão exagerado: afinal, o que uma menina de 10, 11 anos de idade, que mal conhecia Jundiaí e região sabia sobre o mundo inteiro?

Daí que o tempo passou, mas a vontade de expandir minhas fronteiras, físicas e pessoais, essa nunca passou. Pelo contrário, só aumentou.

Então aos 19 eu ingressei na universidade. E fui conhecendo um bocado de gente, que me levou a conhecer outro bocado de gente, que me levou a conhecer o João.

Quando eu conheci o João, eu suspeitava que a vida estava me dando um presente, mas nem nos meus maiores devaneios eu poderia imaginar tudo de tão especial que a chegada (e a permanência) dele na minha vida me traria.

Eu não imaginava que a vida estava me trazendo um cara mais inquieto, com mais vontade de conhecer esse mundo afora do que eu. Um cara que me disse um dia, que uma das músicas do Chico que ele mais gostava era Mambembe.

Eu não imaginava que ele queria compartilhar sua vida e seus sonhos comigo, e nem imagina que juntos, nós somaríamos sonhos e tornaríamos muito deles realidade. Inclusive o sonho de trazer para esse mundo um menininho tão lindo.

Foi por causa do João que fomos parar na Alemanha, e lá vivemos por quase cinco anos em três cidade diferentes. Foi junto com ele que pegamos carona, trens, aviões, perdemos trens e voos, dormimos mal em albergues mequetrefes, dormimos bem em hotéis pagos pela universidade, comemos mal, comemos bem, tomamos porres, fomos roubados (oi Praga, oi Barcelona!), voltamos, recebemos amigos, fomos recebidos, fizemos viagens de baixíssimo orçamento (graças à ele, porque eu como administradora sou uma lástima), corremos um pedacinho desse mundão.

Daí veio a vontade de aquietar-se um pouco, de ajuntar os livros, os cds, as fotos, as estórias num cantinho, de rever amigos que ficaram, e voltamos. Mas mambembe que é mambembe está sempre com comichão. E mesmo em terra brasilis outra mudança se deu. Outra cidade aconteceu.

Eu já perdi as contas de quantas mudanças, quantas casas passamos, quantas coisas deixamos pra trás, e quantas trouxemos conosco. Já perdi as contas de quantas vezes tivemos que alterar nosso endereço para continuar recebendo correspondências importantes, já perdi as contas de quantas vezes o coração saiu apertado e chegou renovado de esperanças.

Os últimos anos certamente foram agitados, uma loucura até, mas foram anos maravilhosos, de muitas descobertas e muitos aprendizados. Aprendizados que não cabem num papel, descobertas que não cabem numa conversa.

Hoje, com Tomás, a mambembice está meio adormecida, mas só um pouco. Outros projetos, outras mudanças à vista. Mas dessa vez com gostinho especial, pois temos um mambembezinho conosco, que desde a barriga já direcionava nossas escolhas e planos.

Eu só sei que aquela menina que queria conhecer o mundo cresceu, já viveu muita coisa, mas ainda quer viver muito mais. Ela não faz ideia de onde, nem como estará nos próximos anos, mas espera de coração, que a vontade, o comichão de conhecer o mundo, as coisas, as pessoas, a disposição para mudar, nunca desapareçam. Afinal, como diz a letra do Chico …”dormindo na estrada, no nada, no nada. E esse mundo é todo meu”… É, esse mundo é todo nosso, e falta muito ainda pra ver!

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Foi a Lu querida que tornou em realidade lúdica nossa estória mambembe. Ela é a responsável por deixar a nossa casa mais bonita, e com a nossa cara. Obrigada Lu!

Espero que vocês também gostem e se sintam em casa. Entrem e fiquem à vontade!

antes de ser mãe eu não sabia que..., cartas ao tom, gracinhas do tom, um bebê muda o que? tudo

Carta ao Tom*

Tomás, filhote querido,

Você está com seis meses e meio e, puxa, como passou rápido o tempo! Quantas mudanças em tão pouco tempo de vida. E que privilégio o meu, poder  acompanhar de perto cada etapa do seu desenvolvimento.

Nós completamos seis meses de amamentação exclusiva e em livre demanda. Digo nós, porque para amamentar você, não bastaria apenas o meu querer. Você também o quis assim, e isso me enche de alegria. Agora você está sendo exposto a novos sabores, e tem respondido bem às novidades. E sabe, por mais que eu saiba que você está crescendo, e que isso faz parte da nossa relação, te amamentar menos vezes no dia, me dá uma dorzinha no peito. Bobagens de mãe.

Você é um bebê muito feliz. Ri muito, e é muito sociável; não estranha ninguém. Distribui sorrisos na padaria, no açougue, na quitanda, no elevador… é o garoto simpatia! Adora um passeio, e diferente do seu pai e da sua mãe, caseiríssimos que somos, adora um evento social. Nunca imaginei ter um filho arroz de festa!

Seus olhinhos redondos parecem querer absorver cada novidade. E são muitas, né filhote! Você franze a testa e faz um bico muito engraçado quando concentrado. Vira de um lado pro outro, senta, fica na posição de engatinhar, mas ainda não sabe trocar braços e pernas, para seu desgosto. Estala a língua, coisa que aprendeu com sua tia Brú, fazendo um barulhinho muito fofo.

Por falar em fofura, você está deliciosamente gostoso. Causando em mim, o inevitável efeito colateral de querer beijá-lo e apertá-lo o dia inteiro: no banho, nas trocas de fraldas, quando no colo, enfim, sempre. Obviamente você se irrita com tanta demonstração explícita de amor, e protesta com braveza. Aliás filho, o que você tem de lindo, você tem de bravo.

Dormir continua sendo palavra proibida. Sua resitência ao sono merece um troféu. Praticamente desde que você nasceu travamos uma batalha diária para que você adormeça. Tudo o que está ao nosso alcance, como pais, nós fazemos, mas mesmo assim você só se entrega quando não tem mais jeito. Você acorda uma vez só, na madrugada, e volta a dormir logo depois da mamada. Porém, com muita sorte (minha e o seu pai), você acorda às sete da manhã, já ligado na tomada. É uma pena que a essa hora da manhã sua energia não nos cantagie. Você escolheu pais muito dorminhocos Tomás, e deveria levar isso em consideração quando desperta à cinco e meia da manhã feliz da vida!

Mas confesso que seu ritmo de sono já foi pior. O que nos faz crer, esperançosos, que dias melhores virão. Há três meses atrás, se alguém me disesse que você acoradria apena uma vez na noite, e voltaria a dormir logo em seguida, eu duvidaria com força. Nunca imaginei, por mais que ansiasse, que este dia chegaria. É filho, com você eu tenho aprendido que cada dia é um novo dia.

Ter você em casa tem sido absurdamente delicioso. E clichê dos clichês filho, antes de você, eu nunca imaginei que seria possível amar alguém tão rápido e tão fácil. Obrigada por ter me escolhido como sua mãe, e obrigada, por todos os dias, organizar uma festa em mim**.

* Carta ao Tom 74 é o título da canção de Toquinho e Vinícius de Moraes
** Retirado da canção Minha Festa de Nelson Cavaquinho

Se você quiser escutar as duas:

Do cotidiano, dormir pra quê?, gracinhas do tom, um bebê muda o que? tudo

Bebê bossa nova

É chegada a hora de corujar: Tomás é um bebê muito risonho (e inúmeros outros adjetivos). Mesmo!
Acorda às seis da matina e é só sorrisos (definitivamente não puxou para mãe), sorri enquanto mama e depois que mama, se abre todo ao menor sinal de gracinha, distribui sorrisos para desconhecidos, enfim, um bebê muito simpático (eu sou a mãe, sugiro que não me desaprovem).

Mas às vezes, no meio de uma deliciosa e aberta gargalhada, ele começa a chorar. Do nada, no melhor estilo de repente do riso fez-se o pranto*. É bem verdade que isso acontece quando alguém o belisca ele está com sono, morrendo de sono. E sono minha gente, é o inimigo número um do meu filho.

É só ele perceber que está se entregando ao sono que ele fica num ri e chora sem fim. E apesar de todos os conselhos de que o melhor seria colocar o Tomás no berço quando ele está com sono, ele só dorme no colo. E como na maternidade nem sempre o melhor é o real, seguimos eu e Tomás pela casa. Eu cantando e dançando pra ver se ele se dá por vencido, e finalmente se entrega ao sono, e ele, rindo e chorando durante o processo.

Abre parentêses. Eu preciso confessar que hoje, entendo perfeitamente como deve ser difícil a vida da Beyonce, que canta e dança ao mesmo tempo. Só que ela não carrega quase nove quilos nos braços enquanto canta e dança.  Fato esse que me deixa profundamente orgulhosa, e que faz com que eu me sinta mais poderosa que toda cantora-atriz-modelo-dançarina do universo, mesmo colocando os pulmões pra fora toda vez que faço meu filho dormir. A inveja da barriga dela é um detalhe. Fecha parênteses.

E lá se vai todo meu repertório, todas as dancinhas e jeitos diferentes de ninar um bebê resistente ao sono. E o Tomás me dando um baile, literalmente. Até que finalmente ele dorme, e eu morro.

Ô filhote, na dúvida entre rir e chorar, ria e durma de uma vez por todas! Afinal, é melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe*.

A benção Vinícius.

http://www.goear.com/listen/4dcf366/samba-da-bencao-bebel-gilberto

*Na ordem em que aparecem no texto: Soneto da separação (Vinícius de Moraes), e Samba da benção (Vinícius e Baden Powell)