Alemanha, mudança, mundo afora

aliar o discurso à prática

ou da difícil arte de encontrar o equilíbrio

eu sempre gostei de mudanças. de todos os tipos: mudar o corte de cabelo, a mobília da sala, mudar de casa, de cidade, de país, mudar de opinião… talvez por gostar tanto de mudanças é que eu tenha encarado a maior mudança da minha vida, que claro, foi a maternidade. mas hoje não é sobre isso que quero falar.

há tempos já, que eu (nós aqui em casa, no caso) estou numa pegada mais consciente quando o assunto é consumo. pelo menos eu achava que estava.

a maneira como eu passei a consumir foi uma grande mudança na minha vida. ao invés de ter dez cremes para o rosto, eu passei a comprar um único, cuja origem é a mais natural possível, e que na sua produção não sejam, nem pessoas,nem o meio ambiente, prejudicados. do creme passou para todas as outras coisas: roupas, gêneros alimentícios, shampoos, sabonetes…

por serem mais caros, verdade seja dita, eu pasei a pensar muito mais antes de investir.

porque um mundo onde crianças um pouco maiores que meu filho colhem algodão pra eu comprar roupa baratinha baratinha aqui na alemanha, não pode ser considerado justo. porque um mundo onde gente dorme nas fábricas para produzir produtos baratos que “pedem” para serem substituídos a cada seis meses, não pode dar certo.

fácil? ai se fosse. tem minha consciência gritando pelas desigualdades de um lado. e tem meu bolso gritando pelas economias,de outro.

e tem meu filho que cresceu mais do que abobrinha no último ano, com calças batendo nas canelas, e blusas mais mostrando do que cobrindo o umbigo. sem contar as esfregações de roupa parquinhos da vida afora. cara, moleque acaba com as roupas. como fazer? se eu fosse investir somente em roupas produzidas com algodão orgânico e, comprovadamente, sem mão de obra escrava, eu estava perdida, falida,fudida.

acontece que nós mudamos de casa no começo de janeiro (eu já falei que nossa sina é mambembe). e puta que pariu, da onde foi que surgiu taaaaaaaanta coisa. como assim? você não estava numa pegada de consumo consciente, darling?

não sei onde estava toda essa minha consciência, porque olha, eu tenho coisa pra caraleo. triste constatar isso, sabe? por um lado, vem um sentimento enorme de gratidão por ser tão afortunada e ter muito mais do que preciso, do que precisamos. por outro, vem uma certa angústia de ter comprado muito mais do que precisava, precisávamos.

eu sei que é tarde (pero no mucho) para fazer promessas de ano novo, mas eu realmente quero nesse 2015 comprar apenas o necessário. para mim, para o tom. para o o joão eu nem falo, porque casei-me com um franciscano, que nunca precisa de nada, tudo sempre está bom (benzadeus).

quem sabe eu coloque em prática um desejo antigo e aprenda a costurar? quem sabe também, eu passe a fazer mais coisas no estilo diy para minha casa? quem sabe eu ponha à prova meus talentos manuais? quem sabe, né?

o que eu sei é que nesse ritmo não dá mais pra continuar. não dá mais pra mim, pra minha família, nem pra esse mundo beirando ao colapso social, material, ecológico. até mesmo porque, no ritmo que mudamos de casa, de vida, não dá para ajuntar e acumular tanta coisa, por vezes, inútil. prefiro acumular memórias, experiências, amizades, aprendizados…

e que caia um raio e me parta ao meio se eu comprar um grampo que seja, sem necessidade.

lembrando que livros são sempre necessários e que, pra onde quer que formos, sempre daremos jeito de levar.  embora a gente sempre se arrependa. mas é só por um momento.

que eu termine esse ano que mal começou com menos tralhas. em todos os sentidos.

às vezes eu queria se como caracol, que vai com a casa nas costas.
às vezes eu queria ser como caracol, que vai com a casa nas costas.
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pra ele tudo é festa

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