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De doce basta a vida

Esta frase dizia meu sogro, sempre que alguém lhe oferecia algum doce ou lhe passava o açucareiro, caso ele desejasse  adoçar  seu café. Amargo, ele dizia. Eu gosto de café amargo. De doce, me basta a vida. E assim, tomava de um gole o seu café, para logo em seguida, acender seu cigarro.

Os anos de tabagismo lhe devolveram um câncer de pulmão que acabou abreviando, em muito, sua vida. O neto ele conheceu só na barriga, e tantas outras coisas mais que acabou por nunca presenciar. Um fim nada doce, para quem achava a vida por demais açucarada.

Pois é, a vida, às vezes, deixa um travo amargo, difícil de engolir.

Mas eu me lembrei do meu sogro dia desses, quando subtamente fui arrebatada por uma vontade quase incontrolável de comer o mais doce dos doces. Ao contrário dele, eu sempre fui daquelas que um tiquinho a mais de açúcar não faria mal, pelo contrário, deixava a vida até mais doce. E quanto mais doce a vida, melhor. Sim, eu era asim, quase um melado ambulante.

Mas a gente vira mãe, e acaba virando exemplo de um monte de coisas, querendo ou não, a gente vai revendo as crenças, os hábitos. E a gente também se preocupa com a qualidade do que oferecemos aos nossos filhos. Comer, passa a ser muito mais do que matar a fome. Comer passa a ser o ato de alimentar, de nutrir: a si mesmo e ao outro.

De repente a gente se vê pensando em vitaminas e minerais, mais do que em calorias. A gente se vê pensando nas frutas, verduras e legumes da estação, mais do que em comida pronta. A gente se vê comprando orgânicos, e gastando mais em comida do que jamais suporia ou imaginaria gastar. E o melhor, a gente se vê feliz fazendo assim. A gente se vê pesquisando alternativas, experimentando, criando, imaginando como ou onde usar tal e tal ingrediente. E descobre que é muito gostoso este processo de nutrir o outro.  Eu respeito, mas juro que não entendo quem diz que não gosta de cozinhar.

Uma das coisas que mais mudei em questão de alimentação foi em relação aos doces, de maneira geral. Muito cedo percebi que minha paixão pelo doce, muito doce, adocicado, açucarado e afins, tinha grande ressonância com o gosto do Tomás. Maaaaaas…. Não dá para dar doce assim para uma criança.

Então o primeiro passo foi parar de comprar os doces industrializados: biscoitos, pãezinhos, barrinhas e tudo mais que tivesse uma quantidade surreal de açúcar, principalmente fontes escondidas ou disfarçadas de açúcar.

Passei para as versões caseiras de bolos, pães, biscoitos e lálálá. A princípio a versão original, com açúcar e farinha refinados. Depois galgamos para paladares mais naturebas, com versões mais integrais, orgânicas e nada refinadas. Depois procuramos outras alternativas para o açúcar, como xarope de agave, açúcar de côco. Hoje, eu não consigo compar açúcar e farinha refinados, simplesmente não consigo. Minha consciência parece gritar.

Chocolate? É o amargo mesmo. E nessa, eu percebi que hábitos são realmente construidos, porquê o Tom aprovou e se acostumou ( e nós também) super bem com os novos paladares.  Não sem antes dar uma torcidinha básica no nariz, claro.

É claro que dá para ser saudável sem ser xiita; exceções são sempre bem-vindas. Porque tem dias que a gente quer mais é ser feliz com glúten, açúcar e lactose, tudo junto e misturado. Mas eu penso que se dá para fazer trocas inteligentes, saudáveis e sobretudo saborosas no dia a dia, why the hell not?  Aí a exceção parece ficar até mais gostosa.

Muito bem, então eu olho na geladeira e me deparo com minhas cenouras orgânicas já quase dobrando o cabo da boa esperança, ou seja, quase estragando. Obviamente eu não podia deixar isto acontecer. E o que mais eu poderia fazer além de sopa e refoga? Acertou quem dise bolo de cenoura!

O bolo que eu fiz não levou glúten, nem açúcar e nem lactose. Não é a reeinvenção da roda, mas ficou deliciosamente igual ao clássico bolo de cenoura, na sua versão pecaminosa, segundo os sites e médicos das atrizes  que ostentam boa forma porque abdicaram da acima já citada trindade do mal.

Gente, eu juro que eu, um dia, consiguirei vir aqui e deixar apenas a receita. Mas de novo, eu acabei escrevendo um mundo de coisa.

Vamos ao bolo? Então você vai precisar de:

3 cenouras grandes (de preferência, orgânicas, lavadas e raladas)

3 ovos grandes (também orgânicos, preferencialmente.claras e gemas separadas)

2 xícaras de uva-passa (preferencialmente a escura)

3 xícaras de farinha sem glúten (a mistura básica para bolos são 2 xícaras de farinha de arroz, 2/3 xícara de fécula de batata e 1/3 xícara de polvilho doce)

1 xícara de óleo ( eu costumo usar óleo de côco, e a xícara mal cheia)

2 colheres de sopa de fermento (preferencialmente livre de fosfato)

Para cobertura:

4 colheres de sopa de cacau de verdade

2 colheres de sopa de óleo de côco

1/2 xícara de leite de arroz (ou leite de amêndoas)

2 colheres de sopa de xarope de agave

Como faz? Assim:

Bata as claras em neve e reserve. Bata no liquidificador as gemas, o óleo e a uva passa. Mas Gabi, uva passa adoça? Eu lhe digo que sim, mas você precisa se abrir para esta experiência. Caso o seu paladar seja acostumado ao doce, muito doce e açucarado, e você ainda não queira rever seus conceitos, vá de açúcar demerara ou mascavo, mas então use uma xícara e meia.

Em outro recipiente peneire a farinha e o fermento. Acrescente a mistura do liquidificador e mexa com uma colher de pau até ficar uniforme. Coloque as claras em neve e misture delicadamente.

Coloque a massa numa fôrma untada com farinha de arroz, e leve para assar em forno pré-aquecido à 180 graus. Deixe por 30 minutos mais ou menos (variando de forno para forno).

Para cobertura você vai levar todos os outros ingredientes ao fogo, menos o agave. Vá mexendo sempre com colher de pau em fogo brando, e quando estiver uniforme e levantar fervura, acrescente o agave. Misture bem e coloque sobre o bolo ainda quente.

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O Tomás quando viu o bolo pronto disse que achava a cobertura “alegante”, e que bolo com cobertura de chocolate o deixava feliz! Bom, eu não preciso nem dizer o quanto eu fiquei feliz.

Talvez meu finado sogro tivesse realmente razão, a vida já é demasiadamente doce, ainda mais quando se tem filho pequeno. Mas eu continuo com minha opinião de que adoçar um pouquinho mais, não faz mal não. Aliás, eu acho até que neste caso, o doce vai direto para o coração.

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